quarta-feira, 30 de abril de 2008

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Porque o Mundo não O Pode Receber

A. W. Tozer


“O Espírito da Verdade que o mundo não pode receber” (Jo 14.17)

A fé cristã, baseada no Novo Testamento, ensina o completo contraste entre a igreja e o mundo.

Não é mais do que um lugar comum religioso dizer que o problema conosco hoje é que procuramos construir uma ponte sobre o abismo que há entre duas coisas opostas, o mundo e a igreja, e realizamos um casamento ilícito para o qual não há autorização bíblica. Na verdade, nenhuma união real entre o mundo e a igreja é possível. Quando a igreja se junta com o mundo, já não é mais a igreja verdadeira, mas apenas um detestável produto misturado, um objeto de gozação e desprezo para o mundo, e uma abominação para o Senhor.

A obscuridade em que muitos (ou deveríamos dizer a maioria dos?) crentes andam hoje não é causada por falta de clareza da parte da Bíblia. Nada poderia ser mais claro do que os pronunciamentos das Escrituras sobre a relação do cristão com o mundo. A confusão que campeia nessa matéria resulta da falta de disposição de cristãos professos para levar a sério a Palavra do Senhor. O cristianismo está tão emaranhado no mundo que milhões nunca percebem quão radicalmente abandonaram o padrão do Novo Testamento. A transigência está por toda parte. O mundo está suficientemente caiado, encobrindo as suas faltas, para passar no exame feito por cegos que posam como crentes; e esses mesmos crentes estão eternamente procurando obter aceitação da parte do mundo. Mediante mútuas concessões, homens que a si mesmos se denominam cristãos manobram para ficar bem como homens que para as coisas de Deus nada têm, senão mudo desprezo.

Toda esta questão é espiritual, em sua essência. O cristão é o que não é por manipulação eclesiástica, mas pelo novo nascimento. É cristão por causa de um Espírito que nele habita. Só o que é nascido do Espírito é espírito. A carne nunca pode converter-se em espírito, não importa quantos homens considerados dignos da igreja nela trabalhem. A confirmação, o batismo, a santa comunhão, a profissão de fé – nenhum destes, nem todos estes juntos, podem transformar a carne em espírito, e tampouco podem fazer de um filho de Adão um filho de Deus. “E, porque vós sois filhos,” escreveu Paulo aos gálatas, “enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” E aos coríntios, ele escreveu: “Examinai-vos a vós mesmos, se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.” E aos romanos: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós. E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.”

A terrível zona de confusão tão evidente em toda a vida da comunidade cristã, poderia ficar esclarecida num só dia, se os seguidores de Cristo começassem a seguir a Cristo em vez de uns aos outros. Pois o nosso Senhor foi muito claro em Seu ensino sobre o cristão e o mundo.

Numa ocasião, depois de receber não solicitado e carnal conselho de irmãos sinceros, mas não esclarecidos, o nosso Senhor respondeu: “O meu tempo ainda não chegou, mas o vosso sempre está presente. Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más.” Ele identificou os Seus irmãos na carne com o mundo e disse que Ele e eles eram de dois espíritos diferentes. O mundo O odiava, mas não podia odiá-los porque não podia odiar-se a si próprio. Uma casa dividida contra si mesma não subsiste. A casa de Adão tem que permanecer leal a si própria, ou se romperá. Conquanto os filhos da carne possam brigar entre si, no fundo estão unidos uns aos outros. É quando o Espírito de Deus entra, que entra um elemento estrangeiro. “Se o mundo vos odeia,” disse o Senhor aos Seus discípulos, “sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário dele vos escolhi, por isso o mundo vos odeia.” Paulo explicou aos gálatas a diferença entre o filho escravo e o livre: “Como, porém outrora, o que nascera segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim também agora” (Gl 4.29).

Assim, através do Novo Testamento inteiro, é traçada uma aguda linha entre a igreja e o mundo. Não há meio termo. O Senhor não reconhece nenhum bonzinho “concordar para discordar” para que os seguidores do Cordeiro adotem os procedimentos do mundo e andem pelo caminho do mundo. O abismo que há entre o cristão e o mundo é tão grande como o que separou o rico de Lázaro. E, além disso, é o mesmo abismo, isto é, é o abismo que separa o mundo, dos resgatados do mundo; do mundo, dos que continuam caídos.

Bem sei, e o sinto profundamente quão ofensivo esse ensino deve ser para aquele bando de mundanos que mói e remói o rebanho tradicional. Não posso alimentar a esperança de escapar da acusação de fanatismo e intolerância que, sem dúvida, lançarão contra mim os confusos religionistas que procuram fazer-se ovelhas por associação. Mas bem podemos encarar a dura verdade de que os homens não se tornam cristãos associando-se com gente de igreja, nem por contato religioso, nem por educação religiosa; tornam-se cristãos somente por uma invasão da sua natureza, invasão feita pelo Espírito de Deus por ocasião do novo nascimento. E quanto se tornam cristãos assim, imediatamente passam a ser membros de uma nova geração, uma “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus... que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” (1Pe 2.9, 10).

Com os versículos citados, não houve desejo de os citar fora do contexto, nem de focalizar a atenção num lado da verdade para desviá-lo de outro. O ensino desta passagem forma completa unidade com toda a verdade do Novo Testamento. É como se tirássemos um copo de água do mar. O que tiraríamos não seria toda a água do oceano, mas seria uma amostra real e em perfeito acordo como o restante.

A dificuldade que nós cristãos contemporâneos enfrentamos não é a de entender mal a Bíblia, mas a de persuadir os nossos indóceis corações a aceitarem as suas claras instruções. O nosso problema é conseguir o consentimento das nossas mentes amantes do mundo para termos Jesus como Senhor de fato, bem como de palavra. Pois uma coisa é dizer, “Senhor, Senhor,” e outra completamente diferente é obedecer aos mandamentos do Senhor. Podemos cantar, “Coroai-O Senhor de todos,” e regozijar-nos com os agudos e sonoros tons do órgão e com a profunda melodia de vozes harmoniosas, mas ainda não teremos feito nada enquanto não abandonarmos o mundo e não fizermos os nossos rostos na direção da cidade de Deus na dura realidade prática. Quando a fé se torna obediência, aí é de fato fé verdadeira.

O espírito do mundo é forte, e gruda em nós tão entranhadamente como cheiro de fumaça em nossa roupa. Ele pode mudar de rosto para adaptar-se a qualquer circunstância e assim enganar muito cristão simples, cujos sentidos não são exercitados para discernir o bem e o mal. Ele pode brincar de religião com todas as aparências de sinceridade. Ele pode ter acessos de sensibilidade de consciência, e até pode confessar os seus maus caminhos pela imprensa pública. Ele louvará a religião e bajulará a igreja por seus fins. Ele contribuirá para as causas de caridade e promoverá campanha para distribuir roupas aos pobres. Basta que Cristo guarde distância e que nunca afirme o Seu senhorio sobre ele. Positivamente isso não durará. E para com o verdadeiro Espírito de Cristo, só mostrará antagonismo. A imprensa do mundo (que é seu real porta-voz) raramente dará tratamento justo a um filho de Deus. Se os fatos a compelem a uma reportagem favorável, o tom tende a ser condescendente e irônico. Ressoa nela a nota de desdém.

Tanto os filhos deste mundo como os filhos de Deus foram batizados num espírito, mas o espírito do mundo e o Espírito que habita nos corações dos homens nascidos duas vezes, acham-se tão distanciados um do outro como o céu do inferno. Não somente são o completo oposto um do outro, mas também estão em extremo combate um contra o outro, e em agudo antagonismo um contra o outro. Para um filho da terra as coisas do Espírito são, ou ridículas, caso em que ele se diverte, ou sem sentido, caso em que ele se aborrece. “Ora, o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente.”

Na Primeira Epístola de João duas palavras são empregadas uma e outra vez, as palavras eles e vós, e elas designam dois mundos totalmente diversos; vós refere-se aos escolhidos, que deixaram tudo para seguir a Cristo. O apóstolo não se põe genuflexo, de joelhos, ante o deusote Tolerância (cujo culto se tornou na América uma espécie de religião de segunda capa); João é grosseiramente intolerante. Ele sabe que a tolerância pode ser simplesmente outro nome para a indiferença. Exige-se vigorosa fé para aceitar o ensino do experimentado João. É muito mais fácil apagar as linhas de separação e, assim, não ofender ninguém. Generalidades piedosas e o emprego de nós para significar tanto cristãos como descrentes, é muito mais seguro. A paternidade de Deus pode ser ampliada para incluir toda gente, desde Jack, o Estripador, até Daniel, o Profeta. Assim, ninguém fica ofendido e todos se sentem banhados e prontos para o céu. Mas o homem que se reclinara sobre o peito de Jesus não foi enganado assim tão facilmente. Ele traçou uma linha para dividir em dois campos a raça humana, para separar dos salvos os perdidos, dos que se afundarão no desespero final os que subirão para a recompensa eterna. De um lado estão eles – aqueles que não conhecem a Deus; de outro, vós (ou, com uma mudança de pessoa, nós), e entre ambos está um abismo moral largo demais para qualquer homem atravessar.

Eis aqui o modo como João o declara: “Filhinhos, vós sois de Deus, e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro.” Uma linguagem como esta é clara demais para confundir qualquer pessoa que honestamente queira conhecer a verdade. Nosso problema não é de entendimento, repito, mas de fé e obediência. A questão não é teológica: Que é que isto ensina?

É moral: Estou disposto a aceitar isto e arcar com as conseqüências? Posso agüentar o olhar frio? Tenho coragem de enfrentar os acerbos ataques movidos pelos modernistas? Ouso provocar o ódio dos homens que se sentirão apontados por minha atitude? Tenho suficiente independência mental para desafiar as opiniões da religião popular e de acompanhar um apóstolo? Ou, em resumo, posso persuadir-me a tomar a cruz com o seu sangue e com o seu opróbrio?

O cristão é chamado para ficar separado do mundo, mas precisamos ter certeza de que sabemos o que queremos dizer (ou, mais importante, o que Deus quer dizer) com o mundo. É provável que o façamos significar alguma coisa externa apenas, perdendo, assim, o seu significado real. Teatro, cartas, bebidas, jogos – estas coisas não são o mundo; são simples manifestações externas do mundo. A nossa luta não é apenas contra os procedimentos do mundo, mas contra o espírito do mundo. Porquanto o homem, salvo ou perdido, essencialmente é espírito. O mundo, no sentido neotestamentário do termo, é simplesmente a natureza humana não regenerada onde quer que esta se encontre, quer no bar, quer na igreja. O que quer que brote da natureza decaída, ou seja edificado sobre ela ou dela receba apoio, é o mundo, seja moralmente vil ou moralmente respeitável. Os antigos fariseus, a despeito da sua zelosa dedicação à religião, eram da própria essência do mundo. Os princípios espirituais sobre os quais eles construíram o seu sistema foram retirados, não do alto, mas de baixo. Eles empregaram contra Jesus as táticas dos homens. Subornavam os homens para dizerem mentiras em defesa da verdade. Para defender Deus, agiam como demônios. Para proteger a Bíblia, desafiavam os ensinamentos da bíblia. Eles sabotavam a religião para salvá-la. Davam rédeas soltas ao ódio cego em nome da religião do amor. Vemos aí o mundo com todo o seu cruel desafio a Deus. Tão feroz foi esse espírito, que não descansou enquanto não levou à morte o próprio Filho de Deus. O espírito dos fariseus era ativa e maliciosamente hostil ao Espírito de Jesus, pois cada qual era uma espécie de destilação de ambos os respectivos mundos dos quais provinham.

Os mestres atuais que situam o Sermão do Monte nalguma outra dispensação que não esta e, assim, liberam a igreja do seu ensino, mal percebem o mal que fazem. Pois o Sermão do Monte dá em resumo as características do Reino dos homens regenerados. Os bem-aventurados pobres que choram seus pecados e têm sede de justiça são verdadeiros filhos do Reino. Com mansidão mostram misericórdia para com os seus inimigos; com sincera simplicidade contemplam a Deus; rodeados de perseguidores, abençoam, e não amaldiçoam. Com modéstia escondem as suas boas obras e com paciência aguardam a visível recompensa de Deus. Livremente renunciam aos seus bens terrenos, em vez de usar a violência para protegê-los. Eles acumulam os seus tesouros no céu. Evitam os elogios e esperam o dia da prestação final de contas para saber quem é maior no Reino do céu.

Se esta é uma visão bem precisa das coisas, que podemos dizer quando cristãos disputam entre si lugar e posição? Que podemos responder quando os vemos famintamente procurando homenagens e louvor? Como podemos desculpar a paixão por publicidade, tão claramente evidente entre os líderes cristãos? Que dizer da ambição política nos círculos cristãos? E das febris mãos estendidas para mais e maiores “oferendas de amor”? Que dizer do desavergonhado egoísmo entre os cristãos? Como explicar o grosseiro culto do homem que habitualmente infla um ou outro líder popular dando-lhe somas endinheiradas, beijo dado por aqueles que se propõe como fiéis pregadores do Evangelho?

Há só uma resposta a essas perguntas, é simplesmente que nessas manifestações vemos o mundo, e nada senão o mundo. Nenhuma apaixonada declaração de “amor” às “almas” pode transformar o mal em bem. Estes são os mesmos pecados que crucificaram Jesus.

Também é verdade que as mais grosseiras manifestações da natureza humana decaída fazem parte do reino deste mundo. Diversões organizadas com ênfase em prazeres frívolos, os grandes impérios edificados em hábitos viciosos e inaturais, o irrestrito abuso dos apetites normais, o mundo artificial denominado “alta sociedade” – todas estas coisas são do mundo. Todas fazem parte daquilo de que a carne consiste, daquilo que se edifica sobre a carne e que há de perecer com a carne. E dessas coisas o cristão deve fugir. Todas essas coisas ele tem que pôr para trás e nelas não deve tomar parte. Contra elas deve pôr-se serena, mas firmemente, sem transigência e sem temor.

Portanto, que o mundo se apresente em seus aspectos mais feios, quer em suas formas mais sutis e refinadas, devemos reconhecê-lo pelo que ele é, e repudiá-lo categoricamente. Precisamos fazer isso, se é que desejamos andar com Deus em nossa geração como Enoque o fez na sua. Um rompimento puro e simples com o mundo é imperativo. “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). “Não ameis o mundo nem as cousas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (1Jo 2.15, 16). Estas palavras de Deus não estão diante de nós para nossa consideração; estão aí para nossa obediência, e não temos direito de nos entitularmos cristãos se não as seguimos.

Quanto a mim, temo qualquer tipo de movimento religioso entre os cristãos que não leve ao arrependimento, resultando numa aguda separação do crente e o mundo. Suspeito de todo e qualquer esforço de avivamento organizado, que seja forçado a reduzir os duros termos do Reino. Não importa quão atraente pareça o movimento, se não se baseia na retidão e não é cuidado com humildade, não é de Deus. Se explora a carne, é uma fraude religiosa e não deve receber apoio de nenhum cristão temente a Deus. Só é de Deus aquele que honra o Espírito e prospera às expensas do ego humano. “Como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.”
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Espiritualidade e liberdade.

Ricardo Gondim.

Uma autêntica relação com Deus só é possível no caso dele ter criado os seres humanos com liberdade. Isto implica que as respostas humanas à revelação e ao amor de Deus carregam a possibilidade de aceitação ou rejeição. Deus ama, portanto, não se força – “eis que estou à porta e bato”.

Quando interpela, homens e mulheres podem cooperar ou frustrar a sua vontade. Indivíduos possuem liberdade de dar as costas ao conselho (boulê) de Deus como está escrito em Lucas 7.30: “Mas os fariseus e os peritos da lei rejeitaram o propósito (boulê) de Deus para eles, não sendo batizados por João”. A vontade (thelô) de Deus pode ser frustrada como Jesus lamentou em Lucas 13.34: “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!”.

Para que o seu relacionamento seja verdadeiro Deus concede liberdade real. Portanto, não seria possível concebê-lo guardando alguma agenda secreta na manga ou induzindo os seus filhos a se sentirem livres sem que realmente fossem. Neste caso, homens e mulheres imaginariam estar fazendo a diferença quando na verdade, só cumpririam um roteiro escrito minuciosamente com todos os desígnios. Aceitar tal conceito, porém, contrai a revelação de que Deus é luz e que nele não há nenhuma sombra ou suspeita. C.S. Lewis argumentou sobre a onipotência divina em “O problema do sofrimento” e concluiu que:

A sua onipotência significa poder fazer tudo o que é intrinsecamente possível, e não para fazer o que é intrinsecamente impossível É possível atribuir-lhe milagres, mas não tolices. Isto não é um limite ao seu poder. Se disser: “Deus não pode dar a uma criatura o livre-arbítrio e, ao mesmo tempo, negar-lhe o livre arbítrio não conseguiu dizer nada sobre Deus[1]

O Deus bíblico cativa amorosamente os seres humanos e os interpela para que se comprometam com a construção da história – que ainda não está pronta. O teólogo uruguaio, Juan Luis Segundo afirmou:

Com infinita liberdade, Deus se dá a si próprio os limites que supõe (para não ser contraditório) todo amor no trato interpessoal. E isso nos recorda outra limitação, a suprema, realizada por Deus: a da Encarnação (cf. Fl, 2.7)[2]

Portanto, Deus corre o risco de frustrar-se com a liberdade que ele, soberanamente, decidiu necessária em seu amor. Com isso, não afirmo que Deus não consiga em sua infinita sabedoria desencalacrar o universo das conseqüências do mal. Sim, ele é poderoso para redesenhar a história a partir das tragédias.

Mas as Escrituras deixam claro que Deus decidiu, em sua liberdade, não controlar tudo. Como não precisa obedecer a nenhuma necessidade, nada o força a fazer qualquer coisa. Pelo contrário, Deus pede a contribuição (input) humana para o processo de re-escrever o futuro. Este gesto é boa vontade ou graça. Em diálogo amoroso, Deus convoca seus filhos para serem parceiros seus na gestação do futuro.

Uma espiritualidade responsável deve buscar a aproximação das aparentes contradições da vida com os pressupostos da teologia; de alguma forma, procuremos enlaçar as nossas mãos às dele e mudaremos a vida de muitos – que não está determinada.

A religiosidade grega negava o valor e a consistência de qualquer parceria entre Deus e os homens porque, na metafísica aristotélica tudo se desenrolava como um destino inexorável. Lamentavelmente, esse fatalismo ganhou força com a teologia da “providência” que se imagina capaz de por tudo em ordem. Os teólogos passaram a explicar a existência ao afirmarem, com absoluta certeza, que Deus, desde sempre, decretou os mínimos detalhes do universo e da história - tanto coisas boas como ruins só aconteceriam por sua vontade.

Concordo com Juan Luis Segundo quando afirma que esta divindade não tem nada a ver com o Deus bíblico:

“O fato é que o Deus de Aristóteles e o Deus que, segundo João, é Amor não são a mesma coisa. Se Deus é amor, é mister refazer o conceito da realidade divina[3]

Portanto, liberdade é um conceito de maior importância para que a espiritualidade não seja alienante (Marx), infantilizante (Freud) ou desumanizante (Nietzsche).

Atentemos, por último, para José Comblin:

As formas da antiga cristandade estão se apagando. Com o desaparecimento da cultura rural, o cristianismo dos avós já pertence ao passado. Não adianta querer ressuscitar o passado nem querer contar com os movimentos de “entusiasmo” religioso para fundar nova cristandade... O evangelho é este: ‘Cristo nos libertou para que vivêssemos em liberdade’ (Gl 5.1).’Foi para a liberdade que vocês foram chamados (Gl 5.3). Deus é liberdade e nos criou para a liberdade. Esta é a nossa vocação humana. O sentido da nossa vida é construir e conquistar a liberdade[4]

Soli Deo Gloria.



[1] Lewis, C. S. – O Problema do Sofrimento, Editora Mundo Cristão, 1983, p.20.

[2] Segundo, Juan Luis – Que mundo? Que Homem? Que Deus? – Editora Paulinas, 1995, p.446.

[3] Segundo, Juan Luis – Que Mundo? Que Homem? Que Deus? Editora Paulinas, 1995, 441.

[4] Comblin, José – Vocação para a liberdade – Editora Paulus, 1998, p.11.

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O Funeral de Deus

Philip Yancey

O que impedirá o desaparecimento da fé nos Estados Unidos?

Henri Nouwen escreveu com melancolia sobre as visitas à casa em que passou sua infância, na Holanda, em que uma geração de católicos vibrantes perdeu o brilho e mergulhou em um estranho ritualismo. Poucos meses antes de sua morte, ele falou para um insignificante grupo de 36 estudantes no seminário em que servira, o qual já fervilhara com centenas de ansiosos candidatos ao sacerdócio.

A família de Nouwen, bastante devota, regozijou-se com sua vocação, apesar de, mais tarde, muitos em sua família perderem o interesse em sua escolha. Pediam-lhe que batizasse um sobrinho ou sobrinha, embora não passasse de uma relíquia cultural. Depois de um desses eventos, ele disse: “Senti-me como um anfitrião que deixa muito a desejar para os convidados.”

Em recente visita aos Países Baixos, encontrei muitos sinais do declínio da fé na Europa. Os cristãos holandeses disseram-me que no século passado, 98% do povo holandês desempenhava alguma função na igreja com regularidade, mas que em duas gerações o percentual caiu para pouco mais de 10%. Hoje está abaixo dessa marca. Além disso, metade das igrejas construídas na Holanda foi destruída ou transformada em restaurantes, galerias de arte ou condomínios.

Participei de um culto vespertino em uma igreja belga, renomada por seus vitrais. Dez de nós sentaram-se sob os altos arcos góticos, minha esposa e eu éramos os únicos com menos de 70 anos. Do lado de fora, muitos turistas lamentavam-se, pois havia uma placa que anunciava que não era permitida a entrada de turistas durante o culto. Para a maioria dos europeus a igreja é totalmente irrelevante.

Um correspondente alemão escreveu-me sobre a reação européia ao ataque às Torres Gêmeas. Líderes estado-unidenses instituíram um Dia Nacional de Oração e, por um tempo, os cidadãos comuns afluíram às igrejas e adquiriram uma quantidade recorde de Bíblias.

Os alemães reagiram de maneira única. Antes, em seus programas de entrevistas e nos editoriais dos jornais, eles ficaram introspectivos. Eles arrazoavam: os fanáticos mulçumanos querem morrer por seu Deus; e nós já não mais acreditávamos em Deus. Qual alternativa nos resta?

Senti a mesma ansiedade existencial na Holanda, ainda vacilante devido ao assassinato de um político popular, em maio. Pim Fortuyn, de extrema direita e abertamente homossexual (não é um oxímoro na Holanda), deu voz às alarmistas preocupações de muitos europeus sobre a imigração. Os mulçumanos têm presença mais pronunciada e visível na Europa Ocidental que nos Estados Unidos; os movimentos xenófobos na Alemanha, Espanha e França alimentam-se dessa ansiedade resultante. Meus anfitriões, na Holanda, consideram os Estados Unidos um modelo de nação moderna que mantém uma fé religiosa viva. Sempre que visito a Europa, quando vejo que a igreja, uma instituição que dominou o continente por 1.500 anos, tornou-se apenas um invólucro, pergunto-me se o mesmo padrão se repetirá em minha pátria. Será que o declínio da fé, conforme documentado em God’s Funeral [Funeral de Deus], livro de A. N. Wilson, ele mesmo um símbolo dessa ruína, acontecerá nos Estados Unidos?

Wilson escreve: “O funeral de Deus não é o fim de uma fase da história do intelecto humano, conforme muitos do século 19 podem ter acreditado. Ele é a remoção do maior objeto de Amor.” Wilson admite uma profunda perda em pelo menos duas áreas. Pela primeira vez na história, muitas pessoas não mais sentem a necessidade de orar e adorar. Também, de maneira única, muitos não vêem um mundo de valores fora de si mesmos e, tampouco, aceitam uma verdade objetiva transcendente. Apenas os seres humanos devem definir seus valores e propósitos – e se o século anterior dá alguma indicação de qual possa ser o resultado, enfrentaremos, de fato, um futuro sombrio.

Mas tenho alguma esperança de que os Estados Unidos não siga o caminho da Europa Ocidental. Primeiro, temos seminários sólidos e colégios cristãos que abraçam o secularismo. Talvez mais importante, a igreja estado-unidense há muito é uma igreja que envia missionários. (Algumas vezes, pergunto-me, se é essa a única razão pela qual Deus continua a abençoar nossa nação, a despeito de sua decadência.)

Os cristãos americanos, educados no reducionismo iluminista, podem aprender, em primeira mão, sobre o combate espiritual em viagens missionárias para a América do Sul. Podemos aprender sobre o sofrimento com a igreja na China, sobre evangelismo vibrante com a África e sobre a oração de intercessão com a Coréia. Como o que mais ameaça minha fé são as visitas às porções agnósticas da Europa, também nada revigora mais minha fé que visitar as igrejas de países não-ocidentalizados.

Talvez, não tenhamos ouvido as últimas notícias sobre a igreja na Europa também. Encontrei-me com Paul Nouwen, irmão caçula de Henri. Paulo falou sobre sua experiência durante o funeral de Henri, após sua morte repentina, em 1996, aos 64 anos, em que ouviu pessoas de vários países comentarem sobre a influência de Henri.

Ele disse: “Percebi que, em comparação com Henri, não tenho nada. E enquanto estive lá, sentado e escutando o que diziam, a diferença tornou-se clara para mim – Henri tinha Deus. Isso faz toda a diferença.” Paul Nouwen, com espírito de humildade, continuou a contar as mudanças que tem feito em sua vida para se preparar melhor para sua morte e restaurar seu relacionamento com o Deus que seu irmão conhecia tão bem. Henri, conforme seu irmão testificou, viveu como missionário nas América do Norte e do Sul, mas acabou como missionário em sua desalentada pátria.


Tradução Lena Aranha
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Tragédia, milagre e fé.

Ricardo Gondim.

Minha vida se organizou também com tragédias. O primeiro grande drama aconteceu na breve existência de minha irmã caçula, que viveu apenas dois dias. Ela se chamava Gelsa, em homenagem a uma tia muito querida; era gêmea do Sergio, que sobreviveu. Recordo nitidamente o desespero que nos sobreveio naquela época. Era véspera do Natal e o papai estava preso; morríamos de medo da polícia política dos ditadores e convivíamos com vergonha social - a vizinhança parava na frente da casa do “subversivo” - rótulo dado aos delinqüentes ideológicos, que mereciam tortura.

Gelsa nasceu sem intestino e com uma hérnia umbilical estrangulada. Veio ao mundo, portanto, já condenada a morrer de fome. Em 48 horas, como os médicos prenunciaram, minha irmã se desidratou; sem conseguir digerir o leite materno, sucumbiu à inanição. Eu a segurei nos braços por apenas 30 segundos. Quando mirei seus olhos fechados, chorei lágrimas pré-adolescentes e provei um sal amargo, que ainda reconheço.

Devolvi a minha irmã para um adulto e saí para fazer a primeira oração consciente que me lembre. Desesperado, clamei a Deus - não recordo as palavras exatas: “Meu Deus, por favor, não deixe a minha irmã morrer; não permita que a mamãe sofra mais; na cadeia o papai não vai agüentar”.

Não fui atendido. Deus não respondeu. Os céus se blindaram à voz de uma criança. Dois dias depois, nossa família aflita chorou ao lado da sepultura.

Desde essa primeira tragédia até hoje, meados dos 50 anos de idade, já testemunhei angústias semelhantes. Nunca esquecerei aquela tarde. Meia hora antes de pregar, fui chamado para orar por uma criança de nove anos de idade que agonizava com leucemia. Logo que entrei no jardim da casa, seu pai me abraçou. O desespero daquele homem arranhou o meu coração: “Pastor, peça a Deus para tirar o câncer da Beatriz e colocar em mim. Não soporto o sofrimento da minha filha”. Quando me aproximei da menininha, deitada em posição fetal, magérrima e sussurrando uma dor atroz, joguei-me de joelhos ao lado da cama.

Pela segunda vez, clamei desesperado por uma menina. Eu via a irmã que perdera. “Deus, tenha misericórdia desta criança; por meio de teu filho, cura a Beatriz”. Novamente as palavras bateram contra portas de aço. Poucos dias depois, acompanhei a família ao mesmo cemitério onde minha irmã jazia.

Recordo-me de uma família de missionários que inutilmente pediu, jejuou, convocou uma multidão de “intercessores”, para que a filha de 17 anos não morresse – a jovem havia caído de uma motocicleta, bateu a cabeça no asfalto e teve morte cerebral.

Quando vi o Ângelo - ele era líder de jovens de nossa igreja - se contorcendo após um acidente automobilístico, perguntei ao médico o que as convulsões indicavam. Com lágrimas nos olhos por ver um rapaz de 19 naquele estado, respondeu-me: “Ele está ‘des-cerebrando’”. Ajoelhei-me na UTI do Hospital São Paulo como se implorasse por meu filho. O Ângelo morreu 10 dias depois.

Paradoxalmente, acredito em milagres. Sei que outras pessoas contam eventos opostos. Respeito-as e não duvido de nenhuma experiência fantástica de livramento, provisão, resgate e cura. Entendo, inclusive, o desatino de procurar invalidar as narrativas de milagre; não me proponho a esta tarefa, que considero perniciosa.

Quero, tão somente, dar esperança aos que, como eu, amargaram o silêncio divino. Multidões não receberam resposta quando imploraram por milagre na hora mais horrorosa: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste”. Procuro ajudar as pessoas a não perderem a fé porque tinham expectativa de cura e acabaram se frustrando. Alguns apelaram desde o abismo da aflição, mas não tiveram resposta nenhuma. Pretendo mostrar que os silêncios divinos não são descaso ou desamparo, mas a condição, o jeito, como Deus soberanamente organizou o mundo.

Considero, inclusive, que nossas inquietações possam ser respondidas na tentação de Jesus no deserto. Trato o episódio como chave de compreensão de como podemos lidar com a vida.

O Espírito levou Cristo até o deserto para ser tentado. Ali o diabo ofereceu três vantagens para que Jesus enfrentasse o desafio de viver: provisão, livramento e prosperidade. Caso aceitasse transformar pedras em pães, todos os famintos do mundo poderiam reivindicar a mesma coisa; se pedisse o socorro dos anjos, todos os acidentes seriam “evitáveis”; ao receber os reinos do mundo por decreto, o livre arbítrio humano ficaria anulado. Jesus rejeitou ter a fome satisfeita por magia; não permitiu que se criassem expectativas falsas de um mundo sem percalços; e rechaçou conquistar os reinos deste mundo pelo poder. Preferiu mostrar em sua própria vida que liberdade era a maior dádiva que Deus nos concedera.

Em minha caminhada como pastor e estudioso da Bíblia constato que as comunidades religiosas interpretam os milagres dentro de “zonas de plausibilidade”, isto é, faz-se do sinal e da maravilha a prova que legitima a pregação. Como os milagres mais complicados de se concretizarem poderiam invalidar a mensagem, os líderes se concentram nos que têm boas chances de “realmente” acontecerem. Assim, evitam-se as doenças "mais complicadas" e perde-se de vista, infelizmente, os que mais sofrem.

Olho para minha trajetória e reconheço: nos momentos mais cruciais da vida, na hora em que mais se precisava de um "enorme" milagre, ele simplesmente não aconteceu.

Sinto que a antiga dor de ver a minha irmã morrer de fome, somada às inúmeras tragédias que já presenciei, me despertaram a repensar o conceito de fé. Desejo advertir as pessoas que organizam a vida esperando possíveis milagres e dizer que terão enormes chances de se frustrarem. Temo que se decepcionem com Deus, com o que se entende por fé e com a vida.

Fé pode sair do estágio infantil como força que “consegue mover o braço de Deus” ou de “abrir as janelas do céu” para ser uma coragem. Fé é uma aposta de que a sabedoria divina, com seus princípios e verdades, basta para que enfrentar os percalços e tragédias da vida.

Assim, convido os que já sofreram para que olhem a vida como uma maratona. Para vencê-la, socorros sobrenaturais não são essenciais. Jesus de Nazaré encarou a história sem pedir a ajuda de anjos. Ele não evitou a cruz e, por isso, triunfou. A mensagem do Evangelho não promete imunidade ou alívio das tribulações, mas bom ânimo; o frágil Carpinteiro venceu na hora mais desolada. Em seu clamor, “Eloí, Eloí, lama sabactani”, encontramos uma certeza: é possível triunfar mesmo sem sermos poupados da morte.

Soli Deo Gloria.

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Não Me Odeie Porque Sou Arminiano

Roger E. Olson

Meus amigos reformados algums vezes me tratam como inimigo, mas na verdade precisamos uns dos outros.


Durante os grandes avivamentos do século dezoito, John Wesley e George Whitefield pararam de cooperar um com o outro devido às suas diferentes crenças acerca da predestinação. E embora eles finalmente se reconciliaram, sua divergência persiste em debates ocasionais de evangélicos americanos sobre a soberania de Deus e as doutrinas da eleição e do livre-arbítrio.

Apesar desta história, a aliança evangélica pós-segunda guerra mundial mantém juntos crentes calvinistas e arminianos dentro de um grande movimento. Pelo menos há tanto igrejas membros da Associação Nacional de Evangélicos arminianas em sua orientação teológica quanto reformadas.

Mas agora, sinais de grande tensão dentro da aliança estão aparecendo, incluindo uma nova estridência e agressividade da parte de teólogos em alguns círculos reformados mais conservadores. Como um inveterado arminiano assim como evangélico, e como alguém que se preocupa profundamente com a unidade da comunidade evangélica, acho que isto é muito lastimoso.

Alguns destes teólogos acham que o evangelicalismo enfrenta uma crise que se concentra na questão da predestinação. “Cristãos que negam a eleição incondicional e a graça irresistível podem ser genuinamente evangélicos?” eles perguntam. Michael Horton, professor no Seminário Teológico de Westminster, na Califórnia, afirma na revista Modern Reformation que “arminiano evangélico” não é uma opção mas um oxímoro. “Um evangélico,” ele diz, “não pode ser arminiano mais do que um evangélico pode ser um católico romano.” Até mesmo o grande reavivalista arminiano John Wesley é suspeito de uma fé evangélica defeituosa por Horton e alguns de seus colegas em duas organizações, a Christians United for Reformation (CURE) e a Alliance of Confessing Evangelicals (ACE). Estes e outros movimentos evangélicos contemporâneos buscam restabelecer e entronizar o monergismo – a crença na atividade única e soberana de Deus na salvação – como crucial ao evangelicalismo autêntico.

Em anos recentes, uma enchente de livros e artigos editados e escritos por líderes acadêmicos evangélicos reformados (como R. C. Sproul do Ligonier Ministries) têm levantado questões sobre a validade das credenciais evangélicas de todos e cada um dos protestantes arminianos que negam a eleição incondicional e afirmam a graça resistível. A ACE escreveu a “Declaração de Cambridge,” que criticou, entre outras supostas aberrações entre os evangélicos, a crença de que os seres humanos podem cooperar com a graça regeneradora de Deus.

Espero por outro período de tranquilidade entre nós que cremos na capacidade da alma de cooperar com a graça regeneradora (arminianos) e aqueles que crêem que a graça regeneradora deve preceder até mesmo o arrependimento e a fé (calvinistas).

Quando iniciei o seminário eu era filho de um pregador pentecostal convencido a me tornar um “esmurrador de púlpito” teologicamente instruído. Eu me graduei numa “aspirante” a universidade acadêmica teológica completamente evangélica pós-pentecostal. Enquanto no seminário, eu descobri que alguém poderia ser cheio do Espírito e também intelectualmente sério, aberto a pontos de vistas diversos dentro da mais ampla herança evangélica, e até mesmo teologicamente reformado! Essa revelação veio a mim através das vidas e ensino de professores como Ralph Powell, Al Glenn, Sam Mikolaski e James Montgomery Boice. Revistas como a Eternity e a Christianity Today ajudaram a transformar minha anteriormente mais estreita idéia de cristianismo evangélico “pleno” autêntico. Mas passando por isso tudo, e apesar de sérias lutas com seus problemas, eu conservei o Arminianismo de minha herança holiness-pentecostal.

Dois conselhos que aprendi do meu mentor evangélico no seminário, um batista moderadamente reformado, se fixaram especialmente em minha mente. Durante a recepção, imediatamente após a cerimônia de graduação, Ralph Powell me puxou para o lado, e da maneira mais tocante, característica de um avô, disse: “Roger, jamais perca sua excelência evangélica.” Sabendo que eu planejava continuar minha educação teológica numa universidade secular, ele não poderia pensar num conselho de despedida melhor para o seu jovem protegido. Nem eu poderia. Sempre tenho lembrado de sua exortação afetuosamente e dado meu melhor para satisfazer seu desafio.

O outro conselho veio mais cedo. Powell estava preocupado com minhas crenças arminianas um tanto firmes. Um dia ele me levou à parte e disse, “Roger, você deve saber que o Arminianismo geralmente tem levado à teologia liberal.” Como muitos teólogos reformados, ele acreditava que uma ênfase arminiana no livre-arbítrio concede poder demais à humanidade e por essa razão contém um impulso humanista. Embora apreciei sua admoestação implícita, eu sabia de minha própria experiência que isto não era inteiramente verdadeiro. Desde então, tenho me esforçado para provar que a teologia arminiana e uma excelência evangélica podem ser combinadas confortavelmente.

Teologia Tulip – fabricada na Holanda

A teologia arminiana não começou na Armênia. Na verdade, ela não tem nada a ver especificamente com aquela parte da Ásia. O Arminianismo é uma designação derivada do nome de um teólogo holandês que morreu em 1609 no auge de uma controvérsia envolvendo a doutrina da predestinação. Jacob Arminius rejeitou algumas das doutrinas do Calvinismo enquanto aceitava outras. Ele estudou sob o sucessor de Calvino em Genebra, Theodore Beza, mas veio a repudiar algumas das crenças de Beza, tais como a eleição incondicional e a graça irresistível, em favor da eleição condicional, o livre-arbítrio e a graça preveniente, resistível.

A contraparte fielmente reformada em teologia na Universidade de Leiden era Franciscus Gomarus – outro aluno de Beza – que insistia que as doutrinas que Arminius rejeitou eram partes integrantes da ortodoxia teológica reformada.

Os seguidores de Arminius na Holanda ficaram conhecidos após sua morte como remonstrantes, e alguns deles formularam um documento conhecido como a Remonstrância, no qual eles detalharam sua rejeição da teologia calvinista de Gomarus. O resumo da fé reformada de Gomarus tinha cinco pontos (a famosa fórmula “TULIP”): depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e a perseverança.

Arminius mesmo nunca negou o primeiro e o último dos cinco pontos, e seus seguidores os debateram entre si por séculos. Resumidamente afirmados, os “cinco pontos” rejeitados pelos remonstrantes significam (em ordem) que os humanos são todos (com a exceção de Jesus Cristo) nascidos completamente mortos espiritualmente e incapazes de fazer qualquer coisa agradável a Deus por causa da herança da natureza caída de Adão; Deus predestinou certas pessoas para receber perdão e vida eterna, e a seleção de Deus de forma alguma foi condicionada pelas vidas ou decisões dos eleitos; Cristo morreu na cruz para proporcionar sacrifício expiador para os pecados somente dos eleitos; Deus comunica a graça regeneradora aos eleitos de tal forma que eles não podem ou querem resistir; e os eleitos de Deus irão perseverar em estado de graça até a salvação final.

Os principais ministros reformados e líderes políticos das Províncias Unidas dos Países Baixos – das quais a Holanda era o estado mais proeminente – se encontraram no Sínodo de Dort de novembro de 1618 a janeiro de 1619 e condenaram os remonstrantes como heréticos. Dort afirmou os assim chamados cinco pontos do Calvinismo como ortodoxos e forçaram os seguidores de Arminius ou a retratar suas crenças no livre-arbítrio, eleição condicional, graça irresistível e expiação ilimitada ou a serem banidos da Igreja Reformada e dos Países Baixos. Alguns líderes arminianos, tais como o estadista holandês Hugo Grotius, foram presos. Um foi decapitado. Nesses dias não era tão fácil separar teologia e política como fazemos hoje em dia.

Como resultado do Sínodo de Dort, os arminianos se espalharam para outros países e encontraram refúgio em outros ramos do Cristianismo protestante. Os menonitas e outros anabatistas já criam quase a mesma coisa sobre a eleição divina e a salvação como muitos dos arminianos: A eleição se refere ao pré-conhecimento de Deus daqueles que livremente responderiam ao evangelho conforme fossem capacitados pela graça preveniente. A teologia arminiana encontrou aceitação dentro da Igreja da Inglaterra, embora muitos nessa igreja resolutamente se opuseram a ela em favor da teologia reformada.

Gradualmente os arminianos se dividiram em dois grupos, que Alan P. F. Sell – um intérprete moderno da história da controvérsia reformada-arminiana – classifica como “Arminianismo da cabeça” e “Arminianismo do coração.” Os primeiros se inclinaram ao Deísmo e à teologia liberal. Muitos finalmente se tornaram unitários. Os últimos foram fortemente influenciados pelo pietismo alemão e enfatizavam a conversão pessoal e a santificação.

John Wesley foi o principal “arminiano do coração” no século dezoito, e seu movimento metodista foi profundamente caracterizado pela teologia arminiana do “livre-arbítrio”. Àqueles evangélicos de seu dia, que o acusavam de ter tendências humanísticas e católicas por causa de sua rejeição da eleição incondicional e da crença no livre-arbítrio, Wesley afirmou a absoluta necessidade da graça preveniente (capacitante mas resistível) de Deus para superar a ferida mortal do pecado e ter livre-arbítrio suficiente para aceitar ou rejeitar a graça salvadora responsavelmente.

Os primeiros batistas foram divididos por esta controvérsia reformada-arminiana. Os pregadores e as congregações batistas que adotaram as doutrinas calvinistas da eleição incondicional, expiação limitada e a graça irresistível vieram a ser conhecidos como “batistas particulares,” enquanto os que seguiram os ensinos arminianos foram chamados de “batistas gerais.”

Reavivalistas e seus conversos durante os Grandes Avivamentos dos anos 40 do século dezoito e início do século dezenove na América freqüentemente se dividiram em tais linhas teológicas. Jonathan Edwards da Nova Inglaterra foi um gênio na defesa de uma forte visão reformada da soberania de Deus e da depravação do homem. Charles Finney, um século mais tarde, promoveu uma versão extremada do Arminianismo. Todo o Movimento de Restauração que deu origem às Igrejas de Cristo e Igrejas Cristãs Independentes era arminiano, como foi o movimento Holiness e seus descendentes, o movimento pentecostal. Ambos, Dwight L. Moody e Charles Spurgeon, por outro lado, eram calvinistas.

Todos na família

Eu fui criado espiritualmente no âmago do Cristianismo evangélico arminiano. Algumas das minhas mais vívidas lembranças da infância são de transpirar nas noites de verão debaixo do tabernáculo lateralmente aberto dos Acampamentos Nazarenos de Iowa em West Des Moines. “Santidade ao Senhor!” declarava a faixa sobre o palanque; centenas – talvez milhares – de adoradores Holiness e pentecostais, todos à minha volta, gritavam e cantavam e louvavam o Senhor até tarde da noite. Nossa própria pequena denominação pentecostal, como o maior movimento Holiness-pentecostal, era inteiramente arminiana em sua orientação teológica. A vontade universal de Deus pela salvação de todos e a liberdade de todos para crer e receber a mensagem do evangelho era fundamental à nossa visão de Cristianismo evangélico. Não havia nenhuma possibilidade da teologia liberal invadir nossa teologia. Nenhum grupo de cristãos na história jamais creu mais apaixonadamente na Bíblia como a Palavra escrita sobrenaturalmente inspirada e infalível de Deus. A santidade e a majestade de Deus eram também centrais à nossa pregação e ensino, apesar de que a soberania de Deus era interpretada como geral antes que meticulosa. Para nós, Satanás era um demônio real – um cachorro louco numa corrente longa – e de forma alguma o “Satanás de Deus”. E todavia, críamos e ensinávamos que Deus finalmente venceria a guerra espiritual cósmica e que Satanás poderia somente descarregar tanta destruição conforme Deus o permitia assim fazer.

As reuniões de família eram eventos fascinantes. Minha família mais ampla incluía, de ambos os lados, cristãos de várias pontos de vistas, e muitos deles eram ardentes e francos acerca de suas crenças. Do lado do meu pai, a maioria dos parentes eram ou Holiness ou pentecostais, e as reuniões de família geralmente se dividiam em discussões acaloradas sobre a santificação plena e o falar em línguas. A família de minha madrasta incluía pentecostais e cristãos reformados. Embora eles nunca discutiram abertamente sobre questões teológicas, me lembro bem que ambos os lados da família olhavam com uma certa desconfiança para a teologia do outro. Meus parentes da Igreja Reformada Cristã do norte de Iowa não estavam tão seguros sobre o emocionalismo e a ênfase no livre-arbítrio entre aqueles de nós que sustentávamos e praticávamos o Pentecostalismo. Meus pais, tias e tios pentecostais – muitos deles pastores e missionários – claramente se admiravam de como calvinistas ferrenhos podiam ser cristãos evangélicos. E todavia todos amavam e aceitavam um ao outro apesar de suas diferenças teológicas.

No colégio da Bíblia, fui doutrinado contra a teologia reformada. A maioria de meus professores pentecostais e muitos dos oradores convidados nas capelas e assembléias ferventemente se opunham não apenas à eleição incondicional e à graça irresistível (a expiação limitada não valia nem a pena debater!) mas também à segurança eterna. Quando o evangelista pentecostal Jimmy Swaggart publicamente declarou que o Calvinismo é uma “heresia,” ele estava apenas tornando público o que muitos Holiness-pentecostais pensavam e ensinavam mais discretamente por anos.

Mas algo continuava incomodando minha mente, me fazendo duvidar da imagem extremamente negativa da teologia reformada que me passavam no colégio da Bíblia. Alguns de nossos livros escolares eram escritos por estudiosos calvinistas evangélicos. Um de nossos livros escolares era uma coleção de sermões de Charles Spurgeon. Enquanto no colégio da Bíblia, comecei a ler a revista Eternity e me apaixonei pelo grande professor presbiteriano evangélico Donald Grey Barnhouse – um pacífico calvinista cujos escritos também exigiam que lêssemos. A Eternity abriu para mim o evangelicalismo tolerante que incluía tanto arminianos quanto calvinistas. E então havia meus parentes reformados cristãos, cujas vidas e testemunhos eram tão apaixonadamente evangélicos quanto qualquer pregador zeloso completo.

Um ponto crítico em minha peregrinação espiritual e teológica aconteceu em um funeral. O pastor reformado cristão da tia Margaret, em Kanawha, Iowa, pregava um dos sermões mais evangélicos que eu já tinha ouvido. Ele desafiou todos os presentes a dar suas vidas a Jesus Cristo assim como Margaret tinha feito. A discrepância entre fé e prática finalmente irrompeu-se numa rebelião completa contra a polêmica anti-calvinista que eu tinha ouvido de líderes e professores pentecostais. Enquanto eu não podia concordar com todos os cinco pontos da TULIP calvinista – especialmente a eleição incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível – eu sabia que a “barraca” do Cristianismo evangélico autêntico era maior e mais ampla do que eu tinha sido levado a acreditar. Essa convicção se fortaleceu enquanto bebia intensamente das fontes de teologia reformada evangélica por todos os meus estudos no seminário e na universidade.

Enquanto conservava minhas crenças arminianas, minha mente evangélica se expandiu e se aprofundou enquanto lia teólogos reformados como G. C. Berkouwer, Bernard Ramm, Donald Bloesch, J. I. Packer e Francis Schaeffer. Eles me mostraram novas dimensões das doutrinas de Deus e da salvação que estava faltando ou tinha sido obscurecida no Arminianismo de minha juventude e início de minha educação teológica: a diversidade misteriosa, santa de Deus; a soberania grandiosa de Deus sobre a natureza e a história; a completa impotência da humanidade para realizar qualquer bondade ou até mesmo decidir aceitar os benefícios do sofrimento e morte de Cristo à parte da graça.

Tenho aprendido desde então que estes temas não estão faltando na teologia arminiana clássica, mas eu tive que aprendê-los de evangélicos reformados. Eu sai de meus estudos teológicos convencido de que minha teologia arminiana, embora fundamentalmente correta, carecia de profundidade e que ela poderia ser enriquecida pela herança do Cristianismo reformado. Também sai convencido de que a teologia reformada – particularmente em suas formas mais consistentes – carecia da observação maravilhosa do amor universal de Deus por suas criaturas humanas tão evidentes na melhor de minha própria tradição arminiana. Eu estava convencido de que a comunidade evangélica precisa tanto de George Whitefield quanto de John Wesley, e que seus herdeiros precisam um do outro para atingir a beleza do equilíbrio.

Por algum tempo no começo de minha carreira como teólogo evangélico, eu tentei viver como um pacífico arminiano trabalhando tranqüila e discretamente no mundo amplamente reformado da teologia evangélica prevalecente. Encontrei muitos companheiros arminianos ao longo do caminho que muitas vezes preferiam chamar-se a si mesmos de “moderadamente reformados” ou “calminianos,” e gradualmente foi ficando claro que para muitos – talvez a maioria – teólogos evangélicos fora dos círculos estritamente wesleyanos ou pentecostais, arminiano é uma palavra secreta para semipelagiano (a heresia da crença na iniciativa humana na salvação) se não “humanismo disfarçado.”

Um dia um amigo dirigiu-se a mim em particular e me perguntou com grande preocupação se meu Arminianismo poderia ser evidência de um humanismo disfarçado em meu pensamento. Era para mim a primeira salva de artilharia em uma nova batalha pela mente evangélica no qual eu me encontraria preso no meio. Tenho visto uma declaração de princípios de ortodoxia evangélica por auto-proclamados “evangélicos confessos” – um de meus professores do seminário entre eles – que coloca limites que me excluiria junto com outros arminianos da comunidade evangélica. (Estes incidentes me fazem lembrar, quando jovem, da minha própria tradição Holiness-Pentecostalismo que tendia a fazer o mesmo com a teologia calvinista.) Uma nova ocorrência de conflito e exclusão sobre esta questão não pode servir qualquer propósito útil senão para dividir, excluir e enfraquecer a frágil unidade evangélica tão cuidadosamente construída e preservada durante as últimas cinco décadas.

Estou firmemente convencido de que os evangélicos arminianos e reformados precisam uns dos outros ainda que não tenho esperança de um meio termo híbrido ou consistente emergindo deles. Se isso fosse possível, teria acontecido há muito tempo atrás. Mentes brilhantes e biblicamente comprometidas têm trabalhado nestas questões de interpretações por centenas de anos sem chegar a tal combinação consistente. Não vejo problema se alguns evangélicos querem afirmar algo chamado “Calminianismo” – o que eu somente posso reconhecer como uma mistura evangélica paradoxal e portanto sem firmeza. E eu percebo que muitos cristãos evangélicos não se identificam especificamente nem com o Arminianismo nem com o Calvinismo.

Mas alguém ou crê que a graça é resistível ou crê que ela não é. Não pode ser ambos da mesma maneira ao mesmo tempo. Alguém ou crê que a eleição – um conceito completamente bíblico – é incondicional ou não. Não pode ser ambos da mesma maneira ao mesmo tempo. Alguém ou crê que a providência divina sobre a natureza e a história é meticulosa e absoluta ou não. Em algumas destas questões teológicas cruciais, sobre as quais a Bíblia fala freqüentemente, alguém deve escolher um caminho ou o outro, e infelizmente, ou a Escritura não é inteiramente clara ou nossas mentes estão tão obscurecidas pela finitude e pela queda para chegar a uma resposta definitiva que possa ser imposta como a única possível interpretação para todos os que crêem na Bíblia.

Não temos escolha

Alguns de nós não podem deixar de ser arminianos porque quando lemos a Bíblia vemos como seu tema predominante o amor universal de Deus e seu desejo pela salvação de todos e pela inclusão de todas as pessoas em seu reino. Não o “humanismo disfarçado,” mas passagens como 1Tm 2.4; 2Pe 3.9, e Ez 33.11 (para não mencionar Jo 3.16, 17!) nos convence de que Deus não exclui ninguém de seu amor e comunhão eterna por alguma preordenação secreta e controle misterioso. Não a filosofia moderna, mas passagens como Lc 6.47 e 9.24, Act 7.51 e Ap 22.7 nos convence de que aos humanos são dados o tremendo dom da liberdade para aceitar ou resistir a graça salvadora de Deus e o dom do Espírito Santo. Nada disso, entretanto, significa limitação da soberania de Deus ou um ganho meritório da salvação pelo esforço humano.

Nós arminianos clássicos – nem todo arminiano é um arminiano clássico – cremos que Deus poderia controlar tudo mas escolhe estar no comando ao invés de controlar tudo a todo instante. A auto-limitação de Deus não impugna a majestade e a soberania de Deus.

Também acreditamos com Jacob Arminius e John Wesley que a graça preveniente é a única base para a livre aceitação da graça salvadora de Deus. Sem ser anteriormente despertado, chamado e capacitado, todos os humanos são pecadores demais para escolher livremente aceitar a oferta de Deus da graça salvadora. Em nossa opinião, que a salvação é aceita livremente não invalida sua natureza como uma completa dádiva. Por compreender e fielmente comunicar o tema revelacional do amor e da graça universal de Deus, os arminianos devem ser elogiados e estimados.

Alguns evangélicos não podem deixar de ser reformados e calvinistas porque, quando lêem a Bíblia, eles vêem seu tema predominante como a majestade transcendente, o poder e o controle soberano de Deus. O exemplo clássico de Romanos 9-11 é prova suficiente para eles que a providência é absoluta e meticulosa e que a eleição é incondicional e a graça é sempre irresistível. Eles acham os mesmos temas e doutrinas ecoando por toda a Escritura, incluindo Isaías 6, Am 3.6 e 4.13, João 17 e Efésios 1.

Além disso, se a salvação é verdadeiramente um dom gratuito como Paulo ensina em Ef 2.8-10, de forma que ninguém que é salvo pode possivelmente se gabar, então, os calvinistas afirmam, ela deve ser dada à parte de qualquer atividade ou cooperação do lado do pecador para recebê-la. De outra forma, a pessoa redimida poderia gabar-se. O padrão do testemunho bíblico para Deus e seu plano providencial como percebido pelos cristãos reformados os força a reconhecer e confessar a preordenação incondicional de todas as coisas sem limitação ou exceção. Por compreender e fielmente comunicar o tema revelacional da grandeza de Deus e da dependência humana, os calvinistas devem ser elogiados e estimados.

Ainda que estes dois grupos da comunidade evangélica não podem concordar – e parece improvável que qualquer um deles alguma vez persuadirá todos os outros a “converter” para o seu ponto de vista – eles podem e devem aceitar um ao outro como irmãos e irmãs em Cristo e reconhecer seus laços evangélicos comuns. Esta tem sido uma das forças da aliança evangélica do mundo pós-segunda guerra mundial. Para o bem maior do reino de Deus, cristãos biblicamente comprometidos, centralizados em Cristo, têm trabalhado juntos num espírito de respeito e aceitação mútuos para a propagação do evangelho e para o alívio do sofrimento humano apesar das diferenças de interpretação das doutrinas da eleição e providência. Seus inimigos comuns da acomodação ao secularismo e da flagrante heresia dentro das denominações reconhecidas têm fortalecido seu foco em sua crença comum na autoridade da Escritura, divindade de Cristo, salvação pela graça apenas, por meio da fé apenas, e outras grandes verdades da Bíblia e da fé cristã histórica. O espírito semelhante a Cristo do amor e da aceitação pacífica das diferenças de opinião sobre questões secundárias têm grandemente acentuado a influência desta aliança evangélica na sociedade.

Cada vez mais acusações imoderadas de quase heresia dentro da aliança evangélica sobre questões que concordamos em discordar pacificamente pode simplesmente minar e enfraquecer seu testemunho. Ao invés de dizer, “Vejam como eles amam uns aos outros!”, os não-evangélicos dirão, “Vejam como eles brigam e disputam entre si!” Quem pode culpá-los?

A verdade importa, mas nem toda verdade importa igualmente. Algumas coisas nunca saberemos com certeza até que as lentes escurecidas sejam removidas e todos veremos “face a face.” Nesse meio tempo, precisamos aprender como respeitar e apreciar um ao outro em humildade enquanto defendendo nossas próprias interpretações preferidas dos questões bíblicas debatíveis sobre a soberania divina, a eleição, o livre-arbítrio e a resistibilidade da graça.

Para esse fim eu desafio meus companheiros arminianos evangélicos a fazer como tenho feito: Bebam intensamente das fontes do pensamento evangélico reformado e elogiem os cristãos calvinistas por sua compreensão da glória de Deus e da completa graciosidade da salvação. Admirem e busquem imitar seu amor pelo pensamento cristão integrante e sua paixão por transformar a cultura. Evitem estereótipos e caricaturas do Calvinismo, pois eles não fazem juz à sua riqueza e profundidade. Todos os evangélicos devem à herança de Calvino, John Knox, Edwards, Whitefield, Spurgeon e Schaeffer.

A meus colegas evangélicos calvinistas, eu convido a dar a nós arminianos o benefício da dúvida: Ainda que vocês não possam ver como podemos entender Deus como “no comando” mas não “no controle” (soberano mas não todo-determinativo), entendam e aceitem que adoramos a Deus como majestoso, todo-poderoso e misterioso em beleza e poder. Percebam, ainda que não possam inteiramente entender, que nós arminianos afirmamos a salvação como uma dádiva completa da graça imerecida, ainda que ela deve ser aceita livremente. Leiam Arminius, Wesley, Miley, Dale Moody, Grider, Dunning e Oden. Todos afirmam sobre bases bíblicas que a eleição é condicional e a graça resistível, e todavia que a justificação é pela graça apenas por meio da fé apenas, livre, completa e imerecida.

Desde esse dia, no funeral da tia Margaret, tenho me associado com vários evangélicos reformados e aprendido a apreciar tanto eles como sua teologia ainda que permaneço convencido de minha própria perspectiva tanto biblicamente quanto logicamente. Tudo que eu peço é que eles retribuam a gentileza e aceitam aqueles de nós que somos seus irmãos e irmãs evangélicos na fé apesar de sua própria convicção da superioridade de sua teologia.

Certamente podemos aprender a trabalhar e testemunhar e adorar juntos novamente como fizemos no passado. Até John Wesley e seu companheiro calvinista George Whitefield refizeram sua amizade antes que morreram. Wesley pregou no funeral de Whitefield. Foi tudo para a glória de Deus e seu reino eterno que ele fez.

Tradução: Paulo Cesar Antunes

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Roger E. Olson, editor conselheiro da Christianity Today, é autor de A História da Teologia Cristã (Editora Vida, 2000).

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Igrejas infectadas

Ricardo Gondim.

Aos 25 anos de idade, depois de várias febres, muita rouquidão e um péssimo hálito, dei o braço a torcer e aceitei que o médico operasse as minhas amídalas. Resisti o quanto pude porque sabia que as amídalas existem para proteger as vias respiratórias.

Contudo, o médico conseguiu me convencer de que as minhas estavam imprestáveis; tão infectadas que já não protegiam, mas contaminavam o resto do organismo. Só restava uma opção, arrancá-las fora. A partir daquele dia, aprendi que um órgão – qualquer um – pode perder a sua função original e passar a atacar o corpo.

Nas relações humanas e sociais acontece o mesmo. Quando se perdem as finalidades originais, morrem casamentos, empresas, igrejas. Serve o exemplo da família: pai e mãe devem oferecer um ambiente em que os filhos aprendam a ter confiança, segurança, dignidade. Mas quando acontecem muitas brigas com ódio, quando falta paz, aquela família perde a função de fomentar auto-estima e segurança. Assim, deixa de ajudar e passa a desajustar as crianças.

As religiões também podem virar amídalas infectadas. Bastar ver na história. Inúmeras igrejas criaram ambientes doentios e desumanizadores, quando deviam ser espaços de humanização.

Devido a este site, recebo milhares de mensagens sobre assuntos variados, a grande maioria, entretanto, pede ajuda. Muitos não suportam os sermões vazios com promessas mirabolantes e ameaças de maldição. Entristeço, mas fica óbvio para mim que as lógicas e práticas da igreja evangélica não consegue responder às complexidades do século XXI. Os espaços evangélicos estão febris.

É preciso detectar, rapidamente, onde a infecção se tornou aguda para combatê-la com doses maciças de antibióticos espirituais e éticos; com um bom diagnóstico não será preciso operar o foco da contaminação e ainda preservar o organismo.

Estão infectadas as igrejas que priorizam programas e não relacionamentos. Jesus não tratou a “igreja” como uma instituição, mas como uma comunidade. Igreja são mulheres e homens com um estilo de vida nobre, verdadeiro, que inspiram os outros a glorificar a Deus. Portanto, para o seu eterno propósito dar certo, Jesus não precisa de eventos sofisticados, basta que seus seguidores amem uns aos outros.

Estão infectadas as igrejas que priorizam poder e não serviço. Nas Escrituras, poder só tem sentido quando mobiliza para solidariedade, compaixão, humildade. A busca do poder pelo poder é luciferiana em sua essência. Jesus criou o mundo, mas se esvaziou, encarnou e morreu numa cruz. Os cristãos não almejam tronos, mas bacia e toalha para lavar os pés alheios. Sem esperar aplausos, sentem-se privilegiados de servirem.

Estão infectadas as igrejas que priorizam espetáculo e não discrição. Jesus ensinou que não se devem cobiçar os primeiros lugares; considerou que a autêntica piedade acontece num quarto de portas fechadas; falou que a mão esquerda não deve conhecer o que a direita oferece. Quando Jesus ressuscitou uma menina, respeitou a privacidade da família e não deixou que estranhos entrassem para testemunhar o milagre. Sobram exemplos de seu recato. Certamente, Jesus não se agrada de saber que alguns tentam transformar a fé num show.

Estão infectadas as igrejas que priorizam milagre e não coragem existencial. Paulo considerou tudo como esterco pela excelência do conhecimento de Cristo – esse, somente esse, deve ser o alvo da espiritualidade cristã. Não se cultua a Deus para descobrir um jeito certo de “alcançar milagre” ou para ter uma fé mais “eficiente”. No culto, celebra-se o amor gratuito e unilateral de Deus. O Evangelho é boa notícia porque todos são aceitos sem exigências. Deus quer bem sem fazer distinção; não se ganha o favor de Deus com obras. Graça é o chão onde todos podem alicerçar a vida com liberdade e sem culpa. O cristão não precisa que Deus conserte as dificuldades da vida, basta a sua companhia.

O Apocalipse foi taxativo com uma igreja infectada: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se... Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele. O evangélicos precisaram, como nunca, ouvir esta exortação.

Soli Deo Gloria.

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Poderia um Deus Amoroso Mandar Pessoas para o Inferno?

William Lane Craig

O filósofo cristão Dr. William Lane Craig e o filósofo ateu Dr. Ray Bradley debateram sobre a questão “poderia um Deus amoroso mandar pessoas para o inferno?” na Universidade Simon Fraser, Canadá, em 1994.

Este texto é a transcrição do discurso inicial do Dr. Craig.

Argumentos Introdutórios do Dr. Craig

Obrigado. “Se Deus realmente é amor, então como pode mandar alguém para o inferno?” A questão é quase um vexame para os cristãos hoje. Por um lado, a Bíblia ensina que Deus é amor, e ainda, por outro lado, adverte sobre aqueles que rejeitam a Deus perante a punição eterna, e contém avisos freqüentes sobre o perigo de ir para o inferno. Mas não são ambas de alguma forma inconsistentes uma com a outra? Bem, muitas pessoas parecem pensar que são inconsistentes, mas na verdade isto não é de todo óbvio. Afinal, não existe uma contradição explícita entre elas. A frase “Deus é amor” e “Algumas pessoas vão para o inferno” não são explicitamente contraditórias. Então se essas são ambas inconsistentes, devem existir algumas pressuposições implícitas que serviriam para extrair a contradição e torná-la explícita.

Mas quais são essas pressuposições? Parece a mim que o difamador do inferno está fazendo duas pressuposições cruciais. Primeiro, afirma que se Deus é Todo-Poderoso, então pode criar um mundo no qual todos escolhem livremente dar sua vida a Deus e serem salvos. Segundo, afirma que se Deus é amor, então prefere um mundo no qual todos escolhem livremente dar sua vida a Deus e serem salvos. Desde que Deus é desejoso e capaz de criar um mundo em que todos são salvos livremente, segue-se que ninguém vai para o inferno.

Agora perceba que ambas afirmações tem que ser necessariamente verdadeiras, para provar que Deus e o inferno são logicamente inconsistentes um com o outro. Então, sendo que existe até uma possibilidade de uma das afirmações ser falsa, é possível que Deus é amor e que ainda assim algumas pessoas vão para o inferno. Além disso, o oponente do inferno tem que sustentar um ônus pesado de provas, inclusive. Ele tem que provar que ambas afirmações são necessariamente verdadeiras.

Mas de fato, parece a mim que nenhuma dessas afirmações é necessariamente verdadeira. Para explicar isso, permita-me explanar para você o ensino cristão a respeito de Deus e do inferno. De acordo com a Bíblia, a natureza de Deus é tanto justiça perfeita quanto amor perfeito. Ambas são igualmente poderosas, e nenhuma delas pode ser comprometida. Vamos olhar primeiramente para a justiça de Deus. Estava conversando com um aluno, uma vez, a respeito de sua necessidade de salvação, e ele disse a mim “Confio na justiça de Deus. Não acho que poderia existir alguém que fosse mais reto ou justo que Deus. Tenho a plena certeza em sua decisão”. Agora isto é verdadeiro. Deus é reto. Totalmente justo. Ele não tem contas a acertar. Não está aí para pegar você. Ele é o mais competente, inteligente, imparcial e mais justo juiz que você terá. Ninguém terá uma decisão bombástica numa cadeira durante o julgamento de Deus. Todos os humanos podem ficar garantidos de uma justiça absoluta.

Mas isto é precisamente o problema! Porque a justiça de Deus expõe a inadequação humana. A Bíblia diz que todas as pessoas falharam em viver a lei moral divina e então se encontram culpados perante Deus. A palavra bíblica para esta falha moral é pecado. A Bíblia diz que “Todos estão debaixo do poder do pecado. Não há um justo; não, um justo sequer; todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.10, 12 e 23).

Então percebemos que estamos debaixo da lei da justiça divina. Você colhe o que planta. A Bíblia diz, “Não se enganem; Deus não se deixa escarnecer. Aquilo que o homem plantar, isso também colherá. O que planta na sua carne, da carne colherá a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna”, (Gl 6.7-8). O profeta Ezequiel declarou, “a alma que pecar essa morrerá” (Ez 18.4), e o apóstolo Paulo ecoa, “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Você colhe o que planta. Você colhe o que planta. Está é a justiça em sua forma mais pura.

O único problema é que ninguém é perfeito! Então, se confiamos somente na justiça de Deus, nos afundaremos! Não há ninguém que mereça ir ao céu. Ninguém é bom o bastante! Então se dependemos da justiça de Deus, a temos. E está tudo certo.

Portanto, devemos colocarmo-nos na misericórdia de Deus. Mesmo quando somos culpados e merecemos morrer, Deus ainda nos ama. Algumas vezes as pessoas tem a idéia de que Deus é um tipo de tirano cósmico lá em cima, querendo pegar-nos. Mas esta não é a compreensão cristã de Deus. Escute o que a Bíblia diz, “‘Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio?’ Diz o Senhor Deus, ‘Não desejo antes que se converta dos seus caminhos e viva? Porque não tenho prazer na morte do que morre’, diz o Senhor Deus, ‘convertei-vos, pois, e vivei’. Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel?” (Ez 18.23, 32; 33.11).

Aqui Deus invoca literalmente as pessoas para retornarem de seus caminhos destrutivos e serem salvos. E no Novo Testamento diz, “o Senhor não está querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2Pe 3.9). “Quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm 2.4).

Assim, Deus encontra-se em um tipo de dilema. De um lado estão Sua justiça e santidade, os quais exigem punição ao pecado, justamente merecida. Por outro lado estão o amor e a misericórdia de Deus, os quais exigem reconciliação e perdão. Ambos são essenciais a natureza Dele; e estão relacionados um com o outro. O que Deus deve fazer com este dilema?

A resposta é Jesus Cristo. Ele é o fundamento da justiça e do amor de Deus. Eles se encontram na cruz: o amor e a ira de Deus. Na cruz, vemos o amor de Deus pelas pessoas e sua ira contra o pecado.

Por um lado vemos o amor de Deus. Jesus morreu em nosso lugar. Ele voluntariamente tomou a si mesmo a pena de morte do pecado que merecíamos. A Bíblia diz, “Nisto está o amor, não em que nos tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou seu filho para propiciação pelos nossos pecados”. (1Jo 4.10).

Mas na cruz também vemos a ira de Deus, assim como Seu primeiro julgamento é derramado sobre o pecado. Jesus foi nosso substituto. Ele experimentou a morte por todos os seres humanos e arrancou a punição por todo pecado. Nenhum de nós poderia imaginar o que Ele suportou. Como Olin Curtis escreveu, “Lá somente nosso Deus abre sua mente, seu coração, sua consciência pessoal para o fluir horrendo do pecado, esta história interminável, desde a primeira escolha de egoísmo até agora, da eternidade do inferno, o ilimitado oceano de desolação, Ele permite que lutas e lutas oprimam sua alma”.[1] Jesus suportou o inferno por nós, para que não tivéssemos que suportar. É por isto que Jesus é a chave, e a questão suprema da vida se torna, “O que você vai fazer com Cristo?”.

A fim de receber perdão, precisamos colocar nossa confiança em Cristo como nosso salvador e Senhor de nossas vidas. Mas se rejeitarmos a Cristo, então rejeitamos a misericórdia de Deus e retrocedemos à Sua justiça. E você sabe onde você está. Se rejeitarmos a oferta de perdão de Jesus, então não existe simplesmente ninguém mais que pague a penalidade pelo seu pecado – exceto você mesmo.

Assim, em um sentido, Deus não manda ninguém para o inferno. Seu desejo é que todos sejam salvos, e Ele invoca as pessoas a virem até Ele. Mas se rejeitarmos o sacrifício de Cristo por nós, então Deus não tem escolha senão dar a nós o que merecemos. Deus não nos mandará para o inferno – mas nós mesmos nos mandaremos para lá. Nosso destino eterno, assim sendo, reside em nossas próprias mãos. É uma questão de nossa escolha livre onde iremos passar a eternidade.

Agora, se este cenário é até possível, segue que nenhuma inconsistência tem sido demonstrada entre Deus ser amoroso e algumas pessoas irem para o inferno. Dado que Deus nos criou com livre arbítrio, então Ele não pode garantir que todas as pessoas irão dar suas vidas livremente a Ele para serem salvas. A Bíblia deixa isso muito claro, que Deus deseja que todas as pessoas sejam salvas, e por Seu Espírito, pretende chamar a Si cada um. O único obstáculo para a salvação universal é, portanto, a livre escolha humana. É logicamente impossível fazer alguém fazer por livre vontade alguma coisa. O fato de Deus ser o Todo-Poderoso não significa que Ele possa fazer o logicamente impossível. Assim, mesmo que Ele seja Onipotente, não pode fazer com que todos sejam livremente salvos. Dado a liberdade e a obstinação humanas, algumas pessoas podem ir ao inferno apesar do desejo e esforço de Deus para salvá-los.

Além disso, está longe de ser óbvio que o fato de Deus ser amoroso O obriga a preferir um mundo no qual ninguém vai ao inferno a um mundo no qual algumas pessoas vão. Suponhamos que Deus pudesse criar um mundo em que cada um seria livremente salvo, mas existe somente um problema: tais mundos tem somente uma pessoa dentro deles! O fato de Deus ser todo-amoroso O obriga a preferir um desses mundos que não são populosos sobre um mundo no qual multidões são salvas, mesmo que algumas pessoas vão livremente para o inferno? Eu acredito que não. O fato de Deus ser todo-amoroso implica que em qualquer mundo que Ele crie, Ele deseja e se esforça pela salvação de todas as pessoas. Mas as pessoas que iriam, espontaneamente, rejeitar todos os esforços de Deus para salvá-las não deveriam ser permitidas ter alguma sorte de poder de veto sobre quais mundos Deus é livre para criar. Por que a alegria e a benção daqueles que livremente aceitariam a salvação de Deus deveriam ser impedidas por causa de quem obstinada e livremente iria rejeitá-las? Parece-me que o fato de Deus ser amoroso requereria, no máximo, que Ele criasse um mundo que tivesse um equilíbrio entre os salvos e os perdidos, um mundo no qual tanto quanto possível livremente aceitam a salvação e o mínimo possível livremente a rejeita.

Assim, nenhuma das afirmações cruciais feitas pelo oponente da doutrina do inferno é necessariamente verdadeira. O fato de Deus ser onipotente e amoroso não acarreta o fato de que todos irão abraçar a salvação de Deus ou que ninguém irá rejeitá-lo livremente. E assim, nenhuma inconsistência tem sido demonstrada entre Deus e o inferno.

Agora, o oponente da doutrina do inferno deve admitir que dada a liberdade humana, Deus não pode garantir que todos serão salvos. Algumas pessoas podem condenar livremente a si mesmas ao rejeitar a oferta de salvação de Cristo. Mas, ele pode argumentar, seria injusto que Deus condenasse as pessoas para sempre. Pois até mesmo pecados graves como aqueles dos torturadores nazistas nos campos de concentração ainda merecem somente uma punição finita. Portanto, no máximo, o inferno poderia ser um tipo de purgatório, durando um período de tempo apropriado para cada pessoa antes que esta pessoa esteja liberada e seja levada ao céu. Finalmente, o inferno poderia estar vazio e o céu cheio.

Agora, trata-se de uma objeção interessante, porque defende que o inferno é incompatível, não com o amor de Deus, mas com Sua justiça. A objeção é dizer que Deus é injusto porque a punição não se adequou ao crime.

Trata-se também de uma objeção persuasiva, que poderia ser evitada por adotar a doutrina do aniquilacionismo. Alguns cristãos crêem que o inferno não é a separação eterna de Deus, mas sim a aniquilação do condenado. O inimigo condenado simplesmente deixa de existir, enquanto aos salvos é dada a vida eterna. Agora, enquanto não sou desta opinião particularmente, representa uma forma na qual você poderia ir contra o vigor desta objeção. Mas a objeção é persuasiva por si mesma? Acredito que não.

1) A objeção equivoca-se entre todo pecado que cometemos e todos os pecados que cometemos. Podemos concordar que todo pecado individual que uma pessoa comete merece somente uma punição finita. Mas não segue disto que todos os pecados de uma pessoa juntos como um todo merece somente uma punição finita. Se uma pessoa comete um número infinito de pecados, então a soma total de tais pecados merece uma punição infinita. Agora, claro, ninguém comete um número infinito de pecados na vida terrena. Mas que tal na vida após a morte? Na medida em que os habitantes do inferno continuam a odiar a Deus e rejeitá-Lo, continuam a pecar e por isso acumulam a eles mesmos mais culpa e mais punições. Em um sentido real, então, o inferno é perpétuo por si mesmo. Neste caso, cada pecado tem um castigo finito, mas porque o pecado se prolonga, assim o faz a punição.

2) Por que pensar que todo pecado tem somente uma punição finita? Podemos concordar que pecados como roubo, mentira, adultério, e assim por diante, são somente consequências do finito e então, somente merecem uma punição finita. Mas, em outro sentido, esses pecados não são o que serve para separar alguém de Deus. Porque Cristo morreu por aqueles pecados. A penalidade por aqueles pecados foi paga. Tem-se que aceitar a Cristo como Salvador para ser completamente livre e limpo daqueles pecados. Mas a recusa ao aceitar a Cristo e Seu sacrifício parece ser um pecado de uma ordem completamente diferente. Pois este pecado decididamente separa alguém de Deus e de Sua Salvação. Rejeitar a Cristo é rejeitar ao próprio Deus. E este é um pecado de gravidade e proporção infinitas e, portanto, merece uma punição infinita. Devemos, então, não pensar no inferno primeiramente como punição pela matriz dos pecados de conseqüências finitas os quais cometemos, mas sim, como o que é justo e devido a um pecado de consequência infinita, a saber, a rejeição do próprio Deus.

3) Por fim, é possível que Deus permitisse que o condenado deixasse o inferno e fosse ao céu, mas eles livremente recusam-se a isso. É possível que pessoas no inferno cresçam somente mais implacavelmente em sua ira por Deus assim que o tempo passa. Em vez de se arrependerem e de pedirem a Deus por perdão, eles continuam a amaldiçoá-Lo e rejeitá-Lo. Assim, Deus não tem escolha senão deixá-los onde estão. Neste caso, a porta do inferno está trancada, como John Paul Sartre disse, por dentro. O condenado assim escolhe a separação eterna de Deus. Então, novamente, assim como nenhum desses cenários é possível, invalida a objeção que a justiça perfeita de Deus é incompatível com a separação eterna de Deus.

Mas talvez neste ponto, o oponente da doutrina do inferno poderia tentar uma última objeção. Considerando que não é nem falta de amor nem de justiça de Deus para criar um mundo no qual algumas pessoas rejeitam a Ele de livre vontade sempre, como fica o destino daqueles que nunca ouviram sobre Cristo? Como Deus pode condenar as pessoas que, não por causa delas, nunca tiveram a oportunidade de receber Cristo como seu Salvador? A salvação ou a condenação de um pessoa assim, parece ser o resultado de um acidente histórico e geográfico, o qual é incompatível com um Deus amoroso.

A objeção é, no entanto, falaciosa, porque afirma que aqueles que nunca ouviram sobre Cristo são julgados na mesma base daquele que ouviram. Mas a Bíblia diz que o não-alcançado será julgado em uma base bem diferente da base daqueles que ouviram o evangelho. Deus julgará o não-alcançado na base da resposta deles à auto-revelação na natureza e na consciência. A Bíblia diz que somente da ordem criada, todas as pessoas podem saber que um Deus Criador existe e que Deus implantou sua lei moral nos corações das pessoas, para que elas ficassem inescusáveis a Deus. (Rm 1.20; 2.14-15). A Bíblia promete salvação para todo aquele que responder afirmativamente à sua auto-revelação de Deus (Rm 2.7).

Agora, isto não significa que eles podem ser salvos sem Cristo. Em vez disso, significa que os benefícios do sacrifício de Cristo podem ser aplicados a eles sem seu conhecimento consciente de Cristo. Eles seriam como o povo no Antigo Testamento, antes de Jesus vir, que não tinha o conhecimento consciente de Cristo, mas que estava salvo na base de seu sacrifício através de suas respostas à informação que Deus tinha revelado a eles. E assim, a salvação está verdadeiramente disponível a todas as pessoas em todos os tempos. Tudo depende de nossa escolha livre.

Nenhum cristão aprecia a doutrina do inferno. Eu queria, de verdade, com todo o meu coração que a salvação universal fosse verdade. Mas fingir que as pessoas não são pecadoras e não têm necessidade de salvação seria cruel e enganoso como fingir que todo mundo fosse saudável mesmo quando soubessem que têm uma doença fatal da qual soubessem a cura. A questão perante nós hoje não é, portanto, se gostamos da doutrina do inferno; a questão é se a doutrina é possivelmente verdadeira. Argumentei que nenhuma inconsistência existe entre os conceitos cristãos de Deus e inferno. Se o Dr. Bradley quer manter que são inconsistentes, então o ônus da prova permanece em seus ombros.

Tradução: Tatiana Teles Luques dos Santos


[1] O. A. Curtis, The Christian Faith, p. 325.