quinta-feira, 29 de março de 2012

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Revista Veja Entrevista William Lane Craig


Revista Veja Entrevista William Lane Craig[1]




“É possível acreditar em Deus usando a razão”, afirma William Lane Craig

O filósofo e teólogo defende o cristianismo, a ressurreição de Jesus e a veracidade da Bíblia a partir de construção lógica e racional, e se destaca em debates com pensadores ateus

Quando o escritor britânico Christopher Hitchens, um dos maiores defensores do ateísmo, travou um longo debate nos Estados Unidos, em abril de 2009, com o filósofo e teólogo William Lane Craig sobre a existência de Deus, seus colegas ateus ficaram tensos. Momentos antes de subir ao palco, Hitchens – que morreu em dezembro de 2011, aos 62 anos – falou a jornalistas sobre a expectativa de enfrentar Craig.

“Posso dizer que meus colegas ateus o levam bem a sério”, disse. “Ele é considerado um adversário muito duro, rigoroso, culto e formidável”, continuou. “Normalmente as pessoas não me dizem ‘boa sorte’ ou ‘não nos decepcione’ antes de um debate – mas hoje, é o tipo de coisa que estão me dizendo”. Difícil saber se houve um vencedor do debate. O certo é que Craig se destaca pela elegância com que apresenta seus argumentos, mesmo quando submetido ao fogo cerrado.

O teólogo evangélico é considerado um dos maiores defensores da doutrina cristã na atualidade. Craig, que vive em Atlanta (EUA) com a esposa, sustenta que a existência de Deus e a ressurreição de Jesus, por exemplo, não são apenas questões de fé, mas passíveis de prova lógica e racional. Em seu currículo de debates estão o famoso químico e autor britânico Peter Atkins e o neurocientista americano Sam Harris (veja lista com vídeos legendados de Craig). Basta uma rápida procura no Youtube para encontrar uma vastidão de debates travados entre Craig e diversos estudiosos. Richard Dawkins, um dos maiores críticos do teísmo, ainda se recusa a discutir com Craig sobre a existência de Deus.

Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, Dawkins afirma que Craig faz apologia ao genocídio, por defender passagens da Bíblia que justificam a morte de homens, mulheres e crianças por meio de ordens divinas. “Vocês apertariam a mão de um homem que escreve esse tipo de coisa? Vocês compartilhariam o mesmo palco que ele? Eu não, eu me recuso”, escreveu. Na entrevista abaixo, Craig fala sobre o assunto.

Autor de diversos livros – entre eles Em Guarda – Defenda a fé cristã com razão e precisão (Ed. Vida Nova), lançado no fim de 2011 no Brasil, – Craig é doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia pela Universidade de Munique, Alemanha. O filósofo esteve no Brasil para o 8º Congresso de Teologia da Editora Vida Nova, em Águas de Lindóia, entre 13 e 16 de março. Durante o simpósio, Craig deu palestras e dedicou a última apresentação a atacar, ponto a ponto, os argumentos de Richard Dawkins sobre a inexistência de Deus.

Por que deveríamos acreditar em Deus?


Porque os argumentos e evidências que apontam para a Sua existência são mais plausíveis do que aqueles que apontam para a negação. Vários argumentos dão força à ideia de que Deus existe. Ele é a melhor explicação para a existência de tudo a partir de um momento no passado finito, e também para o ajuste preciso do universo, levando ao surgimento de vida inteligente. Deus também é a melhor explicação para a existência de deveres e valores morais objetivos no mundo. Com isso, quero dizer valores e deveres que existem independentemente da opinião humana.

Se Deus é bondade e justiça, por que ele não criou um universo perfeito onde todas as pessoas vivem felizes?


Acho que esse é o desejo de Deus. É o que a Bíblia ensina. O fato de que o desejo de Deus não é realizado implica que os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não concordo com os teólogos que dizem que Deus determina quem é salvo ou não. Parece-me que os próprios humanos determinam isso. A única razão pela qual algumas pessoas não são salvas é porque elas próprias rejeitam livremente a vontade de Deus de salvá-las.

Alguns cientistas argumentam que o livre-arbítrio não existe. Se esse for o caso, as pessoas poderiam ser julgadas por Deus?


Não, elas não poderiam. Acredito que esses autores estão errados. É difícil entender como a concepção do determinismo pode ser racional. Se acreditarmos que tudo é determinado, então até a crença no determinismo foi determinada. Nesse contexto, não se chega a essa conclusão por reflexão racional. Ela seria tão natural e inevitável como um dente que nasce ou uma árvore que dá galhos. Penso que o determinismo, racionalmente, não passa de absurdo. Não é possível acreditar racionalmente nele. Portanto, a atitude racional é negá-lo e acreditar que existe o livre-arbítrio.

O senhor defende em seu site uma passagem do Velho Testamento em que Deus ordena a destruição da cidade de Canaã, inclusive autorizando o genocídio, argumentando que os inocentes mortos nesse massacre seriam salvos pela graça divina. Esse não é um argumento perigosamente próximo daqueles usados por terroristas motivados pela religião?


A teoria ética desses terroristas não está errada. Isso, contudo, não quer dizer que eles estão certos. O problema é a crença deles no deus errado. O verdadeiro Deus não ordena atos terroristas e, portanto, eles estariam cometendo uma atrocidade moral. Quero dizer que se Deus decide tirar a vida de uma pessoa inocente, especialmente uma criança, a Sua graça se estende a ela.

Se o terrorista é cristão o ato terrorista motivado pela religião é justificável, por ele acreditar no Deus ‘certo’?


Não é suficiente acreditar no deus certo. É preciso garantir que os comandos divinos estão sendo corretamente interpretados. Não acho que Deus dê esse tipo de comando hoje em dia. Os casos do Velho Testamento, como a conquista de Canaã, não representam a vontade normal de Deus.

O sr. está querendo dizer que Deus também está sujeito a variações de humor? Não é plausível esperar que pelo menos Ele seja consistente?


Penso que Deus pode fazer exceções aos comandos morais que dá. O principal exemplo no Velho Testamento é a ordem que ele dá a Abraão para sacrificar seu filho Isaque. Se Abraão tivesse feito isso por iniciativa própria, isso seria uma abominação. O Deus do Velho Testamento condena o sacrifício infantil. Essa foi uma das razões que o levou a ordenar a destruição das nações pagãs ao redor de Israel. Elas estavam sacrificando crianças aos seus deuses. E, no entanto, Deus dá essa ordem extraordinária a Abraão: sacrificar o próprio filho Isaque. Isso serviu para verificar a obediência e fé dele. Mas isso é a exceção que prova a regra. Não é a forma normal com que Deus conduz os assuntos humanos. Mas porque Deus é Deus, Ele tem a possibilidade de abrir exceções em alguns casos extremos, como esse.

O sr. disse que não é suficiente ter o deus certo, é preciso fazer a interpretação correta dos comandos divinos. Como garantir que a sua interpretação é objetivamente correta?


As coisas que digo são baseadas no que Deus nos deu a conhecer sobre si mesmo e em preceitos registrados na Bíblia, que é a palavra d’Ele. Refiro-me a determinações sobre a vida humana, como “não matarás”. Deus condena o sacrifício de crianças, Seu desejo é que amemos uns ao outros. Essa é a Sua moral geral. Seria apenas em casos excepcionalmente extremos, como o de Abraão e Isaque, que Deus mudaria isso. Se eu achar que Deus me comandou a fazer algo que é contra o Seu desejo moral geral, revelado na escritura, o mais provável é que eu tenha entendido errado. Temos a revelação do desejo moral de Deus e é assim que devemos nos comportar.

O sr. deposita grande parte da sua argumentação no conteúdo da Bíblia. Contudo, ela foi escrita por homens em um período restrito, em uma área restrita do mundo, em uma língua restrita, para um grupo específico de pessoas. Que evidência se tem de que a Bíblia é a palavra de um ser sobrenatural?


A razão pela qual acreditamos na Bíblia e sua validade é porque acreditamos em Cristo. Ele considerava as escrituras hebraicas como a palavra de Deus. Seus ensinamentos são extensões do que é ensinado no Velho Testamento. Os ensinamentos de Jesus são direcionados à era da Igreja, que o sucederia. A questão, então, se torna a seguinte: temos boas razões para acreditar em Jesus? Ele é quem ele diz ser, a revelação de Deus? Acredito que sim. A ressurreição dos mortos, por exemplo, mostra que ele era quem afirmava.

Existem provas que confirmem a ressurreição de Jesus?


Temos boas bases históricas. A palavra ‘prova’ pode ser enganosa porque muitos a associam com matemática. Certamente, não temos prova matemática de qualquer coisa que tenha acontecido na história do homem. Não temos provas, nesse sentido, de que Júlio César foi assassinado no senado romano, por exemplo, mas temos boas bases históricas para isso. Meu argumento é que se você considera os documentos do Novo Testamento como fontes da história antiga, – como os historiadores gregos Tácito, Heródoto ou Tucídides – o evangelho aparece como uma fonte histórica muito confiável para a vida de Jesus de Nazaré. A maioria dos historiadores do Novo Testamento concorda com os fatos fundamentais que balizam a inferência sobre a ressurreição de Cristo. Coisas como a sua execução sob autoridade romana, a descoberta das tumbas vazias por um grupo de mulheres no domingo depois da crucificação e o relato de vários indivíduos e grupos sobre os aparecimentos de Jesus vivo após sua execução. Com isso, nos resta a seguinte pergunta: qual é a melhor explicação para essa sequência de acontecimentos? Penso que a melhor explicação é aquela que os discípulos originais deram – Deus fez Jesus renascer dos mortos. Não podemos falar de uma prova, mas podemos levantar boas bases históricas para dizer que a ressurreição é a melhor explicação para os fatos. E como temos boas razões para acreditar que Cristo era quem dizia ser, portanto temos boas razões para acreditar que seus ensinamentos eram verdade. Sendo assim, podemos ver que a Bíblia não foi criação contingente de um tempo, de um lugar e de certas pessoas, mas é a palavra de Deus para a humanidade.

Os textos da Bíblia passaram por diversas revisões ao longo do tempo. Como podemos ter certeza de que as informações às quais temos acesso hoje são as mesmas escritas há 2.000 anos? Além disso, como lidar com o fato de que informações podem ser perdidas durante a tradução?


Você tem razão quanto a variedade de revisões e traduções. Por isso, é imperativo voltar às línguas originais nas quais esses textos foram escritos. Hoje, os críticos textuais comparam diferentes manuscritos antigos de modo a reconstruir o que os originais diziam. O Novo Testamento é o livro mais atestado da história antiga, seja em termos de manuscritos encontrados ou em termos de quão próximos eles estão da data original de escrita. Os textos já foram reconstruídos com 99% de precisão em relação aos originais. As incertezas que restam são trivialidades. Por exemplo, na Primeira Epístola de João, ele diz: “Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra”. Mas alguns manuscritos dizem: “Estas coisas vos escrevemos, para que o nosso gozo se cumpra”. Não temos certeza se o texto original diz ‘vosso’ ou ‘nosso’. Isso ilustra como esse 1% de incerteza é trivial. Alguém que realmente queira entender os textos deverá aprender grego, a língua original em que o Novo Testamento foi escrito. Contudo, as pessoas também podem comprar diferentes traduções e compará-las para perceber como o texto se comporta em diferentes versões.

É possível explicar a existência de Deus apenas com a razão? Qual o papel da ciência na explicação das causas do universo?


A razão é muito mais ampla do que a ciência. A ciência é uma exploração do mundo físico e natural. A razão, por outro lado, inclui elementos como a lógica, a matemática, a metafísica, a ética, a psicologia e assim por diante. Parte da cegueira de cientistas naturalistas, como Richard Dawkins, é que eles são culpados de algo chamado ‘cientismo’. Como se a ciência fosse a única fonte da verdade. Não acho que podemos explicar Deus em sua plenitude, mas a razão é suficiente para justificar a conclusão de que um criador transcendente do universo existe e é a fonte absoluta de bondade moral.

Por que o cristianismo deveria ser mais importante do que outras religiões que ensinam as mesmas questões fundamentais, como o amor e a caridade?


As pessoas não entendem o que é o cristianismo. É por isso que alguns ficam tão ofendidos quando se prega que Jesus é a única forma de salvação. Elas pensam que ser cristão é seguir os ensinamentos éticos de Jesus, como amar ao próximo como a si mesmo. É claro que não é preciso acreditar em Jesus para se fazer isso. Isso não é o cristianismo. O evangelho diz que somos moralmente culpados perante Deus. Espiritualmente, somos separados d’Ele. É por isso que precisamos experimentar Seu perdão e graça. Para isso, é preciso ter um substituto que pague a pena dos nossos pecados. Jesus ofereceu a própria vida como sacrifício por nós. Ao aceitar o que ele fez em nosso nome, podemos ter o perdão de Deus e a limpeza moral. A partir disso, nossa relação com Deus pode ser restaurada. Isso evidencia por que acreditar em Cristo é tão importante. Repudiá-lo é rejeitar a graça de Deus e permanecer espiritualmente separado d’Ele. Se você morre nessa condição, você ficará eternamente separado de Deus. Outras religiões não ensinam a mesma coisa.

A crença em Deus é necessária para trazer qualidade de vida e felicidade?


Penso que a crença em Deus ajuda, mas não é necessária. Ela pode lhe dar uma fundação para valores morais, propósito de vida e esperança para o futuro. Contudo, se você quiser viver inconsistentemente, é possível ser um ateu feliz, contanto que não se pense nas implicações do ateísmo. Em última análise, o ateísmo prega que não existem valores morais objetivos, que tudo é uma ilusão, que não há propósito e significado para a vida e que somos um subproduto do acaso.

Por que importa se acreditamos no deus do cristianismo ou na ‘mãe natureza’ se na prática as pessoas podem seguir, fundamentalmente, os mesmos ensinamentos?


Deveríamos acreditar em uma mentira se isso for bom para a sociedade? As pessoas devem acreditar em uma falsa teoria, só por causa dos benefícios sociais? Eu acho que não. Isso seria uma alucinação. Algumas pessoas passam a acreditar na religião por esse motivo. Já que a religião traz benefícios para a sociedade, mesmo que o indivíduo pense que ela não passa de um ‘conto de fadas’, ele passa a acreditar. Digo que não. Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade – como penso que é – temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade. A via contrária é o pragmatismo. “Isso Funciona?”, perguntam elas. “Não importa se é verdade, quero saber se funciona”. Não estou preocupado se na Suécia alguns são felizes sem acreditar em Deus ou se há alguma vantagem em acreditar n’Ele. Como filósofo, estou interessado no que é verdade e me parece que a existência desse ser transcendente que criou e projetou o universo, fonte dos valores morais, é a verdade.



[1] Perfil. Nome: William Lane Craig. Profissão: Filósofo, teólogo e professor universitário na Universidade de Biola, Califórnia. Nascimento: 23 de agosto de 1949. Livros destacados: Apologética Contemporânea – A veracidade da Fé Cristã; Em Guarda, Defenda a fé cristã com razão e precisão; ambos publicados no Brasil pela editora Vida Nova. Principal contribuição para a filosofia: Craig foi responsável por reformular o Argumento Cosmológico Kalam (variação do argumento cosmológico que defende a existência de uma primeira causa para o universo) nos seguintes termos: 1) Tudo que começa a existir tem uma causa de existência. 2) O universo começou a existir. 3) Portanto, o universo tem uma causa para sua existência. Informações pessoais: William Lane Craig é conhecido pelo trabalho na filosofia do tempo e na filosofia da religião, especificamente sobre a existência de Deus e na defesa do teísmo cristão. Escreveu e editou mais de 30 livros, é doutor em filosofia e teologia em universidades inglesa e alemã e desde 1996 é pesquisador e professor de filosofia na Universidade de Biola, na Califórnia. Atualmente vive em Atlanta, nos EUA, com a esposa. Craig pratica exercícios regularmente como forma de combater a APM (Atrofia Peronial Muscular) uma doença degenerativa do sistema nervoso que lhe causou atrofiamento dos nervos das mãos e pernas. Especialista em debates desde o ensino médio, o filósofo passa a maior parte do tempo estudando.



sábado, 24 de março de 2012

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A Razão De Tomé




Há na opinião popular, mais conhecida como senso comum, a crença na incredulidade de Tomé.

 
À primeira vista quando se pensa em Tomé, pensa-se que ele não creu na ressurreição, antes duvidou e assim Jesus o advertiu de que jamais deveria duvidar, antes, ser um crente.

 
Com isto associa-se de pronto que o contrário de fé é dúvida. Duvidar, neste caso, é igual a descrer. Considero importante lembrar que o Movimento da Fé enfatizou este senso comum e praticamente afunilou os raciocínios para que de maneira geral se confundisse fé com confissão positiva. Não é preciso muito para convencer qualquer crente de que a fé cristã não é confissão positiva, mas no dia-a-dia, muito se pratica o pensamento positivo como se fosse fé.


Voltando ao nosso personagem, Tomé o Dídimo.


Jesus ressuscitou, apareceu para os discípulos que, deslumbrados, entre alegria e medo, testemunharam o inacreditável, porém Tomé não estava presente e, mesmo conhecendo bem seus amigos, disse que isto seria impossível, que não daria nenhum crédito ao testemunho se não pudesse constatar pessoalmente, de forma concreta que de fato, aquele personagem que aparecera aos seus amigos, era Jesus de Nazaré.

 
Nas palavras da NVI o registro ficou:

 
Os outros discípulos lhe disseram: "Vimos o Senhor!" Mas ele lhes disse: "Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei" (João 20:25ss)


Noutra feita, de igual forma, Jesus apareceu, porém desta vez Tomé estava presente e antes mesmo de se pronunciar Jesus se antecipou e convidou-o a tocar em suas feridas e constatar por si mesmo e concretamente que aquele que estava diante de todos e falando é o mesmo que fora assassinado cruelmente.

 
Tomé rapidamente desistiu de exigir as provas, se jogou ao chão, e adorou a Jesus.

 
Por sua vez Jesus lhe lançou um segundo convite: ... “Pare de duvidar e creia".


Apesar de a narrativa problematizar a dúvida, podemos ter um olhar mais acurado e nos perguntarmos se o problema seria a dúvida em si mesma, ou o tipo de dúvida que Tomé apresentou. Dito de outra forma: O pré-requisito exigido por Tomé para crer não serve para a fé.


Vejamos com mais detalhes.


Se você, amigo leitor, disser para mim que meu falecido pai deixou uma fortuna depositada num banco qualquer em meu nome, não basta eu dizer ao gerente, vim buscar meu dinheiro. Faz-se necessário verificar todos os registros que comprovem que há uma conta naquele banco aberta em meu nome e o quanto de dinheiro lá estaria depositado.

 
Sem as provas, ninguém, nem o presidente do banco me dariam um real sequer.

 
Isto significa o seguinte: tanto eu como o banco precisamos de provas para dar crédito àquilo que se diz ser verdadeiro.

 
Mas depois de verificar todos os comprovantes, ver a conta e o extrato, não é preciso crer, os fatos dizem o que é.

 
Acreditar naquilo que se tem comprovações factíveis, concretas e irrefutáveis não é fé, mas constatação. Tomé queria constatar concretamente a ressurreição, e Jesus lhe ensina que crer está para além da idéia de constatar fatos.


Não preciso ter fé para acreditar que estou neste exato momento escrevendo este texto, porque afinal, estou escrevendo este texto. Não é preciso ter fé para constatar que hoje podemos viajar longas distancias por vias aéreas.


Quando falamos de verdade de fé, a apreciação não é o toque, a vista, a comprovação científica, mas sim uma apreensão de alma, espiritual, um jeito de sei que sei, mas não sei como sei.


Jesus estaria dizendo a Tomé que a ressurreição foi real, que ele poderia checar com seus instrumentos de verificação, mas que esta exigência de provas para crer, diante do que de fato significa fé, não era fé.

 
Se Tomé entendesse isto seria mais bem-aventurado, mas enquanto ele exigisse comprovações, certezas empíricas para aceitar, ele ainda não havia experimentado o que de fato é fé.


Não podemos falar de verdades profundas com averiguações rasas. Ao medir uma curta distância posso fazê-lo com o metro, mas ao medir as distâncias estelares preciso usar a luz.

 
Assim, ao avaliar as coisas que existem no mundo material posso e consigo fazê-lo empiricamente, mas ao avaliar as coisas espirituais ou divinas estes métodos são inadequados, incapazes e inviáveis.


Se você quiser se aproximar de Deus, não exija provas de que Ele existe, porque quem quer se aproximar de Deus precisa crer. Sem fé é impossível uma relação genuína com Deus.

 
Tomé não foi um incrédulo por que não creu na ressurreição, mas sim porque considerou que a ressurreição e outros elementos espirituais para terem sua validade precisam de comprovações empíricas.


A fé, subjetiva, depende de abstração, tal qual Nicodemos que não conseguia entender que apesar de Jesus falar em nascer de novo, não estava falando de nascer de novo. Mas a linguagem de Jesus era apenas uma maneira de fazer com que aquilo que Nicodemos sabia fosse o meio para que ele apreendesse aquilo que não alcançava, mas desejava – uma verdade espiritual.


Em outras palavras, Tomé entendia que só poderia crer naquilo que ele pudesse provar. Jesus o corrige para que cresse. Simples assim? É uma loucura doida, dizer que a salvação é crer e ponto. Mas assim se faz a fé.


Eliel Batista


Vi no http://www.elielbatista.com/2012/03/razao-de-tome.html
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Deus salve a cultura!

Perdi muito tempo em minha vida assistindo pregações que apontavam a tecnologia e os meios de comunicação como o anticristo ou como sinais da temível “nova era” que nunca chegou. Primeiro a TV, depois a música e então a Internet. Tudo foi precipitadamente demonizado, aumentando ainda mais o abismo cultural do cristão em meio a um mundo em constante mudança.


Esta análise não é sobre os meios de comunicação em si, mas sobre como há um desafio ainda desconhecido de uma geração a respeito de como pode (e deve) um cristão interagir intensamente com a cultura que o cerca sem que seja corrompido por ela. Isto por que desconectar-se do mundo e da cultura é o mesmo que cometer suicídio ou mudar-se pra um convento afastado da civilização. Se não consumirmos/produzirmos cultura, nos afastamos das pessoas e perdemos a capacidade de traduzir as verdades eternas do Reino na linguagem que as pessoas compreendem.



Mas o ponto é: o que há de errado com a produção cultural contemporânea? Por que somos sutilmente corrompidos pelo desejo de espiar a vida alheia nos inúmeros reality shows? Por que assistimos novelas que mexem com nosso senso de justiça ao nos fazerem muitas vezes torcer pelo divórcio, pelo assassinato ou pelo bandido da história?


Quando li nos sites de notícias que alguns “crentes” estariam na nova edição do Big Brother, não esbocei a menor sensação de esperança. Quando vi a Globo transmitir um Festival Gospel produzido no Rio de Janeiro às custas dos cofres públicos, não fiquei nem um pouco animado. Quando cantores góspeis cantaram lado a lado com as “coleguinhas” semi-nuas no Caldeirão do Huck, percebi que tudo realmente não passa de mais do mesmo. Interesses comerciais continuam tentando manipular a opinião do cristão de modo a consolidar mais um mercado consumidor obediente e não crítico. E enquanto isso alguns de nós comemoram como se houvesse algum mérito em ter espaço na mídia.


Se seus olhos e sua alma pertencem à este modelo de produção cultural, sinto muito por você.
A verdade é que deste tipo de “cultura” eu quero distância. Creio sim que deveríamos participar do BBB, de shows e de programas de auditório. Mas como cristão autêntico, penso que se eu tiver uma chance de sair em rede nacional, não irei desperdiçar isto de maneira alguma. Quero ser como Michael Moore em 2002, quando recebeu o Oscar de melhor Documentário (Tiros em Columbine) e com toda a ousadia proclamou desaforos no microfone a respeito da política estadunidense e de seu então presidente George Bush. É claro que desde então Moore nunca mais será indicado a nenhum tipo de premiação, ainda que produza verdadeiras relíquias cinematográficas. Mas ele foi autêntico e ousado. Como nós que adoramos nos denominar “profetas” deveríamos ser.


Selecionar o que consumimos é prudente e com certeza faz toda a diferença em nosso caráter. Mas isto não está restrito a regras do tipo “não veja TV”. Cada um deve discernir diretamente da parte de Deus quais são os limites considerados seguros para si. E se ultrapassar tais limites (ou exigir que outros se guiem pelos seus limites pessoais), então estará em pecado.


Maravilhoso será o dia em que formos capazes de influenciar os meios de comunicação pelos nossos valores inflexíveis. Que sejamos o povo do equilíbrio e da coerência, de modo que a mídia nos TEMA pelo motivo correto. Maravilhoso será quando soubermos aproveitar todas as oportunidades para relacionar a fé redentora em Cristo à cultura compreensível a este mundo. Que a ponte entre o Reino de Deus e The Matrix, entre a Redenção e Pulp Fiction, entre o discipulado e Clube da Luta… que tudo isto seja algo natural para nós, contribuindo de maneira não passiva.


Deus salve a cultura! E que Deus nos salve de nos corrompermos com as coisas tão belas que Ele mesmo nos permitiu criar.


Artigo escrito por Ariovaldo Jr
para a Revista Expresso Cristão


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Quando

Quando eu me converti a Cristo, me sentia um lixo diante da visível santidade (segundo o que eu compreendia a respeito disso) de meus companheiros. Era como se houvesse uma percepção de que eu não era digno de fazer parte daquele grupo. A paciência de meus mestres (amigos de verdade) foi não apenas em ensinar princípios, mas principalmente em reafirmar o quanto Deus tem um gosto estranho e duvidoso por aqueles que “não são”.


Os anos se passaram e aprendi a admirar grandes homens de Deus. Ou quase. A comparação com a minha própria vida era inevitável e eu continuava me sentindo a escória da humanidade. Então o tempo acabou revelando que uma grande parte dos grandes homens que admirei sustentavam apenas uma aparência moralmente respeitável.


Neste meio termo passei a meditar sobre a necessidade de ser autêntico e transparente mesmo que isto represente ser uma porcaria longe do padrão de Deus. Por pior que sejamos, quando há sinceridade, Deus interfere e forja nosso novo caráter na chama dolorosa de seu amor. É, o amor dói.


17 anos se passaram. Altos e baixos de montão na minha “carreira”. Alguns baixos foram tão profundos que ainda tenho medo de dormir com a luz apagada. Mas uma coisa posso afirmar com toda a certeza: sou uma porcaria em constante manutenção. Ainda que me arrastando, estou caminhando PRA FRENTE. E por isso não tenho saudades de “QUANDO” nenhum do meu passado.


Vi no http://www.ariovaldo.com.br/2012/quando/

segunda-feira, 19 de março de 2012

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"Homossexuais deveriam ser executados", diz teólogo




Hermes Fernandes
"...minha posição não é apenas que os homossexuais não devem se casar, mas que o homossexualismo é um crime, assim como o assassinato ou roubo, de forma que mesmo antes de considerar a união civil, devemos considerar o punir ou não aos homossexuais, com as possíveis punições, abrangendo desde a prisão à execução." Vincent Cheung

Jamais imaginei que em pleno século XXI ouviria algo assim vindo de um teólogo protestante. E quanto ao conceito de graça, aonde foi parar?


São posturas assim que aumentam o abismo entre a igreja cristã e a comunidade gay, impossibilitando qualquer diálogo respeitoso, e o pior de tudo, dificultando a conversão de homossexuais à fé cristã.


Será que Jesus se aliaria a um grupo que pregasse morte aos gays?


Isso me remete ao episódio em que dois dos Seus discípulos sugeriram que se orasse para que Deus enviasse fogo do céu e consumisse o povo de uma aldeia samaritana que não os acolhera. A resposta de Jesus foi surpreendente:

"Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia." Lucas 9:55-56

Não importa se lá atrás um profeta foi atendido ao pedir fogo do céu para consumir seus oponentes. Vivemos agora sob a égide da graça.


Vincent Cheung nasceu em Hong Kong em 16 de setembro de 1976, reside atualmente em Boston (EUA) e é autor de mais de trinta livros e centenas de palestras sobre assuntos como teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Sua influência é crescente entre teólogos e seminaristas brasileiros reformados e conservadores.


Confira o texto completo de Vincent Cheung aqui.


Para expor melhor o que penso sobre isso, resolvi republicar um texto de minha autoria, intitulado "Cristãos em defesa dos homossexuais."


Ei-lo, abaixo:


Cristãos em Defesa dos Homossexuais


Ficou escandalizado com o título do artigo?


Pois muito mais escandalizados ficaram os detratores daquela mulher pega em flagrante adultério, quando desarmados pela pergunta de Jesus.


Que Deus é contrário ao adultério, não pode haver qualquer dúvida. Ele corrompe relações, destrói lares, e de quebra, destroça a alma. Jamais encontraremos Jesus dizendo uma só palavra em apoio a este tão danoso pecado. Entretanto, lá estava Ele, se entromentendo em questão alheia, em defesa de uma adúltera.


Seu argumento foi imbatível: Quem não tivesse pecado, que se atrevesse a atirar a primeira pedra. Não duvido que alguns dos que se dispunham a executá-la sumariamente, haviam tido caso com ela. Talvez, o que os motivasse fosse uma espécie de “queima de arquivo”. Outros sequer a conheciam, mas em nome da moral e dos bons costumes, carregaram-se de pedras. Todos, porém, tinham algo em comum: o pecado. Nem todos eram adúlteros, mas alguns eram corruptos, outros difamadores, alguns mentirosos, outros dissimuladores, e por aí vai… Jesus os desmonta!


Mas será que valia a pena expor-se daquela maneira por uma despudorada?


A bem da verdade, Jesus nunca se preocupou com a opinião pública. Se fosse hoje, alguém o classificaria de liberal, ou qualquer outra categoria humana. Do ponto de vista do marketing, defender aquela mulher era cometer suicídio. Sua popularidade cairia. Sua moral seria questionada. Sua imagem maculada.


Às favas com a imagem! Muito maior valor tinha aquela vida!


E se fosse hoje? Se Jesus flagrasse um homossexual prestes a ser linchado, Ele igualmente o defenderia?

Os ‘puritanos’ dirão que não!


Bicha tem mesmo é que morrer!” Dá pra acreditar que já ouvi isso da boca de gente que diz servir a Deus?


Defendemos o direito dos fetos à vida, mas somos insensíveis ao ponto de não defendermos o mesmo direito para os homossexuais. Em vez disso, preferimos nos entrincheirar contra a comunidade gay, apontando o seu pecado, e nos fazendo o seu inimigo número 1. Há, inclusive, razões políticas para isso. Boa parte dos deputados que formam a bancada evangélica foi eleita em cima da “ameaça” do que eles chama de ditadura homossexual.


Enquanto isso, o número de homossexuais assassinados em nossas cidades cresce drasticamente. Será que um ativista gay pararia pra ouvir nossa mensagem, enquanto nos posicionamos contra suas reivindicações?


Não estou aqui afirmando que tais reivindicações sejam justas ou não. Caberá à sociedade com um todo julgá-las.


Mas talvez, se fizéssemos manifestações que denunciassem a violência sofrida por eles, ganharíamos seu coração, e assim, eles se disporiam a nos ouvir.


Semelhante àquela mulher adúltera, os homossexuais já têm muitos acusadores. Que nos posionemos ao lado de Jesus para defendê-los, em vez de ao lado de seus detradores para persegui-los!


Não estou, com isso, endossando seu estilo de vida. Assim como Jesus não endossou o adultério. Pecado é pecado, e ponto. Não há o que negociar. Porém, quem estabeleceu uma hierarquia para os pecados foi a religião, não Jesus. A prática homossexual é tão pecaminosa quanto mentir ao declarar seu imposto de renda. Antes de apedrejá-los, pense nisso.


O que os gays precisam é de alguém que os ame, os acolha, em vez de acusá-los e rechaçá-los.


Creiam-me. Não estou aqui buscando ser politicamente correto, nem tentando fazer proselitismo.


Possivelmente este artigo desagradará tanto a gregos, quanto a troianos. Porém, minha consciência se tranquiliza por saber que estou saindo em defesa da vida, e não de uma prática ou de uma agenda política.





Não posso me calar enquanto a cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil por conta de sua opção sexual. Ora, se a prática homossexual é pecado, a homofobia também o é.
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“Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.”

Em muitos arraiais religiosos eu percebo com pesar um esforço olímpico para que Deus se faça presente, se manifeste, mostre a Sua glória, como se Deus estivesse na tangência da Terra esperando o momento para entrar em cena!


Deus não precisa ser invocado para se fazer presente. Deus a tudo e a todos envolve, em tudo e em todos transparece, de tudo e de todos emerge. Os teólogos dizem que é Ele é onipresente. Deus está totalmente envolvido com a história humana desde o seu nascedouro. Deus não está à parte do mundo, do lado de lá, distante. Convocar um Deus que é Todo-Presença é, no mínimo, contraditório.


Deus está conosco, seu nome é Emanuel. Sua presença se dá de forma modesta, velada e silenciosa. Como o ar que respiramos sem nos darmos conta, Deus é o nosso fôlego; como o sol, que desde o horizonte clareia o meu quarto sem que eu esteja olhando para ele, Deus me renova; como a raiz que nutre a árvore, assim é Deus - a seiva da vida. A presença de Deus é a causa da nossa existência; só vivemos porque vivemos Nele.


Orar é compartilhar com Deus, é um desabafo e não uma técnica. Não devo confiar mais em minha oração do que em Deus. Não é porque orei “corretamente” que Deus vai fazer alguma coisa. Deus não se põe em movimento por causa da oração. Deus é pura gratuidade!


Como eu vou orar sabendo que Deus não se “move” por causa da oração? Como serão minhas palavras em oração, sabendo que Deus não está “fora” para que tenha que intervir, mas que está envolvido até ao pescoço com a minha história? Como serão os termos de minha oração sabendo que eu vivo, que eu me movo e existo em Deus?


Oração de invocação quer chamar mais a minha atenção do que a atenção de Deus. Quando eu digo “vem, e visita o seu povo”, na verdade quero convocar os meus sentidos à presença de Deus: “vem, minha alma, abre os seus olhos para Deus, ouça o que Ele diz, perceba a sua presença!”. Porque na verdade não sou eu que estou esperando algo de Deus; mas é Deus que espera algo de mim. A pergunta não é minha - “onde está Deus?”, mas a pergunta é de Deus - “onde está você? Onde está o seu irmão?” (Gênesis 3,9; 4.9).


Não sou eu que invoco a Deus; é Deus que me invoca para eu dar conta de minha existência e cuidar do meu semelhante! Que vocação nobre e cheia de significado!


Márcio Cardoso.


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Não disfarce sua teologia.

“Quem seria Platão se não tivesse existido o conflito entre a dialética de Heráclito e os paradoxos de Zeno?”


Pretende-se demonstrar no presente texto que, quando uma teologia é tencionada para um lado do elástico epistemológico, sem considerar o outro, ela se torna excessiva.


Por teologia tencionada, entende-se o conflito da dialética – conflito entre tese e antítese em prol de uma nova síntese – Por um instante, refutar uma teologia se torna fácil, mas ser sincero diante da ignorância de tal refutação, não. A teologia excessiva por outro lado, é uma exegese ilusória, que procura demonstrar que existe uma teologia correta, e outra errada.


Sem o anseio de advogar por qualquer tratado teológico, mas, por um emergentismo teológico, posso dizer que a teologia se vulgarizou nas dimensões do simbólico, levantando-se acima da causa primeira. O “vamos fingir que as teologias funcionam”, oculta o fato de que as instituições eclesiásticas cristãs contemporâneas estão perdendo espaço, e que, de fato, a maioria das pessoas já não mais acreditam nelas. Os fatos catastróficos que um dia comprometeram a teologia ortodoxa, estão à tona mais uma vez, aniquilando o que sobrou dela; o fato da ortodoxia tentar sobressair o processo evolutivo acaba comprometendo sua imagem. Existe um conto britânico muito interessante que de alguma forma, explica essa soberba teológica comprometedora de hoje:



Dois conterrâneos não se viam há mais de anos devido a tragédia da segunda guerra mundial que sucedeu-se na vida de um deles. O prejudicado pela guerra, depois de algum tempo, voltou à sua terra natal para rever a região e o velho amigo. Quando chegou na terra que um dia morou, a primeira coisa que fez foi visitar o saudoso companheiro de infância. Chegando na casa do camarada se abraçaram e, rapidamente, aquele que “aparentemente” havia-se dado bem por não ter ido à guerra, foi mostrar ao colega sua propriedade; alguns terrenos protegidos por duas diferentes cercas.



Depois de horas mostrando tudo que havia construído, e tentando sobressair-se sobre o veterano que, em silêncio pensava sobre a lógica de tudo, de forma irônica o sujeito iludido perguntou:



- E você, que fez da vida depois da guerra? O que construiu?



Sem jeito, o amigo visitante comentou de suas lutas e disse que, por sorte, adquiriu uma fazenda ao qual, se dirigisse com seu carro durante duas horas ao Norte da região que se encontravam e voltasse, possivelmente não chegaria ao final das terras que ganhara.



O amigo, agora com uma certa inveja, retrucou:



- Ah, sei como é que é, eu tive um carro desses!


Como num jogo mimético, a teologia excessiva sai procurando por um culpado, e acaba se auto condenando. Ela segue isolando cada vez mais o homem de seu território, do cenário do seu destino, de sua queda ou elevação, e sua indústria fica sobrevivendo do desejo de evitar que, o cristão, por si só, descubra sobre sua certeza comercializável. Um fato muito interessante para descrever tal situação, é o problema entre os franceses em interpretar a natureza do fenômeno social religioso de Èmile Durkheim: Crentes, no âmbito francês, tendem a ver em Durkheim um ateu que reduziu a religião ao social, enquanto os anglo-saxônicos, curiosamente, o consideram uma espécie de místico que reduziu a sociedade ao religioso. Como se não bastasse, a revista norte americana Time, no início de Março desse ano, lançou uma matéria mostrando que desde 1990, o número de pessoas sem afiliação religiosa nos Estados Unidos dobraram, colocando a Igreja num momento sociológico muito delicado diante de um ano eleitoral. Em última análise, percebe-se que, não existe mais “Teologia” – que leva em consideração os aspectos importantes que permanecem dentro de nossa existência -, mas sim, a teologia em que minha tribo considera.


Poder-se-á observar igualmente, devido aos fatores climáticos, tecnológicos, financeiros e evolutivos, que uma teologia excessiva só se mantém em pé ainda, devido à nossa situação humana infeliz, tentando dar um escape ao qual, de certa forma, é causa principal de todo conflito teológico – Por isso sempre digo: “Observe com cuidado! Possivelmente o que fazes, pode ser a causa inicial do problema que tentas combater”. Mas mesmo assim, devemos considerar a indagação: Chegará um dia ao fim tal teologia? Creio que não, mais acredito na sua emergência e necessidade. Na possibilidade de um novo lema dominante que ditará o seguinte para qualquer argumento teológico excessivo ou dialético: Se você só deseja falar sobre sua ortodoxia, crença ou fé, sem a intenção de considerar o progresso humano, a situação dos oprimidos, o problema homossexual, e as novas fronteiras que ainda aparecerão, por favor, cale-se sobre seu Deus.


Desde os tempos de Jesus, tal sobejo teológico foi bem representado pelos fariseus; sim, isso sempre existiu. Quando a experiência do cego curado por Cristo foi levada aos fariseus, eles, com suas leis, indagaram perguntando ao cego se Jesus era pecador ou não. Desapercebidamente, o eis cego, sem romper com os lados propostos – duvida e crença -, não compromete sua fé, e diz : “Eu não sei. Uma coisa sei, eu era cego e agora vejo” – Duvidou das leis apresentadas sem comprometer aquilo que não podia duvidar. Não desiquilibrou a tensão.


De um outro jeito, o apóstolo Paulo nos mostra também que a fé não pode ser abstraída entre sim/não, duvida/certeza, preto/branco e nos exorta : Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus -Gálatas 3:28.


Diria o franciscano Richard Rohr sobre tudo isso: “Pessoas que sabem como quebrar as regras criativamente, também sabem porque as regras estavam lá em primeiro lugar. Eles não são meros iconoclastas ou rebeldes”.


Finalmente pode-se invocar mais um argumento, lembrando que, não temos um critério pelo qual podemos definitivamente verificar se as nossas escolhas teológicas são corretas ou não – As Escrituras já provaram sua deficiência nisso.


Temos o Cristo – a Bíblia de muitas faces -, ao qual pela fé, cremos que através dos muitos fatores da vida e do processo, sempre nos traz uma visão absolutamente diferente da nossa, aonde nos conduz a uma certa noção do divino que corresponde perfeitamente a sua sujeição: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus”.


Vale também salientar o raciocínio inverso: Além de ser dialético, o homem é um ser lógico e, no que diz, ou melhor, no que conta, nas queixas, tenciona não só relatar, mas testemunhar e, em segredo – inconsciente -, deseja que a qualidade de sua teologia se transforme em força moral, geradora de leis. Não é a toa que os teólogos mais originais dos últimos tempos são originais, não por produzirem algo novo, mas apenas porque são capazes de dizer as coisas que dizem como se elas nunca antes houvessem sido ditas. Enfim, a crise teológica nada mais é que a evolução do homem na própria teologia. A única coisa que não pode acontecer é negar tal crise, negar tal aperfeiçoamento, ou sabotá-lo com nossos argumentos, construindo assim no final, uma nova prisão que há muito tempo já fomos libertados.


Portanto, desejar combater uma teologia, ou muito menos impor uma nova – essa é a força motriz de todo fundamentalismo; a farsa – , é perca de tempo. Sim, devemos estica-las, observar suas demandas, alterá-las, e desconsiderá-las se não sobreviverem a tensão – Isso já diria Hegel. Mas, nesse processo, devemos conjuntamente no progresso e no atraso do homem, procurar por rumos teológicos eficazes que possuem capacidades de melhorar a sorte do Planeta, da sociedade, e de trazer o bem à todos.


Vi no http://nelsoncostajr.com/2012/03/nao-disfarce-sua-teologia/
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Vale a pena ler de novo: A Marioneta e o Anão. O cristianismo entre perversão e subversão.

Se em todas as outras religiões, Deus pede a seus seguidores que lhe permaneçam fiéis, só Cristo lhe pediu que o traíssem para cumprir sua missão. Na sua frase “Pai, porque me abandonaste?”, o próprio Cristo comete aquilo que é o pecado supremo para o cristão: ser abalado na sua fé. Na história aterradora da Paixão está claramente indicado que o autor de todas as coisas conheceu não só o sofrimento extremo como a própria dúvida. No cristianismo, Deus morre não para os homens, mas para Si mesmo. Quando Cristo morre, o que morre com ele é a esperança secreta discernível na frase: “Pai, porque me abandonaste?” O ponto principal do cristianismo é antes o ataque ao núcleo religioso duro que sobrevive mesmo no humanismo, até no stalinismo. Só é possível redimir esse núcleo do cristianismo pelo gesto que consiste em abandonar o escudo da sua organização institucional: ou abandonamos ou conservamos a forma religiosa, mas perdemos a essência. Para poder salvar o seu tesouro, tem de se sacrificar a si mesmo, como Cristo teve de morrer para que o cristianismo pudesse emergir.


Enquanto o olhar do budista está voltado com uma intensidade peculiar para o Interior (a imersão na Verdade): o cristão contempla o Exterior (o encontro traumático com a Verdade) com uma intensidade fulgurante. A rápida industrialização e militarização do Japão nos últimos cento e cinquenta anos, por exemplo, com a sua ética da disciplina e do sacrifício, foi apoiada pela grande maioria dos pensadores zen e hoje se assiste ao fenômeno corrente do zenindustrial entre os dirigentes japoneses. A atitude de imersão completa no ‘agora’ da Iluminação imediata – onde o ‘eu’ não existe e toda a distância reflexiva abole-se. No entanto, eu ‘sou o que faço’, desde que isso resulte de uma disciplina absoluta que coincida com uma espontaneidade total, o que legitima perfeitamente a subordinação à máquina social militarista. Verifica-se uma oposição, onde se situa o discurso zen, entre a atitude reflexiva que temos na vida cotidiana (desejamos a vida e tememos a morte, lutamos por prazeres em vez de agirmos diretamente) e a posição daquele que recebeu a iluminação (ao mostrar que a diferença entre a vida e a morte deixou de ter importância). Deste modo, é exatamente nesta oposição que nos redescobrimos na unidade original em que o ‘eu’ não existe e que somos diretamente o nosso ‘ato’. Os mestres militares interpretam a mensagem zen fundamental (a libertação está na perda do ‘eu’, na união imediata com o Vazio primordial) idêntica à fidelidade total dos soldados, com sua obediência mecânica às ordens, na medida em que realizam o seu dever sem consideração pelo ‘eu’ e por seus interesses. Os soldados são levados a marchar de modo a levá-los a uma espécie de subordinação cega e a fazê-los obedecer como marionetes.


Não há reencarnação, há apenas esta vida que é diretamente idêntica à morte, assim o guerreiro já não age como uma pessoa, ele está totalmente dessubjetivado, ou conforme D. T. Suzuki: “no caso do homem que ergueu o sabre por obrigação, não é ele que mata, mas o próprio sabre”. É o próprio sabre que realiza o ato de matar, é o próprio inimigo que se apresenta e se transforma em vítima – eu nada posso fazer a esse respeito, estou reduzido a observador passivo dos meus próprios atos. Qual a diferença entre a legitimação da violência do ‘guerreiro zen’ e a longa tradição ocidental, que vai de Cristo a Che Guevara, apregoa também o recurso à violência, mas como ‘obra do amor’? De um lado, em uma ‘guerra da compaixão’, o verdadeiro guerreiro mata por amor, assim o zen militarista se justifica de maneira contraditória: ‘a guerra é um mal necessário empreendido para engendrar um bem superior – qualquer batalha, seja qual for, deve ser travada para antecipar a paz’. De outro, “se alguém vier a mim, e não aborrecer seu pai e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”, palavras de Cristo, às vezes escandalosas, transmitidas por Lucas.

Quando sou fraco e ridículo, por exemplo, quando sou troçado e se riem de mim, assemelho-me a Cristo, que tanto foi objeto de escárnio, afinal Cristo é o supremo louco divino, privado de qualquer majestade e dignidade. A verdadeira intervenção da eternidade no Tempo ocorre quando o senhor do desgoverno, o Rei-Louco, não representa uma suspensão provisória da Ordem, mas começa a funcionar como a figura fundadora de uma Nova Ordem. Só fazemos ‘um’ com Deus a partir do momento em que Deus deixou de fazer ‘um’ consigo próprio, se auto-abandonou, ‘interiorizou’ a distância radical que nos separa d’Ele.


Para uma estrutura como é a da ‘política do conjunto vazio’, Jacques Rancière desenvolveu um conceito, o ‘supranumerário’, isto é, o que faz parte do conjunto, mas que não tem lugar no seu próprio seio. Neste caso, o conflito político designa a tensão entre o corpo social estruturado, onde cada parte tem o seu lugar, e a ‘parte dos sem-parte’ que abala essa ordem, em nome do princípio vazio da universalidade, não deixa de ser deslocada e erra sem trabalho nem residência, sem identidade cultural ou sexual e sem estarem registrados em qualquer lado. O que é perceptível quando G. Agamben afirma que a ‘dimensão messiânica’ não é a universalidade neutra, mas antes a não-coincidência que cada elemento particular pode obter consigo próprio. Se Cristo pode ser considerado o supremoMann ohne Eigenschaften, o homem sem qualidades, ele é mais do que homem precisamente na medida em que podemos dizer a propósito da sua figura “ecce homo”, na medida em que é um “homem kat’exochen”, ‘como tal’, sem traços distintivos, particulares. Isto quer dizer que Cristo é um ‘universal singular’ (conforme Rancière atribuiu aos que não têm um lugar particular na ordem social e que acabam por representar a humanidade como tal, na sua dimensão universal). Descreve-se, então, o que seria a ‘diferença minimal’: uma diferença entre o conjunto e esse elemento supranumerário que pertence ao conjunto, mas ao qual falta qualquer propriedade diferencial que especificaria o seu lugar no edifício. Isto não quer dizer que Cristo esteja dividido entre uma parte ‘divina’ e outra ‘humana’, acontece que a diferença minimal não é a diferença entre duas partes, mas a diferença entre dois ‘aspectos’ de uma única e mesma identidade: é a diferença de uma entidade consigo própria.


Acontece que a autêntica libertação está muito ligada com a violência – ela é uma violência e, como tal (o gesto violento de rejeitar, estabelecer uma diferença, traçar uma linha de separação), liberta. A liberdade não é um estado de harmonia e equilíbrio, mas um ato violento que perturba esse mesmo equilíbrio. Não se trata deBhagavad-Guitá, quando o deus Krishna dirige-se a Arjuna – o rei-guerreiro que hesita combater, horrorizado pelos sofrimentos que pode provocar. O amor cristão é uma paixão violenta que visa introduzir uma diferença, uma separação na ordem do ser, que procura privilegiar e elevar um objeto à custa de outros. Os budistas e hinduístas, com sua compaixão generalizada e sua indiferença, diferem do amor cristão que é violência, intolerância.


Georges Bataille e sua exigência ‘em pensar tudo ao ponto de abalar as pessoas’, de ir tão longe quanto possível – ao ponto em que a dor transformar-se em alegria, os contrários coincidirem, o gozo encontrar a morte, a santidade se confundir com o deboche e Deus se revelar uma besta cruel. É essa necessidade de ‘ir até o fim’, até a experiência mesma do impossível, como única forma de ser autêntico, que faz de Bataille o filósofo da paixão pelo Real – o que faz repousar nessa paixão transgressiva, a proibição: Bataille fica preso nesta dialética entre a lei e a sua transgressão, ou seja, a lei proibitiva é um elemento que engendra o desejo transgressivo, afinal nós somos obrigados a instaurar interditos para podermos gozar da sua violação. O que provocaria a angústia, portanto, não deixa de ser a elevação da transgressão ao estatuto de norma ou a ausência de uma proibição que viria apoiar o desejo: o que nos falta é o espaço criado pelo interdito, antes que possamos afirmar nossa singularidade ao resistir às Normas, que nos prescrevem a resistência e a transgressão, ou que nos convidam a ir sempre mais longe.


Trata-se de uma leitura sacrificial, aquela em que o gesto de Cristo surge no interior do horizonte do qual Cristo mesmo desejava triunfar, no interior do horizonte em que morremos por ele, nos identificamos com ele: no interior do horizonte da lei (a troca simbólica, a culpa e a sua expiação, o pecado e o preço a pagar por ele) – a morte de Cristo só pode surgir como a afirmação absoluta da lei, como a elevação da Lei ao estatuto de instância todo-poderosa do superego que nos esmaga, anos, seus sujeitos, com uma culpabilidade que nunca poderemos pagar. Uma Lei Infinita, de uma lei que, de certo modo, ultrapassa-se a si mesma, de uma Lei que já não impõe proibições ou injunções específicas e determinadas (faz isso, não faça aquilo…), mas que repete simplesmente uma Interdição vazia, não… , de uma Lei em que tudo é simultaneamente proibido e autorizado (ou seja, obrigatório). Esta inversão, que transforma as proibições em ordens, deve ser compreendida na medida em que a própria lei engendra o desejo de violar a si mesma. Na mesma lógica, contrariamente às proibições precisas da lei, devíamos saber ou adivinhar o que não se deve fazer, de modo que estivéssemos sempre na posição impossível de sermos sempre, e a priori, suspeitos de infringir uma proibição. Aos olhos dessa Lei ‘louca’, já somos sempre culpados, sem mesmo saber exatamente de quê (?): esta Lei é a meta-lei, a Lei do estado de emergência, onde a ordem do direito positivo é suspensa e a Lei ‘pura’ é uma forma da ordem/interdição ‘como tal’: o enunciado de uma injunção privada de qualquer conteúdo.


Trata-se de reconhecer o efeito da Lei incondicional kafkiana, que não pode ser executada como potencialidade pura, nem sequer traduzida em normas positivas, mas que permanece uma injunção abstrata que faz de todos nós culpados precisamente por não sabermos do que somos culpados. Deveríamos correlacionar a ‘culpabilidade incondicional do superego’ e a ‘misericórdia do amor’ – duas figuras do excesso: a misericórdia é obrigatoriamente algo que temos de dispensar – a misericórdia como excesso desnecessário que, como tal, tem de ocorrer. O problema da Lei não é o fato de ela não conter amor suficiente, mas antes de o conter demasiado amor, o que significa que a vida social me parece dominada por uma Lei imposta do exterior, na qual sou incapaz de me reconhecer, precisamente na medida em que continuo agarrado ao imediatismo do amor que se sente ameaçado pelo reino da Lei: como devemos realizar a Lei desembaraçando-nos da mácula patológica do amor? Quando há oposição entre a Lei e o Amor, do amor que ultrapassa e elimina a Lei – o excesso da própria Lei do amor para lá da Lei. Este será o caso do ‘amor paulino’, como reverso da Lei obscena do superego, que não pode ser executada em regras particulares? Agamben concentra-se na posição do “como-se-não”: Paulo nos diz “obedecei às leis como se não lhe obedecêsseis”, isto significa que deveríamos suspender nosso obsceno investimento libidinal na Lei, investimento na base do qual a Lei engendra e solicita a sua própria transgressão. Observa-se, enfim, uma dupla articulação entre o “haverá amor para lá da Lei?” e da “dialética paulina da Lei e sua transgressão”.


O ‘julgamento negativo de Paulo’ é desprovido de ambiguidade: “por isso, nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado”. “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei”, por isso, “Cristo nos resgatou da maldição da lei”. Portanto, quando Paulo diz que “a letra mata e o espírito vivifica”, esta letra é precisamente a letra da lei. Segundo a leitura habitual de Paulo, Deus deu a Lei aos homens para lhes fazer tomar consciência dos seus pecados, para tornar-lhes ainda mais pecadores e levá-los a compreender que precisam de salvação, que só poderá vir da misericórdia divina. De outra forma, a Lei judia já é fundada num gesto de ‘desprendimento’: através da referência à Lei, os judeus na diáspora mantêm certa distância relativamente à sociedade no seio da qual vivem. A Lei judia introduz outra dimensão, a da justiça divina, que é de uma heterogeneidade radical em relação à lei social: a justiça judia é a visão do estágio final em que serão anuladas todas as injustiças infligidas aos indivíduos. Quando os judeus ‘se desligam’ e mantêm certa distância relativamente à sociedade em que vivem, os judeus são ‘desenraizados’, a sua Lei torna-se abstrata e ela os extrapola da Substância social.


Não se trata de uma distância entre Deus e o homem na frase: “pai, porque me abandonaste?”, mas de uma cisão interna ao próprio Deus. Essas palavras de Cristo não deixam de se parecer com uma queixa de criança que, depois de ter acreditado no poder absoluto do pai, descobre aterrorizada que o pai não pode ajudá-la: Deus não é justo nem injusto, ele torna-se simplesmente impotente. Se o cristianismo é a religião da Revelação é porque nele tudo é revelado, mas o que é revelado no cristianismo não é só todo o conteúdo, mais precisamente o fato de não haver nada, nenhum segredo a revelar para lá do conteúdo: o que Deus revela não é o seu poder escondido, mas simplesmente a sua impotência como tal. De tal sorte que o segredo que os judeus permanecem fiéis é ao horror da impotência divina – e é esse segredo que o cristianismo ‘revela’. Por isso, o cristianismo só pôde aparecer depois do judaísmo: ele revela o horror com que os judeus foram os primeiros a ser confrontados.


Relativamente ao Evento (a passagem do judaísmo ao cristianismo) está mais bem exemplificado com o estatuto do Messias: em contraste com a atitude dos judeus, que se encontram na espera messiânica, os cristãos consideram que o Messias, tão aguardado, não só já chegou como já estamos redimidos. Com a fórmula “O Messias chegou” mostra-se que a Revelação é um risco tremendo, que Deus se arriscou a pôr tudo em jogo, comprometeu-se com a “chegada de Cristo”, através da qual somos formalmente redimidos, subsumidos sob a redenção e, principalmente, que nós, homens, não podemos repousar-nos contando com a ajuda de Deus: pelo contrário, somos nós que devemos ajudar a Deus. Deus é, portanto, um observador trágico e impotente, para ele, a única intervenção possível na história era, precisamente, ‘cair nela’, aparecer nela sob a forma do Filho. O judaísmo reduz a promessa de uma ‘Outra Vida’ à Alteridade pura, à promessa messiânica que nunca se tornará completamente presente e atualizada, ao passo que o cristianismo, o Messias já está cá, já chegou, o evento final já aconteceu e, não obstante, a distância (como horizonte sempre por vir, a distância que sustinha a promessa messiânica) permanece…


Resenha do livro “A monstruosidade de Cristo”, de Slavoj Zizek,citada pelo pessoal da “Resenha [Excertos]”.


Vi no http://nelsoncostajr.com/2012/03/vale-a-pena-ler-de-novo-a-marioneta-e-o-anao-o-cristianismo-entre-perversao-e-subversao/
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O amor comeu minha Bíblia.

Gosto muito de imaginar que a Bíblia foi inteiramente redigida por uma espécie de Alexandre Dumas ou Eugène Sue da época. Que ela não passa de um folhetim estritamente popular, redigida para fazer uma grana e para distrair um público muito amplo, um folhetim passivelmente aberrante cujo autor inventava as peripécias entre dois litros de vinho, morrendo de rir a cada novo episódio.


SERNBERG, Jacques. Dictionnaire du mépris. Paris: Calmann-Lévy, 1973.

É óbvio que tal aforismo seria plausível se o amor de Deus fosse condicionado como muitos “líderes” religiosos costumam dizer pelas esquinas. Se Deus não ama pessoas imperfeitas, Deus não tem ninguém para amar; eles esquecem disso. Sim, o amor é incondicional, porém, tais líderes ficam vendendo água na beira de rios. O amor incondicional não divide, mas unifica, porque a universalidade da cruz se ilumina, ou seja, quem poderia questionar o que é possível para Deus?

Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens – Nietzsche.

O amor condicional de Deus é a grande novidade do século, a experiência horrenda que destruiu… o que mesmo? Tudo, em particular uma imagem graciosa, perfeita, concebida para o homem da parte de Deus sobre Deus. Até que ponto um comentarista bíblico deveria se preocupar em fornecer uma paráfrase sistematizada sobre amor incondicional? Até onde a limitação do teólogo sobre o amor incondicional deveria ir? O objetivo de muitos teólogos é reproduzir toda a dimensão do amor em um sistema conceitual coerente. A teologia aspira à absoluta clareza do conceito; o amor tem que ser condicionado, caso contrário não é amor – Uma castração patética de uma figura paternal humana que nada tem com o divino. Como diz meu velho Pai: Faça uma análise dos Pais de quem prega o Evangelho para saber qual deus está falando. Repito: Qualquer amor condicionado não tem valor. Não absorve a dor da alma ou corrigi os incoerentes súbitos da vida. Não dá uma segunda chance, porque, como os “santos” homens dizem : Se houvesse outra chance, você de forma alguma aceitaria o amor de Deus – Talvez o próprio Cristo diria: Não posso salvar-te, você está condicionado ao amor condicional. Será?

porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o tornais duas vezes mais filho do inferno do que vós – Mateus 23.15

Não sou capaz de formular melhor: “A fumaça do amor condicional, predeterminado por aqueles que podem responder tudo sobre a guerra, mas nunca viveram uma, projetou uma sombra longa e escura na Igreja, enquanto suas chamas marcam a fogo um sinal indisfarçável no ego dos capazes”. Bem disse Václav Havel: Sempre há algo errado no intelectual do lado vencedor.

Não é a idéia que se reflete no amor incondicional, mas o trabalho cheio de suor, sangrento, dificultoso, de Deus. Que sofre junto. Que se faz fraco para ser forte. Caso contrário, que relação teria com o amor condicionado, o banido, o estrangeiro, o marcado, de quem chicotes arrancaram o direito humano, a confiança em Deus?

A tentativa de superação de um homem derrubado não se apóia em condições permutativas, a não ser se houver intenções políticas. Amor tem que gerar esperança; e sem a esperança de um amor incondicional, o amor se atrofia. Nenhuma paráfrase, nenhum comentário ou teologia sistemática pode jamais esgotar as riquezas do amor de Deus – Só o ego. No final, só o amor desinteressado que não se preocupa com prêmios ou glórias, pode gerar luz ao espírito desacreditado. Pode demonstrar que Deus existe. Temos de visualizar com clareza essa esperança: O Carrasco não é o amor incondicional, mas um conceito nebuloso, a condição.

O homem torturado pela vida que suporta o destino assumido com o peso da individualidade e suas conseqüências não se dispõe a concordar com um princípio teológico condicional sobre o amor de Deus. Onde ficaria sua esperança? Seu destino? Sua personalidade? E, além disso, se somos ensinados desde o berço a não questionar as “insondáveis condições divinas”,como querer, depois, que escapemos das armadilhas retóricas de lunáticos, que usam o amor condicionado para construir seus impérios?

O pastor de hoje interessa-se mais pela filosofia grega e por todas as espécies de coisas estranhas aos Evangelhos, mas nunca pela questão posta por Cristo:“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. O que é que isto quer dizer? A crise do mundo pós-moderno vem da nossa recusa desta mensagem incondicional; recusamos aceitá-la e, sobretudo, segui-la. Se o cristão servisse mais o próximo e parasse de tentar provar sua verdade à ele, o resultado seria diferente – O que vale tentar provar algo que já provou na história sua ignomínia? Somos, pois, cada vez mais ameaçados pela nossa própria violência e não fazemos nada de razoável ou de eficaz para escutar o amor incondicional e, sobretudo nos adequarmos a ele.

Na busca por uma mathesis universalis, comemos o porco e colocamos a culpa no cozinheiro. Como disse Thoreau: A massa nunca se eleva ao padrão do seu melhor membro; pelo contrário, degrada-se ao nível do pior. Ou seja, sempre buscamos pelo Cristo que se revela em nossas condições. Sempre procuramos pelo amor que gera fundamento para nossa crença. Sempre buscamos condicionar alguém para não sermos condicionados. Nos esquecemos que o homem não nasceu para desaparecer num cosmos descartável criado por Deus – E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom – , mas para compreender seu destino, para confrontar-se com sua mortalidade e – ouvirão agora uma expressão bem antiquada – para salvar sua alma. O amor incondicional no sentido mais elevado esconde-se fora da nossa interpretação sobre ele – não na evitação do pecado, mas, ao contrário, na convivência com ele, na sua apropriação e na identificação trágica que demanda. Somente o amor incondicional pode alçar o homem acima da justiça humana. Em tempos de graça limitada, que desencoraja, que liquida toda esperança, o amor incondicional é o único refúgio respeitável, o único bem.

Por fim, como ficaria as controvérsias bíblicas sobre o amor condicional/ incondicional ?

Usaria o mesmo mito que um certo amigo meu – considerado descrente por certos líderes religiosos – utilizou para superar em Deus, o desespero de um momento :

Diz a lenda que certo anjo passeava nas ruas de uma cidade com um balde d’agua na mão direita, e uma tocha de fogo na mão esquerda. Ao passar em frente de um albergue, um desafortunado perguntou ao anjo para que serviam aqueles elementos. O anjo respondeu: O fogo, para queimar as mansões no céu, e a água, para apagar o fogo do inferno. Pois Deus lutara até o final para mostrar que não faz distinção entre os homens!

A história termina dizendo que tal homem dançou e chorou durante três dias.


Vi no http://nelsoncostajr.com/2012/03/o-amor-comeu-minha-biblia/
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Masturbação Religiosa.

Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Olavo Bilac


É muito fácil assumirmos que nós estamos do “Lado de Deus”, e outros não. Que estamos seguindo o melhor papel da narrativa que está sendo contada. Que estamos do lado certo do rio. Devido a isso, criamos outras narrativas sobre a fé, o amor, a política, e usamos o tal “Deus” para reforçar nossas suposições, sem nunca permitir que o Deus que vai além do “nosso Deus”, desafie nossas ações, narrativas e crenças. Criamos uma “verdade eterna”, pressuposta num subconsciente que denominamos por “sadio”. Nos esquecemos que conflito é sinônimo de verdade, e que a verdade não é a solução que nos mostra a luz no fim do túnel, ou uma entidade que descobre e desvenda os mistérios da vida. Confundimos a verdade em dualismos e determinamos que ela é parte de uma construção de fatos – Verdade de forma alguma está em conformidade com nossa realidade interior “o aqui”, ou com nossa realidade exterior ” o lá fora”. A verdade simplesmente é!


O fato é que, neste início de século tudo se desvelou, ao menos uma vez tudo mostrou a verdadeira face, tudo se tornou mais real. O cristão se converteu em juiz por vocação, a fé individual, em crime, o pregador se aparelhou com fornalhas teológicas para queimar o espírito humano, numa Igreja, o jogo sujo da lei, na prisão dos fiéis, a necessidade da fé se tornar um ato masturbatório. O ser em si, livre em Deus, ainda depende da crença do anunciador das “boas novas” – A partir das armadilhas das exceções, esse costuma ainda dividir a racionalidade e irracionalidade, como se as duas fossem forças naturais contrárias. Assim, o Deus que pregamos, a religião que defendemos, ou melhor, que dizemos ser a correta, não possui fundamentos nas necessidades reais, mais no incompreensível mundo interior de cada indivíduo; em respostas que a metafísica nem se quer se aventura em responder.


Sem que eu queira, paralelos epistemológicos vêm-me à mente:

  • Criacionismo X Evolucionismo.
  • Justificação pela fé X Justificação pela prática.
  • Iconoclastia reformada X Iluminismo.
  • Corpo X Espírito.
  • Poderes dominantes X Não-violência.
  • Liderança X Comunidade.
  • O problema do homossexualismo

Não sei. Sou teólogo, conto com poucas informações, e as que tenho também me parecem excessivas. Não sei se essa visão protestante de Deus é real ou apenas uma impressão do meu ouvido tradicional. Porém, o momento nos propõe, indiscutivelmente, questionar nossas estimulações filosóficas brancas, ou escuras, levando em consideração o que Carl Jung um dia perguntou : Muito bem, mas que espécie de mito vivemos nos dias de hoje?


Entre titãs do Cristo e cavaleiros da dúvida, seguidores e pioneiros, poucos tem tido a coragem de sair do conforto de acreditar no que o pregador diz. De sair da prática sistemática que espera primeiro os heréticos descobrirem algo, para depois reformularem suas teorias, deixando assim de mergulhar no Espírito da narrativa que sempre tem algo melhor para oferecer. Atolados em sofismas filosóficos, em distorções escolásticas, em dogmas frios, muitos ainda abraçam certos traços religiosos que, em meio ao mau cheiro do dualismo, vestem a máscara da cópia absurda teatral, para assolarem uma platéia simples que não consegue observar o Deus que está fora de toda parafernália.


Tudo se torna uma pornografia santa, recheada de admiradores secretos que, se masturbam hoje, e pedem perdão amanhã, claro, tudo às escondidas.


Que tipo de brincadeira é essa? Os horizontes da nossa vida cotidiana são limitados por esses argumentos, argumentos esses que falam – no final – do bem e do mal, e os sons desses sussurros intermináveis acerca do bem e do mal movem nosso mundo. Eles geram prazer em nossa narrativa e ocupam a mente e o coração daqueles que gostam de definir Deus. Por isso que, ainda as palavras do grande artista russo Tchekhov ecoam em meus ouvidos: “ Não sei, juro pela minha alma, pela minha honra, não sei”.


Precisamos desfazer as dualidades que existem em nós, e ao mesmo tempo unificá-las para descobrir as diferentes razões do ser, em busca de servir aquilo que Deus mais ama, o homem. Querendo ou não, a fumaça da pós-modernidade já retirou o firmamento disfarçado das lógicas que impedem tal atitude misericordiosa, e mostrou o escândalo do Caim moderno. Hoje, como na antiga Roma, muitos denunciam os bárbaros, se esquecendo que, quando Roma foi invadida, ela já havia se tornado bárbara por si mesma. Ou seja, os detentores da “verdade”, denunciam os de espírito livre, os relativistas, sem levar em conta que eles, os próprios santos, foram os progenitores daqueles que hoje condenam a fé. Enfim, ninguém quer acabar com a brincadeira!


Já classificou São Tomas de Aquino a masturbação como um pecado contra a natureza. Já disse Hegel que, os que exageram o argumento, prejudicam a causa. Oscar Wilde já constatou que, se quisermos dizer a verdade às pessoas, devemos fazê-las rir; do contrário, elas nos matarão. Enfim, meu grande amigo Peter Rollins, em diversos momentos, sempre fala de um conto Irlandês que acredito que caia bem para essa situação:


Diz a história que certo jovem tinha um bar em Dublin que sempre aconchegava militares da região. Como parte da diversão desses militares, eles sempre faziam tal jovem ficar bêbado – o jovem gostava pois, lhe rendia uns bons trocados e uma cervejinha na faixa. Numa certa hora da noite, alguém do grupo dos militares colocava uma nota de cem euros na mesa, e uma moeda notável que não possuía valor algum. Pediam para o inexperiente menino escolher uma das duas. O jovem, já alcoolizado, escolhia sempre a moeda, invés da nota de cem euros – Todos riam no final devido tal atitude do garoto. Um belo dia, alguém de fora viu e, perguntou ao jovem se ele tinha algum problema, pois ele nunca pegava a nota que representava o maior valor. Então, o jovem respondeu ao questionador: “Eu sei que o papel vale mais do que a moeda, mas se eu pegá-lo, a brincadeira acaba, e eles nunca mais retornam ao meu bar”



Essa é a doença mental e moral que os cristãos ganharam devido aos problemas lingüísticos e morais de hoje. Dualismos, dualismos e mais dualismos. Não tenho a intenção de ser irônico. Pensem no que aconteceu com a teologia nos últimos séculos, no que aconteceu com suas palavras. Ouso dizer que a descoberta inicial e chocante feita por alguns em nosso tempo foi que, o Cristianismo, num mundo aonde apenas mentiras santas são levadas a sério, já não possui ligação alguma com o Cristo. E nisso concordo. Seja como for, mesmo sabendo que muitos se renderam aos prazeres do deux ex machina, ou a experiência farfalhante do Deus Eu-Tu, não me interessa se alguém tem relações sexuais com ovelhas objetivas, ou galinhas neotestamentárias, desde que a mesma não proíba, ou determine como funciona o amor. Mas simplesmente aja!


Deus não é um “Grande Outro” que pode ser amado como no relacionamento entre duas pessoas, mas sim, o próprio amor que permite tal relacionamento. Religião não é algo objetivo ou permanente que proclama as exigências divinas, mas outro nome para os diferentes processos psicológicos para solucionar os conflitos humanos. O truque: Quando falamos de Deus, estamos falando apenas de nós mesmos. Logo, não podemos esquecer que o Criador está estreitamente ligado a nós como um órgão que emite experiências, e não como um ser que nos fala através de nossas especulações teológicas e históricas. Por derradeiro, se queremos eliminar a santa estimulação religiosa de nossas vidas, e nos rendermos a Deus, precisamos de uma religião que abrace todos os lados do paradoxo da realidade humana, da imanência e transcendência divina, e principalmente, que personifique a imagem do Cristo em nós hoje, e não numa eternidade, pois de qualquer forma, Deus nunca foi uma figura do passado, mas sempre uma figura do presente que, em diversas formas sempre se manifestará no futuro!


Vi no http://nelsoncostajr.com/2012/02/masturbacao-religiosa/

sábado, 17 de março de 2012

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Entre a alvorada e o crepúsculo




Acordo. Abro a janela. O sol invade o quarto sem pedir licença. A vida se adensa em torrente luminosa. Não percebo nada de extraordinário. Apenas a alegria de notar o dia escancarado. A alegria de viver é excepcional. Não existe mal capaz de sufocar o bem que surge assim, em absoluta gratuidade.


As vinte e quatro horas seguintes serão curtas. A efêmera felicidade se mostrará mais forte que o poder do medo. – “Basta a cada dia seu próprio mal”. Com a alvorada renovou-se o mistério de me sentir renascido das cinzas.


Celebro a vida. Faço festa. Penduro bandeirolas nos salões de minha alma. Enfeito o rosto. Perfumo os braços. Acendo uma vela. Tiro a prataria da gaveta. Limpo as taças. Distribuo convites para uma roda de conversa. Promovo saraus para brincar com rimas.


Faço-me poeta, de tão contente. Se o lamento se intrometer, abraço o amigo. Permito que o velho que existe em mim fale seus aforismos. Respondo ao “por quê?” infantil de meu coração.


Não me condeno a esperar o próximo feriado. Grito ao vento um imperativo: todos os dias merecem atenção indivisível.


Diante do imponderável, quero mostrar-me destemido. Repito: o imprevisível não ameaçará. Não vou parar a minha dança porque alguém alertou sobre o perigo inevitável. Disponho-me a enfrentar qualquer despenhadeiro. Tento fugir das pretensões narcísicas. Todo novo começo é na verdade a continuação de muitas existências e histórias que me antecederam. Antes de mim, a vida já pulsava. Nunca saberei como terminará a corrida que me foi proposta. Sei com certeza que alguém me sucederá.


Convivo com o inferno e o céu que o outro representa. No próximo, encontro tormento e esperança. Seus olhos, frestas magníficas, revelam os monstros e os deuses que habitam as profundidades da alma. Eles são ao mesmo tempo espelhos do amor eterno e da barbárie terrena. Eu também sou o próximo de alguém: santo e, simultaneamente, depravado. Vivem em mim personagens esplêndidos e sórdidos. Sou ator. Sei o dever de representar diversos papeis. Com maestria consigo transformar-me em herói e vilão. Muitas vezes erro na hora de trocar as máscaras. Conheço o segredo de Pandora e fui batizado no Espírito Santo. Adoro a Deus e simpatizo com a esperteza da serpente.


Nessa ambiguidade, desejo perceber beleza. Não quero ser indiferente à simplicidade das crianças que se beijam roçando o nariz duas vezes, ao altruísmo de quem ousa abrigar a prostituta enferma, ao empenho do enfermeiro que faz serão ao lado do moribundo, à resiliência da mulher que lava o marido que padece de Alzheimer, à doçura da filha que empurra a cadeira de rodas da mãe pelo parque.


Hoje o sol nasceu como um convite à meditação. Em algumas horas, no momento breve em que a noite engolir a luz, devo voltar a pensar na vida, em Deus, em mim. Farei um voto na viração do dia: – Deus, prometo, recitar poesia com a delicadeza que as palavras merecem; ouvir música de olhos fechados, do jeito que oro; e jantar com reverência, como se fosse a minha Última Ceia.


Soli Deo Gloria


Vi no http://www.ricardogondim.com.br/50anos/entre-a-alvorada-e-o-crepusculo/

sexta-feira, 16 de março de 2012

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A casaca marrom




A casaca marrom do monge Bertoldo, morto há dois anos, seria vendida em leilão. Considerado um santo homem alguém arremataria sua veste como relíquia.


Mas Margô não a desejava como um talismã. Ela tinha outros planos para a roupa monástica. Passou o dia procurando e juntando o dinheiro que imaginava necessário para trazer a famosa casaca para casa. Daria de presente ao marido na esperança não de o agasalho bento atrair alguma virtude, mas servir de inspiração. Enquanto caminhava na direção do edifício onde seria o leilão, Margô imaginava Joabe se abotoando. Aquecido, ele guardaria, no inverno, as virtudes que lhe faltaram no verão.


O arremate não foi complicado. Ninguém havia juntado tanto dinheiro. Antes do martelo bater a terceira vez, a única herança do monge passou para as mãos de Margô.


Ao chegar em casa, Margô esparramou a blusa sobre uma mesa. Alisou as mangas com o cuidado dos padres quando esticaram o Sudário na lâmina de vidro que o preserva até hoje. No bolso do lado direito, achou uma folha de papel dobrada três vezes. Os vincos estavam apertados em cada dobra. Atônita, Margô leu a única escrita que Bertoldo deixou:


Sinto falta de algo que todos os compêndios ainda não conseguiram decifrar. Tenho sede de uma água que nem sei bem se existe ou como sacia minha alma. Meus sonhos, agora com idade, sei: eles nunca se cumprirão. Quero um país que só visitei em viagens para dentro do meu coração – um país tão próximo e, ao mesmo tempo, tão impossível. Escrevo. Medito. Tranco-me. Enfurnado em minha própria cela, oro. Minhas preces não passam na maioria das vezes de silêncios dirigidos aos confins do universo. Medito. As minhas meditações esfumaçam a linha que separa o meu presente do porvir. O que fazer? Sei, não há resposta. Resta-me o doloroso e fascinante dever de continuar. Amedrontado e poucas vezes afoito, sigo.


Margô escureceu a blusa marrom com suas lágrimas. Ela não chorava por Bertoldo. Chorava por si mesma. As palavras que acabara de ler eram na verdade o clamor de seu próprio coração.


Soli Deo Gloria


Vi no http://www.ricardogondim.com.br/contos/a-casaca-marrom/
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O que entendo por verdade




Entre os diversos constrangimentos que passei nos últimos anos, o mais aborrecido aconteceu em um restaurante. Fui a um almoço achando que era um encontro de amigos. Na verdade, não passou de pretexto para uma sabatina. “Você acredita que existe a verdade?”. A pergunta, feita entre uma conversa trivial, pretendia ser um xeque mate. Se respondesse sem gaguejar, passaria no teste. Se hesitasse, seria escanteado. Não sei o que meu companheiro pensou. Mas aquela foi a última ceia junto daquele que eu considerava, minimamente, um amigo.


De lá para cá, ainda estou em dúvida: o que ele pretendia? Eu lhe disse que fujo da pretensão de que existe uma verdade “pura”. Que está dada e que espera que eu descubra como um Colombo. Não guardo qualquer pretensão de chegar à verdade absoluta sobre qualquer coisa. No estudo exaustivo de qualquer tema, apenas escancaro a minha ignorância.


Ninguém sabe tudo sobre Machado de Assis, matemática, física quântica ou futebol. O arroubo teológico de possuir a verdade pela correta dissecação de um texto bíblico é tontice. Não há nenhum sistema que abarque a verdade sobre Deus.


Ao preocupar-me com problemas éticos e práticos de meu compromisso humano, saberei me manter flexível nos pressupostos teóricos. Ao lidar com pessoas reais, que vivem problemas reais, que fazem perguntas reais, reconhecerei que a vida transborda para além dos sistemas de pensamento.


Teologar é assumir compromisso de jamais considerar que as afirmações teóricas estão acima da vida. As questões “duras” de nossa contemplação devem coincidir com as que dizem respeito às pessoas. Que as pessoas nos intriguem, não teorias livrescas. O teólogo tem que ser, antes de tudo, um realista. Realismo: esforço de trazer para perto da vida, coração e mente; isto é, emoção e razão. O Logos, o Verbo, se fez carne. No cristianismo vimos, tocamos e cheiramos a verdade encarnada, não pensada.


O conhecimento do Verbo não se restringe ao racional. Ele foi uma pessoa. O conhecimento de Deus extrapola o cogito moderno. Cristianismo é sinônimo de compromisso, comunhão, solidariedade e busca da justiça. A obediência da fé tem mais possibilidade de compreender os mistérios de Deus que o estéril exercício da racionalidade.


Teologia não se algema à letra do texto. O texto, analisável gramaticalmente, mata. Certas verdades só são captadas pelo espírito. Elas pulsam na esfera da sensibilidade. Só com um novo nascimento, uma iniciação indescritível, vê-se o que está no sobrenatural. Para apreender o mistério divino é preciso nadar no rio que não dá pé. Encontram Deus os que voam com asas de águia. O Espírito batiza, mergulha no amor aqueles que buscam a Deus..


Só arranhamos a superfície do conhecimento de Deus, mesmo quando caem viseiras espirituais, rasgam-se máscaras da soberba e rompem-se vícios da linguagem.


Teologia não dá livre acesso ao sucesso. Quem acredita nisso vira carreirista; e seu fim será a perversidade. É preferível a discrição ao aplauso, o exílio aos holofotes. Melhor amargar o abandono a conviver com gente que embarca no sucesso passageiro das ideias simplórias.


Não se faz teologia para gerar adeptos, mas para transformar o próprio teólogo. O processo que articula ideias sobre Deus não pode desencadear intolerância, soberba, exclusivismo. Essa sabedoria merece ser descartada como demoníaca.


Teologia não pode ensimesmar. Pensar com liberdade significa vigiar para que vantagens, amparos, privilégios, não impeçam a alma de ser compassiva. É fácil abstrair sobre o sofrimento universal enquanto se vive em zona de segurança.


Se o projeto de Deus para a humanidade inclui o câmbio de corações de pedra em corações de carne, então que o processo comece por aqueles que compreenderam essa verdade. O teólogo molha os textos de lágrimas, impregna seu discurso com misericórdia, calça a história de ternura.


Conhecer a verdade significa dispor-se a caminhar ao sabor do vento; atirar-se a um navegar impreciso, trabalhar constrangido pelo amor e vivificado pela graça. O bom pensador enlaça a fragilidade com a bem-aventurança da mansidão – e com ela herda a terra.


Desde aquele dia ainda não sei se consegui contentar o meu interlocutor no almoço. Agora, com tempo, posso afirmar: em verdades assim eu creio.


Soli Deo Gloria


Vi no http://www.ricardogondim.com.br/estudos/o-que-entendo-por-verdade/