terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

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Deus: pai, mãe, marido






A Bíblia hebraica descreve o amor de Deus a partir de três principais metáforas: paternidade, maternidade, esponsalidade.


Todas três ressaltam a maneira como os judeus perceberam YHWH se relacionando com os seus. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó, Moisés, criou, a partir de sua liberdade, seres capazes de amar e se perceberem amados.


Paternidade revela o jeito como Deus cuida, repreende e se interessa pela maturidade de seu povo – como um pai que educa para que os filhos se tornem construtores responsáveis de suas próprias vidas e da história.


“Também, no deserto vocês viram como o Senhor, o seu Deus, os carregou, como um pai carrega seu filho, por todo caminho que percorreram até chegarem a este lugar. Apesar disso, vocês não confiaram no Senhor, o seu Deus, que foi à frente de vocês…” Deuteronômio 1.30-31.


Maternidade expressa sentimentos viscerais em Deus. Jeremias 31.20 narra o Senhor sentindo as vísceras fremindo por Efraim. O salmista se viu numa relação maternal com Deus: “sou como uma criança desmamada nos braços de sua mãe” – Salmos 131.2. O aconchego do colo, a compaixão (disposição de sofrer junto) e a misericórdia são alguns traços maternos em Deus.


Esponsalidade traça o amor de Deus em aliança conjugal –


Traíram o Senhor, geraram filhos ilegítimos (Oseias 5.7)
Vi uma coisa terrível na terra de Israel. Ali Efraim se prostitui… (Os 6.10).
Como posso desistir de você, Efraim? (Os 11.8)


Em vários textos, Deus se compara ao marido traído, que se mantém fiel, mesmo negligenciado e abandonado. Abraham Heschel, filósofo e rabino, procurou mostrar nesta dimensão específica, o Deus de Israel se distingue do filosófico:
  • “O Deus dos filósofos é como a Ananke grega, desconhecido e indiferente para o homem; pensa, mas não tem palavras; é consciente de si mesmo, mas esquece o mundo [Ananke era antiga deusa primordial da inevitabilidade, mãe das Moiras e personificação do destino, necessidade inalterável]. O Deus de Israel, pelo contrário, é um Deus que ama; é um Deus conhecido pelo homem e que se ocupa do homem. Ele não só governa o mundo com a majestade de seu poder e de sua sabedoria, mas reage intimamente aos eventos da história. Ele não julga as ações dos homens com impassibilidade e distância; seu julgamento está impregnado pela atitude daquele ao qual essas ações lhe interessam intima e profundamente. Deus não se mantém fora do raio do sofrimento e da dor humanos. Ele é pessoalmente envolvido, até mesmo influenciado pela conduta e destino do homem”.

A Bíblia hebraica não trata o dogma da soberania como conceito absoluto. Nas páginas do Antigo Testamento, não existe linearidade na descrição de Deus, agindo, concatenando o mundo de acordo com seus próprios critérios, mas, atropelando a sorte de indivíduos. Soberania tem mais a ver com a fidelidade divina de não desistir de amar e de continuar interpelando homens e mulheres rebeldes para que voltem para ele. Mesmo quando Israel deu as costas, Deus insistiu em continuar amando. Tal soberania lhe custa – Isaías 53. Longanimidade, conceito semita de difícil tradução, pode significar “disposição de esperar mesmo diante do sofrimento“. Deus é paciente. Deus espera. Em Isaías, experimenta dores agudas, como de parto, no aguardo de um novo futuro para o povo: ”Fiquei muito tempo em silêncio, e me contive, calado. Mas agora, como mulher em trabalho de parto, eu grito, gemo e respiro ofeganteIsaías 42.14.


A Bíblia não declara, portanto, que Deus é amor como mero chavão. A frase carrega desdobramentos profundos que, refletidos até às últimas conseqüências, desembocarão em Jesus de Nazaré.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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Jesus, pastor de pessoas e não de consumidores





A compreensão do pastoreio de Jesus pode ser libertadora nos dias de hoje, quando tantas pessoas, equivocadamente, são transformadas em consumidores pelo mercado da fé.
 
 
Jesus amou e morreu por pessoas. Jesus ressuscitou por pessoas. Ele deu sua vida em resgate de homens e mulheres que estavam perdidos em seus próprios delitos e pecados. Compadeceu-se de homens e mulheres que estavam condenados à morte por suas transgressões. Cristo amou e se entregou em sacrifício na cruz por causa da rebeldia e da desistência humana de andar, comungar e obedecer ao Criador. O Filho de Deus doou a vida eterna a pessoas que o receberam como Senhor e Salvador. No mistério e profundidade de sua graça, ele nos olhou como pessoas e ovelhas, dando-nos vida – e vida em abundância.
 
 
Como pastor, Jesus deu e dá sua vida pelas ovelhas e por seu rebanho. Somos, como igreja, comunidade e ajuntamento de pessoas que estavam prisioneiras em seus próprios medos, incertezas e angústias. Éramos cativos de mente e coração. O desespero e a incerteza diante da morte e da fragilidade da experiência humana nos atormentavam. Assim, pessoas comuns – com suas histórias, marcas, heranças e contextos – através de seu Espírito, têm escrito uma nova história onde fé, convicção, certeza e esperança se instalaram.
 
 
Tal compreensão pode ser libertadora nos dias de hoje, quando tantas pessoas, equivocadamente, são transformadas em consumidores pelo mercado da fé. De forma sutil e sorrateira por um lado, e agressiva por outro, essa dinâmica tomou conta da mentalidade evangélica no Brasil e no mundo. Devotos se transformaram apenas em consumidores e mantenedores desse mercado, travestido até na forma de igrejas locais coorporativas e estruturas empresariais. A lógica e o discurso são os mesmos do mercado: cantamos sobre a marca Jesus, escrevemos sobre ela, lançamos produtos temáticos. Já há até estudos de marketing acerca de características de gênero, classe social, faixa etária e necessidades de determinados grupos sendo usados para a criação de igrejas.
 
 
Grandes conglomerados comerciais de literatura e música chamadas de cristãs estão sendo engolidos com voracidade por empreendedores que, até bem pouco tempo, nem se importavam com a existência do tal segmento evangélico. Só que o Jesus de muitos pregadores, cantores, corporações e empresários não é necessariamente aquele apresentado na Bíblia, o Jesus eterno e histórico, o Emanuel, o Deus que se fez homem; aquele que veio como escravo e servo para proporcionar ao caído a salvação por meio da cruz, para anunciar o Reino de Deus e trazer graça, senhorio e juízo. Esse Jesus midiatizado não é o Jesus que trouxe ensino e valores de amor, compaixão, paz e justiça, e que nos deixou a missão de lhe fazer discípulos e seguidores.
 
 
O pastor Jesus, pastor de ovelhas, de gente, trata a cada um com pessoalidade, dignidade e importância. Ele nos ama como pessoas, ouve nossos relatos, está atento à nossa realidade e história. O pastor Jesus alimenta o faminto, sacia o sedento, limpa o imundo, cura os feridos, protege e conduz ovelhas. Jesus nos ajuda a dar significado ao pastoreio e a contextualizar esta vocação do acolhimento, do cuidado, do ensino e da formação espiritual. Os pastores não precisam perder o caminho da fé, assim como qualquer cristão em outra área profissional ou de atuação – uma fé que ganha contornos práticos de uma vida de serviço e de trabalho digno, mediante o suor do rosto. Fé no Deus trino, e não no mercado que fala sobre ele.
 
 
Muitos dirão que comércio pode ser feito com ética e honestidade, visando a legítimos propósitos. É verdade. Mas a chance de o mercado tirar do centro a essência e o alvo do Evangelho, de sua mensagem e obra, são muito grandes.
 
 
Pastores, escritores e artistas cristãos produzem em escala industrial coisas que se tornarão, invariavelmente, produtos de consumo: mensagens, livros, CDs, ensinos, palestras, DVDs... Tudo tem seu preço, e tudo acaba alimentando esse mercado da fé. Numa linha muito tênue, o negócio se torna a pessoa, o pregador, o cantor, o escritor, sua corporação, sua visão, sua estrutura criada. Assim, o que fazem torna-se um fim em si mesmo, e não um meio para atingir algo mais elevado.
 
 
No genuíno pastoreio, contudo, precisamos ser cuidadosos e íntegros. Não se pode perder de vista que cuidamos de pessoas, e não de consumidores. O mercado não é o nosso negócio, muito menos o propósito do chamado e vocação pastoral. Somos cuidadores e referenciais de Jesus para o rebanho de Deus, ajudando ovelhas a permanecerem no Caminho.
Por Nelson Bomilcar acaba de lançar o livro "Os sem-igreja", pela editora Mundo Cristão. É conhecido no Brasil como músico, pastor, missionário, compositor, produtor, conferencista e escritor. É casado com Carla e pai de Karen e Nathan. Há 36 anos exerce seu ministério no Brasil e tem suas canções, parcerias, produções e arranjos presentes em inúmeros trabalhos da música cristã nacional.
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Esperança também nasce da angústia




O dia nasce precoce. Antes do sol enfurecer, amanheço com uma sede diferente. Desperto. Não consigo nomear o que me falta. Pode também ser uma fome crônica. Há anos convivo com o vazio existencial comum a santos, poetas, bardos, palhaços, boêmios. Sofro de SND – Síndrome da Nostalgia Difusa.


Minha alma não se conforma com a presença viva dos que morreram. Quero mamãe de volta. Ela parece perto. Digo que vou segredar-lhe certas percepções tardias do meu coração. Pego o telefone e aguardo, instintivamente, que alguém me atenda do outro lado da linha. Desisto. A Glícia dorme no armário de minhas memórias.


Melancólico, procuro cheiros, sabores, fotografias, músicas, que tragam o passado soterrado na poeira de décadas. A dor aumenta. Bisonho, tento espairecer. Corro; os quilômetros me encharcam de suor, continuo inconsolável.


Meus olhos não se aquietam se prevalece a palidez de viver. Condiciono-me a mirar o mundo refulgente. O sofrimento universal, injusto e desproporcional, entretanto, agride. Brotam falsas culpas. Por que fui privilegiado em um mundo desigual? Meus esforços para aliviar o suplício da miséria se mostraram pífios. Não discerni as estruturas demonizadas da política que discrimina, privilegia, marginaliza. Quando cheguei a compreender os perigos do poder, estava fatigado e sem disposição para vestir a capa de profeta. Angustiado, não me contento em falar às paredes que a corrupção sistêmica, os vícios históricos, as maquinações das elites, não cumprem desígnios da Providência. Morrerei acreditando que miséria, injustiça e preconceito representam um acinte à divindade.


Meu coração não se pacifica com os lenitivos episódicos da vida. Uma força estranha impulsiona o meu espírito a desejar o que desconheço. As delícias de uma viagem programada se esgotam no estresse do aeroporto. Quando cessa a festa, fica uma sensação de fim-de-tarde. Depois de assinar um título de propriedade sei que ainda assim, não direi à alma: “Descansa, agora tens em abundância”. Meus “ses” parecem os do Chico. O que será que será que tanto quero e que vive nas ideias desses amantes/ Que cantam os poetas mais delirantes/ que juram os profetas embriagados/ está na romaria dos mutilados/ está nas fantasias dos infelizes/ está no dia a dia das meretrizes?


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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Um passo atrás

Sim, estou recuando!


Sinto que preciso disso. Para não perder a alma.


Não critico aqueles que permanecem a passos largos em suas caminhadas, mas decidi dar um passo atrás, para não me perder no caminho. Este é o meu ritmo!


Na busca de um cristianismo mais humano, percebi-me definhando, quase humanista!


Não dá! Sou da teologia! Mais que isso, tenho um chamado! Mais que o chamado, não posso abrir mão da minha história e do relacionamento com aquele que me sustentou em pé até hoje.


Dou um passo atrás, na tentativa de não me perder no emaranhado de conhecimento, que, mesmo tendo seu lado positivo, oferece a maior das tentações, aliás, a primeira tentação: “e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.”


Dou um passo atrás, na tentativa do equilíbrio entre o discurso e a prática, entre a fé e a razão, com um cuidado maior ainda ao pensar nas muitas pessoas que sei , de alguma forma, influenciadas, tanto pelas minhas palavras como pela minha amizade e convívio. Não as quero se perdendo no caminho…


Dou um passo atrás tentando encontrar o aconchego dos momentos devocionais que, paulatinamente, foram se perdendo na busca desenfreada de “saber” e “ter o que falar” nesse novo tempo.


Pode parecer covardia! Pode até mesmo ser covardia… quem sabe?


Mas prefiro ser um covarde que ora a um valente que só fala sobre oração. Prefiro a fraqueza de me expor diante do texto bíblico que a força de expor um texto sem que aquilo arda antes no meu coração.


Recuo para não ter mais expectativas sobre pessoas e instituições, mas para experimentar o que sempre gostei de cantar: “É meu, somente meu, todo trabalho… e o teu trabalho é descansar em mim…” (palavras do Mestre a um coração cansado)


Atraso o passo, para encontrar o passo, como um soldado, ao marchar e perceber-se errado na marcha, tenta corrigir o seu caminhar.


Recuo, pois me é mais importante ser sábio que “inteligente”.


Dou um passo atrás para caminhar de mãos dadas com quem quero bem e me faz bem. Não quero caminhar sozinho.


Por fim, dou um passo atrás, na leve convicção de que esta é a melhor forma de dar um passo à frente.


Com temor e tremor,


Por José Barbosa Junior
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Lições do passado





Muito de nossos problemas têm a ver com a dificuldade de lidar com o passado. Relutamos em admitir que não passamos de virgulas logarítmicas. Nossa história se resume a um conto ligeiro. Desgastamo-nos como roupa usada. Amnésicos, corremos alucinadamente em busca de um ideal de felicidade que mal conseguimos definir (bom lembrar que há poucos séculos a felicidade não era um fim, apenas uma agradável consequência da sabedoria). Cada dia cavamos mais fundo o abismo que nos separa dos anos em que pessoas se contentavam em viver com integridade, justiça, bondade, lealdade – e que, por algum motivo, acabavam felizes.


No culto da estética, esquecemos que já se valorizou o ancião mais que o jovem. O processo pode ter se arrastado, mas não faz muito tempo em que simetria, harmonia e, por que não?, beleza, perdiam para a experiência. A afirmação permanece: se o encanto do jovem vem da força, a formosura do idoso emana de seus cabelos grisalhos; o respeito que se nutriu pela madureza sobrepujou a admiração pelo viço juvenil.


O novo milênio se inicia com um monumental descaso com o passado. O governo dos Estados Unidos, por negligenciar ensinos da história, não atentou: George Washington foi eleito presidente quando o Iraque já acumulava uma cultura de mais de cinco mil anos. Depois de uma guerra desigual, assimétrica, o povo iraquiano mostrou que mesmo pobre, aprendeu a lidar com fracasso, resiliência e triunfo


Europeus perdem por não recordarem que antes das grandes navegações, mesmo nas colonizações predatórias, não havia fome e miséria na África nem na América Latina. Nações que europeus chamaram de “primitivas” eram na verdade civilizações complexas e bem hierarquizadas; podiam não conhecer o mundo que os exploradores trouxeram em suas embarcações, mas, pelo menos, comiam e morriam com dignidade. Para nações autóctones, a civilização da espada e da cruz representou retrocesso.


A falta de sintonia com o passado faz com que muitos crentes brasileiros desconsiderem que a consolidação evangélco-protestante no Ocidente aconteceu com a promíscua relação do capital com a fé na primeira metade do século XX. Mesmo com todo o esforço dos reformadores de criarem “confissões de fé”, a versão midiática-hedonista-pragmática do cristianismo é recente. Lideranças do “movimento evangélico” demoram a entender que eles não passam de uma síntese novíssima entre pietismo alemão, puritanismo inglês, fundamentalismo e pentecostalismo norte-americanos. Sem raízes históricas, poucos tomam conhecimento que antes dos evangélicos sobram exemplos de fé entre cristãos ortodoxos gregos, armênios e russos. Bem antes de Lutero, muita gente amou a Deus na igreja católica romana. Mesmo no estigmatizado período medieval, também chamado de milênio de trevas, Jesus teve seguidores fieis.


O esforço de manter-se atual, sem passado a ser celebrado, pode dar ao presente maior agilidade, mas rouba densidade existencial. Sem olhar retrospectivo, poucos se dispõem enfrentar a realidade de que somos efêmeros, quebradiços, mortais. Só diante da poeira dos séculos conseguimos contemplar a morte como jeito de aproveitar melhor a vida. Lembrar que não somos deuses, humilha enquanto ajuda na convivência com o próximo. O essencial se esconde na sucessão do presente que nos escapa e que rapidamente vai para o pretérito. Só com a alma desarmada da arrogância de imaginar-se única, perene, imbatível, senhora do tempo, aprendemos que não viveremos para vingar a razão de ser, mas para curtir cada instante como se fosse o último. O passado tem muito o que ensinar.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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Transparência na Igreja: exija!

A apatia do brasileiro com relação as circunstâncias que lhe são impostas é um dos principais motivos pelos quais pastores estelionatários se dão tão bem por estas bandas. O discurso infundado de que “devemos orar ao invés de reclamar” virou um coro uníssono. Por falta de conhecimento, o corpo padece. Neste caso, o corpo de Cristo.


Depois de quase 500 anos de reforma, há coisas óbvias que todo aquele que congrega em algum tipo de Igreja já deveria saber que é natural exigir. Omitir-se, além de ser muito prejudicial, acaba colaborando com a corrupção do sistema.


PRESTAÇÃO DE CONTAS


Sua Igreja possui transparência financeira? Ou as finanças são tratas de maneira secreta e esotérica? Cuidado! Pode haver pastores que estão determinando os valores dos próprios salários. É perfeitamente justo exigir um detalhamento de entradas e saídas, para que fique explícito o quanto custam as estruturas e o quanto custam os pastores e obreiros. Também torna-se natural criar um piso salarial RACIONAL e compatível com a realidade da localidade. Se o salário do pastor aumenta, todos os que são remunerados pela comunidade também deveriam receber aumento proporcional. Além de que é preciso avaliar bem o quanto cada um precisa desta remuneração, visto que pode haver pessoas no ministério que possuem outros negócios que já os remunerem de modo mais que suficiente. Será justo que o pastor titular receba 10x o salário de um diácono? Quem realmente trabalha mais? Pense.


DECISÕES DE GABINETE


Tornou-se comum a liderança das Igrejas trazerem novidades prontas. Tomam decisões em gabinetes fechados, sem que haja uma correta representação de pessoas da comunidade. Para fazer com que as medidas adotadas se tornem populares, basta revesti-las com um ar espiritual. Ou seja, “a visão de Deus pra este período é”. Ou “Deus falou que…”. Questionar COMO foi discernido este tipo de coisa é perfeitamente justo. Exigir que uma assembléia seja convocada para orar e debater à luz da Palavra as decisões mais drásticas, é mais do que necessário.


CARGOS E ORDENAÇÕES


Por que o filho do pastor foi ordenado pastor? Por que o líder do louvor é o primo do pastor? Por que o tesoureiro da Igreja é amigo de longa data do pastor? Lembre-se: a Igreja não é um covil de amigos reunidos segundo a conveniência. É mais do que importante que haja entre a liderança pessoas que pensem diferente. Praticar nepotismo é um absurdo, além de ser pecado também.
E sua Igreja? É transparente?


Por Ariovaldo Jr
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A força de acreditar





A parábola é conhecida: Certo homem agonizava. Uma vizinha, sabendo da iminência de sua morte, sentiu remorso por ter fofocado e conspirado para destruí-lo. Com pressa de pedir perdão, ainda encontrou o homem lúcido. Ajoelhou-se ao lado de sua cama e implorou que lhe perdoasse. O velho respondeu que perdoava, sim, mas antes precisava mostrar algo. Pediu que a senhora rasgasse o travesseiro e espalhasse as penas ao vento.


- A senhora, por favor, volte amanhã e recolha as penas que o vento dispersou.
- Impossível, ela respondeu.
-Amiga, posso perdoar-lhe – ele concluiu, – mas o mal que você me fez ficará como uma daquelas penas que a brisa levou; nem eu nem você saberemos por onde elas voaram. Você jamais conhecerá as dores ou os desdobramentos dolorosos de minha história devido a suas escolhas.


Vi “Atonement” (Desejo e Reparação) com os olhos suavemente orvalhados. O filme merece crítica, sim. Mas forte o suficiente para me encabular. No escuro do cinema, procurei esconder sentimentos constrangedores. Identifiquei-me com as personagens. A sinopse básica do filme (copiei da internet) é a seguinte: Aos 13 anos, a jovem Briony (Saoirse Ronan/ Romola Garai) demonstra possuir grande talento como escritora; sua criatividade é imensa. Determinado dia, a menina pensa ver a irmã mais velha, Cecília (Keira Knightley), assediada por Robbie (James McAvoy), filho da governanta. Depois de algum tempo, outra prima sofre um estupro. Levada por sua imaginação fértil, Briony tem certeza de que Robbie cometeu o crime, e o acusa. O rapaz vai preso. A suspeita, entretanto, vem da paixão que ela nutre por Robbie, não da realidade. Cecília sofre horrores por ser a única que não acredita na acusação de Briony.


“Atonement” desenvolve uma trama trágica a partir de sentimentos de culpa. Aliás, atonement, palavra inglesa comum na teologia, pode ser traduzida por “expiação”. E expiação, segundo o dicionário, significa “cumprimento de pena”. Nas antigas religiões, atonement se ligava a alguma cerimônia de aplacar a cólera divina, com o intuito de promover reparação.


No filme, Briony destrói um amor que mal teve chance de concretizar-se. Dona de uma paixão infantil, a vilã camufla sentimentos adoecidos em forma de auto-retidão. Mesmo menina, mostra-se capaz de alterar o destino tanto da irmã como de Robbie. O estrago da difamação foge ao seu controle. Suspeitas podem acabar com pessoas – muitas vezes de forma irreversível, sem remissão. Calúnia deixa rastro de culpa, sem espaço para a cura de ninguém.


Somos convocados a cuidar de nossos juízos e intolerâncias. Pessoas sofrem guinadas e vão por caminhos impensados devido a decisões e escolhas que outros fazem. Por isso, prefiramos o próximo em honra; sejamos brandos com todos; acreditemos nas pérolas que o coração esconde. Melhor escolher a dor da decepção às suspeitas raivosas. Partilhemos nossas túnicas, caminhemos a segunda milha, levemos as cargas até de quem acreditamos não merecer. Perdoemos – para o bem deles e nosso.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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Pelo direito a uma vida desprovida de sentido

Parece inconcebível que alguém viva sem ter um plano. Quando as crianças aprendem a falar, já as perturbamos com perguntas do tipo “o que você vai ser quando crescer?”. Como se não desejar nada, ou viver um dia de cada vez esperando pra ver o que acontece fosse loucura demais. Você precisa ter um plano. Foi doutrinado a isto.


Então começo a reler o Novo Testamento e me deparo com algo que estava na minha cara o tempo todo mas eu nunca havia percebido. Deus tem um prazer quase mórbido de frustrar os planos dos homens. E exatamente quando tudo deu errado na História da Igreja, então deu certo.


Pra começar, a gloriosa História da Igreja começa com um fiasco engraçado. Os discípulos resolveram dar uma ajudinha pra Deus, elegendo quem seria o décimo segundo discípulo a ocupar o lugar de Judas Iscariotes. No sorteio direcionado (igual da Copa do Mundo), venceu um tal de Matias. Homem considerado íntegro em sua época, mas que nunca mais foi sequer citado nas Escrituras. Enquanto homens escolheram Matias, Deus preparava para si a Paulo.


Após a ressurreição de Cristo, os discípulos receberam instruções explícitas sobre como deveriam aguardar em Jerusalém até que o Espírito Santo os revestissem de poder. Pois os tais “ousadamente” se trancaram em um galpão, mortos de medo dos judeus. Por que então aquele local e momento específicos da história se tornaram marcantes? Por que o Espírito Santo veio e bagunçou tudo. Fez com que aqueles homens não resistissem às coisas que Deus queria falar através deles. De modo que outros viram e ouviram tais coisas e logo de cara indagaram se eles estavam loucos ou bêbados. Ainda bem que Cristo não explicou o que haveria de acontecer, senão os discípulos teriam se escondido mais longe.


Então o Ministério apostólico começa com todo o vigor o processo de evangelização. Enquanto os cristãos oravam para que Deus os livrasse das mãos de seus perseguidores, Deus tinha outros planos. Fez do maior deles o seu décimo segundo apóstolo. Saulo, agora Paulo.


O tal Paulo era um cara extraordinário. Conseguiu com maestria iluminar o entendimento dos cristãos a respeito de como o plano de Deus SEMPRE FOI a redenção através de seu Filho Jesus. Obviamente isto também gerou problemas gravíssimos para a época, fazendo com que momentaneamente houvesse um rompimento entre Pedro e Paulo. Um preferiu concentrar-se nos habitantes de Jerusalém e redondezas, enquanto o outro saiu para repartir o conhecimento de Deus com ímpios. Exatamente esta contenda entre os discípulos é que proporciona a evangelização dos gentios (nós).


Aí vem Paulo, homem letrado e hábil em planejar. Mas frustrado diversas vezes em seus intentos. No capítulo 16 de Atos dos Apóstolos pode-se observar claramente que o Espírito os impediram de ir a lugares que desejavam. E exatamente assim, acabaram terminando nos lugares certos. Parece que os planos dos homens já tem tradição em se distanciar da vontade do Criador.


Quando Paulo vai preso, julgando ser conveniente evitar uma morte precoce nas mãos dos judeus, apela a sua cidadania romana. Será que ele tinha consciência que seria levado a um tribunal em Roma por causa disso? Duvido. Haviam tribunais romanos ali mesmo.


Na viagem a Roma, um naufrágio e uma picada mortífera de cobra. Tudo continua terrivelmente longe dos propósitos humanos de comodidade e “resultados”. Deus continua no controle.


Meu questionamento é por que temos tanta dificuldade em compreender que o IDE de Cristo é em todas as direções. Ou seja, quando nos organizamos e institucionalizamos que fazer a obra de Deus é se engajar com determinada coisa, estamos mutilando o agir de Deus através de nós. Não pode haver separação entre a Missão e a sua Vida. Não podemos viver debaixo de metas a cumprir, de planejamentos realizados em gabinetes, de cobranças por parte de uma suposta liderança que tem se levantado na Igreja de Cristo, mas que raramente tem a ver com a perfeita vontade de Deus pra nós.


Precisamos mais do que nunca daquele velho Evangelho que continha Boas Novas de verdade. O que libertava. Fazia com que homens pudessem viver suas próprias vidas com a plena consciência de que não pertencem mais a si mesmos.


Homens e mulheres que não saem mais pra evangelizar, mas encarnam o evangelho de maneira tão intensa, que tudo que fazem glorifica a Deus e leva outros a glorificarem o autor e consumador da vida.


Quero uma vida desprovida de sentido. Por que agora sou livre pra servir a Cristo em qualquer circunstância, direção e tempo. E o sentido que me ensinaram a seguir desde que me converti, parece raso demais perto de tudo que Deus quer pra minha vida.


Por Ariovaldo Jr
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Somos todos iguais





Tudo parece tão grande, tão vasto. A vida, que o tempo arrasta, leva-nos a perceber de que tamanho somos.


Nosso desejo se confunde com nossas histórias e mesmo difusos, nunca cessamos de lacerar a carne. Complicamo-nos na esteira dos dias. Em nossos melhores movimentos, tropeçamos e claudicamos. Vemos o mundo e engolimos seco. No esforço de ajudar, batemos a canela nas quinas do siso e nada fazemos. Contemplamos a imensidão do dever e de olhos inchados nos perdemos em resmungos.


Na enormidade do dever, perguntamos: para onde foi o Raimundo da rima? Quem rasgou o cardápio do banquete? Se falam de mistério, dizemos: esqueci o segredo do cofre; se nos cobram praticidade, insistimos: não tenho receita. Se nos propõem enigmas, confessamos: mataram a Esfinge. Misturamos intuições nas proposições mais intrincadas, por isso seguimos na contramão. Temos medo de admitir que nosso mapa perdeu o norte.


Seguimos de olhos vendados. Nossos dedos perderam o tato da lucidez. Vez por outra o desconsolo que nos acompanha protesta, e sem conseguir nos segurar, gritamos: “Por que o sofrimento”? Do fundo das taperas não para de vir o odor de Josés e Marias que se liquefazem na miséria. Diante do absurdo reclamamos sem sucesso a ausência do Bem.


Tentamos resignar a alma. Mas o espírito continua abatido. Miramos o céu para gritar uma prece. Nada se move. Nenhuma roda de fogo se aproxima. O único fumo que nos engasga brota do fosso de onde vidas lamentam a sorte de terem nascido. Diante de covas rasas todas as guerras ficam estúpidas. Quando o Hades rodeia nossa cama não encontramos a via de escape.


As ruelas do vilarejo por onde caminhamos durante o sono encontram-se entupidas de esfarrapados. As cachoeiras de nossos devaneios românticos despencam inocentes. Assistimos passivos ao fluir de uma economia que gera “quase-humanos”, gente sem nome e sem esperança. Ouvimos uivos do beco que imaginamos quieto e nos perguntamos se em algum deles uma jovem se debate na ânsia de livrar-se de um estupro. Do alto de nossa pretensa onipotência falhamos em atrair um Serafim qualquer em sua defesa.


Nossa dor pode não parece real, entretanto, lateja. A angústia que nos corrói não dá trégua. Nosso sofrimento, nunca peculiar, é comum. Daí o imperativo de repetir aos bedéis caiados: vocês também vivem dentro desse espelho, vestem nossas camisas, calçam nossos sapatos e falam o mesmo dialeto. Somos todos iguais.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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É preciso ter humildade diante da vida






Não gosto de colocar a humildade como uma virtude, porque talvez fique parecendo um discurso moralista, ou falso-moralista, baseado na exaltação dos pretensos virtuosos. Penso que seja algo mais do que isso, mais do que uma simples virtude, deve ser uma postura diante da vida, em todas as suas dimensões.


Humilde é o que sabe que não é superior a ninguém e, por isso mesmo, não é arrogante, nem soberbo. É humilde quem consegue reconhecer suas fragilidades, seus desacertos, sua incapacidade de compreender tudo o que há.


É preciso ter humildade diante das pessoas. Isso não é fácil numa sociedade que estimula a competitividade. Desde pequenos somos instigados a sermos os melhores em alguma área. Isso pode ser facilmente compreendido como ser “superior” aos demais. O ideal é que saibamos que não há ninguém nem maior, nem menor, mas iguais. E estejamos dispostos a servir uns aos outros.


É preciso ter humildade diante da morte. Ela a todos iguala e a ninguém poupa. Não há nenhuma arrogância que não seja ridícula à beira de um caixão ou de um túmulo. Todas caem por terra. São risíveis. Não há pessoa mais poderosa que não se desfaça em pó. Não há ninguém tão rico, tão poderoso, que consiga segurar em si mesmo a própria vida. O fato de a morte ser certa já é motivo para ser humilde.


É preciso ter humildade diante da vida também. Temos de reconhecer que não temos explicação para tudo nessa vida. Achar que sabe tudo da vida ou que tem explicação pra tudo é arrogância, estupidez.


Aliás, uma característica de quem sabe muito é reconhecer que sabe muito pouco. Porque quanto mais se conhece, mais fica evidente que há tanto para conhecer e há tanta coisa desconhecida e inexplicável.


Temos de olhar para a vida como quem sabe que ela é indomável. Que por mais que você tome cuidado e “saiba viver”, como diz a música, a vida é cheia de contingências, imprevistos, acidentes. É preciso ter humildade diante dela.


Olhe ao redor, quanto há pra conhecer nesse mundo, quanta complexidade, vive-se uma vida inteira e não se conhece o mundo todo. Quantas vidas, quantas realidades, quantas coisas ainda por descobrir e quanto ainda ficará desconhecido e inexplicável.


Se ampliarmos o olhar, veremos que nosso planeta é uma parte ínfima de um sistema solar, que é uma parte ínfima de uma galáxia, que é uma parte ínfima de um universo, que não se sabe até onde vai e parece ser infinito.


Uma das consequências da humildade é a gratidão. Quem é humilde é também grato. O arrogante, o soberbo, não sabe agradecer. Acha que quando alguém faz algo pra ele, não fez mais que a obrigação, que todos lhe devem algo, porque, afinal, ele é superior.


Mas o humilde agradece por tudo, porque não se acha merecedor de tanto. E assim, é também grato pela vida. Ainda que não consiga explicar, nem entender os mistérios da vida, é grato pela beleza dela, é grato pelo fôlego de vida, considera como gracioso tudo o que tem e tudo o que recebe da vida.


Assim, também, de maneira humilde e grata, aproveita melhor a vida, aproveita melhor sua própria família, seus amigos e as pessoas ao redor.


É também muito grato a Deus, que, sendo maior que o universo, fez-se um de nós e se coloca como nosso amigo. Nem maior, nem menor, mas um amigo, que está sempre ao lado.


Mas pra isso, é preciso ser humilde.


Por Márcio Rosa da Silva
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Quando virtudes podem virar vícios





Genialidade e loucura caminham próximas. De médico, juiz, comentarista de futebol, teólogo e doido tudo mundo tem um pouco. Não faltam histórias de pessoas inteligentes com um parafuso frouxo. Se gênios vivem entre a excepcionalidade e o lunatismo, todos, com atos e atitudes, perigam desequilibrar, tingindo a vida com a cor da maldade.


Bibliófilo assumido, gosto de sebos. Certa vez, caminhando pelos corredores empoeirados de um alfarrábio, notei uma enorme quantidade de livros empilhados; todos da mesma pessoa. O gerente relatou que aqueles livros pertenceram a um burocrata, desses incansáveis batedores de ponto, que não tira férias. Chegou um novo chefe do departamento e diante da necessidade de re-organizar o setor, o impoluto empregado se viu obrigado a sair de férias – depois de 17 anos. Cumpridos os trinta dias de afastamento, o homem voltou para uma nova sala; móveis, armários, cadeiras, tudo estava “fora do lugar”.


Revoltado com a nova disposição, o rígido e obediente funcionário não conseguiu se adequar. No sofá, onde gostava de ler, colocou o cano da pistola na boca e puxou o gatilho. O minucioso zelo pelo trabalho, a obsessiva disciplina, a inconformidade aos novos ventos, aprofundaram sua neurose. Pareceu-lhe melhor morrer a ter que amargar as transformações que o tempo impõe. Entre os livros empilhados, comprei um para nunca esquecer aquela história.


Sim, virtudes podem adoecer. Inteligência não previne sociopatia. Conservadorismo não significa saúde mental.


Sinceros correm o risco de se tornarem inconvenientes. É desagradável conviver com a transparência dos que têm o dever de se mostrarem cândidos. Calar certas verdades que vimos nos outros muitas vezes não é mentir, apenas respeitar. Dizer o que “dá na telha” nem sempre expressa franqueza. Muitas vezes “confrontação” não passa de desejo de vingança. Sinceridade deve vir precedida pela graça.


Toda virtude pode descambar em vício. Os corajosos devem cuidar para não permitir que coragem se transforme em obstinação – e teimosos correm o risco de atropelar pessoas e sentimentos. Intrepidez sem equilíbrio pode transformar-se em obsessão. Zelo sem moderação pode degenerar em ativismo. Diligentes, absorvidos no dever, podem sofrer da síndrome da “trabalholatria”. Justos mal sabem que messianismo lhes espreita em cada esquina. Só se aproveita a integridade quando ela não induz à auto-veneração. Extrapolar na busca da perfeição desencadeia preciosismo, que leva à meticulosidade asfixiante. Gente exageradamente criteriosa se considera palmatória do mundo, xeretando o que não deve.


Fé pode degringolar no sério desvio da credulidade, deixando a pessoa sem bom senso. Provérbios afirma: “O inexperiente acredita em qualquer coisa, mas o homem prudente vê bem onde pisa” (14.15). No extremo oposto, fé pode gerar presunção; pessoas se imaginam com tanta certeza espiritual que alucinam, acreditando poderem se antecipar ao que Deus faria.


Andar ao lado de pessoas obcecadas por exigências sobre-humanas pode adoecer. Melhor caminhar com quem vive com leveza. Vale conviver com quem sabe relaxar, rir de si mesmo e celebrar a vida despretensiosamente.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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Porta larga





Uma vez, quando questionado sobre se muitos seriam salvos, Jesus respondeu: “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram”.


Nos guetos igrejeiros, a expressão “porta larga” representa igrejas que são “permissivas”, que não impõem um regramento pesado para o comportamento pessoal de seus membros. Já a “porta estreita” representaria aqueles movimentos que são rígidos na imposição de comportamentos, em especial no que diz respeito à aparência, vestuário e hábitos cotidianos. Essa é uma interpretação estreita do texto, que o deixa muito aquém do seu propósito.


Ora, parece evidente que o texto diz que a porta estreita é mais difícil, é mais desafiadora, requer mais disposição, mais fibra, mais força de vontade e conduz à vida. Enquanto que a porta larga e o caminho espaçoso é para os preguiçosos, os pusilânimes, aqueles que desistem fácil e preferem a coisa já pronta, o caminho menos trabalhoso.


Usar esse texto para rotular igrejas é acabar com seu caráter amplo. Ele não foi dito para designar movimentos religiosos, mas para orientar a vida das pessoas. Para dizer dos caminhos a seguir, para dar um norte, um critério quanto aos caminhos a seguir na vida!


Por exemplo: uma pessoa abre uma empresa. Qual é a porta estreita? Fazer tudo direito, pagar todos os impostos, pagar todos os direitos trabalhistas dos empregados, agir dentro da legalidade. Qual a porta larga, mais fácil? Pagar propina para se livrar de burocracia, não dar nota fiscal, sonegar impostos, etc.


A porta estreita é mais difícil, mas leva à vida, a porta larga é mais fácil, mas conduz à perdição.


Abrir mão de um relacionamento na primeira dificuldade ou descartar amigos por bobagens é mais fácil. São portas largas. A porta estreita é daqueles que se empenham em seus relacionamentos, que investem neles, e esse é o caminho que conduz à salvação e não à perdição.


A porta estreita é o caminho de quem decidiu aceitar o desafio de abraçar o estilo de vida proposto por Jesus, abandonar uma religiosidade de aparências, para buscar uma espiritualidade transformadora. Cumprir uma coreografia religiosa, mas ser praticante da maldade, é andar pela porta larga.


A porta estreita é o caminho de uma espiritualidade viva, que transborda das paredes do templo e chega até a vida das pessoas.


O caminho dos covardes, da porta larga, é o de transferir sempre aos outros a responsabilidade pelas próprias decisões. Nessa atmosfera doentia, é sempre o líder ou a instituição que decide o que se deve ou não fazer. Esse é o caminho do preguiçoso existencial, daquele que se acovarda diante da vida e que desenvolve uma espiritualidade infantilizante. A porta estreita é dos que sabem que precisam tomar decisões sobre a própria vida e assumir as consequências.


Viver o evangelho requer disposição, força de vontade. Os pusilânimes, os de vontade fraca, caem fora cedo. Ficam os corajosos. Ou aqueles que mesmo com medo de vez em quando, insistem, persistem, não são seduzidos por uma religiosidade que vende facilidades, que propõe uma vida de barganhas com Deus e com o diabo, uma autêntica porta larga.


Mesmo sem milagres, sem intervenções espetaculares, sem coisas sobrenaturais para contar, os que andam trilham o caminho estreito sabem que a verdadeira espiritualidade é aquela que se revela no cotidiano humano, trivial, simples, porém significativo. É a porta pela qual Jesus entrou, abrindo mão de qualquer intervenção sobrenatural, assumiu nossa humanidade e a levou até às ultimas consequências. Ele é o nosso modelo, nossa inspiração. Sigamo-lo, pois.


Por Márcio Rosa da Silva
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Espiritualidade não religiosa





Espiritualidade é não esquecer que a retina da alma retém imagens alegres e tristes. É possível guardar o rápido instante como uma relíquia. Mesmo fugaz como um raio, o minuto vivido tem a capacidade de prolongar alegrias. Basta um segundo para o ano se desdobrar em muitos. Também, punir-se com uma imagem que se repete anos a fio pode gerar culpa doentia.


Cheiros despertam sentidos inimagináveis. Em nossa animalidade, somos guiados por odores. O nariz consegue ressuscitar pessoas, lugares, eventos. O olfato é matéria prima da saudade. A cozinha materna, o lençol da infância, o perfume da viagem, tudo pode ser fonte de vida ou de morte.


É sagrado memorizar rostos. Felicidade tem pouco a ver com lugares. As pessoas que nos tocaram em determinados lugares ou praças são responsáveis por nossas histórias – boas ou más.


Não podemos esquecer de entalhar certas palavras no coração. As palavras escritas, sussurradas ou gritadas, geram alegria, decepção, tédio – mulheres e homens não vivem só de pão, mas de substantivos e verbos.


Espiritualidade depende de uma visão retrospectiva. A vida que o rio chamado tempo levou, não jaz cristalizada. O passado de todas as pessoas continua aberto, esperando para ser resignificado por decisões presentes. Dependendo da postura atual, o bem outrora vivido pode se transformar em péssima memória. Por outro lado, a vida percebida na Graça tem a capacidade de revolver o passado horroroso para que um futuro inédito aconteça.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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Pesos inúteis





Gosto de observar as pessoas na rua. Enquanto andam de uma lado pra outro, absorvidos pelos seus problemas, encantados com suas alegrias, ou devastados com suas dores, eu fico sempre a imaginar que cada um é um universo. São vidas implicadas em relações complexas, mas que esbarram umas nas outras pelas ruas, completamente alheias do seu redor. Afinal, cada um já tem problemas demais, é o que se diz.


Tem uma pessoa, aqui na minha cidade, que reparo há anos. Uma senhora de cabelos curtos e grisalhos, aparentemente de origem asiática, com algum problema de ordem psiquiátrica, que anda pra cima e pra baixo, a pé, e sempre com várias volumosas sacolas em ambos os braços. Apesar do aparente distúrbio, ela está sempre com roupas limpas, com bom aspecto e com postura digna. Mas nunca a vi sem as sacolas que carrega. Nunca.


Não sei qual foi a origem dos problemas daquela senhora, qual foi sua trajetória até ser quem ela é hoje, mas, seja o que for, aquelas sacolas, aquele peso que ela carrega, devem ter um significado atrelado à gênese de seus distúrbios. Parece que ela não consegue se desvencilhar do peso que carrega, não consegue ficar livre, não consegue andar leve. Ainda que inúteis, os pesos estão sempre lá. Parece uma auto-sabotagem, uma punição de si mesma, um modo de não se livrar de um passado traumático.


Talvez, se pudéssemos enxergar mais do que o exterior, veríamos tantas outras pessoas pela rua carregando pesos inúteis. Mais que isso, além de inúteis, destrutivos. Há, realmente, muita gente que não consegue se livrar de pesos como culpa, medo, prisões criadas pela própria pessoa, ou impostas por outras, mas das quais não consegue se livrar. Alguns carregam, também, o peso de um passado traumático, do qual não conseguem se despedir. Arqueados, rastejam pela vida sem conseguirem usufruir dela de maneira mais leve.


Fico pensando em minha própria vida e tentando identificar essas sacolas desnecessárias. Já me livrei de vários pesos que me impediam de seguir a vida com mais leveza. Não quero uma religiosidade castradora e que aprisiona, tento me livrar disso o tempo todo. Não quero andar ao lado de gente mesquinha, manipuladora e que não sabe valorizar afetos, mas apenas usa os demais. Já me livrei de tentar cumprir expectativas alheias, enorme fardo para alguém que é apenas humano, frágil, provisório, limitado e falível. Quanto aos traumas do passado, é bom que fiquem por lá mesmo, para que não inviabilizem um presente bom e um futuro promissor.


Livres desses pesos, podemos aproveitar melhor esse formidável passeio que a vida pode ser e, quem sabe, viver, de fato, aquilo que um jovem nazareno disse há cerca de dois mil anos: “venham a mim todos os que estão fracos e sobrecarregados e receberão alívio, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.


Por Marcio Rosa
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Contingência, sofrimento e Deus





O Brasil sofre. De repente todos nos sentimos irmanados pela dor. O trauma de saber que pelo menos 232 vidas foram arrancadas prematuramente parece demais. Apesar de saber que no Brasil se faz vista grossa à legislação que previne acontecimentos como o de Santa Maria, apesar de todos os senões que evitariam tantas lágrimas, nos vemos mais uma vez diante do que a filosofia trata como contingência. Esclareço: contingência significa que há acontecimentos desnecessários. Os fatos tenebrosos não fazem parte de um encadeamento inevitável.


Afirmar que uma tragédia pode ser evitada implica em que ela não foi orquestrada por uma divindade. Na contingência fatos ocorrem sem alguma razão que os explique ou justifique, e que escaparam da engrenagem de causa e efeito. Se o teto de uma igreja cai, um avião despenca, uma boate pega fogo, é porque o mundo contém espaço para acidentes – causados por negligência, falha humana ou mecânica- e podem matar sem que se atrelem a fado, destino, punição ou plano de Deus.


Sem atinar, muitos repetem a crença de que só se morre quando chega a hora. Para que tal afirmação seja verdadeira, destino precisaria vir escrito com “d” maiúsculo, pois necessitaria de inteligência e controle para reunir em uma casa de espetáculo, avião ou ônibus, todas as pessoas destinadas a morrer naquele dia específico. Acreditar assim concede à fatalidade um poder apavorante: imaginar que jovens, seduzidos por uma orquestração oculta, entraram como gado no matadouro.


Da mesma forma, muitos tentam encadear os eventos acidentais da vida, supondo que Deus “permite” sinistros com algum propósito. Querem dizer que cada pessoa, com histórias, projetos, sonhos, viu-se arrancada da existência “porque Deus assim quis”. O objetivo de Deus seria um mistério que ninguém entende e será revelado a longo prazo?


Como ter fé em um Deus que “deixa” rapazes e moças se pisotearem até a morte? Ele utiliza eventos macabros para ensinar as pessoas a terem medo dele? Esse é o seu jeito de produzir arrependimento? Tal entendimento faria com que a biografia de cada indivíduo que se perdeu fosse descartável. Deus precisaria, inclusive, manter-se frio, desprezando as lágrimas de mães e pais. Alguns chegam a ensinar que o Divino Oleiro faz o que quer e não podemos questioná-lo. Deus mata, afoga, asfixia e dá as costas em “vontade permissiva” porque deve conduzir a macro história para a sua glória final?


Nas grandes tragédias, alguns se contentam em explicar os eventos através da doutrina do controle absoluto. Afirmam que Deus tem todo o poder e não seria difícil para ele reunir em um só lugar as pessoas que deveriam morrer. Um Deus com requintes desse maquiavelismo, não passaria de um demônio. Deus é bom. Satisfaz pensar que na divina economia Deus ainda vai compensar a morte absurdamente desnecessária de tantos jovens? Difícil explicar tal conceito aos pais, avós e parentes que sonharam em vê-los terminando a faculdade, casando e tendo filhos. Bastaria falar da vida depois da morte para consolar mais de duzentas mães acorrentadas à trágica realidade de que Alguém lhes roubou a razão de viver?


A idéia de que Deus tem um plano para cada morte se esvazia diante dos números. Aviões caem, ônibus tombam, boates incendeiam. Todos os dias incontáveis acidentes acontecem. Como explicar as balas perdidas, os erros médicos e os atropelamentos provocados por bêbados? Todos cumprem alguma ordem ou são inevitáveis? Uma senhora de nossa comunidade caiu da laje de sua casa em construção, quebrou a coluna e ficou paraplégica. Ela fotografava a obra para que a filha lhe ajudasse nas despesas do acabamento. A mais tosca explicação que a teologia poderia dar ao seu infortúnio é que Deus tem um plano para deixá-la paralítica ou a puniu por algum pecado.


Jesus considerou em seus ensinos um mundo contingente. Contradizendo a religiosidade popular judaica, ele desconectou a queda de uma torre de qualquer desígnio divino. Não concordou com a insinuação dos discípulos de que a cegueira de um mendigo era consequência do pecado dele ou de seus antepassados. No Sermão do Monte, Cristo advertiu os seus seguidores de que mesmo alicerçando a casa sobre a rocha, eles não seriam poupados dos ventos contrários e da tempestade.


O mundo das relações, devido ao amor, precisa de liberdade, e essa liberdade produz contingência. Portanto, acidentes, percalços, incidentes, fazem parte da condição humana. O contrário seria absoluta segurança. Sem a ameaça do sofrimento, sem a possibilidade da morte prematura, não enfrentaríamos ameaça de espécie alguma. Acontece que a ausência da contingência nos desumanizaria. A consciência do risco de adoecer e a imprevisibilidade da morte súbita, embora angustiantes, são o preço que pagamos por nossa humanidade. Jesus encarnou a compaixão de Deus, (compadecer significa sofrer junto), para nos mostrar que Deus sabe do risco de viver. Ele reconhece que mal e bem acontecerão no espaço da liberdade, por isso, oferece o ombro e as lágrimas. Deus não deseja que nossa vida se perca no inferno da dor.


Qualquer desastre revela a inutilidade de pensar que o exercício correto da religião ou a capacidade tecnológica bastam para anular a contingência. A vida será sempre imprecisa e efêmera. Diante da possibilidade do sofrimento, aprendamos a chorar com os que choram.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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Cuidado com o que pode fazer de sua vida um inferno





Em uma conversa entre amigos, Jesus alertou para tomarem cuidado com aqueles que, além de matar o corpo ainda podem jogar a pessoa no inferno. A palavra traduzida por “inferno”, na língua original, o grego, em boa parte das vezes, é Geena, que designava um lugar que ficava fora das muralhas de Jerusalém. Um vale usado como depósito de lixo. Além de lixo, ali eram lançados os cadáveres de pessoas que eram consideradas indignas, restos de animais, e qualquer outra espécie de imundície.


Era, portanto, um depósito de lixo. Por isso também Jesus diz que ali o fogo não apaga e o bicho não morre. Sempre haveria cadáveres sendo devorados por vermes, e sempre haveria fogo naquele monturo. Era um lixão.


Jesus nos alerta para que tomemos o máximo de cuidado com aqueles que podem nos levar para um lixão existencial, para um verdadeiro inferno.


E o que pode nos levar para esse inferno? Qualquer coisa na vida que não seja utilizada com equilíbrio. O dinheiro, por exemplo, pode ser uma benção, mas se você sacrifica seus valores para ganhá-lo, ou se deixa dominar por ele, estará se lançando num inferno. Mesmo a religião, que pode fazer muito bem à pessoa, se descamba para o fanatismo joga o indivíduo num inferno. Até o amor, que é sempre bom e maravilhoso, se virar uma paixão obsessiva, torna-se uma doença e, daí, em vez de bem, fará muito mal.


Vive um inferno, também, quem se deixa dominar pelo seu lado sombrio e se entrega à maldade. Todos somos feitos de luzes e sombras. Nunca seremos complemente luz ou completamente sombra. O problema, ou melhor, o inferno, é quando você se deixa dominar pelas vícios muito próprios da natureza humana. Coisas como mentira, hipocrisia, maledicência, maldade, crueldade, soberba, falsidade, ganância, quando predominam na vida de alguém, lançam-na, invariavelmente num inferno, no Geena, no lixão da existência.


Além de tudo isso, há aqueles momentos em que se permite que pessoas más transformem sua vida num inferno. Foi Sartre quem disse que “o inferno são os outros”. Isso é uma meia verdade, porque o inferno pode ser você mesmo. Mas, sim, algumas pessoas tem o poder de transformar a vida de outras num inferno. Por exemplo, num elevadíssimo grau, Adolph Hitler transformou a vida de milhões de pessoas num inferno.


Mudando para o nosso contexto, sempre existe um pequeno Hitler rondando. Sempre há alguém que tem prazer em ver o mal, em provocar o mal e ver o outro sofrendo.


O que fazer? Se você puder se livrar dessa pessoa, ou seja, se você puder evitar que essa pessoa esteja dentro do círculo daqueles que de alguma forma influenciam sua vida, então faça isso. Mantenha uma distância de segurança.


Entretanto, nem sempre isso é possível. Então o ideal é não se deixar afetar com provocações, ações ou palavras de tal pessoa. E quando o que tal pessoa fizer te afetar direta e concretamente, é necessário ter a serenidade pra enfrentar e não responder com a mesma moeda, mas tentar vencer o mal com o bem, que é a resposta esperada de qualquer cristão.


Quanto àqueles que fazem da vida dos outros um inferno, o que resta a eles, caso não se arrependam, é o lixão existencial, um verdadeiro inferno, a escória. Tenhamos muito cuidado com estas pessoas e muito mais cuidado ainda para não nos transformarmos em tais pessoas.

 

Por Márcio Rosa da Silva

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Eclesiastes 3.1-11 em minhas próprias palavras





A vida acontece entre dois sentimentos, ambos repletos de terror: esperança e medo. A imprevisibilidade que a esperança excita, anima; o futuro indeterminado, apavora. Debaixo do céu, nunca se sabe o que acontecerá.

  • No dia do parto, esperança. Na certeza da morte, medo.
  • Na semeadura, esperança. Na desproteção de que uma praga forçará a perda da lavoura, obrigando que se arranque o que foi plantado, medo.
  • No dever de ter que assassinar (mesmo internamente) pessoas e sentimentos, medo. Na expectativa do bálsamo, poção que cura feridas impronunciáveis, esperança.
  • Na convicção de que os projetos estejam fadados ao nada, medo. Na teimosia de continuar a soerguer, reinventar ou reconstruir, esperança.
  • Na antecipação de muitas lágrimas, medo. No desejo de que os risos se alonguem, esperança.
  • Na insegurança do luto, nas câmaras lúgubres do velório, medo. Na valsa suave e delicada, no arrepio de corpos que se tocam durante a melodia, esperança.
  • Na crispação de lábios, na segurança de mãos arremessando pedras, medo. No juntar de pedras que ferem e com elas montar altares, esperança.
  • Na improvisação do abraço, esperança. No cálculo da distância segura que separa os insidiosos de abraçarem, medo.
  • Na busca do que jamais se imagina perder, esperança. Na resignação de que algumas dimensões da vida nunca serão recuperadas, medo.
  • No anseio de segurar e eternizar, esperança. Na conformidade do imperativo de deixar o tempo arrastar para o oceano do nada o que foi vivido, medo.
  • No desespero de saber que algumas dimensões carecem de serem rasgadas, descosturadas, medo. Na perseverança em dar mais um ponto, alinhavo ou remendo, esperança.
  • No discernimento do momento de tornar o silêncio maçã de ouro em bandeja de prata, esperança. No ímpeto de frisar um solene não quando todos dizem sim ou de negar quando a ordem for afirmar, medo.
  • Na capitulação de aceitar que homens e mulheres, ao contrário dos bichos, guerreiam por maldade nunca por motivos justos, medo. Depois da batalha, da vala comum, do túmulo do soldado desconhecido e da sucata bélica, esperança.

O Pregador, meticuloso, notou o modo como Deus sobrecarregou homens e mulheres: não deixou nada previsível. Todo o dia traz um potencial de angústia e desespero bem como de alegria e de boas perspectivas.


A pior das inquietações descansa na alma: incerteza. Ninguém consegue se antecipar ao porvir e nunca saberá esquadrinhar o que espera depois da morte. A eternidade não faz sentido para os finitos, a imortalidade não cabe no coração dos mortais. Devido a esse derreamento existencial, nessa prostração infinita, homens e mulheres nunca terão a resposta final para o porquê dos atos divinos: não sabem como foi o começo e só especulam sobre o fim de tudo.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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A vida é muito breve para ser uma farsa





Algo sempre presente na mensagem de Jesus foi a tentativa de convencer as pessoas que a religião das aparências era inútil, perniciosa, destrutiva e ridícula diante de Deus. Que isso não tem valor algum, pelo contrário, faz muito mal às pessoas.


O evangelho de Jesus Cristo é para o coração. O cristianismo é a religião do coração. Se o coração é bom todo o ser será bom. Vale dizer, se os seus sentimentos são bons, todo o seu ser será bom. Se o seu coração é mau, você inteiro será mau.


Jesus travou uma batalha contra a hipocrisia dos fariseus e mestres da lei de sua época. Eram pessoas que valorizavam as regras que eles mesmos criaram para oprimir as pessoas e esqueciam das pessoas.
Jesus diz que a vida vale mais que a regra. Se for para promover vida, a regra pode ser quebrada. Se a regra não promove vida, ela é inútil, tem que ser abandonada.


Os donos da religião da época de Jesus não queriam abrir do poder de manipular e oprimir as pessoas, queriam manter as pessoas sob um jugo pesado de regramentos sem sentido. Tinham que manter o discurso. Caso mudassem o discurso, enfraqueceriam a instituição religiosa e também o poder que tinham, ainda que tal discurso não fizesse qualquer sentido.


Assim vão levando as pessoas como gado, tangidos e conduzidos sob regras que já não fazem nenhum sentido para o mundo contemporâneo e que não encontram respaldo no evangelho de Jesus Cristo.


Esse ambiente religioso castrador e legalista é campo fértil para hipocrisia. Ou seja, as pessoas nem acreditam mais naquilo, mas o fazem para manter as aparências. Na verdade aparentam uma coisa, mas são outra. Isso é hipocrisia. Como também é hipocrisia exigir do outro o que a própria pessoa não faz, ou não acredita.


Mas o pior da hipocrisia é gerar pessoas que não vivem uma vida leve e transparente. O maior dano causado pela hipocrisia é para o próprio hipócrita que perde o tempo precioso da vida, tentando aparentar algo que na verdade não é. Tentando enganar-se a si mesmo e as pessoas que estão ao seu redor. Despendendo esforço para ser falso. Isso é terrível. É destrutivo. É escravizante.


Por exemplo, o sujeito é louco pra tomar um chope gelado num fim de tarde quente, mas como faz parte de um grupo religioso que diz ser isso um pecado horrendo, ele não toma publicamente, só quando chega em casa, para que ninguém veja. É hipócrita! Isso para citar uma trivialidade.


Pode ser pior. Mulheres não podem usar calça comprida, mas os votos do povo da igreja podem ser negociados com políticos corruptos. Coam um mosquito, engolem um camelo. Isso é hipocrisia!


Até pra mudar é necessário tirar a máscara. Só não é bom ficar camuflando o erro. Isso também é hipocrisia. Tentando se passar de bonzinho, quando na verdade é um canalha. É necessário reconhecer-se um canalha para, então, tentar mudar. O que não dá é pra ser “pseudo” o tempo todo. Falso.


Pela leveza no viver, pra o bem de sua própria vida e para os que te cercam, não seja hipócrita. É preciso descobrir a leveza de uma vida íntegra e transparente, inclusive reconhecendo os próprios erros. Não querendo ser uma pessoa perfeita, mas assumindo-se imperfeito, errante, falho.


A vida é breve. Precisamos viver a vida plena que Jesus falou, com liberdade e integridade, livres da hipocrisia. Verdadeiros.



Por Márcio Rosa da Silva
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O tempo e o acaso no jogo da vida – Eclesiastes 9.11





A vida se parece com um jogo de cartas; cinqüenta e duas são embaralhadas e distribuídas entre os que se propõem jogar. Importa que todos participem em pé de igualdade. Jogam-se várias partidas. As cartas não priorizarão ninguém. Pelas leis da probabilidade, quanto mais partidas, menos entrará o fator sorte. No baralho, ninguém pode ser privilegiado pelo acaso.


Na vida, sempre alguém recebe uma “boa mão”. Como só vivemos uma vez, alguns nascem “privilegiados”, “predestinados”, “abençoados”, “afortunados” (pela deusa Fortuna). Os demais, para permanecerem no jogo, precisam se desdobrar. Para compensar a “má sina”, arriscam, suam, varam madrugadas, sobem ladeiras.


Tanto no desenrolar do jogo como na existência, os privilégios devem se alternar. Quem começa bem, não tem garantia de continuar com a mesma “sorte”. Os que amargam um péssimo início não precisam se desesperar: mais cedo ou mais tarde, pela matemática, todos se nivelarão. Quem perde hoje pode ganhar amanhã; os vencedores atuais, se permanecerem na mesa, chorarão. Se vivêssemos em uma sociedade perfeita, as gerações se alternariam no topo da escada. Acontece que os poderosos usam de todos os mecanismos para nunca permitir que os desventurados saiam da condição em que se encontram.


Comparar a vida a um jogo carrega, portanto, significados éticos. As cartas não podem ser marcadas. Não vale trapacear. Assim, como o “dealer” não antecipa a vitória de qualquer um, a divindade não premia ou amaldiçoa ninguém.


Comparar a vida a um jogo, esvazia conceitos religiosos deterministas. Basta que um cromossomo não se encaixe no código genético e a criança terá alguma anomalia genética e isso não vem prescrito desde a eternidade como sina. Caso uma membrana cardíaca, uma válvula, não cresça durante a formação intra-uterina, o bebê precisará de uma intervenção cirúrgica na hora do parto. A incubadora não é câmara de castigo, que purga o recém nascido de pecados da vida passada. Quem depende de uma cadeira de rodas para se locomover não está sob maldição, preso às forças cegas do destino. No decorrer dos anos, tempo e acaso podem mutilar, cegar, ensurdecer (Eclesiastes 9.11).


A genialidade herdada pela feliz combinação da erudição materna com a perspicácia paterna – ou vice versa – pode trazer ao mundo um menino prodígio. Mozart encantou a corte europeia antes dos dez anos de vida. A luminosidade de Shakespeare, Leonardo da Vinci, Voltaire, Karl Marx, Heidegger, Thomas Edson, Gandhi, Simone Weil, Garrincha, Pelé, Michael Jordan e Nelson Mandela não pode ser explicada senão por uma gratuidade fortuita.


A menina vende doce no sinal de trânsito; por que nasceu em alguma choupana imunda da periferia? Que outra opção lhe foi dada? Por que não em algum palácio real? O que explica o garoto ver-se condenado a passar a maior parte da infância convivendo com traficantes, sem conhecer abraço ou elogio paterno? Os olhos azuis da atriz, os seios volumosos, a aptidão para decorar, encenar, dançar, a tornaram milionária, mas quem orquestrou tais privilégios em um mundo em que ao contrário do caráter, estética conta para o sucesso? Depois ainda há a longa estrada que, a qualquer instante, pode surpreender a todos. A partida, a jornada, que começou esplendidamente pode tornar-se trágica. Aviões caem, matando todos a bordo: o empresário e o mecânico, os noivos em lua de mel e o piloto, o padre e o cafetão. O poeta pode ficar cego; o escultor, aleijado; o atleta, sem uma das pernas; o general, sem os dois rins; e o presidente da república, cair com leucemia.


Todos estão sujeitos a tempestades, raios fulminantes, balas perdidas. Princesas lindas e queridas morrem prematuramente, basta que o carro, dirigido por um motorista alcoolizado, bata contra a parede do túnel. O contrário também pode acontecer: o menino galgar as estreitas malhas da peneira econômica para tornar-se músico erudito; do gramado de um vilarejo, nascer o craque que encanta o mundo com dribles mirabolantes.


Quem seriam vencedores e perdedores? Na complexidade do jogo da vida, perder ou ganhar não tem receita simples. Quem junta dinheiro não triunfa, necessariamente. A vida simples do camponês não é insignificante. A história foi entulhada por personagens que jamais alcançaram uma existência inspiradora, apesar da riqueza – ouro foi a maldição de Midas!


Integridade não se restringe a jogar de acordo com as regras, e sim desistir do desejo de suplantar os pares. No jogo de baralhos, o intuito não é vencer, mas tornar o instante lúdico.


Na vida, “jogamos” não para ultrapassar os demais. Somos convocados a repartir as boas cartas com os menos privilegiados e estender as mãos aos que não conseguiram sequer entrar no jogo. No outro extremo, quem para de lamentar as péssimas cartas distribuídas, aceita as mãos estendidas sem se sentirem humilhados. Assim, triunfos gratuitos perdem a força de escravizar com egoísmo e desgraças deixam de ser sinônimo do esconjuro divino. E grandeza pode significar outra coisa que chegar primeiro, ganhar mais, pisotear o próximo: é mudança de atitude, deixar de ver cada movimento do jogo como uma batalha e fazer da “partida” um desafio de coexistência. Adversários hoje podem vir a ser parceiros amanhã.


Soli Deo Gloria


Por Ricardo Gondim
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Por cristãos menos raivosos





Dia desses, postei numa rede social uma crítica a um desses pastores televisivos, mais especificamente a um que é bem raivoso e histriônico, que prometia ir à São Paulo, ele mesmo do Rio de Janeiro, para “arrebentar” um candidato a prefeito. Minha pequena postagem demonstrava minha inquietação diante do estímulo à intolerância que aquele senhor promove. Sua linguagem violenta é deselegante e imprópria para um cristão, para dizer o mínimo. Tal pessoa tem uma obsessão contra homossexuais que talvez só Freud poderia explicar.


Mal sabia eu que, em poucos minutos depois da minha postagem, levaria uma saraivada de impropérios escritos por gente religiosa, que, pelo visto, foi muito bem doutrinada pelo tal pregador. Fiquei espantado com a violência das palavras, com a insolência, com o desrespeito e a intolerância de quem se diz discípulo de Jesus de Nazaré.


Fiquei a imaginar qual o benefício que gente assim pode trazer a um mundo já violento, intolerante e cruel. Qual a diferença positiva, qual a transformação, qual o bem que se pode produzir tendo essa postura belicosa? Nenhuma. Ao contrário, foram pessoas assim que promoveram as Cruzadas sanguinolentas na Idade Média e que acenderam as fogueiras aos pés de quem pensava diferente. Será que a vida e a mensagem de Jesus tiveram o propósito de gerar esse tipo de pessoa? Acredito que não.


Esse pessoal vive dizendo que não podemos ser iguais às “pessoas do mundo” e tal, mas não há nada mais mundano do que ser intolerante, discriminatório, odioso. Para ser diferente, num mundo violento e sem graça, é necessário promover a igualdade, a dignidade das pessoas, independente da condição social, cor, religião ou orientação sexual. Para ser diferente, é preciso ter gentileza no viver para, como disse o profeta, gerar gentileza. Diferente é quem abre mão da violência no agir e no falar. É ter um olhar compreensivo e humano para com os diferentes. O que passa disso é mundanismo disfarçado de piedade, uma piedade pervertida, como diz Ricardo Quadros Gouvêa.


Não consigo enxergar Cristo nessa gente de cenho franzido e dedo em riste, porque não consigo ver amor em suas atitudes. E onde não há amor não há Deus, e, ao contrário, onde há amor, Deus aí está, como disse Tolstói. Cristo era amigo de pecadores, gostava de festas, amante da comensalidade, tinha bom papo. Promoveu a dignidade de pessoas que, na época, eram excluídas como mulheres, crianças, leprosos e prostitutas. Gostava de fazer amigos, comer peixe assado com pão à beira da praia, conversar no alpendre, à beira de um poço ou numa caminhada qualquer.


Jesus só franzia o cenho e colocava o dedo em riste para reprovar com veemência quem fazia comércio das coisas sagradas, ganhando dinheiro às custas da fé alheia, quem usava a religião para manipular pessoas com o propósito de conseguir poder político e econômico, hipócritas, portanto. Coincidentemente, os pregadores televisivos não utilizam seus programas para reprovar as mesmas coisas, elegeram um outro grupo para bater. Por que será?


Por Márcio Rosa da Silva