segunda-feira, 9 de agosto de 2010

0

O colapso do movimento evangélico



Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo "usados por Deus para salvar almas". Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o "ungiu para ressuscitar mortos".




Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, "eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes", como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .



Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.





É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico.É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.





Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o "mainstream" prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma "Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados".



Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os "ungidos" afirmam que sabem fazer "fluir as bênçãos de Deus". É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a "oração que move o braço de Deus”.



O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.



1. A teologia da Graça



Desde a Reforma, protestantes e católicos passaram a trabalhar a Graça como pedra de arranque de um novo cristianismo. O texto bíblico, “o justo viverá da fé”, acendeu o rastilho de pólvora que alterou a cosmovisão herdada da Idade Média. A Graça impulsionou o cristianismo para tempos mais leves. Foi a Graça que acabou com a lógica retributiva que mostrava Deus como um bedel a exigir penitência. Devido a Graça entendeu-se que a sua ira não precisa ser contida. O cristianismo medieval fora infectado por um paganismo pessimista e, por isso, sobravam espertalhões vendendo relíquias e objetos milagrosos que, segundo a pregação, “ garantiam salvação e abriam as janelas da bênção celestial”.





Lutero, um monge agostiniano, portanto católico, percebeu que o amor de Deus não podia ser provocado por rito, prece, pagamento ou penitência. Graça, para Lutero, significava a iniciativa de Deus, constante, unilateral e gratuita, de permanecer simpático com a humanidade. Lutero intuiu que Deus não permanecia de braços cruzados, cenho franzido, à espera de que homens e mulheres o motivassem a amar. O monge escancarou: as indulgências eram um embuste. Assim, Lutero solapava o poder da igreja que se autoproclamava gerente dos favores divinos.





Passados tantos séculos, o movimento neopentecostal, responsável pelas maiores fatias de crescimento entre evangélicos, abandonou a pregação da Graça. (É preciso ressaltar, de passagem, que o conceito da Graça pode até constar em compêndios teológicos, mas não significa quase nada no dia-a-dia dos sujeitos religiosos).





Os neopentecostais retrocederam ao catolicismo medieval. É pre-moderna a religiosidade que estimula valer-se de amuletos “como ponto de contato para a fé”; fazerem-se votos financeiros para “abrir as portras do céu”; “pagar o preço” para alcançar as promessas de Deus. Desse modo, a magia espiritual da Idade Média se disfarçou de piedade. A prática da maioria dos crentes hoje se concentra em aprender a controlar o mundo sobrenatural. Qual o objetivo? Alcançar prosperidade ou resolver problemas existenciais.





2. A compreensão da Fé



“A Piedade Pervertida” (Grapho Editores) de Ricardo Quadros Gouvêa é um trabalho primoroso que explica a influência do fundamentalismo entre evangélicos.



“O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de ‘forçar’ uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um ‘sacrifício’, como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus” (p.28).



Ora, enquanto fé permanecer como uma “alavanca que move os céus”, as liturgias continuarão centradas na capacidade de tornar a oração mais eficaz. Antes dos neopentecostais, o Movimento Evangélico já se distanciara dos Místicos históricos que praticavam a oração com um exercício de contemplação e não como ferramenta de como tornar Deus mais útil.



Fé não é uma força que se projeta na direção do Eterno. Fé não desata os nós que impedem bênçãos. Fé é coragem de enfrentar a vida sem qualquer favor especial. Fé é confiança de que os valores de Cristo são suficientes no enfrentamento das contingências existenciais. Fé aposta no seguimento de Cristo; seguir a Cristo é um projeto de vida fascinante.



O neopentecostalismo ganhou visibilidade midiática, alastrou-se nas camadas populares e se tornou um movimento de massa. Por mais que os evangélicos conservadores não admitam, o neopentecostalismo passou a ser matriz de uma nova maneira de conceber as relações com o Divino.



A alternativa para o rolo compressor do neopentecostalismo só acontecerá quando houver coragem de romper com dogmatismos e com os anseios de resolver os problemas da vida pela magia.



O caminho parece longo, mas uma tênue luz já desponta no horizonte, e isso é animador.



Soli Deo Gloria



Vi no http://www.ricardogondim.com.br/

segunda-feira, 12 de julho de 2010

0

A mais divina visão



O que do humano mais esperamos não passa de divinização cruel. O que chamamos de humanização, frequentemente, nada mais é que a idealização narcísea do outro. Bondade, paciência, justiça, polidez, bom senso, honestidade, equidade, pureza e todas as demais virtudes. Tudo muito lindo no meu discurso, mas um pesadelo nos ouvidos e na consciência dos que me rodeiam.




Imponho ao outro o que em mim imagino poderia ser perfeito. Exijo e puno todos a minha volta na proporção em que preciso esconder de mim mesmo a impossibilidade amarga de ser tão bom. O divino que me tortura é abrandado na medida em que culpabilizo o mundo. A gigante e divina moral me esmagaria se eu não o fizesse aos demais. Eis a origem dos conflitos.



Certamente foi esta imagem invertida que Jesus denunciou no moralismo dos fariseus. Chamando-os de guias de cegos, sepulcros caiados. Acusando-os de imporem aos demais o peso que eles mesmos não conseguiam carregar.



Aqui tropeçam secularmente as religiões e as políticas utópicas. Partem de universais que tem a autoridade do “ponto de vista do olho de Deus” (Richard Rorty) e com esta força moral idealizam um futuro imprescindível ao mundo mais humano, ou mais divino, no caso das religiões. E do alto desta perspectiva tornam-se o criadouro fértil dos discursos culpabilizadores e de seus filhos inevitáveis, os mecanismos de disfarces. Esgotados a utopia e seus moralismos e fracassados os simulacros coletivos, resta-nos ou o gosto insosso da apatia, ou o azedo do mais ácido pessimismo diante da realidade da vida humana.



Aqui entra a proposta de salvação trazida por Jesus. Sua resposta pelo que é verdadeiro e capaz de produzir salvação não está em uma utopia escatológica, nem em uma política revolucionária. Muito menos a salvação se apresenta em um conteúdo capaz de descrever a verdade, nem uma prescrição moral do “ponto de vista do olho de Deus”, esta sempre mata, dirá o Apóstolo mais a frente. A salvação não virá de Deus sobre a humanidade, já se tentou e não deu certo. A divina salvação virá da mais autêntica humanidade. Por isso Jesus diz de si mesmo: “eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.” Não como idealização da vida humana, mas como humanização da idéia divina.



A salvação humana não está em uma glória divina. A glória de Deus é a vida humana plena de si. “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1.14)



Não há um ponto de vista do olho divino que não seja uma grande ilusão. Em Jesus, o que há de mais divino tem plena visibilidade entre os humanos. “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido”. (Jo 1.18)



Jesus é o fenômeno humano experimentado sem tergiversações. Ele nasce em um mundo perigoso. Desenvolve-se na companhia de uma gente esmagada pelas políticas de dominação mundial. Cresce em um ambiente religioso tão intenso em sua devoção quanto o sofrimento e a humilhação de sua gente. Convive com a injustiça e a pobreza, com seus filhos miseráveis, as doenças do corpo e da alma. Mas levanta-se sob a autoridade de uma esperança profetizada e aguardada. Afirma-se o Cristo na medida em que realiza uma peregrinação libertadora.



No instante em que sua vida se torna um ingrediente de esperança, Jesus experimenta a mais cruel das manifestações de nossa humanidade, a injustiça. Sua influência também é um deslocamento de poder. E nada é mais temível para os poderosos que um jogo de poder que eles não saibam ou não possam jogar. Jesus inverte a moral dos conquistadores e chama de poderosos os mansos da terra, de legítimos herdeiros do Reino os pobres deste mundo, de bem aventurados os degredados pela desigualdade social. Relativiza as grandes doutrinas, volatiliza os ritos, elege os pequeninos como fonte de sabedoria e lhes confere o rosto divino. Aos poderosos só resta criminalizar alguém assim. Aos religiosos, reputá-lo herege e ameaça à fé. Criminoso e herege. Crucificado. Morto.



O percurso de sua morte não foi forrado por qualquer idealização. Foi um fim trágico e injusto e não se fingiu outra coisa. Nem Jesus aceitou qualquer movimento que escamoteasse a realidade dos fatos. Alertando aos discípulos sobre a confusão após sua prisão e morte, desconsiderou as palavras devotas e otimistas de Pedro: “Todos podem te abandonar, mas eu jamais te abandonarei”. Para a cura de Pedro Jesus deixou seu doce ceticismo: sua expressão de fé não duraria nem uma noite. “Antes que o galo cante…” Jesus também nos ensina a morrer.



Sob o testemunho de Jesus resta-nos retomar a pergunta pelo que nos humaniza, ou pelo que nos faz mais humanos. O humano não é uma divinização moral, já sabemos. Minha desconfiança é que o humano seja a própria liberdade. Que o humano seja a realidade de um ser que se descobre tão livre ante o seu destino quanto entregue ao absurdo de uma existência sem garantias excepcionais. Sua vida é assustadoramente provisória, mas esta também é sua salvação. Pois na vida os dissabores e insucessos também são provisórios. Sua fraqueza é sua força. A mesma fragilidade que o leva à tragédia é a flexibilidade que o leva à revolução. A suscetibilidade é a outra face necessária de sua liberdade. Suas conquistas podem ruir, mas Suas perdas também podem ser superadas.



Só existe outro nome além de liberdade capaz de nomear o fenômeno humano sem encapsulá-lo em uma moral asfixiante. Amor. A negação do humano, ou a desumanização, é todo e qualquer mecanismo que despreze a precariedade humana e finja uma divinização. É o cúmulo da indiferença. Mas a afirmação do humano, ou sua humanização, é um testemunho de amor. É a recusa de todo e qualquer processo de indiferença e fuga, é o abraço à vida em sua plenitude. Amor. A abertura mais corajosa e radical ao fenômeno humano.



O que nos salva em Jesus é seu testemunho de amor. Ninguém jamais viu a Deus, e sempre que tentou falar de seu ponto de vista, desumanizou. O que de Deus vimos em Jesus é tudo o que de Deus se pode ver: o humano do ponto de vista do humano, a mais divina visão.




Elienai Jr.



Vi no http://elienaijr.wordpress.com/
0

Sobre Deus



Não sei explicar as razões de minha fé. Não sei dizer os porquês de minha devoção. Sinto-me inadequado para convencer os indiferentes. Como fazer que desejem o mesmo sal que tempera o meu viver? Limitado, reconheço que tudo o que sei sobre o Divino é provisório. Não tenho como negar, minhas convicções vacilam. As certezas que me comovem são, decididamente, vagas.




Sei tão somente que Ele se tornou a minha meta, o meu norte, a minha nostalgia, o meu horizonte, o meu atracadouro. Empenhei o futuro para seguir os seus passos invisíveis. No dia em que o chamei de Senhor, a extensão do meu meridiano se alongou e os fragmentos de meu mapa existencial se encaixaram. Ao seu lado, caíram os tapumes da minha estrada e o ponteiro da minha bússola se imantou.



Sei tão somente que Ele se fez residente no campus dos meus pensamentos. Presente nos vôos da minha imaginação, transformou-se no mais doce ponto de minhas interrogações. Causa de toda inquietação, tornou-se a fonte de minha clarividência.



Sei tão somente que Ele se desfraldou como flâmula sobre meus ombros. Por amar tanto e tão formidavelmente, cilício, purgações, sacrifícios, tudo foi substituído por desassombro. No porão da tortura, nos suplícios culposos, achei um ambulatório, o seu regaço.



Livros contábeis, que registravam meus erros, foram rasgados. Encaro a eternidade com a sensação de que as sentenças estão suspensas. Já não fujo dEle como de um Átila. Eu o chamo de Clemente.



Sei tão somente que Ele ardeu o delicado filamento que acendeu a luz dos meus olhos. Ele foi o mourão que marcou o outeiro de minha alma; sou um jardim fechado. Ele é o badalo que dobra o sino do meu coração e o alforje onde guardo acertos e desacertos do meu destino.



Sei tão somente que Ele me fascina com a sua luz refratada em muitos matizes. Dele vem o encarnado que tinge a minha face com o rubor do sol. Seu amarelo me brinda com o açafrão do mistério transcendental. Vejo um roxo que me colore de púrpura real. Seu branco é lunar e me prateia. Seu preto me imprime de um nanquim celeste. Por sua causa, a minha alma espelha o azul dos oceanos virgens.



O que dizer de Deus? Tão pouco! Calado, só espero que o meu espanto celebre o tamanho da minha reverência.



Soli Deo Gloria




Ricardo Gondim



Vi no http://www.ricardogondim.com.br/

segunda-feira, 28 de junho de 2010

0

Teologia Narrativa



Teologia Narrativa




Paulo Brabo

02 de dezembro de 2007

Texto base da ocasião do 2º Café Teológico. Por Paulo Brabo





No princípio a terra era sem forma e vazia. No princípio era o Verbo. Ou, como se diz com outro vocabulário: era uma vez.





Quando ouviram pela primeira vez a palavra da Lei nos Dez Mandamentos, conta uma velha história rabínica, os israelitas desfaleceram. Suas almas os deixaram. A palavra então retornou a Deus e bradou:





– Ah, Soberano do Universo, tu vives eternamente e tua Lei vive eternamente. Mas enviaste-me a mortos. Estão todos mortos!





Por essa razão Deus teve misercórdia e tornou sua palavra mais palatável. Essa história traz duas lições. Primeiro que a palavra de Deus é poderosa. É sua própria identidade, e “quem pode resistir à sua presença?” Em segundo lugar, para tornar sua palavra-presença mais palatável, Deus encontrou uma solução: recontou-a sob a forma de histórias.





Quando o grande rabino Israel Shem Tov via a desgraça ameaçando os judeus era seu costume ir a um certo lugar da floresta para meditar. Ali ele acendia uma fogueira, proferia uma oração especial e o milagre era realizado e o infortúnio evitado. Mais tarde quando seu discípulo, o celebrado Magid de Mezritch, teve oportunidade, pela mesma razão, de interceder ao céu, ele foi ao mesmo lugar na floresta e disse: “Senhor do universo, ouve: não sei acender uma fogueira, mas sou ainda capaz de proferir a oração”, e novamente o milagre foi realizado. Ainda mais tarde o rabino Moshe-leib de Sasov, a fim de salvar seu povo mais uma vez, foi à floresta e disse: “Não sei acender uma fogueira e não conheço a oração, mas conheço o lugar da floresta e isso deve bastar”. Bastou e o milagre foi realizado. Então recaiu sobre o rabino Israel de Rhyzin afastar o infortúnio. Sentado em sua poltrona, cabeça entre as mãos, ele disse a Deus: “Não sei acender uma fogueira, não conheço a oração e não sei achar o lugar na floresta; tudo que posso fazer é contar a história, e deve bastar”.





Bastou.





De onde vem a obsessão dos judeus e dos rabinos, e portanto de Jesus, com a narrativa? Porque os escritores bíblicos preocupam-se menos com lugares, conceitos e idéias do que com relatos, parábolas e genealogias?





Pressuposto essencial do Primeiro e do Novo Testamento:

> Deus revela-se no fluido invisível do tempo, e não no tecido visível do espaço. Na seta indomável do tempo, não no círculo conquistável do espaço.





Costumamos pensar em ídolos como estátuas e imagens, coisas visíveis. Porém na época da revelação da Lei os ídolos dos outros povos eram menos deuses visíveis do que deuses essencialmente entranhados no espaço. Deuses territoriais como Baal, deuses definidos por onde estavam, por onde residiam, pelo território que dominavam, pelo local onde podiam ser encontrados, por onde deviam ser conjurados. Deuses do domínio do espaço.





Enquanto as divindades dos outros povos estavam associadas a lugares e coisas, o Deus de Israel era o Deus dos acontecimentos. Não estava confinado a um território ou a coisa alguma: nenhum templo, nenhum artefato, nenhuma imagem. Mesmo o projeto do tabernáculo (que era itinerante, e portanto não territorial) parece ter sido reação compassiva de Deus ao episódio do bezerro de ouro. Deus é invisível não por ser irreal, mas por dizer respeito à realidade do tempo.





Porém em toda a criação a primeira coisa a ser santificada não foi uma palavra, uma coisa, uma idéia, uma montanha, um tabernáculo: foi o sábado, um momento no tempo. Deus escolheu o sábado, um momento no tempo, para o santificar. A primeira providência de Deus é que reavaliemos nossas categorias de santidade: não um lugar, não uma coisa, mas um momento, ou seja, um trecho de narrativa. A santidade do tempo veio primeiro, depois a santidade do homem, e por fim a santidade do espaço.





Na civilização ocidental, tudo que não diz respeito à influência judaica - e de tudo que há de judaico na cultura cristã - diz respeito à obsessão do homem em conquistar o espaço. Somos expansionistas: queremos preencher o espaço. Nossa civilização, exatamente como egípcios, babilônios e filisteus, vive debaixo da idolatria da imagem, e portanto do espaço: associamos valor e beleza e espiritualidade a coisas visíveis e palpáveis no espaço. Ferramentas, computadores, ícones, periféricos, aplicativos, templos, ilustrações, programas de rádio, estudios de gravação, casas na praia, viagens à Grécia, à Disney ou à Palestina. Queremos preencher o espaço, dominá-lo, percorrê-lo - queremos ser definidos por isso. A Tela de plasma, a Ferrari, o Land Rover, os quadros na parede, os vinhos certos na geladeira, estão preenchendo o espaço - demonstrando que fomos capazes de conquistá-lo.





Somos muito menos acostumados a - e preparados para - dominar o tempo. Sabemos oferecer o melhor do espaço a nossos filhos, mas travamos porque não sabemos como oferecer a eles o melhor do tempo. Não sabemos o que fazer com o tempo: não sabemos olhar o tempo de frente. Por mais articulados, resolvidos e ricos que sejamos, aterrorizam-nos: sala de espera. Fila de banco. Aposentadoria. Férias. Momentos em que temos de lidar com o tempo. O tempo não pode ser dominado, é "invisível" e nos apavora.





É por isso que temos horror, tanto na qualidade de cristãos como na de cidadãos do século XXI, à manifestação mais essencial da devoção judaica, o shabat/sábado - o dia em que tudo que se deve fazer é encarar o tempo. O que nos assusta não é o ócio, o tempo "perdido e improdutivo," mas nossa incapacidade de lidar com o tempo, de encará-lo de frente, nossa cegueira em enxergar Deus nele.





É por isso que o shabat dos cristãos, o domingo, foi por nós inteiramente preenchido por atividades, de modo que ele não corresponde de forma alguma ao shabat, que é cessação e abstenção e continência. No domingo temos coisas para fazer e lugar para ir. O shabat como dia de cessação nos apavora porque nele não temos obrigação nenhuma a desempenhar e destino nenhum para alcançar. É um dia em que a passagem e a contemplação do tempo são fins em si mesmos, e isso nos é inconcebível.





Nós, precisamente como egípcios e gregos, somos obcecados por encontrar Deus no espaço. Os judeus - como Jesus e os primeiros cristãos - permanecem obcecados por encontrar Deus no fluxo do tempo.





O shabat permitiu que o judaísmo se definisse desde o primeiro momento como religião linear, e não rito circular.





Uma religião pode escolher definir-se, basicamente, pelo seu respeito aos ciclos ou pela sua obsessão com a história.





As religiões que optam pelos ciclos (vamos chamá-las, apenas por conveniência, de circulares) celebram incessantemente o [eterno] retorno dos ciclos naturais: as estações do ano, as épocas de plantio e colheita, o ciclo reprodutivo de homens e animais – e portanto o sexo. Seus rituais são construídos para cultivar aqui e agora, no presente, a beleza e o mistério do que sempre aconteceu e voltará invariavelmente a acontecer. Uma religião circular opinará que são inteiramente irreais os limites entre uma época e outra, entre uma geração e outra, entre uma manifestação da natureza e outra: e que, portanto, são ilusórias as distinções que fazemos usualmente entre homens e animais até mesmo entre uma pessoa e outra. Tudo é tudo, todos serão todos e todos já foram todos e misteriosamente o são. Não sobra, oficialmente, espaço para noções como a individualidade ou a singularidade da espécie humana.





As religiões que optam pela história (vamos chamá-las de lineares) enxergam a existência não como um círculo, mas como uma flecha com uma direção e um propósito, uma ousada aventura norteada por uma inteligência oculta e empreendedora cujo plano vai se executando e revelando progressivamente. Como não contam com os ciclos para manter a sua sanidade, as religiões lineares dependem incessantemente de revelações e de registros de revelações: definem-se pelos seus profetas, especialmente pela expectativa dos profetas e pelas histórias de profetas. Tendem por isso a ignorar o presente a a concentrar-se no futuro – e, com pelo menos a mesma paixão, no passado. Ao mesmo tempo, enfatizam a responsabilidade individual e a absoluta singularidade de tudo: do momento histórico, da criação, da espécie, da nação, do indivíduo, de Deus.





Os circulares andam em círculos, os lineares andam para frente e para trás. Os lineares almejam ousadamente estar onde nenhum homem jamais esteve; os circulares têm por certo que estão onde todos já estiveram e sempre estarão.





”A religião dos patriarcas estava infundida de um senso histórico que é caracteristicamente semita ou hebraico. Ao contrário dos povos estabelecidos em Canaã, que estavam mais preocupados em ajustar os ciclos da natureza e preservar o equilíbrio social, os hebreus errantes tendiam a expressar a sua fé na linguagem dinâmica da história. Eram peregrinos e aventureiros que, em reposta a um chamado divino, haviam deixado a sua terra de origem e partido para o desconhecido e para o incerto – rumo a uma terra que Deus lhes mostraria no devido tempo. Viviam por um empreendimento de fé, confiando que o seu futuro estava nas mãos do seu Deus”.





Embora fosse celebrado periodicamente, o shabat não correspondia a nenhum ciclo natural - da agricultura, da lua, das estrelas, do sol, do corpo humano. Sua recorrência era uma maneira de contar a passagem do tempo (religião linear) e não de celebrar um ciclo (ritos circulares).





No shabat não há templo para se ir, não há peregrinação para se fazer, não há ritual palpável para se cumprir. Trata-se de uma celebração cuja essência consiste em encontrar suficiência não em fazer (ou em deslocar-se, que é a mesma coisa) mas em existir. Ou seja, o desafio para o celebrante do shabat é o de dominar o tempo, e encontrar dessa forma Deus em seu próprio ambiente.





O domínio de Deus não é o espaço, é o tempo - e portanto seu modo de expressão não é o ídolo ("não farás para ti imagem...") nem a teologia conceitual, mas a narrativa.





* * *





Hoje em dia tendemos a pensar a respeito de Deus em categorias teológicas, e não narrativas. Sabemos descrever o mecanismo do pecado original e a economia da redenção; sabemos enumerar as quatro leis espirituais e desfiar a lista dos atributos de Deus. Defendemos e explicamos a nossa fé em termos de trindade, sacrifício substitutivo, imanência, soberania, graça irresistível. Acreditamos que a essência de Deus é transmitida de forma adequada e suficiente através de dogmas, proposições e conceitos. Discutimos se a Bíblia é ou contém a palavra de Deus. Se é cristã uma visão de mundo que contorne os conceitos da depravação total ou da perseverança dos santos. Se é possível conciliar predestinação com responsabilidade pessoal, livre-arbítrio com soberania de Deus.





De que forma o fluxo imponderável da narrativa consolidou-se na forma de proposições, sistemas e credos? Por que a parábola acabou substituída pela filosofia, a narrativa pela teologia sistemática?





O pontapé inicial dessa transformação foi a influência da filosofia grega na produção literária e visão ideológica dos primeiros cristãos. A cosmovisão judaica foi influenciada e por fim substituída pela noção grega de um deus impassível e fora do tempo - sendo que um Deus fora do tempo é inconcebível dentro da visão de mundo da Bíblia Hebraica.





O judaísmo encontrava Deus no fluxo dos acontecimentos, e portanto no idioma do tempo e da narrativa; os gregos (e, em conseqüência, os cristãos) buscavam cristalizar Deus no campo das idéias, e portanto dentro dos limites do espaço.





O judaísmo recusava-se - e ainda recusa-se - a permitir que Deus fosse reduzido ao nível das conclusões, dos conceitos e das idéias. A "teologia" judaica, epitomizada pelo Talmude, é dialética e não dogmática. O problema de tentar-se definir Deus através de idéias é que uma idéia, uma vez formulada, torna-se imediatamente um monumento, um marco fixo a que se pode voltar e diante do qual podemos nos dobrar. Um conceito estanque a respeito de Deus é, essencialmente, um ídolo - e emblema da nossa obsessão em tentar formulá-lo no espaço ao invés de vislumbrá-lo no tempo.





Blaise Pascal observou certa vez que o Deus da Bíblia é o “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”, não o Deus dos filósofos e dos sábios. “Isso é verdade no sentido de que a fé bíblica é, para perplexidade e escândalo de muitos filósofos, de caráter fundamentalmente histórico. Suas doutrinas são realidades e eventos históricos, não valores abstratos ou idéias existindo num reino atemporal”.





No entanto, pela influência dos gregos, a religião linear do judaísmo acabou virando rito circular na maior parte das manifestações posteriores do cristianismo.





O segundo golpe contra a visão narrativa de Deus veio com a glorificação da razão que configurou o Renascimento e o Iluminismo - e que discutiremos a seguir.





* * *





Recentemente, muitos teólogos tem começado a questionar a supremacia da teologia sistemática.





O primeiro problema da teologia sistemática, concluíram eles, é que essa intelectualização está baseada nas suposições de filosofias passadas e contemporâneas – que são por definição limitadas e condicionadas. A teologia sistemática codificada está irremediavelmente embutida num sistema específico e isso afeta suas conclusões e expressões. Em segundo lugar, todas as teologias sistemáticas, até hoje, são fechadas a outros com diferentes pressuposições e fundamentos, e são apenas uma peça do todo.





Em contraste, a narrativa consegue tocar de imediato qualquer pessoa, independentemente do sistema filosófico ou ideológico dentro dos quais tenha sido condicionada.





Muitos teólogos passaram por essa razão a questionar o que chamam de nossa “velha dependência química a um modo de pensar analítico, racionalista e prosaico”. Amos Wilder, por exemplo, critica “o imbecilizante axioma de que a verdade genuína (ou a verdadeira sabedoria) deve limitar-se ao que pode ser enunciado sob a forma de prosa conceitual, em linguagem denotativa, despida de qualquer sugestão conotativa; ou seja, num enunciado ou descrição de caráter científico”.





Thomas Driver:





"Alguns teólogos tem começado a demonstrar interesse na importância da narrativa, sentindo que o nosso discurso lógico, científico e teológico é secundário. Compartilho dessa visão. Tenho há muito refletido que a teologia é para a narrativa religiosa o que a crítica literária é para a literatura: mero comentário executado sobre uma forma superior de expressão. Sou um dos que crêem que a teologia afastou-se demais, no curso do tempo, de suas raízes narrativas. Encontro-me não apenas concordando que toda teologia tem origem em narrativas, mas também ponderando que todo conhecimento provém de um modo dramático de compreensão. Longe de meramente ilustrar verdades que já conhecemos de algum outro modo, a imaginação dramática é o modo pelo qual damos os passos essenciais rumo ao conhecimento de qualquer natureza".





* * *





Não é a partir do nada que estamos chegando a essa nova visão. Como o sujeito da parábola, estamos descobrindo um tesouro enterrado que nos precedeu. Esse modo narrativo de enxergar a revelação de Deus só parece novo e revolucionário enquanto desconhecemos as suas raízes judaicas a portanto bíblicas.





Depois de séculos de teologia sistemática, para que começássemos a redescobrir a importância da narrativa, foi necessário que fossemos tocados pelos ventos da pós-modernidade.





Quem fala em pós-modernidade está dividindo a história da civilização, muito grosseiramente, em três grandes períodos: a era pré-moderna, a era moderna e a era dos nossos dias – esta que, na falta de um nome melhor, convencionou-se chamar de “pós”.





A primeira era, a pré-modernidade, começou com o primeiro homem e estendeu-se a até algum momento do século XVIII. Durante todo esse período o ser humano manteve-se, basicamente, um bicho místico. A vida estava além do controle do homem e só podia ser explicada em termos sobrenaturais. Em geral não ocorreria a ninguém duvidar da realidade do mundo dos espíritos ou de coisa que o valha (digamos, o imaterial mundo das idéias de Platão), e todas as soluções aos problemas do ser humano dependiam da boa vontade de Deus ou deuses.





Perto de 1700 a modernidade fincou pé. A Renascença deu a primeira, o Iluminismo a segunda e definitiva estocada que tiraram Deus do centro das atenções e colocaram ali o homem e os esforços humanos – particularmente a razão. A principal característica da era moderna é a sua suprema confiança na mente humana. Gente como Descartes gravou a ferro e fogo na mentalidade ocidental a noção de que a razão é o único caminho para o conhecimento, e toda a era moderna partiu do pressuposto de que a razão e a ciência (aplicadas em todas as áreas: saúde, política, urbanismo, ética) trariam as soluções necessárias para os problemas da humanidade. O slogan da nossa bandeira brasileira, “Ordem e Progresso”, é tipicamente moderno em seu otimismo na iniciativa humana fundamentada no triunfo da sensatez e da razão.





Foi ao redor de 1960 que a maré começou a mudar. Coisas como a crise de energia, a teoria da relatividade, a guerra do Vietnã, a bomba de Hiroshima e os abusos do consumismo contribuíram para que as pessoas passassem gradualmente a concluir que a razão humana talvez não trouxesse, como prometera, respostas para os anseios mais profundos do mundo e do homem. Trezentos anos da supremacia da razão não haviam trazido nenhuma solução unânime para os problemas da guerra, da fome, da injustiça, do vazio existencial. A razão, concluíram esses, fracassara, e diferentes grupos independentes começaram a tatear em todas as direções em busca de alternativas. A revolução sexual, mística e química trazidas à luz pelos hippies dos anos 60 foram os primeiros movimentos que pressupunham essa desconfiança pós-moderna para com as soluções otimistas e pré-fabricadas da era anterior.





A pós-modernidade que se levantou das cinzas da modernidade é tremendamente difícil de definir – entre outras coisas, porque definição é conceito tipicamente moderno e pertence a uma era anterior. Pode-se dizer com segurança que o homem pós-moderno é ao mesmo tempo cético, espiritual e tolerante. Ele duvida da eficácia da razão, do pensamento linear, da lógica convencional, da explicação racional. Ele está portanto aberto a todas as formas de misticismo e religiosidade, mas não apostará na validade definitiva de nenhuma, porque crê que todas contém a sua parcela de “verdade” e nenhuma pode ter a pretensão de se posicionar como verdade definitiva – possibilidade que arruinaria a validade e a beleza das outras alternativas.





Por que que a igreja cristã não estava pronta e presente para acolher esses “filhos desiludidos” da razão e da modernidade logo que eles começaram a pipocar na década de 1960? Por que os hippies não se voltaram para a fé cristã quando precisaram satisfazer o seu anseio por uma espiritualidade real?





A resposta curta é que a igreja cristã havia, ela mesma, se dobrado no altar do modernismo. O discurso da supremacia da razão havia sido tão longo e eloqüente que até mesmo os cristãos tinham caído no logro da sua pregação. A igreja cristã havia de alguma forma adotado a noção paradoxal de que tudo a respeito da fé pode ser explicado e exposto racionalmente, inclusive as imponderabilidades da criação e da salvação.





A própria Bíblia havia caído vítima dessa ênfase excessiva na razão humana. Complicadas fórmulas eram e são utilizadas para provar que a escritura cristã faz sentido racional e é espelho fiel da realidade científica. Em 1793, Kant publicava A religião apenas dentro dos limites da razão, e quase duzentos anos depois Josh McDowell articulava ainda uma defesa racional da divindade de Cristo, demonstrando por A + B que a fé cristã é a escolha mais sensata na prateleira.





O problema é que, adotando essas interpretações racionais, a igreja confessava que a ciência e o racionalismo são os critérios pelos quais a realidade deve ser julgada.





Quando começaram a buscar onde saciar a sua terrível sede pelo espiritual e pelo místico, as pessoas foram forçadas a concluir que a fé cristã era simplesmente racional demais para interessá-las – e a igreja perdeu assim o bonde da pós-modernidade.





Chamar a Bíblia de pós-moderna seria anacronismo, mas creio que pode-se com segurança afirmar-se que os escritores bíblicos não tinham uma mentalidade moderna; não criam na supremacia da razão nem na superioridade da exposição linear e dos sistemas racionais.





Jesus, por exemplo. Para escândalo e perplexidade dos teólogos, Jesus não chegou nem perto de expor a sua teologia de forma sistemática. Tudo que ele deixou a fim de transmitir a sua mensagem foi o seu exemplo, um punhado de histórias curtas e uma longa série de frases de efeito, sendo que cada um desses elementos não parece sustentar qualquer conexão imediata com os outros. Para seus ouvintes e leitores tudo que o discurso de Jesus deixou foi uma série livre de imagens sem qualquer ordem ou prioridade particular: um videoclipe do reino, por assim dizer.





Jesus não fez uma série de conferências, não expôs as quatro leis espirituais, não definiu predestinação nem trindade, não pregou teses na porta do Templo, não apresentou uma vez que fosse o plano da salvação. Ao invés de apresentar um cenário racional e ordeiro, uma visão geral seguida por definições, demonstrações e apêndices, tudo que ele fazia era coçar a barba e dizer: “A que posso comparar o reino?...”





Os escritores bíblicos também não compartilhavam do nosso horror tipicamente moderno/racionalista à contradição. O livro de Gênesis, por exemplo, parece narrar a criação de duas formas contraditórias, e até a ascensão do modernismo isso nunca foi motivo de escândalo para ninguém. É racionalista até mesmo o esforço tradicional em conciliar as duas versões. Parece absurdo à mente moderna considerar que as duas possam ser ao mesmo tempo diferentes e verdadeiras: isso seria na nossa opinião relativizar a verdade. Os escritores bíblicos provavelmente chamariam a mesma coisa de transmitir uma profunda verdade espiritual.





Como não estava preso aos nossos escrúpulos com a racionalidade, Jesus sentia-se livre para dizer coisas como “Eu sou a luz do mundo” sem temer ser apanhado em contradição com a “verdade” científica de que a Terra é iluminada pelo sol e não por Jesus. Não é como se a realidade espiritual contradissesse ou relativizasse a realidade científica da importância do sol. Não há relativização aqui, embora as duas coisas sejam verdade ao mesmo tempo.





Ainda mais revelador é o fato de Jesus ter afirmado ser, ele mesmo, a Verdade com letra maiúscula – tirando dessa forma para sempre a verdade do domínio da razão. Se a verdade é uma pessoa ela não tem como ser comprovada ou refutada pelo método científico. Uma pessoa pode ser no máximo abraçada e experimentada, nunca explicada racionalmente.





A Bíblia traz um convite para nos relacionarmos pessoalmente com a verdade, e não um tratado para a comprendermos racionalmente.





* * *





Jesus nos ensinou e nos ensinou a ensinar através de narrativas, não de conceitos e abstrações. A narrativa é a forma menos dogmática de se ensinar, mas está longe de ser inofensiva: nas mãos de Jesus a narrativa era um irresistível saca-rolhas: denunciava subterfúgios e exigia posicionamento.





O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, influenciado genericamente pelo pensamento da modernidade e especificamente pelo racionalismo de Kant, opinava que a Bíblia apresenta uma tremenda desvantagem para uma obra com a pretensão de ser livro sagrado: sua natureza narrativa - o fato de ser e contar, essencialmente, uma história. Nossa obsessão com teologia demonstra que pensamos como ele. Precisamos ser constantemente lembrados que antes da teologia havia a narrativa.





Nossa história pessoal repete a do cristianismo. Aprendemos logo a expressar e compreender a nossa fé sob a forma de conceitos e abstrações: idéias como salvação, remissão, morte substitutiva, eleição, trindade, onisciência, justificação e predestinação; coisas que habitam uma dimensão paralela fora do tempo e da experiência do dia-a-dia.





O judaísmo (e o cristianismo do Novo Testamento) convidam-nos a entender a nossa vocação de um ponto de vista narrativo. O que os judeus sabem é que fazem parte de uma história singular e é isso que os define e lhes basta. Não há espaço para teologia porque não há simplesmente necessidade dela.





A diferença de visão de mundo entre judeus e cristãos fica mais espetacularmente evidente quando se compara o credo de um com o de outro. A profissão de fé judaica, a ser repetida anualmente pelo adorador quando trazia ao santuário os primeiros frutos da colheita, encontra-se no trecho entre o quinto e o décimo verso do vigésimo-sexto capítulo do livro de Deuteronômio. E diz o seguinte:





Arameu prestes a perecer foi meu pai, e desceu para o Egito, e ali viveu como estrangeiro com pouca gente; e ali veio a ser nação grande, forte e numerosa. Mas os egípcios nos maltrataram, e afligiram, e nos impuseram dura servidão. Clamamos ao SENHOR, Deus de nossos pais; e o SENHOR ouviu a nossa voz e atentou para a nossa angústia, para o nosso trabalho e para a nossa opressão; e o SENHOR nos tirou do Egito com poderosa mão, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres; e nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel. Eis que, agora, trago as primícias dos frutos da terra que tu, ó SENHOR, me deste.





Entre outras coisas, essa liturgia evidencia como a religião judaica transformou um evento eminentemente circular, a celebração anual da colheita, num momento que celebrava uma cosmovisão linear – Deus está envolvido nos eventos da vida do seu povo – através da rememoração da primordial história do Êxodo.





O que acho especialmente notável nessa confissão de fé é o fato dela ser totalmente narrativa; interpretativa por certo e talvez tendenciosa, mas inteiramente livre de abstrações e de necessidades teológicas. O adorador reconhece a mão de Deus na história do seu povo e na sua própria, e é grato por ela. Ponto final. Nenhuma tentativa de explicar a natureza de Deus ou destrinchar o seu plano. Nenhuma ambição de expor o mecanismo do universo ou da salvação. Compare com o credo dos apóstolos:





Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo um só seu Filho, Nosso Senhor: o qual foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, subiu aos céus, está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e mortos; creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.





Apesar do cerne narrativo que mantém o cristianismo na estatura linear, cravando Jesus num momento específico da história, o credo apostólico é um campo minado: cuidadosíssimo jogo de palavras em que cada termo inocente remete a um complexo conceito teológico correspondente. Algumas das expressões e conceitos do credo que apontam para seus próprios tratados de teologia:





1. Deus Pai

2. Deus Todo-Poderoso

3. Criador do céu e da terra

4. Jesus Cristo um só

5. Jesus Cristo seu Filho

6. Jesus Nosso Senhor

7. concebido pelo poder do Espírito Santo

8. Maria Virgem

9. desceu aos infernos

10. está sentado à mão direita de Deus

11. julgar os vivos e mortos

12. Espírito Santo

13. Santa Igreja

14. Igreja Católica

15. comunhão dos Santos

16. remissão dos pecados

17. ressurreição da carne

18. vida eterna





Isso, naturalmente, em poderoso contraste com o caráter límpido da profissão de fé de Deuteronômio, que por ser narrativa – uma história – pode ser lido e assimilado de imediato por qualquer um.





O judeu, em seu credo, recorda o que Deus fez na história e retraça a atividade divina do nascimento do seu povo até o preciso momento presente e sua precisa benção. O cristão, no seu, estabelece distinções e categorias que pressupõe fundamentais, define termos e parece crer que o que caracteriza sua fé pessoal está na sua capacidade de elencar e abraçar uma série precisa de crenças corretas.





* * *





Muitos pensadores cristãos, em particular Philip Yancey e Ricardo Gondim, tem chegado à conclusão que a visão mais acurada a respeito de Deus não está confinada nos tratados de teologia sistemática, mas viva nas obras de ficção e nos exercícios de narrativa - muito claramente em romances como os de Vitor Hugo, Dostoiévski e Tolstoi.





Mas até que ponto chega a supremacia da narrativa? Tolkien cria que a narrativa cristã era poderosa o bastante para redimir toda a obra criativa do homem, expressa em todos os mitos e lendas de todas as culturas. Graças à narrativa cristã, diz ele, a arte "foi comprovada".





Eu ousaria dizer que, analisando a Narrativa Cristã por esse prisma, tem sido há muito meu sentimento (jubiloso sentimento) que Deus redimiu as criaturas criadoras-de-corrupção, os homens, de um modo que incluiu também esse aspecto, tanto quanto os outros, de sua estranha natureza. Os evangelhos contém um conto de fadas, ou uma narrativa de natureza mais abrangente que abarca toda a essência dos contos de fadas. Eles contém muitas maravilhas, particularmente artísticas, belas e emocionantes: “míticas” em sua significância perfeita e suficiente e ao mesmo tempo poderosamente simbólicas e alegóricas – e entre as maravilhas a maior e mais completa concebível é a eucatástrofe. O nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história humana. A ressurreição é a eucatástrofe da narrativa da Encarnação. Essa história começa e termina com júbilo. Ela exibe de forma proeminente aquela “consistência interna de realidade”. Não há história jamais contada que os homens prefeririam que fosse verdadeira, e nenhuma que um maior número de homens céticos tenha aceitado como verdadeira por seus próprios méritos. Pois a sua Arte exibe o tom supremamente convincente da Arte Primeira, isto é, da Criação. Rejeitá-la conduz à loucura ou à ira.





Mas no Reino de Deus a presença do maior não deprecia o menor. O homem redimido é ainda homem. Contos e fantasias persistem ainda, e devem persistir. O Evangelho não abrogou as lendas; ele as santificou, especialmente no que diz respeito ao seu “final feliz”. O cristão tem ainda de trabalhar, com sua mente e com seu corpo, para sofrer, esperar e morrer; porém ele agora percebe que suas inclinações e faculdades têm um propósito que pode ser redimido. Tamanha é a dádiva que lhe foi concedida que ele é capaz agora, talvez, de intuir que pela Fantasia ele pode de fato contribuir no processo de esfoliamento e variado enriquecimento da criação. Todos os contos podem tornar-se realidade; e ainda assim, ao final, depois de redimidos, eles podem se mostrar tão similares e distintos das formas que damos a eles quanto o homem, finalmente redimido, será similar e distinto ao caído que agora conhecemos.





Não é difícil imaginar a tremenda empolgação e alegria que se faria sentir se descobríssemos que algum conto de fadas particularmente belo se mostrasse “primariamente” verdadeiro, sua narrativa se provasse factualmente histórica, sem que ele ainda assim perdesse necessariamente a significância mítica e alegórica que possuía. Não é difícil, pois não se requer que nos esforcemos de modo a conceber algo de qualidade desconhecida. Esse júbilo teria exatamente a mesma qualidade, se não o mesmo grau, do júbilo que produz a “reviravolta” final num conto de fadas: um júbilo tal que exibe o sabor distinto de verdade primária (de outro modo não poderia ser chamada de Júbilo). Ele antecipa (ou reporta ao passado – a direção temporal não é nesse sentido importante) a Grande Eucatástrofe. O júbilo cristão, a Glória, é da mesma natureza; ele é porém proeminentemente (infinitamente, se nossa capacidade não fosse finita) elevado e regozijante. Pois essa história em particular é suprema – e é verdadeira. A Arte foi comprovada. Lenda e História encontraram-se e fundiram-se. Deus é Senhor de anjos, homens e elfos. (J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis




Sobre contos de fadas, epílogo).




Vi no http://cafeteologico.com.br/br/index.php?option=com_content&task=view&id=127&Itemid=11

quinta-feira, 24 de junho de 2010

0

Desigrejados sim, desviados não!




Acredito ter sido o primeiro a usar a expressão “desigrejados”. Estava em busca de uma palavra que expressasse a condição de muitos cristãos de nossos dias, daí surgiu esse neologismo. Aqui nos Estados Unidos, cunhou-se a expressão “churchless” para designar esta enorme massa de crentes que deixaram os currais denominacionais para servirem a Deus em seu próprio ambiente doméstico.




Ser “desigrejado” não é o mesmo que ser “desviado”. O desviado seria aquele que não apenas deixou a igreja, mas afastou-se do próprio Cristo, voltando às práticas pecaminosas que antes dominavam sua vida.



Já o desigrejado não pretende afastar-se de Cristo, nem de Seus ensinamentos, mas tão-somente da máquina eclesiástica.



Solidarizo-me com os milhões de desigrejados espalhados em nosso País, ainda que eu mesmo não me considere propriamente um.



Embora seja bispo de uma igreja sediada no Brasil, tenho experimentado um pouco da sensação de ser desigrejado durante meu exílio aqui nos Estados Unidos. Não deixei de pregar para nossa igreja, ainda que via Skype com freqüência semanal. Até a Ceia tenho celebrado com minha família, com transmissão ao vivo para o Brasil. Nosso povo lá, e nós aqui, todos ao redor da Mesa do Senhor. Embora unidos no espírito, temos estado separados fisicamente por mais de um ano. Temos saudade do calor humano, do cheiro de gente, das atividades da igreja, etc.



Creio que esta sensação de exílio tem sido sentida por muitos desigrejados. No meu caso, devido à distância geográfica. Mas para muitos, deve-se a outros fatores, tais como, discordância doutrinária, não conformismo com a maneira em que a igreja tem sido conduzida, etc.



Os blogs apololéticos têm servido de púlpito para muitos desses cristãos autênticos, que decidiram não se dobrar ao espírito de Mamom. Eles se alimentam do que neles têm sido postados diariamente.



Infelizmente, não dá para dizer o mesmo da maioria dos programas evangélicos veiculados nos canais de TV ou em emissoras de rádio, onde a marca registrada é o proselitismo descarado.



Fenômeno semelhante ocorreu durante os dias da igreja primitiva. Houve um êxodo de cristãos que abandonaram o templo em Jerusalém e as sinagogas espalhadas pelo império, para servir a Deus em suas próprias casas. Santuários cristãos só surgiriam séculos depois com a paganização do cristianismo.



Os desigrejados não estão abandonando a Igreja, como geralmente se alega, e sim as estruturas denominacionais que se arrogam o direito de se intitular “igreja”. A Igreja de Cristo não é e nunca foi presbiteriana, batista, metodista, pentecostal, episcopal ou coisa parecida. Tais termos designam estruturas eclesiásticas. Isso inclui a denominação que presido. Muitíssimas vezes tenho declarado em nossos cultos: O Reino é muito maior que a REINA (nome de nossa denominação). O problema é que estamos mais preocupados em preservar os odres do que o vinho.



As estruturas denominacionais servem como andaimes usados na construção da genuína Igreja. Depois que esta estiver pronta, de nada servirão aquelas. Foram feitas pra acabar.



Meu conselho aos desigrejados é que busquem unir-se para cultuar a Deus e dar testemunho do Seu amor. Seu desânimo para com as instituições é justo. Mas não permitam que isso lhes afaste da prática do primeiro amor.



Por Hermes C. Fernandes
 
 
 
Vi no http://hermesfernandes.blogspot.com/
 

segunda-feira, 21 de junho de 2010

0

Seria o Espirito Santo responsável por tanta bizarrice?



Pra início de conversa, quero deixar claro que creio na contemporaniedade dos dons espirituais. Em outras palavras, não sou cessacionista. Os dons devem permanecer na igreja até que tenhamos chegado à perfeita varonilidade, à estatura de Cristo (Ef.4:13). A meu ver, ainda estamos longe disso.




Entretanto, considero uma blasfêmia atribuir certas manifestações bizarras ao Espírito de Deus.



É deprimente assistir pelo Youtube a cultos onde as pessoas são tomadas de êxtase, girando de um lado pro outro, em gestos e expressões corporais muito parecidos com os encontrados no candomblé.



Por que razão o Espírito Santo, meigo do jeito que é, levaria pessoas a se contorcerem no chão, ou a descaracterizarem suas fisionomias?



O Apóstolo Paulo afirma que as manifestações do Espírito são para aquilo que for útil (1 Co.12:7). Então, que utilidade tem derrubar as pessoas? Que utilidade tem ficar rodopiando pelo salão da igreja?



Recuso-me a crer que tais bizarrices sejam provocadas pelo Espírito de Deus.



Você imaginaria os discípulos de Jesus fazendo tais coisas? Ou mesmo Jesus, o Filho de Deus, com Sua face desfigurada, falando em línguas aos berros?



Tais manifestações devem ser atribuídas à infantilidade de alguns crentes. Não duvido de sua sinceridade, nem mesmo ponho em xeque sua experiência com Deus. Porém, a maneira como extravasam suas experiências se deve mais ao condicionamento adquirido em suas congregações.



Se numa determinada igreja, as pessoas possuem manias excêntricas de expressar o gozo do Espírito, um novo crente acabará assimilando os seus trejeitos.



Há também uma pitada generosa de exibicionismo. Em certas comunidades, a espiritualidade é aferida pelo volume do grito, ou pela habilidade em sapatear de olhos fechados. Isso acaba produzindo gente doente, que no afã de chamar atenção, é capaz de qualquer coisa, por mais ridícula que seja.



E o pior é o escândalo que isso pode provocar na comunidade.



Paulo diz que nosso culto a Deus deve ser racional (Rm.12:1), e que devemos deixar de lado as coisas de menino (1 Co.13:11).



Em vez de pular, rodopiar, fazer caras e bicos, que tal nos prostrar diante do Senhor e adorá-lO em espírito e em verdade?



Ademais, Jesus disse que o Espírito Santo não chamaria a atenção para Si mesmo, mas para Cristo (Jo.16:13-14). Ele é como um holofote sobre Jesus, e não Alguém que queria ser o centro das atenções. Por isso, Ele costuma ser tão discreto.





Abaixo, algumas considerações suplementares:





1 - Quando digo que considero uma blasfêmia atribuir certas manifestações ao Espírito Santo, não estou me referindo ao tal "pecado imperdoável", que seria basflemar contra o Espírito (se bem que tenho uma visão um pouco distinta do que seja tal pecado). Usei o termo "blasfêmia" para enfatizar o que penso, pois por causa de tais manifestações, o nome de Cristo tem sido vituperado.



2 - A primeira reação que os transeuntes tiveram ao assistirem à manifestação do Espírito no dia de Pentecostes, foi de maravilhamento, porque os discípulos falavam línguas das quais não tinham qualquer conhecimento. Apenas um grupo zombou, afirmando que estariam bêbados. Mas o texto não diz que eles cambaleavam, rodopiavam, ou coisa parecida. Eles apenas anunciavam a glória de Deus em vários idiomas.



3 - Quanto à utilidade de tais manifestações, não vejo qualquer ligação entre elas e a cura, ou outro dom espiritual. Jesus curou tanta gente, sem que nenhuma precisasse contorcer-se. O único que se jogou ao chão, foi o que tinha um espírito maligno que o lançava no fogo e na água.



4 - Veja o quanto o Espírito Santo foi discreto no Dia de Pentecostes: a primeira mensagem pregada por Pedro, tão logo fora cheio do Espírito, foi sobre a Cruz de Jesus, e não sobre os dons do Espírito. Ele apenas explicou o que era aquele fenômeno, e em seguida concentrou-se em pregar a Jesus.
 
 
 
Por Hermes C. Fernandes
 
 
 
Vi no http://hermesfernandes.blogspot.com/
 


0

Desigrejados, uni-vos!



Jesus peitou o sistema religioso de Sua época, mesmo sabendo o alto preço que teria que pagar por Seu atrevimento.




Ele disse que faríamos obras ainda maiores. E por quê maiores? Quem somos nós para superarmos o nosso Mestre?



O fato é que, quando Jesus caminhou entre nós, o sistema religioso, por mais refinado que parecesse, ainda era rudimentar em comparação aos nossos dias.



Hoje, se quisermos seguir os passos de Cristo, teremos que peitar uma verdadeira indústria religiosa, onde as pessoas são vistas, ora como produtos, ora como clientes, e ora como engrenagens.



O que muitas vezes é chamado "discipulado", nada mais é do que a produção de seguidores em série, soldadinhos de chumbo, réplicas perfeitas de seus mentores.



Não foi isso que Jesus planejou quando recrutou Seus primeiros discípulos na Galiléia. Jamais foi Sua pretensão que a igreja se tornasse numa fábrica de lunáticos.



O discipulado autêntico é aquele que nos desafia a encarnar a mensagem de Cristo, tornando-nos agentes transformadores do Reino, inseridos numa sociedade corrompida. O verdadeiro discipulado é o que envia ovelhas para o meio dos lobos.



O mais importante não é encher a igreja, mas encher o Mundo com o conhecimento de Deus.



Enquanto quebramos maldições hereditárias, o abismo entre gerações se acentua, e assim, 'maldições existenciais' se perpetuam.



Buscamos cura interior, enquanto lá fora, há chagas sociais que precisam cicatrizar, hemorragias que ainda não foram estancadas.



Discutimos o sexo do anjos, enquanto pequenos anjos, abandonados nas ruas, são molestados diariamente por quem deveria protegê-los.



Reagimos violentamente contra leis que poderiam prejudicar a igreja, mas não nos importamos com leis que prejudicam os mais necessitados.



Mania de coar mosquitos e engolir camelos!



- Limpem bem seus pés quando entrarem no templo para não estragar o carpete novo.

Amém ou não amém? E não se esqueçam de se escrever em mais um congresso a ser realizado no hotel tal, por uma bagatela de 400 reais.



Tornamo-nos uma caricatura da igreja de Jesus.



Enquanto a sociedade se debruça sobre questões de primeira grandeza, voltamo-nos para nós mesmos, preocupados com questiúnculas.



- Não podemos perder para os gays, não é verdade? Se eles reuniram três milhões em sua infame parada, vamos reunir o dobro em nossa marcha pra Jesus.



Grande coisa!



Ah se os crentes soubessem que muitos desses manifestos são apenas demonstrações de poder político!



É por essas e outras que, a cada dia, cresce assustadoramente o número de desigrejados. Uma massa descontente com os rumos tomados pelas igrejas.



Quando sairemos às ruas em favor do oprimido? Quando deixaremos de lado nossa postura arrogante e estenderemos as mãos aos necessitados?



Enquanto mantivermos o dedo em riste, em espírito inquisitório, o mundo nos dará outro dedo.



Quando as igrejas deixarem de ser currais eleitorais, e se tornarem centros de cidadania; quando deixarem de se preocupar com o próprio umbigo, e voltar-se para fora, então a esperança triunfará. O dedo que antes apontava os erros, passará a indicar o caminho.

 
 
Por Hermes C. Fernandes
 
 
Vi no http://hermesfernandes.blogspot.com/
 
0

Dores e dores



Algumas dores são localizadas. Outras se disseminam; tudo dói. Explico melhor. Algumas feridas só machucam no local; uma queimadura, um espinho, uma contusão, indicam exatamente o lugar e o tipo de dor. Mas há sofrimentos que se alastram de tal maneira que se perde inclusive a origem da ferida. Basta apertar onde foi machucado e sensações desagradáveis se espalham como ondas. A dor fica sistêmica. Mas isso vale não só para o físico. Há feridas da alma que são septicêmicas.




As feridas narcísicas, por exemplo, não machucam apenas em um determinado ponto. Elas se transformam em agonias integrais. Feridas narcísicas são as que vêem da infância ou quando o esforço de firmar a identidade foi frustrado. E sempre que alguém toca nessas ulcerações da alma, tudo sofre.



Por isso, sejamos sempre cuidadosos com os juízos. Podemos lacerar uma pessoa por inteiro. Os juízos são sempre temerários. Quanto menos conhecemos uma pessoa, mais rápidas as sentenças. Caso tivéssemos acesso aos dilemas mais íntimos, às disfuncionalidades familiares mais antigas, talvez usássemos de mais misericórdia quando condenamos.



O rei Davi optou ser julgado por Deus e não pelos homens porque sabia que Deus conhece os porões subjetivos do espírito, as hesitações da alma e os medos do coração. E os homens concluem com vereditos precipitados; com análises superficiais.



Zidane, o jogador de futebol francês, perdeu a distinção porque um adversário fez algum comentário danoso sobre sua mãe e irmã. Cutucado na ferida narcísica, todo o homem reagiu. Cristo advertiu àqueles que desprezam essas sensibilidades e partem para chamar o próximo de “raca”, que significa louco. Eles são dignos do inferno.



Já constatei o estrago que uma palavra mal dada produz, pois tratei de pessoas destruídas pela dor narcísica. Não existem xingamentos ingênuos, tudo o que se fala não produzi efeitos momentâneos, mas consequências boas ou arrasadoras na autoestima de alguém. Em minha breve existência, cuidei de mulheres destruídas por comentários levianos. Conheci homens boicotados de se tornarem tudo o que podiam porque alguém, que conhecia suas feridas narcísicas, alfinetaram onde mais doía. Para destruir uma pessoa, basta lembrar malfeitos, vergonhas públicas, deficiências físicas, inadequações familiares. A música interpretada por Ana Carolina carrega uma sensibilidade especial. Ela fala de um “vendedor de flores que ensina seus filhos a escolher seus amores”. Quanta ternura! O mundo seria diferente se lidássemos com o próximo com a delicadeza de quem mexe com pétalas de rosa.







Educação, finesse e sensibilidade não vêem de berço. São construções que demoram às vezes a vida toda. Nesta geração individualista, em que as pessoas mal se preocupam com a felicidade alheia, já faltam espaços para cuidar de tantos que pedem ajuda para dores que nem eles mesmos conseguem expressar.



Zelemos com um guarda nos lábios para que nossas palavras produzam vida, nunca morte.




Vi no http://www.ricardogondim.com.br/
0

Visitas ao inferno



Já visitei o inferno. Estive lá em vida. Já entrei em suas câmaras horrendas diversas vezes. Em todas, padeci muito. Nada sei sobre o "Hades" mencionado pelos religiosos. Aquele que jaz embaixo da terra e começa depois da morte não me interessa. O inferno que já conheci e que me machuca fica aqui mesmo, na terra dos viventes.






Já estive no inferno do engano. Há algum tempo, visitei um parque suíço, em Zurique, para onde convergiam os toxicômanos da cidade. Subi o viaduto que atravessa o parque e do alto contemplei um cenário surreal e dantesco. Lama, lixo e fezes, atolavam rapazes e moças naquele submundo. Ali não existiam humanos, apenas carcaças ambulantes. Naquela mesma noite, no avião, desejei dormir profundamente só para fugir do que testemunhara. Eu preferia qualquer pesadelo a ter que conviver com aquele cenário, tão real. Perguntei-me diversas vezes quem eram aqueles jovens. E porque se revoltavam contra o sistema. Se tentavam ser livres, criaram uma masmorra. Acabaram construindo o inferno com as próprias mãos.



Daquele dia, despertei: o Lago de Enxofre permeia o mundo em que existo. Cada um daqueles jovens tinha um pai. Um pai que pranteia porque não sabe como apagar as labaredas medonhas do lago de enxofre.



Já estive no inferno da culpa. Hoje sei que nenhum tormento provoca maior dor que a culpa. Qualquer mulher culpada sabe o tamanho de sua opressão. Qualquer homem culpado fala que os ossos derretem com uma consciência pesada. Culpa é ácido. A culpa avisa que o passado não pode ser revisitado. Assim as pessoas se submetem a carrascos internos e esperam redenção através de açoites. A dor da culpa lateja como um nervo exposto.



Os culpados procuram dissimular o sofrimento com ativismos, divertimentos e até promiscuidade. Mas a culpa não cede; persegue, persegue, até aniquilar iniciativa, criatividade e esperança. Recordo quando, no final de uma reunião, uma mulher me procurou pedindo ajuda. Seu marido se suicidara de forma violenta. Depois de enroscar uma tira de couro no pescoço, deu partida em um motor, que não só o estrangulou como lhe decepou a cabeça. Mas antes, ele procurou vingar-se. Deixou uma nota responsabilizando a mulher pelo gesto trágico. Diante da tragédia, aquela pobre mulher, desorientada e aflita, não sabia como sair do cárcere que o marido meticulosamente construíra.



Já estive no inferno da maldade. Conheci homens nefastos. Sentei-me na roda de ímpios. Frequentei sessões onde o martelo inclemente da religião espicaçou inocentes. Vi sacerdotes alçando o vôo dos abutres. Semelhante às tragédias shakespeareanas, eu próprio senti o punhal da traição rasgar as minhas vísceras. Fui golpeado por suspeitas e boatos. Com o nome jogado em pocilgas, minha vida foi chafurdada como lavagem de porco. Senti o ardor do inferno quando tomei conhecimento da trama que visava implodir o trabalho que consumiu meus melhores anos. E eu não sabia como reagir.



Portanto, quando me perguntam se acredito no inferno, respondo que não, não acredito. Eu o conheço! Sei que existe. Eu o vejo ao meu redor. Inferno é a sorte de crianças que vivem nos lixões brasileiros. Inferno é o corredor do hospital público na periferia do Rio de Janeiro. Inferno é o campo de exilados em Darfur. Inferno é a vida de meninas que os pais venderam para a prostituição. Inferno é o asilo nos Estados Unidos, que não passa de um depósito onde os velhos esperam a morte.





Um dia, aceitei a vocação de lutar contra esses infernos que me rodeiam, assustam e afrontam. Ensinei e continuo a ensinar que Deus interpela homens e mulheres para que lutem contra suas labaredas. E passados tantos anos, a minha resposta continua a mesma: “Eis-me aqui, envia-me a mim”.



Acordo todos os dias pensando em acabar com os infernos. Gasto a minha vida para devolver esperança aos culpados; oferecer o ombro aos que tentam se reconstruir; usar o dom da oratória para que os discriminados se considerem dignos. Luto para transformar a minha escrita em semente que germina bondade em pessoas gripadas de ódio. Dedico-me ao estudo porque quero invocar o testemunho da história e mostrar aos mansos que só eles herdarão a terra onde paz e justiça se beijarão.



Soli Deo Gloria




Vi no http://www.ricardogondim.com.br/

sexta-feira, 18 de junho de 2010

0

Deus Perfeito



Não conhecemos o Deus perfeito como da descrição dos gregos.

Só conhecemos o Deus da e na história.



O Deus perfeito é um deus do mundo das idéias. Evidentemente uma imagem que melhor se adéqua à descrição de alteridade - de um Deus para além de nós. Isto é muito importante para reconhecermos Deus em sua “complexa” singularidade. Mas nossa fé apregoa uma vida a ser vivida com o Deus vivo e real. Por isso para a nossa fé, interessa o Deus da e em nossa realidade. Este que homens e mulheres podem testemunhar porque o percebem em suas vidas e ao redor.



Logo na abertura da Bíblia encontramos Deus perguntando: Adão onde estás? Esta narrativa demonstra uma imperfeição de alguém que não sabe e não está ou estivera presente.

Este é o Deus que as Escrituras revelam. Um Deus inserido e adequado à nossa realidade que muda (Jr 18:8-10); que às vezes não sabe ao certo o que os homens farão (Jr 26:2-3; Dt 8:2); e até mesmo o que fazem (Gn 18:20-21).



Não discuto o fato de Deus ser perfeito, assim creio. Apenas coloco que o Deus acessível se manifestou a nós, se revelou dentro de nossa capacidade de constatação e se fez adequado à nossa intelectualidade, portanto imperfeito.



Nosso Deus só pode ser descrito como perfeito, na dimensão do amor. Não conhecemos e nunca vimos o Deus perfeito grego. Mas a Bíblia nos insere a um Deus amoroso e bom. Sendo amor é pertinente à nossa sensibilidade e compreensibilidade, mas para as definições gregas, imperfeito. Para amar chegou ao extremo de se fazer igual e assumir todo o sofrimento humano. Este Deus encarnado é o único que conhecemos.



Se fizermos o caminho das definições, até mesmo quando pensamos no nada, para nós trata-se de alguma coisa, porém negada. O nada acaba não existindo como descrição. Isto nos leva a perceber como apenas interpretamos nossa existência. O referencial que temos para descrever qualquer coisa é este. A perfeição descrita por nós é aquela que nega nossa realidade. Sendo assim se insistirmos em definir Deus a partir da perfeição o negamos e contradizemos nossa fé, pois a revelação de Deus se dá na afirmação e não negação da realidade. Se não me falha a memória foi Tomás de Aquino que disse que “só conhecemos Deus pela negação”. Isto é verdadeiro se o tomamos como perfeito, mas se compreendemos a encarnação, podemos conhecê-lo em toda sua plenitude aqui neste mundo.



Definir Deus como perfeito e defendê-lo dentro desta categoria é idealizá-lo. O problema é que de nada vale servir a um Deus idealizado, porque este não participa da nossa imperfeita realidade, mas apenas da teoria. Este Deus perfeito não fala conosco, nem toca a nossa vida. Somente o Deus amor. Idealizado até conseguimos tê-lo como alvo de fé, mas não como o Emanuel que nos acompanha e está inserido na nossa história.



O Deus perfeito só participa como um Deus para além de nós. O Deus Emanuel já chegou e sempre está. Hoje é dia de salvação. Hoje devemos ouvir sua voz. Sendo assim, vivamos o Emanuel inserido na nossa realidade. Esta é a firme âncora das nossas almas, Jesus Cristo, que nos assegura para dentro de onde ainda não chegamos: ao encontro do Deus invisível, mas real.



Eliel Batista



Vi no http://www.elielbatista.com/
0

Quem intercede por nós?



Atrevo-me mais uma vez a tentar pensar sobre oração. Aliás, para não correr risco de tentar racionalizar o mistério, prefiro iniciar meu pensamento naquilo que antecede a oração.




Se entendermos a oração como uma comunicação entre Criador e criatura, a imagem que fazemos ou temos de Deus influencia diretamente na maneira como oramos.

Se para o fiel Deus é um severo juiz, estar na presença dEle causa medo e deixa-o inseguro. E assim por diante.



Para uma fé trinitariana, acredito que dentre todas as imagens, a da Trindade é a que mais precisa ser resgatada nas nossas orações, principalmente porque nos dedicamos mais a orar petições e intercessões e nisto está implícito a relação existente entre Pai, Filho e Espírito Santo e como nos comportamos neste meio, pois orar consiste em participar desta comunhão.



Jesus nos diz que sua unidade com o Pai é indissolúvel. Ele não veio por si mesmo,(Jo 5:44; 8:42) não falou suas próprias palavras (Jo 7:16) e não agiu de sua própria cabeça (Jo 8:28), mas tudo é do Pai (Jo 13:3).



O Espírito Santo não fala, não revela e não age por si mesmo, mas sim em função do Filho (Jo 16).



O Pai exalta, glorifica e revela o Filho.



Assim, há um só pensamento e um só Deus. Entre eles não há discórdia, desajustes, desencontros e resistência. Tudo de um é do outro. Se há um só Deus e Senhor sobre todos, há um só pensar, uma só intenção para com todos (Jo 12:50).



Isto muda completamente, muito daquela imagem que comumente se tem ao orar. Entendemos que pedir ao Pai em nome do Filho com a ajuda do Espírito Santo é resolver um problema de distância ou de resistência do Pai em relação a nós. Jesus se uniria ao Espírito Santo para formar um pára-raios ou pára-choques na relação de Deus para com os homens.



Um texto bastante conhecido é aquele que Paulo escreveu aos Romanos que encontra-se registrado em 8:26-27 “Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus”.



Neste texto é muito comum imaginarmos os fiéis tentando comunicar alguma coisa para Deus e Ele sem entender do que se trata ou pior ainda com resistências para atender porque trata-se de ralés criaturas, só cede se o Espírito Santo e o filho entrarem na conversa.



Quando ouço Jesus falando algumas coisas fico pensando sobre esta lógica, se faz sentido...

Mt 6:8 o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.

Mt 6:3-32 Portanto, não se preocupem, dizendo: 'Que vamos comer?' ou 'Que vamos beber?' ou 'Que vamos vestir?' Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas.



Deus sabe tudo a nosso respeito, conhece nossas necessidades, nossas palavras antes de proferirmos e até mesmo as intenções com que as dizemos. Ele também nos ama, cuida de nós e exerce sua graça estendendo suas renovadas misericórdias sem fim a cada dia.



Disto surgem muitas perguntas:



Cada componente da trindade tem um pensamento diferente a nosso respeito?

Qual o papel do Espírito Santo?

Deus não nos entende?

Ele não sabe o que precisamos?

Deus precisa ser convencido? Deus tem intenções a nosso respeito diferente do Espírito Santo?

O Espírito Santo teria o jeitinho brasileiro para convencer Deus?



Se Deus nos entende, sabe o que precisamos e não precisa ser convencido. Se Deus pensa a mesma coisa que o Espírito Santo e este têm a mente de Deus, percebo que a intercessão do Espírito não serve para convencer Deus ao nosso querer, mas nos convencer ao querer de Deus. Nós é quem precisamos ser convertidos aos interesses de Deus, mas parece que usamos a intercessão e a ajuda do Espírito Santo para converter Deus aos nossos interesses.



Nosso coração que precisa ser quebrado, pois o de Deus já se enterneceu por nós de tal maneira, que quando éramos seus inimigos nos deu o seu único Filho. Servimos a um Deus rico em compaixão e que nos ama com profundo amor.



Por isso leio o texto sob esta outra lógica:





Temos o desafio de manifestar nosso caráter de filhos de Deus, mas isto não é fácil. Desanimamos e vivemos errando, e isso se torna um constante gemido. Mas temos algo que nos dá esperança: Não estamos gemendo sozinhos! Deus o Espírito geme. Ele que conhece perfeitamente a mente de Deus quer que assumamos a vontade do Pai como filhos amados. Ele percebe nossa dificuldade para realizarmos esta tarefa, e tão amante como o Pai não nos abandona, mas nos assiste nesta fraqueza, porque nossas orações seriam inadequadas, apenas gemidos constrangidos. Mas o Espírito que comunica o Filho a nós, também sabe o que é ser humano, o que é padecer e sendo o outro consolador se une a nós com gemidos inexprimíveis nos comunicando sempre a vontade do Pai e nos desafiando a não desistirmos de manifestarmos a glória de filhos de Deus num mundo que aguarda esta revelação.



Portanto, quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz e se hoje ouvirmos a sua voz não endureçamos o coração, pois Ele intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus.



A oração deve nos levar a um quebrantamento tal, que saímos dela dispostos a cumprir com o desejo de Deus: sermos filhos amados que brilham na escuridão.



Eliel Batista



Vi no http://www.elielbatista.com/
0

Angústia...



Quando Jesus estava na cruz deu um brado de dor:


- “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste”.

Semelhante suspiro todo crente já gemeu. Temos aqui uma encruzilhada teológica. Dialética entre constatação - é fato que sofremos, e frustração - não deveríamos sofrer.

Parece-me que o caminho percorrido pela teologia nos últimos séculos, tenta de alguma maneira estabelecer uma resposta fixista que apela para o decreto imperial divino, chamado de vontade de Deus e que devemos aceitá-lo em última instância como fator causal do sofrimento, mesmo injusto. Como se fosse possível sermos mais amorosos e bondosos do que Deus, pois vemos o sofrimento humano, nos compadecemos, mas Deus por alguma razão misteriosa não age em favor da vítima.



Dentro desta lógica, não é permitido ao barro questionar o oleiro, pois não entende os desígnios secretos de Deus. Qualifica-se o humano como responsável pelo sofrimento, mas Deus o salvador não é obrigado a salvar ninguém, mas escolhe alguns para proteger ou outros para sofrer a fim de servir de algum exemplo para os demais. Um Deus sigiloso, sem clareza nos desígnios, com intenções excusas e ações que julgamos nada convencionais a quem se diz salvador amoroso e poderoso. Um Deus mesquinho que faz acepção de pessoas, que ajuda mais os que podem alguma coisa neste mundo do que os que não podem Que maquina por detrás da saga humana abusando do fato de ser Deus. Que não deve a ninguém satisfação de seus atos, mesmo aqueles atos que contrariam o mínimo de bondade e justiça.

O Deus revelado em Cristo Jesus corresponde a esta descrição?



A busca por uma resposta definitiva nos deixa intrigados e instáveis quanto à paz de alma, apesar de paradoxalmente nos parecer o caminho mais plausível para se trilhar.

Nesta trilha, a fé moderna como uma possibilidade de responder, tem se demonstrado incongruente ao falar em um Deus poderoso que ama e mesmo assim nos deixa sofrer, ou incoerente por apresentar um Deus intervencionista, mas que não intervém na hora mais necessária e para os mais necessitados. Mesmo os esquemas que respondem através da perspectiva filosófica de paradoxo, solapam diante da realidade do sofrimento muito mais imponente e verdadeira do que as soluções apresentadas com este esquema de fé.



Atrevo-me numa retórica e me pergunto se ao lidar com o sofrimento, o caminho mais sensato seria o das perguntas. O escritor de Eclesiastes seguindo as pistas das respostas, mesmo que com certo grau de realismo, se deparou mais com um pessimismo, do que com uma esperança viva. Ele não encontrou muito sentido, exceto o de se viver enquanto pode. Seria a fé um caminho realista que leva ao pessimismo ou fatalismo do comamos e bebamos que amanhã morreremos? Ou a fé seria um desafio para se construir outro tipo de realidade?



Sei que tentar esboçar este tema, tentando tirá-lo do escopo filosófico, tem certo teor de contra-senso, mas que caminho me caberia?

Arrisco-me a serviço da fé, para que, de alguma maneira ao lidar com a realidade da vida, me sinta desafiado e não péssimo. Esperançoso e não iludido.



Deus meu, Deus meu, certamente anuncia ausência. Deus não está. Este nó na garganta existencial já encontrou caminhos como o da negação de Deus, da eliminação da religião, e chegou na modernidade à conclusão da morte de Deus e que hoje entre o vácuo deixado pela teologia com péssimas respostas e a dura experiência humana, infiltra no coração humano a indiferença em relação a Deus. A indiferença é mais cruel, porque ela antinomiza o amor. Deus é amor e toda experiência com Deus é uma experiência de amor, mas a indiferença inviabiliza experimentar Deus.



Ao olharmos a vida, em certo sentido temos que reconhecer a ausência de Deus. Se não do mundo, pelo menos em diversas experiências humanas, pois praticamente todos já experienciaram este nó: “Deus meu porque me desamparaste?”.



Se levarmos até a última instância as respostas fundamentalistas e letristas sobre o sofrimento humano, ou ausência de Deus, acabamos por ter que admitir que de fato ou Deus morreu ou não existe!

Mas que tal, pensarmos na possibilidade de que Ele nunca esteve presente da maneira como o descrevemos? Um intervencionista.

Antes, conforme revelado na cruz, se apresenta também como um Deus que experimenta a vida humana com tudo o que ela possui, inclusive sofrendo, porque a vida é assim. Não é vontade permissiva, nem vontade objetiva, são as limitações de uma criação livre.



Que tal considerarmos que Deus fez um mundo com o potencial da vida, para que existisse autonomamente? Desta maneira, para que assim se suceda, Ele precisa sim, de certa forma, ausentar-se, ou a vida jamais se desenrolaria com autonomia, mas sob cabresto.

Sendo assim, o sofrimento não vem de Deus e Ele é contra, mas também não é uma questão de indiferença, impotência ou desprezível abandono por parte dEle, mas licença para a liberdade. Se onde está o Espírito do Senhor há liberdade e é impossível conseguir fugir da presença do Espírito, toda a criação gestada e sustentada pelo Espírito existe e se desenvolve nesta liberdade, e assim como a criação geme, o Espírito de igual forma tem gemidos inexprimíveis, aguardando a manifestação do Deus ausente.



Crer num Deus ausente?

A angústia na dor que leva ao grito que reclama da ausência de Deus está anos-luz de ser de alguém que não se importa ou não tem fé em Deus, pelo contrário é um grito de quem ama. Reclama da ausência quem experimentou e sente falta da presença. Por isso reclamar da ausência é crer para além de tudo.

Como a experiência com Deus se dá pela fé, justamente a sua ausência é um desafio de fé para a mais profunda experiência com Deus. Com isto, sua ausência além de provar a sua existência, demonstra que Ele se encontra “mais vivo do que nunca”!



Não estranhe a ausência de Deus, antes absorva-a para sair do outro lado mais enraizado, envolvido e acolhido por aquele que ama. Ele bebeu o cálice e nos convoca de tal maneira a sorvê-lo com integridade e na força do Espírito.



Nossa geração vive em busca de eliminar a angústia e muitos crentes acreditam na possibilidade de uma resposta bíblica que a elimine. Mas esta não é a maneira como a Bíblia descreve a angústia. Antes a admite como parte da natureza humana e Deus aquele que participa desta limitação. Portanto, o grito de Jesus descreve um Deus que não realiza nenhuma obra para eliminá-la, antes também a absorve.

Viver com Cristo é a experiência da cruz. Experimentar a cruz é ir fundo na ausência de Deus.



Quem experimenta a cruz, experimenta a ressurreição. Pois se com ele morremos, com ele viveremos.



Eliel Batista


Vi no http://www.elielbatista.com/