sexta-feira, 2 de setembro de 2011

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VOCAÇÃO OU PROFISSÃO?





A história nos encaminhou a dividir nossa vida.

Para facilitar o manejo com algo tão complexo como o viver, dividimos.

Tudo foi dividido: religião e estado, ciência e religião, clero e leigos.

Você já percebeu como o estado está separado da nação?

“ O governo está devendo bilhões”, é a afirmação que mais ouvimos.
Podemos perguntar: - quem está devendo?

Nós não conseguimos pensar unificado, antes nos enchemos de vidas: vida familiar, vida conjugal, vida financeira, vida profissional, vida sentimental, vida íntima, vida religiosa. É como se tudo isto fosse algo à parte de nós mesmos.

- Estou bem, mas a minha vida íntima; ou familiar...

O grande problema em dividir nossa vida está no fato de que estas vidas todas requerem uma vida inteira de investimento; de dedicação, isto é, todas elas precisam ser vividas. Neste conceito, ao invés de facilitar, a coisa está complicando, pois antes eu tinha apenas uma vida para viver e agora, eu tenho várias. Elas, todas elas, requerem a pessoa por inteiro, e a pessoa é uma só. O que fazer com tantas vidas?

Para conseguir sobreviver somos obrigados a separar: Não leve negócios para casa, não traga problemas de casa para a empresa. Não misture ou haverá falência, seja pessoal ou empresarial.

Agora que já nos acostumamos a pensar e viver divididos, a história quer mudar nosso paradigma; diz ela: VAMOS UNIR!
É necessário unificação dos povos, da política, da economia, do mercado. Ouvimos termos como: mercado comum, moeda única, ecumenismo, esforço nacional, fusão de empresas, encontre o seu eu.

Por causa desta divisão, as pessoas têm que eleger uma prioridade e investir nela, isto para não ficar louca. Evidentemente as outras áreas não priorizadas com certeza exigirão. Haverão cobranças e isto resultará em FRUSTRAÇÃO.

A prioridade de nossa sociedade atual é a profissão, por causa do mercado e da sobrevivência, e também da cultura de consumo.

Os pedagogos, professores, os profissionais da educação podem testemunhar:

Pais deixam seus filhos na escola pensando no sucesso, no mercado e não no desenvolvimento pessoal de seus filhos.,

Participei de várias reuniões de pais e mestres e sei o que estou dizendo: Tanto que a maioria dos filhos são quase que abandonados na escola, e a cobrança é pelo sucesso estudantil.

- O que você será quando crescer?
Esta é a tradicional pergunta para as crianças, pelo mundo adulto.

- Se você não tiver a profissão certa, você não será ninguém!
Esta é a afirmação estampada na face de pais desesperados pelo competitivo mercado.

Resulta disto crianças arrebentadas e sendo cobrado da escola uma formação: BOM ESTUDANTE. Interioridade aos cacos, isto resulta em FRUSTRAÇÃO.

Por outro lado da cobrança de conteúdos, a alma requer afetos, conexões, relacionamentos, o desenvolvimento pessoal.


Acabamos encontrando excelentes alunos, bons profissionais, mas péssimo filho, pai ou amigo.


Parece que este se torna o tom do desenvolvimento humano, pois as amizades ou até mesmo a fidelidade, parte de uma ótica profissional - de mercado, se trazem vantagens bem, se não, são descartáveis.

Agora imagine ter vida com Deus neste contexto? Mais uma vida? Isto resulta em MAIS FRUSTRAÇÃO. Apesar da decisão em seguir e ser como Cristo, mais uma neurose está estabelecida = A RELIGIOSA.

É necessário buscar a integração do ser.

Quando na prática você se perceber como um ser único e com um único Deus, mais de meio caminho já foi andado.

Quando a bíblia fala sobre chamado, ela faz referência a VOCAÇÃO CELESTIAL. Isto não é etéreo, mas sim um desafio:

Seja na terra como um celestial. Como isto?

Seja gente, humano. O cidadão celestial que conhecemos foi profundamente humano. Ser a imagem de Cristo não é ser religioso, mas sim, corresponder com a imagem para a qual existo, a imagem e semelhança de Deus, no caso, Cristo.


VOCAÇÃO CELESTIAL É UM CHAMADO PARA SER GENTE.


Não ser burro de carga, um tirano, bruto, irracional ou déspota. É um chamado para viver uma vida que transborda.

Por isso, cada um precisa responder:

Quais as coisas que lhe roubam a doçura?

Quais as coisas que estão lhe tornando insensível, frio e conseqüentemente amargo, frustrado?

Para resolver com a frustração você precisa antes de agir, ter princípios de humanização própria e do outro.

Você está se dedicando à profissão e no referencial da vocação celestial, ela está lhe transformando em que?

O grande chamado ministerial é o principal foco de Deus: Fazer de você uma excelente pessoa. Antes de você ser um excelente profissional, ser uma excelente pessoa.

Para Deus tanto faz se você é publicitário, médico ou vendedor, o importante é quem você é como pessoa. A isto chamamos ministério.

Alguns exemplos podem ajudar:

Neemias é o garçom do Rei, uma pessoa excelente. Sua tristeza chega a incomodar o rei. Ele é sensível pois, chora pelo povo, apesar dele desfrutar das benesses que alguém de confiança em um palácio desfruta.

Cornélio é um militar do reino de ferro,Roma, mas compadece-se dos miseráveis. Apesar de toda sua formação para ser duro, apesar de todas as suas milhares de tarefas, apesar de sua importância, ele é gente e busca a vontade de Deus.

Quando sua prioridade não é alguma área de sua vida, mas sua vida, você precisa convidar Deus para participar de tudo. É muito comum Deus só participar da área profissional das pessoas para abençoar o desempenho, nisto somos gratos e até dizimistas, mas este não é o chamado de Deus. Neste esquema Deus vira um departamento da realização profissional, como se isto fosse tudo. Facilmente nos sentiremos devedores à Deus, pois desta maneira prática das disciplinas espirituais não têm espaço e levam à frustração: não consigo orar, ler a bíblia, etc...

Quando você elege como vida uma ou outra área apenas, você irá se tornar deficitário, manco, isto será frustrante.

Quando você elege a vida, para ser sua vida, a tendência é existir equilíbrio, e os equilibrados são considerados os felizes e realizados.

Quando você entende esta vocação celestial o trabalho na igreja, deixa de ser uma obrigação mas uma ferramenta importante de formação e transformação da humanização. É um trabalho humanizador, conscientizador, de respeito humano.

Na igreja todos são iguais, trabalham e não recebem recompensa como no mercado, é algo entre você e Deus para o bem comum.

Podemos comparar por exemplo com o namoro ou família, pois nenhum deles resiste, ou se sustenta sendo um adendo da área profissional, ou mesmo ministerial.

Dentro da chamada - a vocação celestial temos: as diversas profissões e os ministérios.

Para a concretização da vocação celestial, Deus distribui os dons como um cuidado com o ser humano integralmente: espírito alma e corpo.

O cardiologista tem um ministério com o coração, o dentista com os dentes, os psicólogos com a mente, o pastor com o espírito.

É assim que podemos entender e perceber o quanto todos carecemos da graça de Deus, para desempenhar aquilo pelo qual nos dedicamos, pois Deus quer cuidar do ser humano por inteiro, e levanta os diferentes profissionais a fim de que canalizem suas forças e energias para o outro. Tudo é obra de Deus, façamos pois.

A igreja é essencial para todos e tem uma diferença: nela todos perdem o título, e todos devem concretizá-la.



Eliel Batista
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Jesus Cristo improvável



Dizem por aí que Jesus Cristo morreu, em morte horrenda via crucificação, coisa tão perversa que nem os Estados Unidos ou o Iraque, dois dos mais violentos países do século XXI, cogitam usar para fins disciplinatórios em nossos dias. Esses povos mais bárbaros atuais preferem métodos mais amenos como a tal injeção letal ou o velho e eficaz método de enforcamento.


De qualquer modo, Jesus estaria mais para um cidadão comum que tomou a religião, especialmente a pregação dos rabinos, mais a sério, tentando viver os preceitos aprendidos. Em termos modernos, sua predica foi acentuadamente herética, quanto mais nos tempos em que viveu, se é que viveu. Para os mais céticos, Jesus e toda a sua biografia não passa de um mito. Mas o Dr. Shedd e eu não, somos do grupo dos teimosos e servis, assim pretendemos seguir com nossas crenças mais evangelicais até que a morte nos separe. A única diferença é que ele vivera sua fé confortavelmente como sempre, afinal ele é um missionário norte americano, enquanto eu seguirei comendo pão produzido nas padarias infernais, salvo uma ou outra brisa de verão. Embora a opção de servir a mamon esteja sempre à minha disposição, contra o que reluto tenazmente, permanecendo dividido entre aderir ou rejeitar cheio de duvidas e síndromes insuportáveis.


Em minha modestíssima opinião, toda a teologia envolvendo o tal sacrifício, morte e ressurreição de Cristo surgiu bem depois de sua passagem pelo planeta. No mínimo, após o início do cristianismo como igreja, coisa ocorrida lá pelo século quarto. Mas o auge da teologia vicária viria acontecer bem depois, em meados do século XVI. Não foi por acaso que gente como Lutero e Calvino despontaram naqueles dias, cada qual com suas heresias. O barato é que essas crenças, hoje em dia, estão no bojo da ortodoxia. Legal né?


Tirando o lado paradoxal dessa bobagem a respeito da morte expiatória de Jesus, afinal a teologia do próprio cordeiro sacrificado teria sido muito diferente, a saber, salvação pela graça e absolutamente contrária ao paganismo vigente em seus dias. O Filho predileto de Deus chegou ao absurdo de dar a entender aos seus interlocutores que seu Pai não compactuaria com a equação pecado + culpa= morte, e propôs outra, a saber: arrependimento + fé= perdão incondicional. Nesse caso, nem o arrependimento e a fé seriam condições prévias, mas atitudes inevitáveis diante da verdade, segundo os apologistas mais criveis desse tempo.


Felizmente essas insanidades cristocêntricas passaram, prevalecendo os ensinos pragmáticos de Lutero e Calvino. Enquanto isso, nós aqui abaixo do Equador, nada chegados a essas aventuras repletas de trabalho teológico árduo, onde um teólogo precisaria estudar a vida toda para conseguir provar uma única tese, preferimos nos acomodar ao que já existia e nos foi trazido gratuita e desinteressadamente pelos nossos colonizadores, particularmente pelos holandeses, alemães e norte-americanos. Não fossem os portugueses e seu cristianismo católico romano esculachado, muito mais cômodo e adaptável ao nosso jeito sambista e futebolístico de ser, fatalmente nadaríamos de braçada nas ondas predestinatórias, tão a gosto desses apologistas ortodoxos. O máximo de nossas incursões teológicas é fazer um cursinho quase semiextensivo em Ciências da Religião na Metodista ou na PUC. Há tanta vergonha por lá que os caras nem ousam chamar aquilo de teologia, se não me engano.


Aqui cabe uma palavra de indulgência aos que se arvoram nessas formações alternativas: Sem duvida, essas atitudes são mais eficazes em termos de currículo do que não fazer nada, como é o meu caso. Só não servirá de muita ajuda quando você passar dessa para outra. Aí, o que deverá ter valor é o crédito em sua CCC (Conta Corrente Celestial) e nela, só são aceitos depósitos em forma de generosidades verticais e horizontais.


A história tem importância relativa, o que funciona no fim são as nossas crenças, inclusive as falsas. Tanto faz se Jesus existiu mesmo ou não. Ele mesmo teria cansado de repetir: “Bem aventurados os que não viram e creram”. Prefiro fazer parte dessa turma e seguir pregando o evangelho da graça pelos dias que me restam, bem distante desses fanáticos ortodoxos. Se bem que sou tão idiota, pois ainda incluo essa gente em minhas orações, vez por outra, pedindo a misericórdia divina pela vida deles, também. Mesmo sabendo que a reciproca seja improvável.




Por Lou Mello





 

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As milhares de faces de um Deus invisível e desconhecido





A grande maioria das pessoas chamadas a descrever Deus, seja no ocidente ou no oriente, invariavelmente, começam por mencionar o caráter uno dele. Em outras palavras todos procuram determinar a existência de um Deus único.

Culturas mais primitivas cultuavam vários deuses ao mesmo tempo e ainda temos alguns exemplos disso, nos dias de hoje.

Então somos adeptos do monoteísmo e nossas principais religiões buscam uniformizar e extrair uma descrição capaz de uniformizar a imagem do dono do universo.

Nos últimos dias, fomos premiados com uma descrição impressionante de Deus por nosso amigo Paulo Brabo, um dos melhores blogueiros disponíveis, segundo consenso geral, e muito admirado pela comunidade religiosa de verve cristã. Creio que, quando a sua imagem de Deus é essa, dificilmente você manterá uma relação do tipo pedir-e-dar-se-vos-a. Muito mais provável que você queira ter com ele a mesma relação que o diabo do Brabo imaginou naquele momento, ou seja, de salvador de Deus e não o contrário, como é mais comum.

Se pensarmos melhor, o Brabo não tem o privilégio de imaginar ou conceber uma imagem única de Deus. Em breve, a comunidade pertencente à Igreja Presbiteriana do Brasil e adeptos estará recebendo o conhecido pregador John Piper para reafirmações da concepção calvinista do Deus dessa comunidade, sempre repleta de fatalismos e predestinações. Nas últimas décadas, Billy Gramm foi o mais importante descritor de Deus na embalagem batista onde habitualmente há verdadeiros tsunamis de água para todos os lados. Kenneth Hagin despontou, ao mesmo tempo, como o grande expoente de um Deus cheio de prosperidade para dar e vender. Lembro de Rick Warren e seu Deus cheio de propósitos mercantilistas, de Phillip Yancey com seu Deus insurgente, Brennan Manning e o Deus maltrapilho dele ou ainda o Henry Nouwen que enxergou um Deus extraordinariamente indulgente no pai do Filho Pródigo. Assim por diante, cada denominação ou segmento do Deus evangélico, católico, muçulmano, judeu, etc., apresentará sua própria pintura de Deus.

Seguramente o fenômeno não para por aí. Com toda certeza, cada uma das pessoas adeptas dessas religiões e/ou seitas também possuirão, cada uma, sua própria versão da imagem do divino. Podemos ir além e afirmar, sem medo de errar, que se houver nesse planeta alguns bilhões de criaturas confessoras de sua crendice em Deus, teremos igual número de descrições ou criações de deuses.

Nesse balaio ainda podemos incluir as várias imagens bíblicas de Deus, com destaque para o Deus Pai de Jesus, o Deus mais rancoroso de Paulo, o Deus invisível mas audível de Elias, o Deus feito de luz intensa capaz de cegar de Moisés e o Deus rei e tirano da maioria do pessoal do Antigo Testamento. Sem falar nas descrições que os personagens faziam dos deuses dos outros povos, geralmente inimigos, como Ezequias orou: “Ele criam em deuses que deuses não eram, eram deuses de pedra e pau”

Boa essa ajuda de Ezequias ao nosso tema, afinal se há uma certeza, pelo menos uma, nisso tudo, é o fato de que Deus é uma concepção individual existente na mente de cada pessoa. Sendo assim, embora a maioria se de bem falando com um Deus que está dentro de si, seja lá onde for, muitos preferem criar uma representação exterior dessa invenção. Refiro-me a esses deuses lembrados por Ezequias e a tantos outros conhecidos, seja em forma de astros e estrelas, de árvores, de animais e um monte de cacarecos usados para esse fim. Com isso devem sentir-se menos ridículos quando falam com seu Deus.

Quando Moisés desceu daquele morro trazendo nas mãos sua obra prima, se podem lembrar-se, duas placas cuidadosamente esculpidas a partir de algum tipo de pedra, semelhante a um tipo de pedra sabão, tão a gosto de nosso escultor maior, o Aleijadinho. Nelas entalhou seus dez mandamentos. Para sua grande surpresa, encontrou o povo que deixara esperando na sala de espera de seu monte, cultuando o Deus que eles próprios cunharam enquanto aguardavam o zangado líder da matilha. Criaram Deus na forma de um bezerro de ouro.

Não podemos esquecer que dois quartos da humanidade dos nossos dias imagina Deus como um ser obeso e inerte, sentado com cara de oriental sábio e pensativo. Outro quarto concebe um Deus altamente vingativo, na base de olho por olho e dente por dente. Mas todos esses também, dentro de suas unanimidades, possuem a mais completa diversidade de deuses possível e imaginável, porque cada um concebe seu Deus à sua maneira.

Confesso que não consigo mais ouvir ninguém falar sobre Deus sem pensar que ali está alguém fazendo sua própria descrição de um Deus que só ele conhece. Pois está dentro dele mesmo e não há como coloca-lo para fora, a não ser em espasmos criativos como fez o Brabo, os inimigos de Ezequias, os índios, as tribos africanas e todos os demais que deram forma a seus deuses. Sei que pode parecer pretensão, mas até eu tenho a minha versão interna de Deus, pior, ela foi se modificando com o passar dos anos. Imagino que isso também deve acontece com o Deus de cada um, o que pode multiplicar exponencialmente a quantidade de deuses existentes.

Isso não deve dar a você, ou quem quer que seja, ensejo para imaginar bobagens do tipo: ele não crê mais em Deus. Como já disse antes, estou contaminado eternamente com a ideia de que há um Deus. A diferença reside no fato de que, para mim, ninguém conhece ou conheceu a Deus, exceto Moisés e Elias com suas visões parciais e reduzidas do Criador e Jesus que antes de encarnar, já era filho dele. O resto e tudo que se diz, escreve, desenha, pinta, esculpe e sei lá quantas outras formas de representa-lo, não passam concepções humanas de um ser imaginário. Ele existe, mas ninguém o conhece e, portanto, será capaz de representa-lo, descrever-lhe ou explica-lo, muito menos.

Imagino que estou alimentando potencialmente o apetite dos meus amigos preferidos, os psicólogos, sempre ávidos por mais motivos teológicos capazes de justificar sua atividade desnecessária e rentável. Entretanto, criamos nossos próprios deuses por não conhecermos o Deus original e, principalmente porque temos medo do que pode acontecer conosco, com nossos semelhantes, sobretudo os mais próximos, com nosso planeta tão maltratado e com o resto do universo. Especialmente se Deus não existir, afinal e estivermos todos equivocados quanto a esse detalhe.



Por Lou Mello






quinta-feira, 1 de setembro de 2011

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Jesus: A revisão da identidade de Deus



Peço as mais sinceras desculpas aos amigos humanistas, os quais tenho na mais alta estima, que entendem ser o homem o protagonista da Bíblia. Permitam-me discordar e afirmar o contrário: Deus é o grande protagonista apresentado no sacro texto. A Bíblia é a biografia de Deus. Peço as mesmas sinceras desculpas aos amigos protestantes crentes ou somente protestantes, que igualmente estimo - que podem pensar que, embora tardiamente, estou me redimindo dos últimos escritos doutrinariamente escorregadios -, pois, quero fazer outras duas afirmações: Há um manifesto conflito na natureza divina, e o que consta no Novo Testamento é o registro da revisão da identidade de Deus.

A questão da imutabilidade de Deus choca-se com o fato inegável constatado no Antigo Testamento de que há em sua personalidade traços contraditórios, ao mesmo tempo em que se afirma que ele é o mesmo sempre e que sua natureza é invariável. O monoteísmo cristão ao tentar suprimir a incômoda tensão dinâmica no interior da divindade expressa pelo monoteísmo judeu, parece acalmar somente quando dissolve esses traços contraditórios e a notória mudança frequente do temperamento de Deus, na evidência de serem os registros originários de diferentes fontes antigas. A saída da crítica histórica para suavizar esse conflito e não desconsiderar totalmente o Antigo Testamento, foi explicá-lo através da referência aos vários autores que, ao empunharem a pena, carregaram a escrita com suas visões históricas pessoais. O que mais parece um politeísmo construído com muitas partes sob muitas mentalidades, e não há quem tenha argumentos suficientes para refutá-lo.

O conflito na natureza divina, para ser observado como tal, não deve ser analisado, tampouco descrito, através das conclusões da sistemática. Antes, deve ser considerado como demonstrado pela própria narrativa em curso, em que a personalidade de Deus aparece em progresso, como reação ao longo percurso palmilhado com os hebreus, de forma mais estreita, e com o resto do mundo, de forma mais ampla.

Uma personalidade ainda mais complexa do que a do Deus Único do Antigo Testamento emerge com Jesus no Novo Testamento, também no curso da narrativa. O Deus que não se insinua mais através de vapores, raios e imponentes eventos, o Deus encarnado encontrado na forma humana, Jesus de Nazaré, agora reivindica lentamente em sua passagem por estes campais provisórios, todas as funções que no passado foram desempenhadas por intermediários humanos. Ele é, de uma nova maneira, Adão, Moisés, Davi, Elias, Jonas. À imagem de Deus é o primogênito de uma nova criação. O cumpridor de toda a Lei que divulga uma nova Torá. O inaugurador de um novo Reino, um Reino que não é desse mundo, nem de visível aparência. O operador milagres que antevê o desenrolar da história até sua consumação. O único que sobe plenamente vivo e consciente da morada dos mortos depois de três dias morto.

A palavra que Deus antigamente proferia por intermédio de outros agora se fez carne e armou sua tenda entre nós.

Como se não bastasse um conflito na natureza de Deus, Jesus não só os tem como também os torna mais graves ao falar hora como Deus, hora como homem, dando de sobra referências textuais para quem deseja diminuir a tensão ao falar em duas naturezas habitando, cada uma com sua função bem definida, num mesmo ser. A crítica histórica tenta enfraquecer a crise, ao falar de diferentes Jesuses, maquiados por diferentes autores, para obterem retorno de diferentes ouvintes.

Ao ser reconhecido como o protagonista dos Evangelhos, o Deus encarnado traz consigo as lembranças da vida anterior de Deus, sua relação com o povo de Israel, tudo o que o povo lhe fez bem como tudo o que ele fez ao povo. O Deus que esteve aqui antes por meio da sua Shekinah, mas que silenciara por cerca de quatrocentos anos parecendo ter se retirado do mundo, agora está de volta como Deus Filho e cada esperança que um dia fora infundida na memória e tradição dos judeus é transferida para Jesus, que elimina algumas e incendeia outras.

Barnabé escrevendo aos Hebreus declara que tendo Deus antigamente falado por intermédio dos profetas, Jesus é quem em seu tempo deu o timbre definitivo à voz divina. Jesus é a palavra de Deus em pessoa. Se Jesus é a palavra de Deus o contrário também é verdade, as palavras de Deus proferidas anteriormente também são palavras de Jesus. A afirmação do evangelista de que Jesus era Deus encarnado, nos leva a crer que tudo o que ele faz, ensina, e sofre, é tudo o que por Deus é feito, ensinado e sofrido. Se não adotarmos a saída fácil proposta pela crítica histórica e tivermos fé nas palavras do Deus encarnado como palavras do Deus do Antigo Testamento, seremos levados a crer numa irônica revisão da identidade divina percebidas somente em progresso na narrativa. Jesus é, na forma mais improvável possível, o resultado dessa revisão.

Mas por que Deus agiu assim? Por que ele se fez homem? Mais ainda. Por que ao se tornar homem ele escolhe se tornar o tipo mais desprezível? Por que afinal de contas um leão resolve se comportar como um cordeiro?

Comparado a uma enorme fera devoradora no Antigo Testamento, um Deus que foi capaz de aniquilar sem esforço o maior exército-império do mundo antigo, por que agora se tornara um carpinteiro de vida comum que acaba seus dias com pouco mais de trinta anos como um maldito, trocado por um bandido e agonizando até a morte entre outros dois numa cruz?

O papel sacrificial que Jesus assume deixa seus discípulos perturbados, Pedro até tenta aliviar o pessimismo do mestre em relação ao prognostico que faz sobre si mesmo, e é repreendido como um Satanás por esse descuido. De início Nietzsche certamente teria concordado com Pedro e teria achado a encarnação como sendo o grande azar que se abateu sobre o Senhor dos Exércitos. Ao refletir um pouco mais, o dionisíaco Nietzsche capta melhor do que nós, apolíneos devotos, o significado da palavra da cruz que é loucura.

Deus ainda tem algo inconcebível a dizer sobre si, que só pode ser dito humilhando-se a si próprio. Para não destruir a esperança o Senhor de Toda a Terra arranjou um meio para ser ele próprio sentenciado à morte, não como qualquer um, mas como Rei dos Judeus, a assim substituir uma esperança vã que não irá se realizar – sair debaixo do julgo de Roma –, por outra possível de ser realizada. Aquilo que o Senhor dos Exércitos não pode conquistar através do poder das armas ocasionando na inevitabilidade da derrota da nação eleita e sua própria, o Deus encarnado substitui antecipando uma nova esperança, um tipo de vitória que o poder militar não pode conquistar.

A dupla natureza una em Cristo – não duas naturezas de Cristo – tornou possível à Deus valer-se de sua morte deixando expressa a pedagogia da formação de sua identidade, que não poderia ser demonstrada a menos que ele fosse encontrado em forma humana. Se, como Deus ele não pode cessar sua existência, como homem pode provar a morte, tornando dramática a mensagem, que por ser acintosamente violenta não há como ser comunicada em palavras. Derrotado por Roma e sentindo novamente o gosto amargo da opressão que havia experimentado com o cativeiro babilônico, Deus de maneira inesperada e surpreendente transforma a derrota em triunfo quando do rebaixamento a que se submete existir, ergue-se em exaltação no lenho. No gesto do Deus encarnado a ousadia transgressora em se deixar derrotar de uma maneira para triunfar de outra, afronta a mais pudorizada e aparada imagem que dele fazemos. O Deus de Israel, o Senhor de Toda Terra, foi confrontado na forma mais terrível e intensa possível, morrendo nas mãos do inimigo de seu povo eleito ao invés de libertá-lo e salvar-se a si próprio.

Como Leão da tribo de Judá Deus ruge e não pode ser ameaçado nem ser morto, no entanto, como Cordeiro, Deus emudece, é levado ao matadouro, esmagado e morto. No Novo Testamento a biografia de Deus em suas últimas páginas é revisada de forma extraordinária; ele desce às partes baixas da terra, torna-se um ser humano. Como o Deus das Eras ele não sabe o que é a morte, faltando-lhe algo. Para que possa ser completo, ele deve provar tudo com toda a intensidade. Como Jesus ele prova a morte e emerge como o primogênito dos mortos encorpando sua biografia, dando aos homens a possibilidade de se erguerem da morte juntamente com ele, conhecendo a vida eterna, unindo céu e terra, completando-se.

Transformando-se não em qualquer homem, mas neste homem, Jesus de Nazaré, morto nas mãos do inimigo, Deus provoca uma reversão aterrorizante em sua natureza, dando retoques finais em sua identidade, revisando-a completamente desde o início.


Por Alex Sandro Carrari


Vi no http://foradazonadeconforto.blogspot.com/2011/08/jesus-revisao-da-identidade-de-deus.html


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O diabo que se apaixonou por Deus


Certo diabo apaixonou-se por Deus sem nunca tê-lo visto. Depois de preparar-se por longo tempo, e com a ajuda de um informante, conseguiu infiltrar-se no complexo celeste e foi comprando com subornos, nível após nível, a vasta hierarquia de segurança que o separava da presença divina. Esse trajeto demorou muitos anos.


Naquela tarde o diabo molhou a mão do penúltimo intermediário e adentrou a ante-sala do trono por uma portinha lateral de serviço, junto da qual o esperava um anjo de cavanhaque e costas muito largas.


– Entre de uma vez – ordenou o anjo, e fechou a porta logo em seguida. A vinte passos deles, alto como uma montanha, dormia em sua cadeira o guardião da sala do trono.


Sem qualquer outro intercâmbio eles transpuseram o espaço até junto da porta da proposição, que está sempre fechada e cujas folhas esculpidas em madeira e revestidas de ouro têm cento e quarenta e quatro mil anos-luz de altura.


– Então – disse o anjo, quando estacaram diante da porta e avaliaram-se pela primeira e pela última vez – é você o diabo que apaixonou-se por Deus e vem procurando uma oportunidade de encontrar-se com ele.


– Apenas me poupe desse ar de superioridade moral – respondeu o diabo, ignorando a pergunta. – porque você sabe muito bem que somos muito parecidos. Nós no inferno odiamos tanto o pecado quanto vocês deste lado do abismo. Se estivesse prestando atenção, perceberia que são só os pecadores, os apóstatas e réprobos que nós atormentamos. Só os pecadores podem ser tentados, e só eles conhecerão a aflição da nossa miséria e do nosso desespero. Os santos, os valorosos e puros despertam apenas nossa admiração; nesses não ousaríamos tocar.


– Ou talvez seja nisso que você quer que eu acredite.


– Acredite no que quiser – pediu o diabo. – Apenas saiba, porque não tenho outra a pessoa a quem dizer, que foi justamente esse amor pela integridade e esse desprezo pela corrupção que fizeram com que eu me apaixonasse pela imagem divina.


O anjo deu de ombros e empurrou a porta, que era tão pesada e vasta que foram necessários mil anos para abrir uma fresta pela qual o diabo pudesse passar. A porta rangeu formidavelmente, mas o guardião em sua cadeira não se moveu nem despertou.


O diabo apertou nas mãos do anjo o valor que haviam ajustado, e fez menção de entrar na sala do trono pela estreita passagem. No último instante o anjo segurou-o pelo braço.


– Só preciso que você não ignore, porque quero ser honesto com você – disse o anjo, – que transposta esta porta a distância até o trono é vasta ao ponto do incalculável, e que quando finalmente chegar você estará velho, cansado e desorientado. Não só isso, mas encontrar-se com Deus terá para você um efeito inteiramente descaracterizador. Bastará contemplar pelo mais breve instante a divina presença para você ser imediatamente consumido por ela. Você não terá oportunidade de admirar a imagem de Deus ou de declarar o seu amor. Você terá gasto a sua vida inteira para chegar até Deus, e irá perdê-la para sempre no instante em que o encontrar. Se deixo você passar é porque sua entrada não representa risco para Deus; mas representa um horrendo risco pra você.


– Eu sei – disse o diabo, e seu rosto estava impassível.


– A divindade certamente não ignora que estou transgredindo deixando você entrar; porém Deus está tão distante que quando sua punição chegar já terei há muito deixado de existir. São poucos os que se dispõem a gastar a sua longevidade transpondo o espaço até ele.


E soltou o braço do diabo, que atravessou o limiar e desapareceu sala do trono adentro.


O trajeto até o trono de Deus demorou várias eternidades. As estrelas que o diabo trazia nos olhos se apagaram, e as flores perenes que trazia como presente converteram-se em sequidão e decrepitude e ele deixou-as no caminho, e o trono não chegava. Galáxias nasceram e morreram, e à sua sombra foi-se encurvando e distorcendo a espinha dorsal de todas as coisas, mas o diabo continuou andando. Atravessou resignadamente o silêncio das eras e a esterilidade dos mundos, e quando alcançou a outra extremidade da sala estava velho e cansado, e não trazia mais consigo nenhuma das certezas que lhe haviam iluminado o caminho.


Para sua surpresa, quando chegou ao fim do caminho não havia trono algum, nem qualquer indício da residência de Deus: só uma porta baixa com uma cortina barata de miçangas, e por trás dela um esplendor. O diabo bateu palmas uma vez, depois duas, e por fim uma voz o convidou a atravessar.


Ele afastou com as mãos as fileiras de contas, abaixou a cabeça e do outro lado encontrou um homem decrépito, desdentado, seminu e cheio de chagas, dormindo em imundícia sobre caixas de papelão numa avenida da cidade grande.


O diabo estava velho e cansado, mas seu rosto de diabo ainda era belíssimo, o corpo forte e obediente, os trajes impecáveis e magníficos. Ele reconheceu Deus imediatamente, ajoelhou-se sem qualquer recato sobre a imundícia, tomou-o nos braços e beijou-o longamente na boca sem dentes.


Depois tirou a capa e fez menção de cobrir com ela a nudez divina, mas Deus deteve sua mão com um braço raquítico.


– Não, não faça isso! Minha nudez e minha velhice e minha fome são meu brasão nobiliárquico, e decidi há muito tempo não tentar, até o final, seduzir os homens com outro recurso.


– Mas Deus – implorou o diabo, – eu atravessei eternidades e dormi no vácuo entre as estrelas só para poder finalmente declarar-lhe o meu amor! Permita-me vesti-lo, alimentá-lo e acalentá-lo, para que minha jornada não tenha sido em vão! Permita que eu o carregue de volta até o Paraíso, onde os santos lhe tratarão as chagas, onde os anjos lhe alimentarão de pão e onde a luz sem mácula da santidade lhe restaurará a saúde e a glória!


Mas Deus apertou a mão do diabo e olhou-o firmemente nos olhos.


– Não, não, mil vezes não! Não posso retribuir o seu amor, porque minha paixão é outra – e nesse ponto Deus apertou ainda mais o cingir dos dedos, – mas eu aceito o seu amor. Eu o aceito e o perdoo, como você vai perdoar o meu. A mim também disseram que a viagem seria impossivelmente longa e que, quando eu chegasse, aquele que amo não seria capaz de me reconhecer. A mim também disseram que o encontro com meu amado representaria o meu imediato e derradeiro fim, e que tudo que há de bom e virtuoso em mim seria imediatamente consumido pela minha decisão de partilhar da sua condição. A mim também disseram que neste trajeto o risco seria apenas meu, e que eu estaria derramando em vão o mais precioso amor por quem se mostraria inteiramente incapaz de aceitá-lo e de retribuir.


E o diabo chorava convulsivamente.


– Mas – e Deus levantou sobrancelhas patéticas e sorriu com três ou quatro dentes, – valeu à pena. É por isso que convém até o final que o homem me veja assim, sem qualquer disfarce, para que possa quem sabe me reconhecer e me amar.


O diabo então sentou-se em seus trajes magníficos ao lado da divina miséria, e dormia abraçado a Deus para proteger-lhe do frio, e exultava quando um homem parava um instante para deitar aos seus pés uma moeda ou um pedaço de pão. E de noite acordava sobressaltado, quando não tinha certeza se ainda ouvia no divino peito o divino coração.


Por Paulo Brabo


Vi no http://www.baciadasalmas.com/2011/o-diabo-que-se-apaixonou-por-deus/
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At 13.48

At 13.48[1]



John William McGarvey





A próxima afirmação de nosso historiador tem sido objeto de não pouca controvérsia. (48) “E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.” A controvérsia gira em torno do significado da palavra traduzida “estavam ordenados” (ησαν τεταγμενοι). Escritores calvinistas são unânimes em relacioná-la à eleição eterna e à preordenação ensinada em seus credos. Se esta fosse a correta interpretação, ela implicaria algumas dificuldades que eles parecem não ter percebido. Se “todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” creram nesse dia, então todos os demais eram reprovados, e por estarem condenados à punição eterna, outra pregação de Paulo a eles seria inútil. Agora, é difícil explicar que tão completa separação em duas classes aconteceu por toda uma ampla comunidade em um único dia, e ainda mais difícil explicar que isto foi revelado a Lucas a fim de que ele pudesse registrá-la. Nossa surpresa é ainda maior quando lembramos que, segundo essa teoria, nem mesmo os próprios eleitos podem ter certeza de sua eleição. Certamente não devemos adotar uma conclusão tão anômala, a menos que sejamos obrigados a fazê-lo pela força óbvia das palavras empregadas. O Dr. Hackett, após traduzir a passagem, “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”, diz: “Esta é a única tradução que a filologia da passagem permite.” Grimm, em seu léxico, expressa a ideia calvinista mais plenamente dando como significado, “tantos quantos foram apontados (por Deus) para a vida eterna, ou a quem Deus tinha decretado a vida eterna.”

A palavra assim traduzida é da raiz τάσσω, sendo o seu sentido primário colocar em ordem, ou, como Grimm expressa, colocar em uma certa ordem. Em combinação com δια ela é assim traduzida em 1Co 11.34: “Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for.” Em somente um outra de suas oito ocorrências no Novo Testamento ela é traduzida ordenado, e nesta ela pode também ter sido traduzida pelo seu significado primário: “As potestades que há foram ordenadas [colocadas em ordem] por Deus” (Rm 13.1). É usualmente traduzida designar, como designar um lugar (Mt 28.16), designar algo a ser feito (At 22.10), designar um dia (28.23). Mas ao se fazer designações, a ordem é produzida da confusão ou falta de ordem precedente, e o significado primário da palavra não é perdido de vista neste seu uso. O mesmo é verdadeiro quando ela é aplicada a um ato mental. Quando a mente está confusa sobre um assunto, não sabendo o que pensar, e finalmente chega a uma conclusão ou propósito definido, os pensamentos são levados da confusão para a ordem, e este termo adequadamente expressa a mudança. Um exemplo notável é encontrado em 15.2, onde é dito dos irmãos em Antioquia que eles ouviram “não pequena discussão e contenda” entre Paulo e Barnabé de um lado e certos homens da Judeia de outro, com referência a uma questão vital. Enquanto esta divergência estava acontecendo, as pessoas comuns entre os irmãos e irmãs devem ter ficado na maior confusão, mas eles finalmente chegaram a uma conclusão quanto ao que devia ser feito, e esta mudança é expressa pela palavra em questão, “resolveu-se (τάσσω) que Paulo e Barnabé, e alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão.” Assim verte a Versão Autorizada, e ela corretamente descreve a mudança mental que aconteceu. O Dr. Hackett afirma que o termo “não era utilizado para designar um ato da mente,” mas a tradução a qual esta ideia o forçou é uma evidência conclusiva ao contrário. Ele verte a frase em questão, “eles designaram que eles subissem,” etc., e nisto ele é seguido pelos autores da Versão Revisada. Isto não é um bom inglês. É um uso antigramatical da palavra designar. Quando uma missão é determinada, nós designamos os indivíduos que serão enviados, mas não designamos que eles devam ir. Evidentemente a questão era a seguinte: os irmãos estavam inicialmente incertos quanto ao que fazer, e eles finalmente decidiram fazer o que fizeram. Nossa palavra inglesa disposto tem um uso similar. Ela significa arranjar em uma certa ordem, e se aplica primariamente a objetos externos, mas quando a mente de alguém está de acordo com uma certa norma, dizemos que ele está disposto a segui-la.

Mal precisamos observar, após estas observações, que o significado específico deste verbo em uma determinada passagem deve ser decidido pelo contexto. Na passagem diante de nós o contexto não apresenta nenhuma alusão a algo feito por Deus para uma parte da audiência, e não feito para a outra, ou a algum propósito firmado a respeito de uma e não de outra, mas fala de dois estados de mente contrastados entre o povo, e dois consequentes cursos de conduta. Dos judeus presentes é dito, em primeiro lugar, que eles estavam cheios de inveja; em segundo lugar, que eles estavam contradizendo o que Paulo falava, e blasfemavam; em terceiro lugar, que eles julgaram a si mesmos indignos da vida eterna. Em contraste com estes, os gentios, em primeiro lugar, estavam alegres; em segundo lugar, eles glorificavam a palavra de Deus; em terceiro lugar, eles estavam τεταγμενοι para a vida eterna. Agora, qual dos significados específicos da palavra grega iremos aqui inserir? Ela se encontra contrastada com o ato mental dos judeus ao julgarem-se indignos da vida eterna, e a lei da antítese exige que a entendemos de algum ato mental de natureza oposta. A versão, estavam determinados, ou estavam dispostos para a vida eterna, é a única admitida pelo caso. O verbo está na voz passiva e no tempo passado, e, portanto, descreve um estado mental produzido antes do momento do qual o escritor está falando. Em outras palavras, a afirmação que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” implica que eles foram levados a esta determinação antes que creram. Em algum momento anterior em sua história, estes gentios, que nasceram e foram educados no paganismo, ficaram sabendo da vida eterna como ela era ensinada pelos judeus. Sob o ensino dos judeus ou sob o ensino de Paulo desde sua chegada em Antioquia, ou sob ambos, eles foram levados de um estado de confusão mental sobre este assunto transcendentalmente importante a uma determinação para obter a vida eterna se possível.[2]

Observe que o estar determinado para a vida eterna, e o crer, encontram-se aqui como causa e efeito, ou pelo menos como antecedente e consequente. Isto não é anormal ou incomum. Um homem que aprendeu que a vida eterna deve ser obtida, e decidiu-se obtê-la se ela estiver dentro de sua capacidade, é o mesmo homem a prontamente aceitar o verdadeiro modo de obtê-la quando esse modo é claramente mostrado a ele, enquanto o homem que está demasiado absorto em questões terrenas de modo a estar indiferente à vida eterna é o mesmo homem a deixar o testemunho a respeito do modo de obtê-la entrar por um ouvido e sair pelo outro. Notamos o mesmo em todas as nossas congregações nos dias atuais. Dois homens sentam lado a lado sob o som do mesmo sermão evangélico; um está desperto para a importância da vida futura, enquanto o outro está absorto na vida presente. O último irá fazer-se de surdo para a pregação, incorrendo na reprovação de Paulo de julgar-se indigno da vida eterna, enquanto o primeiro crerá na boa mensagem, e se lançará ao trono de misericórdia. É precisamente esta diferença em relação à vida eterna que Lucas aqui indica, e ele a indica porque ela explica o fato que uma classe na audiência de Paulo creu, e a outra não. Ela deixa a responsabilidade para a crença e incredulidade, com suas eternas consequências, sobre o homem, e não sobre Deus.

Fonte: New Commentary on Acts of Apostles, Vol. 2, pp. 29-33

Tradução: Cloves Rocha dos Santos




[1] Nota do tradutor: J. W. McGarvey, em sua Introdução a este comentário, nota que escreveu a obra com o leitor em mente. Ele a projetou para ser lida mais como uma narrativa do que simplesmente como um livro de referência e encoraja os leitores a usá-la assim. Escrito no final do século 19, O Comentário sobre os Atos dos Apóstolos é um olhar versículo por versículo em Atos, que McGarvey acreditava que muitos teólogos não o havia compreendido antes. Ele cita um verbete de enciclopédia que ele acredita que melhor representa o livro: “O objetivo de Lucas, ao escrever Atos, era suprir, através de exemplos selecionados e adequados, uma ilustração do poder e da obra daquela religião que Jesus tinha morrido para estabelecer.” McGarvey foi professor boa parte de sua vida, assim seu comentário é preciso e fácil de entender. O livro de Atos, de fato, é um testemunho poderoso para a vida de Jesus e os crentes serão iluminados através das notas de McGarvey, únicas e intuitivas, sobre o texto.


[2] “Melhor, ‘tantos quantos estavam dispostos para.’” (Plumptre). “Todos que, pela graça de Deus, desejavam agruparem-se nas fileiras daqueles que desejavam a vida eterna aceitaram a fé.” (Farrar, Life of Paul, 211). “Preferivelmente, estavam colocados em ordem para, isto é, dispostos para a vida eterna.” (Jacobson em Speaker’s Com.). “Tantos quantos estavam dispostos para a vida eterna. O significado da palavra disposto deve ser determinado pelo contexto. Os judeus se julgaram indignos da vida eterna; os gentios, tantos quantos estavam dispostos para a vida eterna, creram.” (Alford).



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Tá quente... tá frio... tá morno!





Quem nunca brincou de “tá quente-tá frio”? Se não está ligando o nome à brincadeira, deixe-me explicar: trata-se daquele jogo infantil em que a criança tem seus olhos vendados, e tenta encontrar algo através do tato, enquanto as outras crianças dizem “está quente” ou “está frio” de acordo com a proximidade da coisa que se almeja achar. A graça da brincadeira é dizer que tá quente, quando na verdade tá frio. O problema é que ninguém se segura, e acaba caindo na gargalhada, revelando assim o embuste.

Penso que isso sirva de analogia para a relação entre a igreja e a cultura. Como cristãos, cremos que tivemos nossos olhos desvendados, e fomos arrebatados do império das trevas para o reino da luz. Porém, o mundo ao nosso redor segue mergulhado na escuridão. Devo esclarecer que não me refiro aos cristãos nominais, cegos em sua presunção religiosa, mas àqueles que, de fato, foram encontrados e transformados pelo amor que emana de Deus, e que personalizou-se na figura histórica do Nazareno.

Como cristãos, não podemos fazer vistas grossas ao que acontece à nossa volta. As Escrituras dizem que as nações andariam à nossa luz. Compete-nos, portanto, ajudar àqueles cujas vistas parecem estar ainda vendadas.
É claro que entre os ‘vendados’, há os que estão ‘quentes’ e os que estão ‘frios’ em sua busca. Isso pode ser facilmente percebido através de expressões culturais, seja na música, na poesia, na dramaturgia, nas artes plásticas, e até na ciência. Como também pode ser percebido na práxis adotada por cada um.

Em seu discurso no Areópago de Atenas, Paulo resume a verdade bíblica magistralmente. Ele afirma, sem medo de errar, que o Deus desconhecido a quem eles dedicaram um altar, é o Criador do Mundo e de tudo quanto existia, e que não carece de ser servido por mãos humanas. Também diz que ele mesmo havia estabelecido as nações, ordenando de antemão quais seriam seus limites geográficos e históricos. Segundo o apóstolo dos gentios, “Deus fez isto para que o buscassem, e talvez, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós” (At.17:27).

Após esta contundente declaração, Paulo cita os poetas/filósofos gregos: “Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos. Como também alguns dos vossos poetas disseram: Somos também sua geração” (v.28). Seria como se um pregador de nossos dias resolvesse citar um autor secular famoso em um de seus sermões. Quem bom que Paulo não estava se dirigindo a crentes legalistas de nosso tempo, ou estaria se metendo numa encrenca das boas.

Em outras palavras, era como se o apóstolo dissesse: Está quente! Vocês não estão longe d’Ele. Estão chegando cada vez mais perto. Mas estou aqui para desvendar seus olhos para que finalmente vocês O encontrem.

Se fossem alguns pregadores de hoje, aquele altar teria sido derrubado num verdadeiro show de exorcismo e desrespeito à crença alheia. É difícil falar disso e não lembrar do episódio em que o bispo da igreja universal chutou a imagem de uma santa católica em pleno programa de TV. O que teria feito Paulo numa situação daquela? Teria xingado a imagem? Creio que não. Em vez disso, teria dito: Maria, a mãe do Salvador, por quem vocês têm tamanho respeito e devoção, foi quem disse acerca de seu Filho: Fazei tudo quanto Ele mandar. E por aí, Paulo conquistaria o coração até do mais fervoroso devoto mariano.

Imagine um pregador de hoje ter a ousadia de citar Chico Xavier para anunciar as boas novas aos espíritas? Ou ainda: que tal citar Maomé para introduzir a mensagem de Cristo aos muçulmanos? Ousado, não?

Mas a gente prefere gritar: Tá frio! Vocês estão completamente errados em sua fé! Chico Xavier era apenas um embuste! Maomé era um falso profeta! Buda não passava de um glutão safado!

E o pior é que com esta postura, estamos cada vez mais afastados daqueles que realmente necessitam conhecer a Luz do Mundo. E enquanto atacamos os que julgamos estar frios, nós estamos nos amornando, como a igreja dos laodicenses. Achamo-nos tão perto, e não percebemos o quanto estamos nos distanciando da verdade, na mesma medida em que nos distanciamos do amor. Tão perto, mas tão distante. Bom seria se déssemos ouvidos à advertência de Jesus à igreja de Laodicéia: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem qunte, vomitar-te-ei da minha boca. Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta. Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, para ungires os teus olhos, a fim de que vejas” (Ap.3:15-18).

Bem que podiam ter dormido sem esta! Não se enganem. A carapuça cabe em nossas cabeças. Achamo-nos tão ricos, que jamais aceitaríamos que a cultura ao nosso redor tivesse qualquer contribuição a dar. Fechamo-nos hermeticamente em nosso mundinho gospel, a ponto de deixarmos de fora o próprio Jesus, que insistentemente bate à porta, conclamando-nos a cear com Ele. Aliás, Jesus toma a realidade social e cultural da cidade Laodicéia como analogia do estado espiritual em que aquela igreja estava. O colírio, por exemplo, era produto daquela região. Eis o exemplo de uma espiritualidade engajada com a realidade, aberta ao diálogo respeitoso, sem contudo, abrir mão da verdade do Evangelho.

Penso que nosso maior problema é com a presunção. Somos os santos, os eleitos, os sabichões, e que, ainda por cima, têm que aturar este monte de gente pecadora. Cabe aqui a reflexão certeira de Tomás de Aquino: “A santidade não consiste em saber muito, meditar muito, pensar muito. O grande mistério da santidade é amar muito." Tenho a impressão de que muitos cristãos contemporâneos estão entre aqueles para quem Paulo declara: “Confias que és guia dos cegos, luz dos que estão trevas, instruidor dos nécios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo?”(Rm.2:19-21a).

Que tal se mirássemos nossas críticas mais ferrenhas em nossa própria direção, e olhássemos com mais amor e compaixão aqueles que nos rodeiam?
 
 
 
Por Hermes C. Fernandes
 
 
 


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EFEITOS COLATERAIS de um Evangelho Subversivo





Ultimamente, a Igreja cristã tem procurado resgatar sua relevância na sociedade, manifestando-se contra algumas tendências e comportamentos. Manifestos contrários à Lei de Homofobia, ao aborto, à pesquisa com célula-tronco extraída de embriões humanos, à corrupção, à violência e outros. Não questionamos a motivação que tem levado a Igreja a posicionar-se perante a sociedade com relação a esses assuntos. Contudo, cremos que devemos avaliar a eficácia de tais manifestos.

Antes de buscarmos respostas nas Escrituras Sagradas, devo expor minha insatisfação ao perceber que a Igreja cristã contemporânea parece tão preocupada com questões de cunho moral, ao passo que deixa de dar a devida importância a questões relacionadas à justiça social, tais como, a má distribuição de renda, a reforma agrária, a política econômica, os juros altos, etc.

Cremos piamente que a Igreja faz bem em envolver-se com qualquer questão que diga respeito ao ser humano. Não podemos ser um povo alienado, indiferente aos problemas deste mundo. Temos o dever cristão de participar, arregaçar as mangas e trabalhar por um mundo mais justo, e, conseqüentemente, mais seguro e próspero.

Como devemos posicionar-nos quanto a temas importantes como esses?

Quando a Igreja Primitiva dava seus primeiros passos, uma das instituições mais antigas e perversas da sociedade estava em pleno vigor. Trata-se da escravidão. Como os crentes deveriam reagir diante da injustiça da escravidão? Não vemos os apóstolos promovendo manifestos públicos para denunciar a escravidão, nem mesmo comparecendo perante as autoridades para reivindicar o seu fim.

Todas as sociedades da época eram constituídas de classes, das quais os escravos eram a base. Se a escravidão fosse abolida repentinamente, o mundo ruiria.

Mesmo sabendo que tal instituição era contrária à justiça do Reino, os cristãos preferiram conviver com ela por algum tempo, até que ela se definhasse por completo, através da proclamação do Evangelho do Reino. À medida que a mensagem libertária de Cristo era pregada, e a sociedade obtinha a consciência de que todos os homens eram iguais, a escravidão ia perdendo sua força.

A carta de Paulo a Filemom nos revela a maneira como o maior evangelista da época tratou deste assunto. Filemom era um novo convertido, que devido à sua privilegiada situação econômica, possuía escravos. Paulo não começa sua epístola criticando-o por isso. Pelo contrário, ele dá testemunho de que o que ouvira falar de Filemom, revelava um homem íntegro, cheio de “amor e fé” para com Cristo e todos os santos (v.5). De maneira discreta, o apóstolo revela sua preocupação através de uma oração:

“Oro para que a comunicação da tua fé seja eficaz no conhecimento de todo o bem que em nós há para com Cristo” (v.6).

Como podemos comunicar a nossa fé de maneira eficaz? Como podemos tornar conhecido todo o bem de que Cristo nos tem feito participantes? Eis a questão principal dessa epístola! E eis a questão sobre a qual quero me debruçar neste artigo. Não basta comunicar nossa fé através de um conjunto de doutrinas. É necessário comunicar a nós mesmos. E para que isso seja possível, devemos amar àqueles com quem desejamos compartilhar os valores do Reino de Deus. O mesmo apóstolo escreve aos Tessalonicenses:

“Antes fomos brandos entre vós, como a mãe que acaricia seus próprios filhos. Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas também as nossas próprias almas, porque nos éreis muito queridos” (1 Ts.2:7-8).

Ninguém vai conquistar corações descrentes tentando impor suas crenças e valores. Temos que conquistar seus corações, antes de tentarmos conquistar suas mentes. Temos que expor nosso amor, antes de propor nossos valores.

Ora, embora Paulo estivesse tratando com um fiel, e não com um descrente, ele preferiu dirigir-se primeiro ao coração de Filemom.

“Pelo que, ainda que tenha em Cristo grande confiança para te mandar o que te convém, prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho e, também agora, prisioneiro de Cristo Jesus” (vv.8-9).

Se com um fiel deve-se falar desta maneira, imagina com descrentes!

Hoje em dia, muitos pastores, além de quererem dominar o rebanho de Deus, querem também impor sua autoridade ao mundo. Bem fariam se dessem ouvidos ao velho Pedro: “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente, não por torpe ganância, mas de boa vontade; não como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pe.5:2-3).

Impetuosidade não nos leva a lugar algum. Tanto Paulo, quanto Pedro, chegaram a esta conclusão depois de velhos. Em vez de simplesmente “mandar”, “ordenar”, Paulo preferiu “solicitar em nome do amor”.

As pessoas só deixarão determinadas práticas, quando tiverem suas consciências iluminadas pelo amor. Quem pensa, por exemplo, que proibindo o aborto vai coibir o avanço desta prática nefasta, está equivocado. As clínicas clandestinas agradecem qualquer tentativa de impedir que o aborto seja regularizado no País.

A carta de Paulo não tinha a pretensão de condenar a instituição da escravidão. Pelo menos, não diretamente. Seu objetivo era interceder por um escravo em especial, Onésimo.

“Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei em minhas prisões. Outrora ele te foi inútil; mas agora a ti e a mim muito útil. Mando-o de volta a ti, a ele que é o meu coração” (vv.10-12).

Onésimo era escravo de Filemom. Por algum motivo que não é revelado, Onésimo foi preso. Talvez tenha desfalcado seu senhor, ou cometido algum outro crime. Na prisão, conheceu o apóstolo, e acabou se convertendo a Cristo. Após cumprir pena, Onésimo voltaria às ruas. Mas pra onde iria? Um escravo não tinha alternativa, senão a casa de seu amo. Ele trazia marcas em seu corpo que o identificava como escravo, e por isso, estava fadado a ser reconhecido como tal pelo resto de sua vida. Ninguém se atreveria lhe abrir as portas. Na casa de seu amo, ele teria trabalho, comida e moradia. Seu dilema agora era saber se seu amo o receberia de volta. Caso não o recebesse, sua única opção seria a mendicância.

Era assim que a sociedade da época era estruturada. Isso não mudaria de uma hora pra outra. Quando o Brasil, pressionado pela coroa inglesa, promoveu a abolição da escravatura, os escravos alforriados não tiveram pra onde ir, e foi isso que deu origem aos bolsões de miséria, hoje conhecidos como favelas, nas encostas dos morros das grandes cidades.

Imagine como a igreja cristã deveria se portar diante de uma questão social como a poligamia. Em alguns países, a poligamia não apenas é aturada, mas também estimulada. Países onde o número de mulheres é muito maior do que de homens, devido às constantes guerras. Sem a possibilidade da poligamia, muitas mulheres morreriam de fome, pois em algumas dessas sociedades, elas sequer podem trabalhar pela sobrevivência. Não bastaria a igreja se manifestar contrária a este modelo familiar. Se os maridos resolvessem liberar suas várias esposas, pra onde elas iriam? E se os pais não as recebessem de volta? É claro que tanto a escravidão, quanto a poligamia são práticas condenadas pelas Escrituras. Mas isso não nos dá o direito de simplesmente impor nossos valores de maneira inconseqüente e irresponsável.

Antes de enviar Onésimo de volta ao seu amo, Paulo apela à sensibilidade de Filemom. “Eu bem quisera conservá-lo comigo, para que por ti me servisse nas prisões do evangelho. Mas nada quis fazer sem o teu consentimento, para que o teu benefício não fosse como que por força, mas voluntário” (vv.13-14).

Pelo jeito, nosso amigo Onésimo deu um grande prejuízo a Filemom. Paulo queria que ele fosse recebido de volta, mas com o valor que lhe era conferido pelo Evangelho. Então, o que fez Paulo? O valorizou. Mostrou ao seu antigo senhor o quão útil Onésimo lhe seria, caso o mantivesse consigo.

Se quisermos revelar ao mundo o valor que tem o casamento, não precisamos sair por aí condenando os adúlteros, mas valorizar nossos cônjuges aos olhos de todos. Feridas não precisam ser ainda mais abertas, mas devidamente tratadas.

“Bem pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o retivesses para sempre, não já como escravo, antes, mais do que escravo, como irmão amado, particularmente de mim, e quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor” (vv.15-16).

Paulo intentava convencer Filemom que receber Onésimo na condição de irmão representaria lucro em vez de prejuízo. Precisamos convencer o mundo que o casamento não é uma instituição falida, e que é melhor ter uma esposa do que uma amante. Temos que mostrar ao mundo o prejuízo que é fazer as coisas de maneira inversa àquilo que Deus planejou. As pessoas devem ser convencidas de que vale a pena fazer as coisas do jeito certo.

Um filho é melhor do que um aborto. Um casamento é melhor do que uma aventura amorosa. É melhor a justiça com segurança e paz, do que a corrupção acompanhada de pavor e violência.
Finalmente, Paulo dá o retoque final ao seu argumento em nome do amor:

“Portanto, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo. E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, lança-o na minha conta. Eu, Paulo, escrevo de meu próprio punho, eu o pagarei, para não te dizer que ainda a ti mesmo a mim te deves” (vv.17-19).

Quem paga a conta?

Todos sonhamos ver este mundo restaurado, com suas instituições devidamente reformadas, livre da injustiça, da corrupção, e de todo mal. Entretanto, quem se dispõe a pagar o preço por isso? Ninguém quer ficar no prejuízo. É muito fácil dizermos a uma menina grávida de seu estuprador para que não aborte. Mas quem se dispõe a ajudá-la a criar seu filho?

Lembro de uma mulher que ligou para um programa de rádio que eu conduzia. Ela chorava muito, e dizia que estava diante de uma janela, pronta a se arremessar. Tentei acalmá-la, e pedi que me contasse o que estava havendo. Ela me explicou que havia crescido em uma igreja evangélica extremamente legalista, mas que se desviara e se tornara numa garota de programa. Pra piorar as coisas, ela se engravidou de uma dos seus clientes, mas tinha a menor idéia de qual deles era a criança. Foi um momento muito difícil para mim, pois nossa conversa estava sendo ouvida por milhares de pessoas, e se ela resolvesse pular da janela, eu me sentira culpado pro resto de minha vida. Deixei que o Espírito Santo pusesse palavras em meus lábios, que a dissuadiram de pular. Instei com ela para que voltasse pra igreja. Ela argumentou comigo, dizendo que todas as vezes que ela pôs os pés em sua antiga igreja, as pessoas lhe olhavam de cima a baixo, julgando-a e condenando-a. Em vez de amor, ela só encontrava juízo. Mesmo sustentando sua família com o dinheiro advindo da prostituição e de filmes pornográficos, sua família a rejeitava.

Depois de muitas lágrimas, ela aceitou orar comigo, reconciliando-se com Deus. Após a oração, ela pediu pra conversar comigo fora do ar. Contou-me que tinha um contrato com uma produtora internacional de filmes pornôs, e que, se ela resolvesse abandonar aquela vida, teria que pagar uma alta soma por quebra de contrato. Procurei mostrar a ela que todo o dinheiro que aquela vida lhe dava não valia a pena, e que, mesmo sofrendo eventuais prejuízos, nada seria melhor do que voltar-se para Cristo. Será que a igreja está preparada para receber pessoas assim?

Outra vez, recebi um homossexual em meu gabinete. Ele começou a chorar, e a dizer que sentiu confiança em nos ouvir pelo rádio. Segundo ele, todas as igrejas por onde passara, o rejeitaram. Ninguém se dispusera a ajudá-lo. É muito fácil julgar, condenar, ou mesmo ignorar tais pessoas. Difícil é amá-las e acolhê-las como Jesus teria feito em nosso lugar.

Paulo se dispôs a pagar por qualquer prejuízo que Onésimo houvesse dado a Filemom. E quanto a nós, será que estamos prontos a arcar com os custos e implicações da mensagem do Reino de Deus?

Estaríamos prontos para lidar com os efeitos colaterais de um verdadeiro avivamento, como aquele que varreu o País de Gales, encerrando as portas dos prostíbulos e bares?
 
 
 
Por Hermes C. Fernandes