sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Jesus Cristo improvável



Dizem por aí que Jesus Cristo morreu, em morte horrenda via crucificação, coisa tão perversa que nem os Estados Unidos ou o Iraque, dois dos mais violentos países do século XXI, cogitam usar para fins disciplinatórios em nossos dias. Esses povos mais bárbaros atuais preferem métodos mais amenos como a tal injeção letal ou o velho e eficaz método de enforcamento.


De qualquer modo, Jesus estaria mais para um cidadão comum que tomou a religião, especialmente a pregação dos rabinos, mais a sério, tentando viver os preceitos aprendidos. Em termos modernos, sua predica foi acentuadamente herética, quanto mais nos tempos em que viveu, se é que viveu. Para os mais céticos, Jesus e toda a sua biografia não passa de um mito. Mas o Dr. Shedd e eu não, somos do grupo dos teimosos e servis, assim pretendemos seguir com nossas crenças mais evangelicais até que a morte nos separe. A única diferença é que ele vivera sua fé confortavelmente como sempre, afinal ele é um missionário norte americano, enquanto eu seguirei comendo pão produzido nas padarias infernais, salvo uma ou outra brisa de verão. Embora a opção de servir a mamon esteja sempre à minha disposição, contra o que reluto tenazmente, permanecendo dividido entre aderir ou rejeitar cheio de duvidas e síndromes insuportáveis.


Em minha modestíssima opinião, toda a teologia envolvendo o tal sacrifício, morte e ressurreição de Cristo surgiu bem depois de sua passagem pelo planeta. No mínimo, após o início do cristianismo como igreja, coisa ocorrida lá pelo século quarto. Mas o auge da teologia vicária viria acontecer bem depois, em meados do século XVI. Não foi por acaso que gente como Lutero e Calvino despontaram naqueles dias, cada qual com suas heresias. O barato é que essas crenças, hoje em dia, estão no bojo da ortodoxia. Legal né?


Tirando o lado paradoxal dessa bobagem a respeito da morte expiatória de Jesus, afinal a teologia do próprio cordeiro sacrificado teria sido muito diferente, a saber, salvação pela graça e absolutamente contrária ao paganismo vigente em seus dias. O Filho predileto de Deus chegou ao absurdo de dar a entender aos seus interlocutores que seu Pai não compactuaria com a equação pecado + culpa= morte, e propôs outra, a saber: arrependimento + fé= perdão incondicional. Nesse caso, nem o arrependimento e a fé seriam condições prévias, mas atitudes inevitáveis diante da verdade, segundo os apologistas mais criveis desse tempo.


Felizmente essas insanidades cristocêntricas passaram, prevalecendo os ensinos pragmáticos de Lutero e Calvino. Enquanto isso, nós aqui abaixo do Equador, nada chegados a essas aventuras repletas de trabalho teológico árduo, onde um teólogo precisaria estudar a vida toda para conseguir provar uma única tese, preferimos nos acomodar ao que já existia e nos foi trazido gratuita e desinteressadamente pelos nossos colonizadores, particularmente pelos holandeses, alemães e norte-americanos. Não fossem os portugueses e seu cristianismo católico romano esculachado, muito mais cômodo e adaptável ao nosso jeito sambista e futebolístico de ser, fatalmente nadaríamos de braçada nas ondas predestinatórias, tão a gosto desses apologistas ortodoxos. O máximo de nossas incursões teológicas é fazer um cursinho quase semiextensivo em Ciências da Religião na Metodista ou na PUC. Há tanta vergonha por lá que os caras nem ousam chamar aquilo de teologia, se não me engano.


Aqui cabe uma palavra de indulgência aos que se arvoram nessas formações alternativas: Sem duvida, essas atitudes são mais eficazes em termos de currículo do que não fazer nada, como é o meu caso. Só não servirá de muita ajuda quando você passar dessa para outra. Aí, o que deverá ter valor é o crédito em sua CCC (Conta Corrente Celestial) e nela, só são aceitos depósitos em forma de generosidades verticais e horizontais.


A história tem importância relativa, o que funciona no fim são as nossas crenças, inclusive as falsas. Tanto faz se Jesus existiu mesmo ou não. Ele mesmo teria cansado de repetir: “Bem aventurados os que não viram e creram”. Prefiro fazer parte dessa turma e seguir pregando o evangelho da graça pelos dias que me restam, bem distante desses fanáticos ortodoxos. Se bem que sou tão idiota, pois ainda incluo essa gente em minhas orações, vez por outra, pedindo a misericórdia divina pela vida deles, também. Mesmo sabendo que a reciproca seja improvável.




Por Lou Mello





 

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