terça-feira, 5 de julho de 2011

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Religião e magia

Muitos crentes têm confiado no poder de objetos e ditos mágicos.
A Igreja evangélica brasileira tem se apropriado de uma série de elementos estranhos à sua herança cristã reformada e à sua configuração histórica.





Podemos chamar de magia à prática de se conferir valor espiritual a objetos, rezas ou artifícios místicos. Poderes mágicos, ou sobrenaturais, costumam ser atribuídos pelas pessoas a uma determinada crença ou sacerdote. E é da natureza do negócio religioso a crença de que esses sacerdotes, ou agentes mágicos da religião, possuem um poder especial para manusear objetos ou proferir rezas, tornando-os sagrados ou amaldiçoados. Tais supostos poderes podem ser estendidos a substâncias como água ou sal. Assim, se o sacerdote faz determinada prece ou rito, a água já não é simplesmente água – passaria a ter um valor agregado, capaz de proporcionar benefícios a quem tomá-la ou tocá-la. Sal abençoado, nessa lógica, já não é simplesmente um composto de cloro e sódio; passa a ter poderes para afastar os espíritos ruins que perturbam as pessoas. Por isso é que surgem líderes que nada mais são do que charlatães, prontos a diagnosticar problemas espirituais nas pessoas e a oferecer-lhes soluções mágicas – quase sempre, em troca de dinheiro. E esse sistema não é exclusivo das crenças de outras religiões; o cristianismo traz em sua essência religiosa esses elementos estranhos à vivência comunitária de Jesus Cristo e à primeira geração de discípulos.


No cristianismo reformado, por exemplo, não se percebia, até algum tempo atrás, a crença no poder e mediação de objetos ou símbolos mágicos. Nunca, tampouco, a tradição evangélica atribuiu poderes especiais a declarações positivas ou chavões. Sou filho da geração evangélica que não acreditava, por exemplo, no poder dos objetos usados como amuletos para gerar benefícios ou malefícios sobre as pessoas. Havia, na Igreja protestante, uma percepção crítica e uma rejeição explícita tanto à água benta como à suposta incorporação de Jesus Cristo na hóstia – crenças típicas do catolicismo romano. Surpreendentemente, o pão e o vinho abençoados no rito protestante, mesmo que usados, também, para punição e discriminação das pessoas, em geral, não foram submetidos à mesma critica. Quando os objetos se tornam sagrados, passam a ter mais importância do que as pessoas.
Que dizer, então, de práticas ocultistas, mecanismos de amarrações do mal e consagrações de amuletos? Diante de necessidades, medo, opressão e dependência, os clientes da fé vão fortalecendo e gerando enriquecimento das empresas religiosas, por meio da mercantilização do Evangelho. Essa lógica inescrupulosa tem contaminado várias religiões brasileiras, incluindo muitos segmentos evangélicos. De fato, o cristianismo brasileiro passa por um processo de sincretismo interno e externo. Basta observarmos que, do ponto de vista da liturgia, o catolicismo adota práticas dos ritos do pentecostalismo. Por outro lado, grandes grupos evangélicos apropriam-se de terminologias e práticas de magia estranhas à tradição reformada. A questão grave é a militância e a competição acirrada entre as religiões na busca ávida por adeptos a serem explorados..


Magia, mercado e idolatria (a visível e a invisível) formam um conjunto favorável para o sucesso das indústrias da fé. Nesse contexto, a aspiração pelo sacerdócio ou liderança religiosa precisa ser avaliada, a fim de se identificar se a opção é pela vocação mesmo ou mera resposta à tentação por poder e dinheiro. Da mesma forma, os fiéis precisam discernir quanto à opção por um ambiente religioso que atenda às expectativas essencias da religião – que é o de favorecer um ambiente onde se desenvolvam valores, princípios e uma boa ética. Contudo, se esse ambiente gera dependência, medo e discriminação, provavelmente, não representa a matriz estabelecida por Jesus Cristo e a primeira geração de discípulos, que anuncia libertação, resgate da dignidade humana e justiça solidária.


Sem emitir um juízo de valor no que diz respeito às negociações dos símbolos e expressões religiosas, há que se levantar outra possibilidade quando se exercita uma espiritualidade fundamentada excessivamente pela prática da magia. Nesta situação, a missão tende a ser uma interferência exclusiva pela via da magia milagrosa, e não como desdobramento de uma práxis evangélica, como sinal do Reino de Deus. Se as coisas são supostamente resolvidas por uma frase positiva ou por determinado fetiche, acentua-se a alienação quanto às explorações e injustiças sociais, comprometendo a missão que exige transformação do coração das pessoas e das conjunturas e estruturas políticas e econômicas injustas da sociedade. Se a religião é o ópio do povo, a magia é o narcótico. Que Deus nos ajude a encontrar uma espiritualidade permeada de discernimento.
 


Por Carlos Queiroz



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Pavio curto ou temperamento transformado?

Quando explodimos, o prejuízo e a destruição podem ser assustadores.
No deserto, Moisés teve seu caráter forjado na solidão. Tornou-se um novo homem, manso e paciente.




Todos nós conhecemos pessoas que são bondosas, corretas e calmas, mas que, quando menos se espera, apresentam comportamento explosivo e violento. Normalmente, nessas situações, quem está por perto é pego de surpresa – até porque, em geral, o fato motivador nem justifica a atitude. Em muitos casos, o indivíduo até se assusta com o próprio descontrole, não sabe explicar o motivo de ter agido assim e sente-se até culpada. Há diferenças de personalidade entre uma pessoa e outra, claro. Algumas são mais pacatas; outras, mais esquentadas, como se diz popularmente. Mas, mesmo para quem tem um temperamento mais dinâmico e ativo – e, portanto, mais suscetível a rompantes do gênero – existe a possibilidade de se desenvolver o equilíbrio, a fim de não ferir aos outros e nem a si mesmo desnecessariamente.


A psicologia pode nos ajudar muito quando o assunto é comportamento. Ninguém explode sem causa. A explosão é o resultado do excesso de pressão num tanque que já está cheio. O ditado popular “gota d’água que entorna o pote” faz todo sentido nessas ocasiões. Algumas pessoas podem anular suas iniciativas e viver apaticamente quando não encontram espaço para expressar seus sentimentos diante de situações de sofrimento. Mas, em outras pessoas, as sensações doloridas vão se acumulando, enchendo o tanque emocional. Uma vez ultrapassados os limites, qualquer fato ou comportamento que, de alguma forma, se assemelhe com vivências passadas, pode detonar o rompimento desse depósito, como se fosse rachadura na parede de uma represa. E, quando isso acontece, o prejuízo e a destruição podem ser assustadores.


Uma criança que sempre foi criticada e cresce humilhada, sem oportunidades de expressar sua vergonha ou raiva, pode, com o passar do tempo, apresentar um comportamento violento e explosivo – sobretudo, diante de situações que fazem aflorar suas lembranças de desconforto como se fatos passados tivessem ocorrido ontem.


Um bom exemplo bíblico de pavio curto é o de Moisés. Ele nasceu num contexto de muita injustiça social, política e racial. Foi vítima dessas injustiças, e só não acabou assassinado na infância, tendo o mesmo fim de muitos meninos hebreus, por providência divina. Desmamado, foi adotado pela filha do rei do Egito. Provavelmente por volta dos seis anos, o menino Moisés deixou sua casa de origem e foi morar no palácio de faraó. A partir dali, sua vida ganhou rumo totalmente diverso do se seu povo, então escravizado pelos egípcios.


Quando tinha 40 anos, Moisés resolveu ir ver como viviam os hebreus, seu povo. Assim que viu um feitor espancando um escravo judeu, o príncipe descontrolou-se e matou o egípcio. Foi uma reação incontrolável; a injustiça cometida deixou-o indignado. Vendo que o homicídio logo seria descoberto por todos, Moisés resolveu fugir da corte egípcia. Dali, seguiu para o deserto, onde seu caráter foi forjado na solidão, em companhia apenas dos animais que pastoreava. Tornou-se um novo homem, manso e paciente.


O apóstolo Paulo, em sua carta aos crentes de Éfeso, alerta que não devemos deixar que a raiva seja acumulada dentro de nós. Ele nos convida a lidar com iras e ressentimentos antes do por do sol. Porém, o que acontece é que muitos deixam não apenas o sol se por sobre nossos agravos, mas muitos dias, semanas e até anos. Para estes, o caminho pode ser o mesmo de Moisés: voltar na história de vida para identificar possíveis danos sofridos no passado, mas que permanecem vivos lá no fundo, prontos para aflorar e incitar violência e destruição. Dores a mágoas disfarçadas numa história de vida não desaparecem e podem explodir quando menos se espera no momento errado, do jeito inadequado e, muitas vezes, prejudicando inocentes.


Se realmente fomos magoados ou feridos, não adianta negar o sentimento; é preciso identificar e sofrer o dano da ofensa para reconhecer que alguém falhou conosco e há uma divida. Contudo, se o perdão foi concedido, não há mais saldo devedor para o ofensor. Uma criança não dispõe de recursos emocionais e muito menos intelectuais para reagir e lidar de forma adequada diante das ofensas e injustiças cometidas pelos mais fortes. Mas, quando alcançamos a maioridade, podemos rever nossas origens, a fim de trazer à memória os sentimentos da criança ferida que porventura há em nós. Através desse acolhimento, por vezes doloroso, integraremos o que se passou ao presente, proporcionando cura. É um caminho para lidarmos com os fatos do nosso cotidiano, com coragem e mansidão.


Por Esther Carrenho


Vi no http://cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=54
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Acolher, ajudar, equipar

Uma Igreja relevante em simplicidade, integridade e serviço influencia sua geração e planta sementes para os que virão depois.
Preparar o cristão para toda boa obra é trabalho contínuo e paciente.




Acolher, ajudar, equipar. Eis aí três ações fundamentais à atividade pastoral. A caminhada ministerial é o desafio constante de tornar prático e simples o compromisso de viver a profundidade, a verdade e a integralidade do Evangelho. É imperioso que líderes cristãos envolvidos com o cuidado e pastoreio de congregações locais e de pessoas que fazem parte do rebanho do Senhor em ministérios e grupos pequenos promovam, diligentemente, ações e conexões entre elas. Todavia, uma realidade muito desfavorável, constituída de religiosidade e alienação, nos confronta constantemente.


O caminho da simplicidade ainda é possível para aqueles que, sinceramente, e de coração aberto e compromissado, se dispõe a seguir a Jesus e os valores do Reino. Valores ensinados pelo Mestre no conhecidíssimo sermão da montanha, registrado nos capítulos 5 a 7 do evangelho e Mateus. Simplicidade daquilo que é profundo e capaz de mudar e transformar a maneira de pensar e ser do homem em qualquer realidade social, religiosa, política e geográfica. Por isso, a mensagem de Cristo é consistente e universal para todas as culturas, raças e etnias. Simplicidade que vai sendo depurada e ampliada pelas lutas e provas na jornada, quando há disposição de viver essa mensagem e a missão que o Filho de Deus nos propõe.


Nas ações pastorais, o acolhimento de pessoas com suas histórias, realidades e heranças singulares é essencial – acolhimento de pessoas diferentes, com temperamentos e opiniões diversas, com seus pecados, dores, frustrações e sucessos também. Neste acolhimento, vamos convidando cada um a entender que temos um só Deus que, ao mesmo tempo, acolhe-se a si mesmo na forma de três personalidades distintas. Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo mostram que é possível este acolhimento em amor, respeito e dignidade. Quem vive essa fé o expressa com uma só alma e pertencendo a uma só Igreja.


Ajudar os cristãos – novos convertidos ou não – na experiência da mutualidade é incentivá-los a ser rebanho e Igreja do Senhor, expressão visível do Reino dos céus aqui na terra. É papel do pastor ajudar as pessoas a aprenderem e considerarem o caminho da meditação, da oração, do perdão, da reconciliação, da comunhão, da adoração e do serviço mútuo. Ajudar a edificar a comunidade de maneira ajustada e equilibrada em amor, sem abandonar ou rejeitar o seu fundamento, Jesus de Nazaré. Ajudar os membros do Corpo a valorizarem seus papéis funcionais como partes fundamentais desse organismo místico, e não desprezarem sua importância, pessoalidade e humanidade. Ajudar pessoas a serem seres humanos melhores e cristãos melhores, mais parecidos com Jesus no que são e fazem, conforme Romanos 8.29, resgatando a imagem de Deusem nós.


Além de acolher e ajudar, o pastoreio e cuidado do rebanho requerem trabalho contínuo e paciente em equipar todo cristão para toda boa obra. Paulo, escrevendo para a igreja na cidade de Éfeso, diz que todos nós somos inspiração do Criador – um poema escrito, desejado e criado em Cristo Jesus para a prática de boas obras. Já Tiago enfatiza que a prática de nossa fé nos torna não somente ouvintes, mas pessoas que entenderam a natureza e essência do Evangelho que deve, sem dúvida, repercutir e resultar em ações concretas de testemunho, serviço, misericórdia e socorro. A integralidade da missão está garantida quando vivenciamos aquilo que cremos e para o que fomos equipados e capacitados.


Em nossa ação pastoral, acolher, ajudar e equipar só é possível pelos recursos inesgotáveis da graça de Deus e da ação contínua do Espírito Santo, que inclinam nossas vontades, intenções e pensamentos na direção do que é essencial ao serviço de Cristo. Assim, a Igreja do Senhor será capacitada a oferecer resposta e servir de referencial para uma sociedade injusta, perversa e violenta. Implantar o Reino de Deus significa, também, inibir os sinais de morte com ações de fé.


Pastorear acolhendo, ajudando e equipando as ovelhas para toda boa obra é uma resposta eficaz à carência de homens e mulheres que de fato desejem seguir os passos e a mensagem de Jesus. São eles que construirão uma Igreja relevante em simplicidade, integridade e serviço – uma Igreja que, com sua presença no mundo, vai ajudar na transformação do caos que a circunda, influenciando sua geração e plantando sementes para os que virão depois.


Uma Igreja relevante em simplicidade, integridade e serviço influencia sua geração e planta sementes para os que virão depois


Por Nelson Bomilcar


Vi no http://cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=63
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Sobreviver ao fim

Se os levantamentos mostram que o número de divórcios no Brasil cresce a cada ano, nas igrejas evangélicas o assunto ainda é tabu.
Na Igreja ainda persiste a ideia de que um crente que chega ao divórcio, seja por qual motivo for, sofreu não apenas uma derrota pessoal, mas, sobretudo, espiritual.





Volta e meia, Jesus Cristo, em seu ministério terreno, era confrontado com perguntas espinhosas. Uma delas, que até virou dito popular, dizia respeito à validade, ou não, de se pagar tributos ao imperador. “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, a antológica sentença do Mestre, encerrou a questão. De outra feita, diante da mulher flagrada em adultério, os fariseus tentaram condenar o Filho de Deus por suas próprias palavras. Caso autorizasse o apedrejamento, estaria contrariando o perdão que tanto pregava; se optasse por liberar a pecadora, Jesus seria acusado de desobedecer a lei judaica. Simplesmente, ele fitou seus inquiridores e fez um desafio que ecoa até hoje: “Quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra”.


Contudo, uma das falas do Salvador continua rendendo discussões, interpretações desencontradas e inquietação. Instado pelos fariseus a responder se era lícito a um homem deixar sua mulher por qualquer motivo, Jesus foi enfático: segundo ele, apenas em caso de adultério o divórcio deveria seria admitido. O que passasse disso seria devido à “dureza do coração” das pessoas. No momento em que aumenta quantidade de casamentos dissolvidos, na sociedade em geral e dentro da Igreja, a fala de Cristo dá mesmo o que pensar. Hermenêutica à parte, muito mais casais crentes se divorciam hoje do que em tempos idos, quando a ideia de uma separação sequer era cogitada pelos evangélicos. E há argumentos bem razoáveis para sustentar qualquer posição nesta delicada seara da intimidade humana. A verdade é que o divórcio hoje faz parte da realidade da Igreja e cada vez mais gente procura maneiras não só para enfrentá-lo, como também para juntar os cacos e seguir em frente.


Se os levantamentos mostram que o número de divórcios no Brasil cresce a cada ano, ainda mais depois que mudanças na legislação facilitaram bastante a dissolução de um casamento, nas igrejas evangélicas o assunto ainda é tabu. Persiste a ideia de que um crente que chega ao divórcio, seja por qual motivo for, sofreu não apenas uma derrota pessoal, mas, sobretudo, espiritual. Embora não existam pesquisas quantitativas de divórcio entre os crentes, quem trabalha no pastoreio não tem dúvidas ao afirmar que os divórcios estão aumentando, não apenas entre membros de igreja, como também no meio da liderança. “Em minha experiência de vida pessoal e pastoral, nunca testemunhei tantos casos de divórcio no contexto de uma comunidade cristã”, atesta o pastor presbiteriano Ricardo Agreste, colunista de CRISTIANISMO HOJE e autor do livro Feito para durar, em que aborda a questão sob a ótica bíblica.


Apesar da célebre declaração “até que a morte os separe”, tradicionalmente proferida nos casamentos, o fato é que muitos outros motivos estão fazendo as pessoas dividir as trouxinhas e pular fora. Incompatibilidade de gênios, desejo pelo tal “espaço próprio”, desajustes financeiros, transtornos familiares ou simplesmente esgotamento do amor são alguns dos mais invocados. O que não legitima a decisão, na opinião do pastor Carlos Flávio Teixeira, da Igreja Adventista. “Apenas a hipótese de adultério pode justificar, aos olhos de Deus, a separação ou divórcio do cristão”, aponta o mestre em teologia, que também é advogado. No seu entender, embora a legislação e os costumes facilitem cada vez mais as coisas para quem quer botar ponto final no matrimônio, o Evangelho aponta noutra direção. “A lei dos homens dá opções que, para a lei de Deus, não podem ser admitidas”.


“SAÍDA DE EMERGÊNCIA”


Vinculado à Convenção Geral das Assembleias de Deus, o pastor Josué Gonçalves é terapeuta familiar e líder do Ministério Família Debaixo da Graça, em Bragança Paulista (SP). “Não podemos aceitar a banalização do casamento, que é uma instituição divina”, defende. “É equivocado incentivar uma separação como se fosse coisa normal e sem consequências”. Ele reconhece que cada caso deve ser analisado e tratado individualmente, para que injustiças não sejam cometidas, mas acredita que a questão deve ser vista de forma radical, como o fez Jesus. “Sabemos que nem sempre os problemas conjugais podem ser resolvidos. Mas o divórcio nunca deve ser visto como porta de saída, mas sim, como uma saída de emergência”.


É claro que, em se tratando de aspecto tão pessoal da vida, qualquer tribulação na vida conjugal causa dores e frustrações. O que, na opinião de Agreste, é difícil de administrar. “Uma das coisas que mais ouço de casais em crise no gabinete de aconselhamento é a recorrente frase: ‘Eu tenho o direito de ser feliz’”. Na sua ótica, isso é reflexo do hedonismo e do individualismo da cultura secular. E o divórcio sempre tem seu preço.Quando o gerente de marketing Leonildo Aires Durães, hoje com 37 anos, viu seu casamento de sete anos ruir, teve enorme sentimento de culpa. Criado dentro de um ambiente de conservadorismo evangélico, ele foi ao altar com apenas 18 anos – e achava que a palavra separação jamais faria parte de sua vida. “Recebi uma educação legalista na igreja Eu tinha o casamento como um ideal, algo para toda a vida”, conta.


Leonildo era membro da Igreja do Evangelho Quadrangular quando ocorreu a dissolução do casamento. O sofrimento era potencializado por sua idade, uma vez que, aos 25, já divorciado e com dois filhos, ele sentia-se um peixe fora d’água no ambiente evangélico. “O descasado na igreja chama a atenção de uma forma que não gostaria. Alguns se afastam, já que existe muita especulação sobre sua vida”. Passaram-se 12 anos do divórcio e Leonildo reestruturou sua vida, compondo nova família. Casado com Roberta, com quem tem uma filha, Lenildo agora congrega na Assembleia de Deus do Bom Retiro, em São Paulo. E preocupa-se com a situação: “A nova geração quer ser feliz. Se uma união não dá certo, basta procurar outro casamento, ou seja, a fila anda. Ninguém mais quer sustentar um matrimônio frustrante pelo resto da vida. O grande desafio para a Igreja, hoje, é lidar com essa mentalidade.”


DOR E SOLIDÃO


Com um livro-depoimento quase pronto sobre o assunto para ser lançado, a jornalista Virginia Martin conhece o peso de um divórcio quando se é evangélico. Ela permaneceu casada por dez anos e, a partir da separação, em 2004, experimentou um misto de dramas e emoções de que apenas ouvira falar nos bancos de igreja. “Um divórcio tem muitas consequências. Precisamos passar a lidar com problemas com filhos, sustento e a própria identidade pessoal – isso, sem falar na solidão”. Remédio, a bem da verdade, não existe para fazer a dor sumir, mas quem tem a Cristo sai em vantagem. É o que diz Virginia: “A maturidade espiritual é fundamental nessa hora, assim como apoio. Aprendi que amigos são anjos em forma de gente”. O livro, ainda sem título definido, teve origem a partir de um estudo preparado para a escola dominical da Primeira Igreja Batista de São Gonçalo, onde Virginia é membro com o casal de filhos.


Em seus escritos, ela conta sobre traição, mentiras e a ausência do ex-marido. “Preferi ficar sozinha a viver um casamento de fachada. A incompatibilidade tornou-se insuportável”. Segundo ela, ninguém deve ser condenado a permanecer numa relação que gera falência emocional. “Eu reconheço um Deus amoroso e consolador, paciente e perdoador, que concede a possibilidade de um novo contrato, uma nova aliança, abençoada por ele por sua graça”, continua. Embora não esteja, agora, em nenhum relacionamento, ela não exclui a possibilidade. “Imagine se todas as pessoas divorciadas, fora ou dentro da igreja, estivessem condenadas a permanecer sozinhas? Haveria uma epidemia de gente muito esquisita andando por aí”, brinca. “Há gente que foi tão infeliz e maltratada no casamento que sequer sabe o que significa uma verdadeira união”. Por outro lado, destaca, muitos casais em segundo matrimônio são uma bênção para si mesmos e para os outros. A intenção de Virginia é que a obra possa trazer cura às pessoas, assim como fez com ela. “Que o livro leve à percepção de que as feridas que sangram na alma podem ser fechadas”.


Podem, mas o processo costuma ser dolorosamente longo – e, no caso de ministros do Evangelho, acompanhado de muitas cobranças. CRISTIANISMO HOJE fez contato com alguns pastores que se divorciaram, mas quase todos se recusaram a falar ou fizeram questão do anonimato. Mas o pastor, escritor e conferencista Ariovaldo Ramos, da Comunidade Cristã Reformada, contou sua experiência. Logo ele, que passou boa parte do ministério ajudando pessoas a superarem suas crises pessoais e conjugais. No entanto, há cinco anos, viu a família construída havia 22 anos se desmontar com um divórcio. “Perdi grande parte dos que considerava como minha família, que ficou praticamente reduzida às minhas filhas”. Hoje, o religioso já ultrapassou a pior fase, mas ainda assim sofre efeitos do que lhe aconteceu. “Cheguei a ser muito caluniado.”


Ariovaldo não engrossa o coro dos crentes que acham que o casamento, ainda mais quando feito dentro da igreja, não pode acabar. “A Bíblia questiona como duas pessoas poderão andar juntas, se entre elas não houver acordo. Então, sob vários aspectos, o divórcio é admitido. Mas não é o ideal – deve-se sempre lutar pela manutenção do casamento”. Opinião semelhante tem seu colega Luiz Longuini Neto, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Conhecido por celebrar casamentos de celebridades, como as atrizes Juliana Paes e Deborah Secco, ele defende que uma segunda tentativa possa ser feita – e com conhecimento de causa, já que divorciou-se três vezes e está no quarto matrimônio. “Antigamente, a igreja não estava preparada para lidar o com o divórcio, ainda mais de pastores”, avalia.


Ele lembra que sofreu muito preconceito quando de sua primeira separação, há 25 anos. “Contudo, ocorreram muitos avanços”. Deixando claro que não defende o divórcio, Longuini lembra que, entre os evangélicos, o matrimônio não é um sacramento, ao contrário do que ocorre no catolicismo. Mesmo assim, o pastor diz que, quando procurado, sempre ajuda casais em crise a recuperarem a união. “Mas, às vezes, o fim do casamento é inevitável. Não apenas por uma questão de adultério sexual, e sim, pela quebra do pacto do casamento. Um homem que maltrata a mulher ou uma esposa perdulária, que gasta todos os recursos da família indevidamente, também cometem quebra de compromisso matrimonial.”


DESCANSO NO SENHOR


Um dos caminhos para quem busca um recomeço – com ou sem companhia – depois do divórcio são os ministérios voltados os chamados singles, termo genérico que abrange solteiros, viúvos e descasados na igreja. Esses grupos cresceram à medida em que o divórcio foi se tornando mais tolerado no meio evangélico. Eles promovem integração, convívio, edificação espiritual, suporte emocional e ajuda mútua entre o segmento, que tem demandas bem específicas e geralmente não supridas pelas atividades de outros setores das igrejas, como jovens ou casais. Um dos primeiros movimentos do gênero surgiu em 1989, na Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro. Chamado Oásis, no início o grupo enfrentou certo preconceito e atraiu apenas seis pessoas. Contudo, mais de 20 anos depois, a associação hoje tem grande atividade na congregação. Além de realizar encontros devocionais e sociais, o Oásis auxilia o departamento diaconal e atua em serviços assistenciais mantidos pela igreja.


Na Igreja Batista de Água Branca (IBAB), de São Paulo, funciona o Ministério de Ação e Integração, o Mai, que tem como responsável o pastor Claudio Manhães. “Temos observado diversos testemunhos de gente que se integrou à igreja através desse trabalho”, diz o dirigente. O grupo promove reuniões quinzenais e realiza um encontro anual, com cerca de 200 pessoas – e, volta e meia, novos relacionamentos surgem ali. Mas nem todos os que deles participam estão à procura de uma nova cara-metade. O comerciante Edélcio Edmir Caraça, 54 anos, divorciou-se em 1996, e só depois aceitou o Evangelho, na Igreja Renascer em Cristo. Mais tarde, transferiu-se para a Primeira Igreja Batista de Perus, onde fez seminário e envolveu-se em diversas atividades. Hoje, é diácono, e permanece sozinho. “Minhas funções na igreja e vida espiritual não são afetadas por eu ser divorciado, porém, a vida social com os membros da igreja fica mais restrita”, admite.


Edélcio, que tem uma filha de 23 anos, diz que a diferença de idade em relação a outros grupos, como os de jovens, dificulta o desenvolvimento de laços de amizade mais fortes. O comerciante diz que não se sente excluído, mas afirma que é necessário saber precaver-se de algumas situações: “Principalmente no início, sempre tentaram arrumar um casamento para mim. Se aparecesse uma viúva ou uma mulher acima da idade jovem na igreja, já queriam marcar até encontro para a gente”, lembra, divertido. Dizendo buscar a vontade de Deus para sua vida, Edélcio garante que não está ansioso por um novo relacionamento. “Sei que, se não me casei novamente, foi porque o Senhor ainda não quis. Descanso nas palavras de Paulo em I Coríntios 7”. Ali, o apóstolo dá uma série de orientações aos crentes acerca de casamento e família e deixa claro que, caso o cristão decida se casar ou permanecer sozinho, não á nada de errado nisso. Uma de suas falas constitui excelente conselho, seja qual for a situação: “O que eu realmente quero é que vocês estejam livres de preocupações”. E, mais adiante, ele é categórico ao defender o valor do matrimônio: “Se estás casado, não procura separar-te.”


Divórcio mais fácil


Os efeitos das recentes mudanças no Direito de família no Brasil, que facilitaram os processos de divórcio, já podem ser medidos em números. De acordo com dados do Colégio Notarial de São Paulo, a quantidade de divórcios realizados em cartórios, sem necessidade de processo judicial – possibilidade inaugurada com a nova lei –, aumentou em 109% no último ano em São Paulo. Foram 9.317 casamentos que chegaram ao fim, contra 4,5 mil em 2009. Pelas novas regras (Emenda Constitucional 66/2010), não existe mais exigência de tempo de separação de fato para que casais possam se divorciar – antes, era preciso esperar dois anos entre a separação de fato e o divórcio. Além disso, caso não haja filhos menores ou incapazes e seja firmado acordo prévia em relação à partilha dos bens, marido e mulher podem encerrar sua relação com apenas uma visita ao cartório


“Falta mudança de vida”


Pastor e missionário, Sergio Leoto atua na área de família na Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo, ao lado da mulher, a psicóloga Magali. Ele conversou com CRISTIANISMO HOJE:


CRISTIANISMO HOJE – A quê o senhor atribui o aumento dos casos de divórcio no meio evangélico?


SERGIO LEOTO – Embora não haja levantamento específico, podemos dizer, a partir da observação como conselheiros, que esse aumento é um fato. Aponto a falta de discipulado sério junto aos novos convertidos como um dos motivos. Assim, situações erradas da vida anterior à conversão – como a mentira e o adultério –continuam se repetindo, pois não há instrução sobre o que é a nova vida em Cristo e a santificação. A falta de ministérios de família também é um problema. Apesar de diversos trabalhos de ótima qualidade, no geral, não existe atendimento efetivo a casais em crise.


Quais são os principais problemas que levam um casal de crentes a se divorciar?


Os fatores principais são a inabilidade em lidar com as diferenças de comportamento entre os cônjuges, o adultério – muitos crentes, homens ou mulheres, ainda não sabem fugir das “cantadas” – e transtornos ligados à área financeira. Ou por haver muito dinheiro envolvido, ou pela falta dele...


Como pastor de igreja e conselheiro, que orientação o senhor dá aos crentes que, casados já na condição de evangélicos, manifestam a intenção de encerrar o relacionamento?


Partimos do pressuposto de que, se somos procurados por casais a um passo do divórcio, é porque ainda existe chance de reconciliação. Nunca é um trabalho fácil, pois casamentos que se deterioraram através de anos não são recuperados em questão de minutos. São muitos encontros, meses de trabalho, muita oração, muita boa vontade de todos os envolvidos – e, na maioria das vezes, acontece a reconciliação. Nossa maior recompensa é ver famílias que permaneceram unidas, aprenderam a lidar e conversar sobre as diferenças de pensamento, aprenderam a perdoar e amadureceram, entendendo que casamento nos dá direitos mas também deveres.


Curva ascendente


Para cada quatro casamentos realizados no Brasil, um é desfeito (com números do IBGE de 2009):


916.006 foram os casamentos

231.329 uniões chegaram ao fim


Por Alex Fajardo


Vi no http://cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=30
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Pastor e amigo

Em entrevista exclusiva, Eugene Peterson destaca a importância dos relacionamentos no ministério.
"Como pastores devemos tratar os leigos com dignidade e honrar o seu trabalho, tanto como eles honram o nosso."




Eugene Peterson, como qualquer pastor, já teve lá suas crises existenciais e ministeriais. A primeira foi no início de sua trajetória – achava o pastorado complicado e não sabia bem como atender às expectativas das pessoas. Depois, foi confrontado pela própria vocação. Preferia seguir pela vida acadêmica, mas em determinado momento, viu-se diante do púlpito. Também teve de aprender a lidar com as ovelhas, ou seja, como se relacionar com aqueles a quem liderava. Isso, sem falar nos problemas e angústias que os colegas de ministério vinham lhe confessar. Tudo isso fez de Peterson um “pastor de pastores”.


Mas ele é muito mais do que isso. Hoje, às portas dos 80 anos, é um pensador cristão respeitado, consultado e querido. Predicados intelectuais ele tem de sobra – escritor com mais de 30 títulos publicados, poeta e conferencista, é professor emérito de uma das referências do pensamento cristão mundial, o Regent College, no Canadá. Mas quem o ouve falar – como Mark Galli, diretor de redação da Christianity Today, seu amigo de longa data, que o entrevistou para CRISTIANISMO HOJE – percebe que está diante de um crente que deseja ser servo, não apenas de Deus, como dos irmãos.


CRISTIANISMO HOJE – O senhor dizia, no início de seu ministério, que o pastorado era complicado – ou, que talvez, o senhor mesmo o complicasse. E agora, depois de tantos anos, ainda pensa assim?


EUGENE PETERSON – Bem, se ouvirmos as expectativas de consumo das pessoas, o ministério fica complicado, pois elas tendem a impor o que querem. As pessoas estão acostumadas a poder escolher. Mas, uma vez que entendemos o que estamos fazendo, e para o quê o fazemos, tornamo-nos pastores mais locais, presentes – e aí, eu não diria que o ministério fica simples, e sim, não tão complicado. Aprendemos a estar presentes diante de tudo o que acontece na vida das pessoas e a não impor coisas a outras pessoas, muito menos deixar que as imponham sobre nós.

 
Em um de seus livros, o senhor usa outro adjetivo para designar o ministério do pastor: “Subversivo”. O que quis dizer com isso?


Eu quis dizer que as pessoas têm suas defesas. Se trouxermos a elas algo pesado demais, elas tendem a criar um bem desenvolvido sistema defensivo contra isso. Mas, trazendo as coisas obliquamente, sob o que às vezes chamo de “forma indireta”, temos maneiras de contornar essas defesas. Jesus fez isso o tempo todo com suas parábolas, que eram metáforas surpreendentes. Ele raramente usava palavras abstratas. O Senhor sempre teve muita identidade com a coisa local, com o estar presente no dia a dia, com o familiar. E então, dessa forma oblíqua e subversiva, podemos atrair a imaginação das pessoas para proporcionar-lhes algo que antes não tinham visto, notado ou pensado.


O senhor critica colegas que pregam o eu chama de “Cristo genérico”. Como então deve ser o anúncio do verdadeiro Cristo apresentado na Palavra de Deus?


O Cristo revelado é único. Sua encarnação está ligada ao que é visível – e, muitas vezes, ao inesperado. Jesus surpreendia as pessoas, na maioria das vezes, por não agir como Deus; ele não atendia à expectativa estereotipada dos outros acerca do que ele era, ou do que deveria fazer. A verdade é que as pessoas não olham para os evangelhos como deveriam. São quatro os escritores dos evangelhos. Todos contaram as coisas de modo um pouco diferente um do outro. Eles não seguiram um estereótipo, um sistema dogmático, no qual quisessem encaixar as coisas de forma forçada. Eles ouviram, viram e compreenderam Jesus no contexto em que viviam. Da mesma forma, devemos fazê-lo no contexto em que vivemos. Tudo tem a ver, essencialmente, com a tomada da revelação a sério, com a encarnação do Verbo.


Como o pastor pode manter limites apropriados entre o exercício de sua vocação e sua vida pessoal?


Essa palavra “limites” tem vindo à tona através das disciplinas psicológicas. Parece-me que é uma maneira de evitar a dificuldade, de contornar a ambiguidade. Você sempre sabe onde está, sempre conhece o limite, e deixa as pessoas virem até onde querem, mas não vai deixá-las ultrapassar essas fronteiras. Lembro que uma vez entrei no escritório da igreja e encontrei lá algumas mulheres que estavam fazendo um boletim informativo. Tínhamos, na ocasião, uma filha que estava nos dando alguns problemas extras, naquela fase de confrontar os pais. Então, eu fiz um desabafo, dizendo estar uma fera com isso e até que eu nem queria ser pai. Quando saí, uma daquelas irmãs me repreendeu, dizendo que todas ali já tinham problemas de sobra para manter as próprias vidas e famílias juntas. “Agora, teremos de ajudar você a manter sua vida em família? Isso é demais”, disse. E ela estava certa. Há algumas coisas totalmente inadequadas a um pastor, como se irritar ou se descontrolar. As pessoas simplesmente não entendem tal comportamento num ministro do Evangelho. A vida pastoral tem de ser uma vida relacional – quando você vive assim, não tem limites como tal. Você tem habilidades, intimidade. Aliás, não gosto dessa separação da vida pastoral e pessoal, atuação congregacional e formação profissional.


Quando fala em vida relacional, o senhor quer dizer que o pastor deve buscar construir amizades entre sua congregação?


Sim. Eu amo a passagem de João 13.17, em que Jesus está no Cenáculo, em sua última noite com os discípulos. Ali, ele os chama de amigos, e não de apóstolos ou discípulos, que são palavras que definem algo meramente funcional. Apenas amigos – e ele repete isso por três vezes. Os pastores deveriam meditar sobre isso. Em vez de se concentrarem em suas funções, suas técnicas, estratégias e visões, que relaxem. Basta apenas estar lá com as ovelhas, aprendendo a serem amigos. No momento em que o pastor sobe no pedestal, vai começar a ocultar a natureza do Evangelho.


A partir de que momento um pastor está subindo no pedestal?


Há muitos pastores que cultivam esse negócio de estar em um pedestal, porque, assim, eles não têm que lidar com pessoas. Preferem lidar com as ovelhas apenas no papel de pregador, conselheiro, guia espiritual ou qualquer outra coisa. Há muitas maneiras de se conviver com a forma estereotipada dessa relação. Mas, quando você se torna um amigo, a coisa é outra. Quando saí da Christ our King Chruch [Igreja Presbiteriana Cristo Nosso Rei, fundada por Peterson em 1962, em Maryland], onde estive por 30 anos, eu realmente não me preocupava com o estilo de vida daquelas pessoas – e, para dizer a verdade, eu não tinha amigos que eu chamaria realmente de “amigos”. Mas, quando eu saí, não posso lhe dizer quantas pessoas de lá me disseram que eu era o melhor amigo que já tiveram. Agora, eu era amigo em outro sentido, já que, de alguma forma, houve alguma qualidade na relação que transmitia que eu me preocupava com eles, conhecia os seus nomes, sabia os nomes de seus filhos – ou seja, não era apenas aquela coisa social. Muitas vezes, convidávamos pessoas para um jantar porque estavam com problemas, mas eu não tinha um relacionamento de amizade com muitas dessas pessoas; simplesmente era amigo porque era disponível para elas. É assim que eu acho que um pastor deve ser.


Ultimamente, com a disseminação dos chamados ministérios de tempo integral, tem havido profissionalização de diversas funções eclesiásticas, inclusive as de pastor e obreiro. Qual sua opinião sobre isso?


Eu acho que o profissionalismo na vocação pastoral é mortal, porque isso afeta a todos. Nós compartilhamos algo bem básico com nossas congregações. Estamos compartilhando a vida de Cristo, maneiras como seguir a Cristo. Os pastores devemos tratar os leigos com dignidade e honrar o seu trabalho, tanto como eles honram o nosso, e aceitá-los como iguais em termos de serviço no Reino de Deus e na vivência da vida cristã. Contudo, o profissionalismo que permeia nossas igrejas não confia nos leigos. Hoje, contratamos profissionais para fazer tudo. Em vez de confiar nos irmãos para fazer o trabalho do povo de Deus, contratamos alguém para fazê-lo, e é assim que profissionaliza tudo na estrutura eclesial. Desenvolvemos hierarquias e sistemas hierárquicos na igreja, e isso sutilmente elimina o senso maior de comunidade. Eu diria que a melhor maneira de superar o profissionalismo é confiar. O pastor deve aprender a confiar aos leigos a responsabilidade de serem iguais a ele em termos de status no reino de Deus.


Mas muitos líderes se queixam de escassez de voluntários para desempenhar funções na igreja...


Sim, isso tem acontecido. Se algo tem de ser feito por profissionais na igreja, tudo bem. Mas é uma realidade que pode ser mudada. Eu fiz isso por anos e anos; não reproduzi quase nada que os outros pastores fazem hoje pensando que é trabalho pastoral. Nunca tive uma equipe de profissionais atuando na igreja, nem mesmo uma secretária; a maioria dos trabalhos administrativos da congregação foram tocados por leigos. E as pessoas adoraram colaborar. Naturalmente, não podemos fazer as coisas sempre do mesmo jeito, mas eu acho que os pastores têm de cultivar um laicato em que confiem. Uma igreja forte não é aquela que, necessariamente, tem um pastor forte, mas sim, um laicato forte. Pena que haja muito pouco disso na igreja americana nestes dias.


Como as igrejas devem lidar com o próprio crescimento?


Nós não podemos definir um limite arbitrário para o tamanho da igreja. Tudo é determinado pela maneira como você planeja sua igreja. Quinhentos membros, por exemplo, me parece ser a quantidade certa. Nós construímos nossa igreja para acomodar cerca de trezentas pessoas, e em dois cultos, o que daria conta de todos. E isso funcionou. Meu filho é pastor de uma igreja nova, e, quando a comunidade chegou perto dos 300 membros, eles compraram uma propriedade enorme num local onde havia poucas igrejas. Agora, eles estão se preparando para construir um novo templo. Se construímos um galpão, teremos um depósito cheio de pessoas. Mas, se erguemos um santuário, teremos um lugar de culto e adoração que não pode ser em um galpão.


Poucos pastores usam as línguas originais e a exegese, além de uma boa hermenêutica, na preparação de seus sermões. No Brasil, em particular, boa parte dos pregadores têm insistido na necessidade de mobilizar o público com uma “mensagem arrebatadora”. Aquele tipo de pregação mais consistente está em declínio?


O modelo da pregação preparada teologicamente, com atenção às línguas bíblicas originais, está, sim, em declínio. E fico um pouco desanimado com isso. Talvez, no Brasil, a coisa seja ainda pior do que aqui. O estilo de pregador “animador de auditório”, de fato, é muito ruim. Ora, falar com voz impostada ou dar um show no púlpito não são elementos de exegese. Quando você entra em um consultório médico e algo está errado com sua saúde, você não espera que o médico grite ou leia o diagnóstico em voz alta para que o aceite logo. Então, para quê decibéis a mais na pregação?


O senhor é professor por formação e vocação e docente emérito do Regent College. Como vê o cenário da educação teológica e o que acha que há de melhor e de pior no ensino cristão hoje?


O melhor que está acontecendo – e falo aqui da América – é, provavelmente, o povo. As pessoas que estão entrando no seminárioestão mais maduras, e muitos novos obreiros chegam ao pastorado na meia-idade. Ou seja, viveram boa parte da vida em outras atividades, e percebem que ainda há algo a fazer nos anos que lhes restam – algo que faça diferença para elas e para as outras pessoas. Eu tenho um amigo que é executivo de publicidade em um escritório de Nova Iorque. Ele decidiu, por volta dos 45 anos de idade, que queria ser um pastor. Então, estudou teologia no seminário e, depois de alguns anos, foi ordenado. Ele diz que deixou de ganhar quatrocentos mil dólares por ano, contando mentiras algumas vezes, para receber cinquenta mil dizendo a verdade. Da mesma forma, muitos estão fazendo isso. É gente que está preparada para assumir grandes cortes de rendimento para fazer algo realmente significativo.


E o que há de pior?


A perda de identidade do ensino teológico. Os seminários estão tendo que adaptar seus currículos para cumprirem as exigências das associações de escolas teológicas e terem seus cursos reconhecidos. Ora, qualquer coisa imposta de fora é muito inadequada. Assim, os estudantes estão tendo que ler muito mais do que podem absorver. Então, as escolas teológicas não podem desenvolver o que sua denominação precisa ou mesmo uma estratégica e currículo próprios para lidar com os alunos que espera atrair. Vi isso acontecer na Regent e era totalmente irritante ter de pedir aos alunos que lessem coisas que não exigíamos a princípio. Enquanto isso, outras matérias importantes, como teologia, espiritualidade e história, acabam ficando em segundo plano por falta absoluta de tempo e capacidade dos alunos para absorver tanta coisa. Eu acho as imposições feitas em nome da validação dos diplomas uma coisa muito difícil de lidar.


Por que a teologia espiritual, que foca menos na especulação intelectual e mais na integração do conhecimento na vida cristã do dia a dia, está perdendo espaço?


É um enigma para mim saber por que isso acontece. Teologia espiritual não é apenas uma especialização, ou parte sem importância da teologia. É teologia vivida! Como o seminário cria um currículo teológico e consegue dar-lhe importância e sentido, sem que o aluno possa saber a verdade e passar o resto da vida sem vivê-la? O conhecimento do Evangelho e das Escrituras deve ser enfatizado e é importante, mas isso não pode ser divorciado na nossa maneira de viver ou não viver. Algumas situações vão a extremos e acabam por evitar o real encontro do aluno com Deus – a vida religiosa é uma das melhores maneiras de fazer isso. E o estudo da teologia pode dar essa falsa sensação de que podemos nos enganar pensando que temos, de fato, um encontro com Deus, quando, na verdade, estamos mesmo é precisando daquilo que pregamos. Tivemos um professor de grego e hebraico com cerca de 40 anos idade que também ensinava isso de maneira sutil. E havia mais do que eu chamaria de teologia espiritual acontecendo em seus cursos do que na maioria dos outros, simplesmente porque tudo isso era vivido por ele. Ele fez os idiomas bíblicos ganharem vida, mas também fez as Escrituras ganharem significado e sentido não apenas com a sua forma peculiar de ensinar, mas pela maneira como ele as vivia diante de todos, trabalhando com as pessoas.


No Brasil, praticamente todos os recursos teológicos, inclusive os livros disponíveis, são de origem estrangeira, principalmente dos EUA. Em sua opinião, quão importante é uma teologia com produção nacional em um país que está crescendo em importância, não só no contexto geopolítico, mas como uma potência evangélica mundial? Que tipo de influência os conhecimentos teológicos enraizados na realidade local podem ter?


É importante que os brasileiros e outros povos possam investir e desenvolver estudiosos locais, gente que viva e conheça a própria cultura. Mas em alguns aspectos, o Evangelho não é étnico. No entanto, todos podemos contribuir teologicamente uns com os outros. E todos nós somos parte da Igreja e num mundo muito cosmopolita. Então, ainda que não haja produção teológica suficiente no Brasil, minha sugestão é que se tente manter o desenvolvimento de uma teologia local. A tradução de The message [de sua autoria] está saindo agora em português. Mas eu não fiquei entusiasmado com ela, a princípio. Parecia-me que The message funcionava bem aqui nos EUA porque foi feito por alguém que é um americano, conhece o idioma americano e a cultura do país. Mas, cada linguagem tem sua forma coloquial, e nós procuramos encontrar brasileiros que conheciam bem o grego e o hebraico, além do português falado no Brasil, para obter um equivalente adequado em A mensagem.


O senhor é considerado pastor de pastores. No momento em que os pastores são muito questionados, inclusive por protagonizarem escândalos que repercutem na mídia e estereotipam a Igreja, cada vez mais crentes evitam ser chamados de evangélicos. O que fazer para contornar essa situação?


Acho que primeiro devemos estar conscientes e lidar com o fato de que ser pastor é uma modesta e humilde vocação, e não tem nada a ver com ganhar os aplausos do mundo. E, se não estamos dispostos a aceitar como colegas pessoas que são pecadores – por vezes, flagrante pecadores –, não temos muito o que fazer neste ramo de trabalho. Os escândalos são indesejáveis, muito tristes. Mas isso é parte do que significa viver em uma igreja, e eu não penso que nós possamos lavar nossas mãos desse tipo de coisa e tentar encontrar um lugar melhor que a igreja. Temos é que purificá-la, a fim de que seja um exemplo para o mundo. A Igreja é uma luz que brilha.


A pós-modernidade e os apelos da secularização têm levado muitos cristãos a deixar a igreja. Como atraí-las de volta?


Eu não fico encantado com certas estratégias para reconquistar as pessoas que um dia deixaram a igreja. E acho que muitas das pessoas que a deixam fazem-nos por boas razões, mas não estão indo para algum lugar melhor... Minha esperança é de que vão descobrir que, se há algo melhor, é o que eles deixaram para trás. Mas leva tempo para isso acontecer. Eu tenho alguns amigos pastores que estão vivendo um Evangelho vibrante em nações secularizadas como Alemanha, França ou Escócia. Nós estamos vivendo em um tempo muito difícil, e em alguns aspectos sem precedentes. Contudo, tentar reformular ou refazer o Evangelho para fazê-lo mais atraente é um equívoco. É claro que as coisas não estão indo bem. Nós estamos vivendo um momento muito difícil, e, em alguns aspectos, sem precedentes – mas Barth, que viveu em tempo semelhante, disse que somente onde há sepultura, pode haver ressurreição. Porém, precisamos fazer o melhor, nos mantendo fiéis, ainda que sejamos desprezados por sermos sal e fermento para o mundo – sabendo que apenas fazemos nosso trabalho como seguidores de Jesus. E isso não é um trabalho fascinante.


Por Mark Galli


Vi no http://cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=36

segunda-feira, 4 de julho de 2011

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DOUTRINAS NÃO SALVAM E NEM TRANSFORMAM.






Todos os cristãos dizem que crêem nas mesmas coisas, então porque tantos conflitos e defesas de quem está certo ou errado quanto ao que vem a definir um cristão?

Considero a teologia como uma forma racional de dizer o que determinadas coisas da fé significam. Neste sentido, devemos buscar tal qual Paulo, Pedro, Tiago, João, Lutero, Agostinho compreender o que cada coisa significa.
 
Por isso, existem diversas explicações sobre a fé, porque para saber isto não basta olhar o texto, mas conhecer sobre a história, a cultura, o ser humano e os mais variados pensamentos sobre os diversos assuntos.
 
E isto não é diferente de qualquer proposta, de qualquer seminário, em qualquer lugar do mundo.

A fé cristã é uma fé com racionalidade e sentido.
 
Crer não conflita com o conhecimento, mas é a dimensão mais profunda, onde se extrapolam os limites dos arrazoamentos humanos e se lança no mesmo vetor ao mistério.
 
Exemplo:
 
Conhecemos muito sobre Jesus.
 
Sua historicidade não requer fé, apenas constatação dos fatos.
 
Acreditar em fatos não pertence à dimensão da fé, mas da racionalidade.
 
A pessoa pode conhecer tudo sobre Jesus e ainda assim não crer nele.
 
A fé não está na afirmação de que Jesus existiu, se fosse assim, diríamos que temos fé também em Colombo, pois ele também existiu.
 
A fé está na afirmação de que este Jesus é o Cristo, Ele é a exata expressão de Deus.

Olhar para Jesus e ver o Cristo, isto somente pela fé.
 
Aqui entra a teologia: o que esta fé significa?
 
Ela é plausível?
 
Bíblica?
 
Quais as razões para se crer que Jesus de Nazaré seja o Cristo?

Vejamos:
 
Aprendemos que a FÉ É O FIRME FUNDAMENTO, nas versões mais recentes diz que a FÉ É A CERTEZA DAS COISAS.
 
Não entendo que a doutrina seja o fundamento da fé. Conforme Paulo (1Co13) a fé permanece, mas como expressamos esta fé e a conservamos precisa ser pertinente à realidade da vida, ou será uma fé morta, pois o maior de tudo é o amor.

Em Atos 5 os fariseus reclamaram de uma doutrina pregada pelos discípulos, porém o que eles queriam dizer se não existia doutrina sistematizada?
 
Entendo que a resposta seja quanto a fé em Jesus Cristo o Senhor e Salvador, pois a fé dos judeus é em Deus o Senhor.

Comecemos com o escritor aos Hebreus que ao ensinar sobre as relações da comunidade cristã entre líder e liderado, não diz para se conferir as doutrinas para ver se são as corretas, mas sim que, deve-se observar o RESULTADO DA VIDA naqueles que ensinam a Palavra de Deus e imitar-lhes a FÉ (Hb 13:7). Atentemos para esta questão central.

Por sua vez, Paulo ensina a Timóteo que se ele instruísse aos crentes a se livrarem da Lei, ele será um bom ministro de Cristo nutrido da verdade da fé e da boa doutrina (1Tm4).
 
O detalhe é a possibilidade de uma boa doutrina, sem uma lei, ou ordenanças.
 
No início da carta ele informa que BOA DOUTRINA significa a FÉ no evangelho de Jesus Cristo.

Ainda na carta de Paulo a Timóteo, ele diz que as pessoas abandonariam a FÉ por darem ouvidos aos espíritos enganadores e doutrinas de demônios.
 
Sabedor que Paulo não tem em mãos a doutrina da Reforma, de Calvino, de Armínio, de Agostinho, de Lutero, de Moltmann, de Berkhof, de Tomás de Aquino, Fundamentalista, Liberal, Católica, Protestante, Evangélica eu me pergunto o que ele quis dizer?
 
A qual doutrina ele se referia?

Voltamos à resposta inicial: a FÉ.
 
Se a DOUTRINA é a FÉ em Jesus, faz sentido o que João coloca (1 Jo 4) sobre o espírito do anticristo que atua no mundo que aquele que nega que Jesus é o Deus que veio em carne.
 
Portanto, desvia-se da FÉ quem dá ouvido a uma DOUTRINA que nega a encarnação.
 
Como cristão não abro mão disto em hipótese alguma, CREIO nesta verdade de FÉ.

Em Efésios 4 Paulo orienta a igreja a que ajude na edificação uns dos outros na FÉ, não na DOUTRINA, justamente porque a DOUTRINA pode levar a pessoa a abandonar a FÉ.

Para Tito 2 ele diz que a sã doutrina é ser moderado, digno de respeito, sensato e sadio na fé, no amor e na perseverança.

E Paulo ainda nos ensina que mais profundo ainda seria o alicerce da FÉ que não é a DOUTRINA, mas Jesus Cristo. (1 Co 3). Mas ele também fala sobre a existência de um fundamento dos apóstolos e dos profetas, que também é sustentado pela pedra angular que é Cristo.

Aqui devemos nos perguntar o que seria o fundamento dos apóstolos?
 
Aquele que não é como o sacerdócio judaico, mas sim o do sacerdócio universal dos crentes. Que Jesus Cristo, o sumo-sacerdote fez de judeus e gentios um só e reconciliou o mundo com Deus. O fundamento dos apóstolos é o não à lei sacerdotal.

Qual o fundamento dos profetas?
 
Jesus como um profeta convocava à mudanças.
 
Em (Mt 12) ao ser inquirido sobre a doutrina responde com uma convocação profética: "Misericórdia quero e não sacrifícios".

Resumindo, Paulo não poderia defender doutrinas que não existiam, como estas que temos hoje, pois elas foram elaboradas depois de Paulo.
 
Devemos nos lembrar que suas cartas são do período de Atos, tempo em que ainda não existia a catalogação de nenhuma doutrina.
 
Enfim, vemos na própria Bíblia que o conceito de doutrina não é o que normalmente pensamos.
 
Se quisermos ser fiel ao espírito cristão precisamos encarar isto, ou vamos fazer da doutrina um fundamento, coisa que para os apóstolos é a fé.

Para que esta FÉ defendida pelos apóstolos faça sentido, tenha significado e comunique à presente geração, as doutrinas elaboradas precisam ser pertinentes ao mundo em que vivemos, ou a FÉ poderá morrer. Judas diz que iria escrever sobre salvação, mas percebeu a necessidade de convocar que os crentes batalhassem por esta fé entregue aos santos. Qual? Ele mesmo responde: A que não muda a graça, negando que Jesus Cristo é nosso único Senhor.

Temos uma concepção sobre doutrina diferente daquela colocada pela igreja primitiva.
 
Não precisamos e nem devemos desprezar as doutrinas, mas ao pensarmos nelas devemos fazê-lo na mesma categoria que pensaram seus propositores: A razão de se ter uma doutrina. Não a doutrina em si, mas sim seu espírito, que era preservar a fé e não transformá-la em fé.
 
Crer nas doutrinas não salva ninguém e nem torna a pessoa mais santa.
 
Há um só Senhor, Salvador e Mediador que é Jesus e não a doutrina.

A partir disto convido-o a pensar comigo:
 
Se uma doutrina, por mais piedosa e tradicional que seja e mesmo que em nome da defesa da fé afasta a pessoa da graça, coloca-a incrédula quanto ao amor de Deus, impede-a de perceber Deus em Jesus, leva-a a ser mais fiel à letra do que a Cristo, a amar mais a doutrina do que o próximo, pois para defender preceitos machuca pessoas, apunhala quem lhe estendeu a mão, entre caráter e versículos prefere versículos, e não a permite ver que é a bondade de Deus que leva ao arrependimento devemos com humildade, sinceridade e espírito de oração repensar esta doutrina, pois ela não pode contrariar a FÉ que nos fundamenta e nem ser mais importante do que o que para Deus é mais importante: "De todos os mandamentos, qual é o mais importante?" Respondeu Jesus: "O mais importante é este: 'Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças'. O segundo é este: 'Ame o seu próximo como a si mesmo'. Não existe mandamento maior do que estes".Mc 12:28-31.



Vi no http://www.elielbatista.com/2011/07/doutrinas-nao-salvam-e-nem-transformam.html
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Defender-me? Por quê?






Não pedi, não procurei e jamais imaginei ser alvo de tanta raiva religiosa. Mas, embora magoe, não me impressiono com a veemência dos neoinquisidores. Por anos, fui igual a eles. Eu também não notava que minha obstinação religiosa não passava de obscurantismo. Renego ter sentado na cadeira do fariseu intolerante. Sinto muito, espezinhei quem parecia diferente. Lamento ter sido um inclemente que pensava defender a “verdadeira doutrina” – de certa forma colho o que semeei.

Pratiquei uma religiosidade corporativa. Calei ao presenciar horrores éticos. Eu achava a mensagem grandiosa e procura me convencer: os erros das pessoas não podem enfraquecer o Evangelho. Nessa lógica enviesada, fui conivente. Sinto vergonha de ter calado. Eu devia denunciar. Hoje confesso que convivi e participei de um clericalismo doente.

Sim, eu mudei bastante nos últimos anos. Há pouco, soube que um pastor anunciou de púlpito que enlouqueci. O que dizer? Como provar sanidade? Talvez devesse antecipar-me ao aviso dele e dizer: não pretendo ser bem falado por gente com ele. Os guardiões da glória de Deus me enfadam. (Estranho, um sacerdote tratar alguém como louco e não lembrar de Mateus 5.22: “Qualquer que disser [ao próximo]: ‘Louco!’ corre o risco de ir para o fogo do inferno”).

Caso ceda à patrulha dos Cruzados, arrisco a asfixiar o pouco de criatividade que me resta. Sinto que não devo explicar-me. Vou fazer-me de mouco e continuar. É impossível convencer o gramático sobre a licença poética de prosear. Limitado, nunca conseguirei convencer que meus textos pessimistas só querem exorcizar ufanismos antigos.

Resta isolar-me e, no deserto, trocar de pele. Estou consciente de que não sou um lunático fundador de seita. Mesmo acusado de pregar novidade, sei que não articulo nada inédito. Apenas tento, precariamente, sintetizar o que já foi pesquisado por teólogos de primeira grandeza.

A bem da verdade, reconheço: muitos dos que venho lendo também se distanciaram dos cânones oficiais da Igreja Católica Romana e do Movimento Evangélico anglo-saxônico pseudo-protestante. Talvez esse tenha sido o meu erro: ler gente da estirpe de Juan Luis Segundo, Gustavo Gutierrez, René Padilla, Orlando Costas, Leonardo Boff, Jung Mo Sung, Andrés Torres-Queiruga, Jean Delumeau.

Apresentado a Brian McLaren, Rob Bell e aos malucos da “Emergent Church”, critiquei a superficialidade com que tratavam de temas que teólogos europeus já haviam aprofundado. Mas, não cobro deles em demasia. Considerando o peso cultural dos Estados Unidos, esse pessoal até que avançou bastante. Depois de lê-los, não consegui gostar de Max Lucado. Não tenho a menor tentação de organizar a minha igreja com os “propósitos” do Rick Warren.

Não estou na vanguarda de nenhuma nova teologia, carrego apenas um anseio de liberdade. Com as pedradas que recebi, aprendi que dogmáticos antipatizam os que tentam olhar por cima da cerca e eu só quero a liberdade de olhar.

Acusam-me de humanista. Nem sei o que esse rótulo encerra, mas não sou ingênuo. Repito: a balsa da humanidade está à deriva. Embora continue acreditando, como um romântico desvairado, na liberdade, não me iludo: o progresso tecnológico não conseguiu aliviar a perversidade do mal. Concordo com Karl Rahner: “a liberdade é sempre mediada pela realidade concreta do espaço e tempo, pela corporalidade e pela história do homem”[1].

Jürgen Moltmann afirmou: “liberdade é um movimento criador". Portanto, não aceito cabrestos ideológicos que procuram gerar aceitação tácita da realidade. “Aquele que em pensamentos, palavras e ações transcende o presente em direção ao futuro, este é que é livre. O futuro é para se entendido como o espaço livre para liberdade criadora”[2].

Paul Tillich disse, e eu concordo, que liberdade é fundante do destino: “A liberdade é experimentada como deliberação, decisão e responsabilidade... Á luz dessa análise de liberdade, torna-se compreensível o sentido de destino”[3].

O rabino Jonathan Sacks pontuou sobre liberdade como o alicerce do vínculo pactual entre Deus e o homem:

“O conceito de um vínculo pactual entre Deus e o homem é revolucionário e não tem paralelo em nenhum outro sistema de pensamento. Para os antigos, o homem estava à mercê de forças impessoais que tinham que ser aplacadas... no humanismo secular, o homem está sozinho num universo cego às suas esperanças e surdo às suas preces. Todas estas visões são coerentes, e cada uma tem seus adeptos. 

Mas somente no judaísmo encontramos a asserção de que, apesar da sua completa disparidade, Deus e o homem se encontram como “parceiros no trabalho da Criação”. Não conheço nenhuma outra visão que confira ao ser humano tamanha dignidade e responsabilidade “[4].

Parto da vida com seus paradoxos e ambiguidades. Minha pedra de arranque não é a teoria, mas a realidade de gente que me rodeia. Não quero premissas teóricas, filhas do arrazoamento “científico” da verdade. Desencantado com devaneios conceituais sobre o mundo do "andar de cima", pretendo lidar com a revelação aqui, dentro da história. Se minhas ideias não se ligarem ao mundo onde ponho os pés, eu as considerarei inválidas. Desafio a mim mesmo a perceber o amor de Deus no decorrer da existência. Quero conhecer os atos divinos na poeira da estrada. O que a vida traz de bom e de ruim será a matéria prima de minha articulação.

Eu também não procuro interpretar o mundo, só quero modificá-lo ao antecipar os sinais, ainda que precários, do Reino de Deus. Repito as palavras de Moltmann em sua análise sobre a Teologia da Libertação:

“Ao contrário das teologias metafísicas, trancendentalistas ou personalistas, a Teologia... começa com a história como palco da manifestação de Deus e do encontro do homem com Deus. Com isto ela se liga às tradições bíblicas da história de Israel e da história de Cristo... “[5].

Neste chão hermenêutico, faço teologia. Quero fazer práxis; enfrentar estruturas injustas, opressoras e alienantes como alguém que acredita em milagre. Não desmereço a ortodoxia clássica, sei de seu valor na história, mas desejo ir além. Prefiro as ações transformadoras da realidade à exatidão de um discurso. O Nazareno disse: “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” [João 13.35].

Carlos Mesters ensina que Deus se relaciona com o povo e sempre apela ao dinamismo , nunca à resignação. Ele interpela para encontrar cooperadores:

A presença de Deus na vida era percebida [no relato bíblico], antes de tudo, como apelo, como dinamismo, como futuro, que atraía e chamava o povo a ultrapassar-se, não permitindo que se acomodasse na estrada. A frase tantas vezes repetida: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo (Ex 6.7), fazia saber que o relacionamento com Deus no presente era apenas uma amostra-grátis daquilo que ele seria no futuro. 

A outra frase, igualmente frequente despertava o povo a nunca contentar-se com o que já possuía, e a aprofundar onde estava escondido o germe de toda liberdade. 

Com outras palavras, a presença de Deus era percebida e vivida como o fundamento da esperança que os animava e os fazia caminhar. Ela era uma força que dinamizava a vida para a frente, levando o povo a conquistar-se e a conquistar o futuro que ele entrevia no contato com esse Deus[6].

Teologia não deve se restringir ao discurso metafísico sobre Deus, mas em organizar a vida com os valores revelados pelo Espírito. Missão não se contenta em preparar gente para o céu, almeja mostrar que Deus se interessa com aqui e o agora. Vida abundante começa já.

A pitada existencialista do que venho escrevendo brota da promessa: “O Reino de Deus chegou”. Se procuro transformar a minha espiritualidade em força que pode concretizar essa promessa, não tenho do que arrepender-me.

Soli Deo Gloria
4-07-11




[1] Rahner, Karl – Curso Fundamental de Fé – Edições Paulinas, 1989, p. 53.
[2] Moltmann, Jürgen – O Espírito da Vida. Editora Vozes, 1999, p. 118.
[3] Tillich, Paul – Teologia Sistemática, Editora Sinodal, 2005, p.193.
[4] Sacks, Jonathan – Uma Letra da Torá – Editora Sêfer, 2002, p. 109.
[5] Moltamann, Jürgen – O Espírito da Vida – Editora Vozes, 1999, p.111.
[6] Mesters, Carlos – Por Detrás das Palavras – Editora Vozes, 1999, p. 113.



Vi no http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=61&sg=0&id=1460
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O mistério do vazio






Perguntas martelam noite e dia: Infantis, por que ainda não deixamos de nadar no útero cósmico? O lago do mistério nunca tem margem? Não se conhece quem pode decifrar o enigma da angústia? A realidade dos sonhos, que expõe o universo do inconsciente, não seria ainda mais real que o mundo estreito da consciência?

Intuímos as respostas, sentados ou correndo. Sabemos que nunca nos acostumaremos com imensidões. A vida, imensurável, permanecerá complexa demais e nosso tempo por aqui, bem curtinho.

Temos medo do vazio. Entupimos os dias com barulhos. Divertimos a alma com lantejoulas falsas. Mas, talvez o imarcescível só caiba no vazio.

O Tao ensina:

Trinta raios unem um eixo,
A utilidade da roda vem do vazio.

Queima-se o barro para fazer o pote.
A utilidade do pote vem do vazio.

Rasgam-se janelas e portas para criar o quarto.
A utilidade do quarto vem do vazio.

Portanto,
Ter leva ao lucro,
Não ter leva ao uso.

Talvez a vida esteja na coragem de conviver com esse vazio, de nada ter senão a nós mesmos. A respostas que tanto procuramos podem não ser respostas, mas o desvencilhar-se de pesos. Viver talvez seja se por no Caminho. Quem sabe, longe das demandas da competência, sem as vozes da cobrança, consigamos vencer os dragões que impedem de achar o verdadeiro self, essência de nós mesmos.

O Nazareno avisou: “quem quiser ganhar a vida vai perdê-la e quem ousar perder a sua vida vai ganhá-la”. O Espírito enche, mas precisa encontrar vasos vazios. Não seria esse, precisamente esse, o segredo de construir-se humano?

Soli Deo Gloria


Vi no http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&id=2415