quarta-feira, 8 de junho de 2011

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Somos uma grande farsa

“Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” Mt 15.7-9


Salvo alguns que não se dobraram a baal, somos todos uns canalhas. Eu, você, nós todos somos uma grande farsa, a maior de todas as farsas. E sabe por quê?


Organizamos nossas vidas de modo que tenhamos o mínimo dispêndio com a garantia do maior e melhor retorno. Fingimos que somos de outra estirpe, a dos filhos prediletos. Como filhos prediletos, queremos ser restituídos, queremos de volta o que é nosso. Rejeitamos todo mal, declaramos a nossa vitória, quebramos todas as correntes, exigimos nossa benção, sacudimos o inferno, não por sermos de Espírito libertário, muito menos altruístas; reagimos às ameaças negativas do “no mundo tereis aflições”como bons invólucros do espírito do capitalismo, do que é nosso e ninguém tasca, sendo essa nossa ética gospelizante. Dos nossos guetos, claustros protegidos por hostes angélicas imaginárias, estabelecemo-nos nas estatísticas do emergente mercado com produtos alinhados com o exigente gosto do consumidor evangélico. “Enfim uma linha de produtos com a nossa cara” declara a perua de Jesus.


A cruz da vergonha, símbolo de assombro, pedestal do maldito, foi estampada com alegres cores e as vendas alavancaram. O peixinho antes solitário na rabeira dos carros agora endossa Filipenses 4.13, assim, não se dá satisfação para o significado de um ao passo que ninguém se atenta para o versículo anterior do outro. Podemos então astutamente declarar “tudo posso naquele que me fortalece” depurando nossa ganância, afinando o mau senso de que temos o rei na barriga. Na cara dura agradecemos a Deus por nossos sonhos de consumo se realizarem, mesmo que uma pequena – ou grande dependendo da gula do fiel – barganha tenha sido requerida para a liberação das bênçãos. A campanha dos vinte e um dias de Daniel não costuma falhar com aqueles que são, digamos mais liberais nas contribuições. Jesus é nosso chapa, e Deus dá honra a quem tem honra é o ditado e pretexto.


Comer a carne e beber o sangue do Filho do Homem é demais para nosso paladar requintado, queremos os manjares de Nabucodonozor, basta obedecer o Cristo em outra instância – que não a de tomar a cruz diária – e comeremos do melhor desta terra. A promessa concreta que é “Cristo em nós esperança da glória”, que permeia a história do Antigo e Novo Testamento, foi dissolvida, perdeu seu caráter e virou qualquer coisa, quem tiver a mais criativa imaginação que molde e determine a sua. Deus é Deus de promessa “mer mão” vocifera em saltos histéricos o pastor que se gabou de comprar um jato pela “pequena bagatela” de
doze milhões de reais com o dinheiro sabe de quem?



O mandamento era ide e fazei discípulos, e o que fizemos? Cínico proselitismo. E sabe por quê? Porque somos uma farsa e já percebemos isso, nossa casa caiu. Então arregimentamos novas “almas” para compor uma sofisticada logística do entretenimento em que o evangelho é servido via fast food, e a igreja para não ir a bancarrota por causa de sua insipidez importa fórmulas de crescimento, franquias norte-americanas compondo o pacote camisetas, canecas, bonés, manuais de auto-ajuda e sermões previamente arranjados. Somos uma farsa denunciada por nossos projetos megalomaníacos, mega-templos – com loja de conveniência e chafariz –, marcha para Jesus – ufanismo quantitativo –, assistência social – desencargo de consciência e escape do sentimento de culpa por sermos avarentos e egoístas –, descaso com missões – o que importa são as almas –, discipulado – catecismo de cacoetes, novas manias e antigas neuroses.


Criamos uma bem guardada resistência às histórias de sofrimento alheio quando o assunto é padecer pela causa do Cristo. A emoção corre solta durante o testemunho do missionário, e dura até no máximo a primeira oração da próxima reunião, quando o mundo volta a girar em torno do centro da terra, o umbigo das nossas panças bem forradas. Histórias como da pequena Nina de dois anos que vive com seus pais missionários embrenhada nas matas entre os ribeirinhos do amazonas, que está vomitando a dias com suspeita de algum parasita ter tomado sua barriga, é exemplo sabe pra que? Sabe qual a grande lição que guardamos das crianças ribeirinhas que adquirem doenças desconhecidas por comerem peixes contaminados por não terem outra opção? Que Deus é bondoso conosco e nos garante comida limpa e mesa farta – afinal o justo não mendiga o pão. Que esse é um forte indício para acolhermos nossos bens de consumo e agradecer a Deus por nossos filhos estarem a salvo dos perigos da pobreza.


No caso de sermos acusados por nossa própria consciência – o juiz que Deus nos colocou no íntimo – de que algo nessa trama não se harmoniza com as palavras do Nazareno, somos confortados com saídas bem satisfatórias, tipo: Deus tem um propósito nisso, ou, foram predestinados para esse fim, ou ainda, não chegou o tempo de Deus na vida desses coitados.
O drama de Nina é um dentre tantos dramas contados por aí sobre os que pagam um alto preço por proclamar a rude cruz com todas as suas implicações, que deveria deixar-nos envergonhados por habitarmos em belas e espaçosas casas, por termos comida boa, roupa nova, plano de saúde, igreja com banco confortável, projetos, sonhos, canecas, bonés e camisas floridas estilo Rick Warren.


Deveríamos nos arrepender por comermos contra-filé e tomarmos Coca diet enquanto nas eiras do norte e nordeste comunidades inteiras comem bife de cacto não sem antes beber a água. Nossa cara deveria enrubescer por um missionário ter seu sustento – que é ínfimo, migalhas que caem da mesa de seus donos – ser desconsiderado como prioridade porque outros projetos institucionais são de maior importância e urgência. Por projetos institucionais entenda a construção do mega-templo, o aumento do salário de parlamentar do pastor, o gasto com propaganda midiática da denominação, a manutenção do conforto dominical do contribuinte-consumidor, importação de produtos da franquia, etc.


Julgamos ser assunto de primeira ordem a conservação do excedente dos nossos luxos e prazeres inúteis. Morreremos pela boca, já que com a boca distorcemos o discurso do Cristo para satisfazer nossos prazeres e deleites quando pedimos o que não se deve pedir. Pedimos mal e nos prostramos sobre a proposta do tentador que habita em nós. Queremos tudo e tudo nos será dado se prostrados adorarmos o lado enegrecido da nossa alma. Desconfiados de que amanhã o maná não cairá, estocamos hoje o da semana e quando percebemos que a sobra azedou fazemos caridade com a comida que já não presta. Não há em nosso discurso e prática, equivalente lingüístico nem espaço físico para o nós, tampouco para o nosso. É o meu milagre, a minha vitória, a minha benção, eu, meu, eu, meu, meu, minha, meu, minha... É só crer e não duvidar que hoje o meu milagre vai chegar.

Do conselho de Paulo “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” só consideramos o que do outro eu também almejo, seus bens de consumo. Com a cara lavada somos gratos a Deus por nosso padrão de vida estar se elevando ao passo que indiretamente afirmamos que Deus faz acepção de pessoas, já que pra mim aqui no sudeste é prometido uma terra que mana leite e mel, enquanto no norte e nordeste outros comem cacto não sem antes beber a água.


Somos a maior farsa de todas, pois, corrompemos a maior história de todas. Por conveniência dizemos coisas que o Cristo não disse e omitimos outras que ele disse. Caso nossa estabilidade e tranqüilidade – que com muito custo conquistamos domingo a pós domingo, mensagem após mensagem, louvor após louvor, dízimo após dízimo – seja de alguma forma ameaçada sacamos logo de uma fala de Jesus e entoamos um mântra para amarrar todo mal. Assim proclamamos, por uma questão muito mais de fazer novos prosélitos e mostrar que detemos o monopólio da verdade do que propriamente amor ao outro, um Jesus que nunca conhecemos.


Diógenes circula com uma lanterna no meio dos crentes em pleno meio dia procurando algum sábio sem que o possa achar.
Os sábios não estão entre nós, estão existencialmente no exílio, onde até as pedras estão clamando. Elias não fazia a menor idéia, mas sete mil ainda não tinham se dobrado, pois estes estavam fora do grande eixo, não possuíam nome nem imagem. Deus não esta no templo. Deus clama no deserto e o batista lhe empresta a voz.


O sal se tornou insípido. A luz está colocada de baixo do alqueire. A casa foi construída na areia. O Cristo está à porta, mas não lhe abrimos passagem. E juramos de pé junto com base nas estatísticas que estamos certos.


Alex Carrari


Vi no http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=69&sg=0&id=2413

sábado, 4 de junho de 2011

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Um cordel para o Gondim





Sou um simples poeta nordestino,
eu não tenho diploma teológico,
não entendo o teor mercadológico
que pra isso me faltam ânsia e tino.
Aprendi a cantar desde menino
escutando a voz doce do carão,
o pipoco estrondoso do trovão,
e a orquestra dos pássaros afinada,
e quero ter uma fé santa, embasada,
com a mente no céu e pés no chão.
Em singelas igrejas eu ouvi
a mensagem profética do Senhor,
a peleja, a justiça e o amor,
e as dores vicárias do Rabi.
Lendo a Bíblia Sagrada eu descobri
que é Jesus o Autor da Salvação
no momento da crucificação
seu suspiro calou milhões de vozes
que ao invés de peitar os seus algozes
concedeu-lhes o bálsamo do perdão.

Na Palavra de Deus está disposto
que o déspota é somente o tentador,
que Deus quer o reinado do Amor
em que tudo é proposto e não imposto.
Nesse ponto, propõe que seja posto
o mais puro papel da probidade,
mas quem pensa que é dono da verdade
não se curva aos apelos do amor.
Eu não creio em um Deus que usa a dor,
mas que doa seu Eu com liberdade.

O exemplo de Cristo me faz ver
que o idílio nem sempre vira fato,
que nem Deus busca dar um ultimato
e que tudo se pode refazer.
Que Deus tem o poder para poder,
mas prefere tecer outro mosaico.
Coronel é modelo já arcaico,
liberdade imprescinde na República
o privado não é a coisa pública,
a nação é cristã, o Estado é laico.

Lá no plano de cima Deus é Rei
e reina sempre entre crentes e ateus.
Uma lei não anula a Lei de Deus,
porém Deus não anula a outra lei.
Deve o mundo tornar-se santa grei,
facção é veneno inconsequente.
A potência do Pai Onipotente
faz chamar o conservo de “amigo”,
Ele sabe quem é ou joio ou trigo
e ser cristão é viver com o diferente.

Deus não ‘tá em um credo de doutrina
nem na Teologia Sistemática,
A Palavra não vive na Gramática,
mas na alma de quem ama e ensina.
Deus está na floresta, na colina,
no riacho, na pétala de uma flor,
n’ arco-íris bonito e multicor,
no forró, no cordel e no bolero,
no altar de um coração sincero,
na loucura da cruz e no amor.

Deus está no mar, na estratosfera,
no vergel, no deserto, na lagoa,
nos poemas escritos por Pessoa,
nos romances profundos de Kundera.
Deus não mora na caixa ou na esfera,
não aceita suborno e nem ‘lobismo’,
repudia o brutal fisiologismo,
mas abraça o braçal (mesmo em suor).
Mesmo estando por dentro, é bem maior
que o meio do tal protestantismo.

É difícil ter garra pra falar
um discurso honesto, justo e sério,
pois os tais seguidores do império
fazem tudo o que podem pra calar.
Como a Cícero, se quer decapitar,
como a Sócrates, desejam dar veneno.
Se mataram Jesus, o Nazareno,
que farão para com seus seguidores?
Quem mais diz que o mundo será flores
não se mexe nem limpa seu terreno.

Quem botou sua mão no santo arado
pode olhar para frente e não pra trás,
quem escuta o gemido dos rivais
se esquece o trabalho dedicado,
quem labora no solo machucado
quer curar esse solo tão doente,
quem não busca um hipócrita sorridente
diz um sim para um pranto verdadeiro,
quem tomou para si o seu madeiro
não tem medo do que vem pela frente.

Esse parco cordel eu fiz, enfim,
como um pássaro singelo que abre o bico.
Apesar de distante eu lhe dedico
a Ricardo Gondim, pois ele, sim,
vem pregando a mensagem de Elohim,
sendo luz numa pátria enegrecida.
Sente dor de ver dor e ver ferida,
mas não fere e prefere buscar cura,
garimpando em escombros a candura
e entre os ossos do chão procura vida.




Jénerson Alves
Igreja Batista Rendeiras
Jornalista, Escritor, Professor


Vi no http://presentiaonline.blogspot.com/2011/06/um-cordel-para-o-gondim.html

sexta-feira, 3 de junho de 2011

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Ed René Kivitz - TALMIDIM 004: Obediência




Vi no http://edrenekivitz.com/blog/
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A “esmagadora” maioria






Essa expressão é muito utilizada quando se quer legitimar algo. Quando alguém quer dar peso a um argumento que é acolhido por muita gente, diz logo que a esmagadora maioria é favorável àquela idéia. Assim o pensamento da maioria é usado para legitimar uma idéia, uma política, uma tese, uma lei, uma religião e até mesmo crimes como discriminação, tortura e genocídio.




Estabelece-se a premissa de que, se a maioria apóia, então é legítimo. Será? Sempre que há um crime muito violento e de grande repercussão, fazem-se algumas pesquisas para saber se a população apóia a pena de morte e a esmagadora maioria apóia. Mas é legítimo? É correto?



É preciso ter cuidado com as maiorias, porque se elas são esmagadoras, podem se achar no direito de “esmagar” as minorias. Hitler tinha a esmagadora maioria do povo alemão legitimando seu regime. Não só o povo, mas também a maioria da igreja de seu país apoiava seu regime. E não era por conta de ameaças ou coisa parecida, mas porque realmente estavam convencidos que a doutrina de Hitler estava certa.



Sob o pretexto de estabelecer um regime de mil anos e consagrar uma raça ariana, os nazistas acharam-se no direito de retirar direitos das minorias como ciganos, negros, homossexuais e judeus. Depois de restringir-lhes os direitos, acharam-se no direito de colocá-los em campos de concentração e depois, como se não bastasse, acharam-se no direito de assassinar essas pessoas em massa. Realmente a maioria foi “esmagadora”.



Quando Jesus chegou em Jerusalém, na semana da Páscoa, foi recebido por uma multidão que o aclamava rei. Alguns dias depois, a mesma multidão estava decepcionada com o discurso não dominacionista de Jesus, com sua proposta de não violência, com seu reino que não tinha os mesmos valores que os reinos desse mundo, com aquele papo de amor ao próximo, com aquela conversa de que Deus ama a todos, sem distinção. Por essa razão, a massa se tornou presa fácil para os religiosos manipuladores de plantão, que conduziram o povo a clamar pela morte de um inocente, diante de Pilatos. A maioria “esmagou” a minoria, no caso, Jesus.



Usar influência para negar ou restringir direitos de qualquer grupo minoritário é um perigo, porque em algum momento pode-se estar inserido numa minoria. Ricardo Gondim relembrou recentemente as palavras do pastor luterano Niemöller, acerca da passividade de toda uma geração na época do regime nazista: “Quando vieram atrás dos judeus, calei-me, pois não era um deles; quando vieram prender os comunistas, silenciei, eis que não era comunista; quando vieram em busca dos sindicalistas, calei-me, pois eu não era sindicalista; depois, vieram me prender, não havia mais ninguém para protestar e ninguém disse nada”.



Como cristão, tenho aprendido a deixar as fáceis avenidas das maiorias e trilhar o caminho estreito, a porta estreita do amor incondicional, da graça admirável e da justiça e do direito para todos, sem distinção. Definitivamente se alguma maioria escolher esse caminho, nunca será “esmagadora”.



Márcio Rosa da Silva



Vi no http://marciorosa.wordpress.com/2011/06/03/a-esmagadora-maioria/
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Carta Aberta da liderança dos Jovens da Betesda de São Paulo ao Ricardo Gondim

Em tempo de mentiras, fofocas, intrigas e má fé, é importante descer do muro e se posicionar. Quem assim orientou foi o Dr. Martin Luther King Jr., que em sua carta da prisão em Birminghan, de 1963, escreveu: “Mais nociva que a minoria de homens maus que criam a injustiça é a maioria de homens “bons” que não fazem nada para denunciá-la”.


Dr. King dirigiu a carta aos pastores brancos que o pressionavam a se calar a respeito dos direitos civis dos negros, criticavam suas manifestações, chamavam King de extremista, anarquista, ateu e humanista.


Isso aconteceu numa época em que ter a pele escura, nos EUA, era sinônimo de “não ser gente”. Quem era o Dr. King para querer transformar negros em gente e lhes dar direitos civis?


O argumento vigente contra os direitos civis dos afro-americanos vinha da Bíblia. A maioria dos cristãos (brancos, claro) afirmava que Deus não queria que os diferentes descendentes de Noé fossem misturados aos brancos puros, alvos mais que a neve.


Da boca do falecido senador norte-americano Absalom Robertson – pai do famoso televangelista Pat Robertson – veio a conclusão que representava a mentalidade branca cristã norte-americana na década de cinquenta: “Eu certamente gostaria de ajudar as pessoas de cor, mas a Bíblia diz que não posso” [i].


Cada época tem seu argumento bíblico conveniente para oprimir as minorias.


Voltando ao assunto, não podemos nos calar diante de uma cruel injustiça que estamos testemunhando. Queremos fazer algo para denunciá-la. Não podemos ver lobos em pele de cordeiro dar a última palavra como se fosse verdadeira.


A injustiça a qual nos referimos é o violento e sistemático ataque ao Pr. Ricardo Gondim. Não é de hoje que os ataques acontecem, mas pioraram dramaticamente depois de sua entrevista à Carta Capital, quando se posicionou a favor de estender direitos civis aos homossexuais, garantindo-lhes o reconhecimento jurídico de união estável perante o Estado.


A partir daí mentiras foram inventadas, de propósito, por pessoas de má fé que não gostam do Gondim e que queriam, a todo custo, que sua voz fosse enfraquecida no universo evangélico brasileiro.


Interessante é que a maior parte de seus acusadores e perseguidores nunca leu um livro que ele escreveu, ou um artigo, uma entrevista, nunca foram em um culto na igreja Betesda do Jardim Marajoara, em São Paulo – onde ele é pastor e prega todos os domingos – não conhecem os membros da Betesda e não sabem quase nada sobre a história de vida do Gondim nem da Betesda. Apenas repete o discurso inflamado de seus líderes e pastores que vêem no livre-pensar do Gondim uma ameaça.


Afirmam que o pensamento do Gondim é uma ameaça à Bíblia e à fé cristã – mas é claro que isso é pretexto, para não dizer balela. Quem conhece a Betesda e o Gondim sabe que ele prega todos os domingos na Bíblia e que proclama em alto e bom som a fé cristã: Jesus é Deus encarnado, nascido de uma virgem por meio do Espírito Santo, morreu na cruz por amor de nós, a fim de nos salvar, e ressuscitou no terceiro dia vencendo a morte, estendendo a ressurreição a todos os homens e mulheres por meio da fé. Os que o consideram ameaça, portanto, consideram contra si mesmos, suas doutrinas maléficas, suas estruturas de poder e manipulação mental de gente honesta e de boa fé.


O Gondim virou o herege da vez. O inimigo da vez. Nada mais mesquinho e estranho ao Evangelho – que nos convida a amar os inimigos, mas parece que o universo evangélico se especializou em produzir inimigos para odiá-los em comunhão.


“Heresia” é uma palavra criada para tentar invalidar ideias opostas às ideias vigentes. Criar hereges é fonte de alianças maquiavélicas, para calar a boca de quem incomoda as maiorias, sempre poderosas. O Dr. Martin Luther King Jr. também já foi acusado de herege pelos pastores poderosos de sua época – e libertou um povo oprimido, dando a eles direito à cidadania. Lutero também já foi acusado de heresia, e é reconhecidamente o maior herege da Modernidade – é só por causa dele que temos livre acesso e interpretação da Bíblia. Os apóstolos foram chamados de herege por anunciar que Deus havia encarnado em Jesus Cristo. E, por fim, Jesus já foi chamado de herege por se posicionar ao lado de uma mulher adúltera, relativizando uma lei mosaica, e libertando-a de um assassinato por apedrejamento – por essas e outras, foi parar numa cruz.


Heresia pressupõe uma verdade absoluta. Na fé cristã essa verdade é o Amor, não uma doutrina ou um dogma. Por isso não consideramos o Ricardo Gondim um herege, pois nunca o vimos relativizar a revelação que Deus é Amor. Ele é um herege apenas para quem considera alguma doutrina e lei absolutas. Mas nesse caso, King, Lutero, os apóstolos e o próprio Jesus também eram, então o Gondim está em ótima companhia, e seguindo um excelente caminho.


Se for assim, ainda bem que há hereges, e que ele é um! Nesse caso, aceitaremos o adjetivo como elogio.


Escrevemos para nos posicionar ao lado de quem tem nos ensinado a pensar, a ser livres e a amar. Escrevemos para dizer “obrigado” e “estamos juntos”, a quem nos tem ensinado a crescer a amadurecer na fé cristã.


Como escrevemos em 2007, voltamos a afirmar: aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição.


Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.


Obrigado Pr. Ricardo Gondim, conte com a gente. Sua vida tem sido inspiração para todos nós.


Liderança de Jovens da Betesda em São Paulo


Andréa Lujan
Sheyla Pereira
Vitor Príncipe
Heloisa Príncipe
Adilson Lopes
William Romanini
Rose Guedes
Eliane Leite
Bruno Reikdal
William Barros
Joyce Banzato
Alex Janderlan
André Cavalcante
Lucas Lujan
Igreja Betesda no Jardim Marajoara

Fabio Guerra
Igreja Betesda em Diadema

Juliana Caroprezo
Igreja Betesda na Zona Leste

Marcos Ferreira
Igreja Betesda em Jardim das Fontes

Richard Castilho
Igreja Betesda em Osasco

Luis Dias
Igreja Betesda em Vila das Belezas


[i] HITCHENS, Christopher. Deus não é grande: como a religião envenena tudo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. Pág 166.


 
Vi no http://elienaijr.wordpress.com/2011/06/03/carta-aberta-da-lideranca-dos-jovens-da-betesda-de-sao-paulo-ao-ricardo-gondim/
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Ed René Kivitz - TALMIDIM 003: Distância




Vi no http://edrenekivitz.com/blog/
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Pós-Calvinismo: 7. E Daí?




Scot Mcknight




Na verdade, que diferença faz ser calvinista ou arminiano na interpretação das Passagens de Advertências de Hebreus? Há várias formas de falar de “diferença”, mas no nível da vida cristã concreta, faz tanta diferença assim?

Começo com esta observação. Faz uma enorme diferença para o evangélico contemporâneo que acredita na segurança eterna, certeza de fé e que alguém que recebeu Cristo não pode genuinamente apostatar-se. O slogan “uma vez salvo, sempre salvo” é profundamente ameaçado pela visão de Hebreus que ofereci.

Para o calvinista e o arminiano clássico – e eu sei que isto pode soar a muitos como um monte de bobagens– há muito pouca diferença nesse aspecto: ambos creem que a perseverança é necessária. O que significa que ambos creem que somente aqueles que persistirem em seu relacionamento encontrarão aquele repouso eterno.

Mas eu contei um pouco de minha própria jornada. Eis o que notei.

Em primeiro lugar, percebi uma renovação do senso de temor de Deus que é tão proeminente em Hebreus. Uma vez que me convenci que uma pessoa, sim, que eu poderia crer e apostatar, o pecado se tornou mais importante e a perspectiva de apostatar mais realística. Agora, não me interpretem mal, eu não vivo com um certo pavor mórbido. A certeza acompanha a fidelidade para ambos calvinistas e arminianos. Ambos, pelo menos no meu caso, sabem que a redenção está enraizada nos poderes salvadores de Cristo e que a fé – no sentido de fidelidade e confiança – é exigida.

Em segundo lugar, isto influenciou como eu apresentei o Evangelho. Seja lá como for que alguém queira apresentar o Evangelho, por meio de algum panfleto, história pessoal ou lógica racional, o apelo a crer, na minha opinião, é um apelo a tornar-se crente – não apenas crer de uma vez por todas num único momento. O apelo à perseverança é parte integrante do apelo a crer.

Em terceiro lugar, estou persuadido que manter esta visão não significa que eu (ou alguém que a compartilha comigo) creio que eu contribuo para a minha própria salvação. Ao invés disso, o que esta doutrina me encoraja a fazer é crer, vigiar e perseverar. Me torna mais consciente da necessidade da graça e do poder do Espírito Santo.

Em quarto lugar, e aqui eu peço sua indulgência numa pergunta que tenho feito por 20 anos: é possível que alguns escritores bíblicos sejam mais arminianos e alguns mais calvinistas? Se for, teríamos que perguntar no que consiste a unidade da Escritura. Ela consiste numa teologia sistemática que de alguma forma está por trás de tudo que foi dito ou consiste na essência do Evangelho e o apelo a viver diante de Deus na comunidade de fé? Isto fica para uma próxima oportunidade, mas esta é uma área que merece ser explorada.

Antes de encerrar por essa noite, permita-me mencionar dois livros que diferem de mim.

T. Schreiner, A. Caneday, The Race Set before Us.
T. Schreiner, B. Ware, The Grace of God and the Bondage of the Will.

Quero agradecer as várias pessoas que responderam a esta série. Demorei um pouco a ideia porque imaginei que ela poderia mais dividir do que unir. O que eu acho é que uma abordagem autobiográfica é menos divisiva, embora nossas diferenças permaneçam.









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Fé e Sentimentos - oponentes ou complementares?




 
 
Por Hermes C. Fernandes

 
 
O Apóstolo Paulo afirma que devemos viver por fé, e não por vista. Poderíamos parafraseá-lo, afirmando que devemos ser guiados pela revelação proveniente da Fé, e não pelos sentimentos e informações obtidos pelos cinco sentidos.

Se nossos sentidos não são confiáveis, o que dizer de nossos sentimentos?

As Escrituras dizem que o coração do homem é enganoso, e irremediavelmente corrupto. E isso parece apontar para o fato de que nossos sentimentos não deveriam ser levados em conta.

Porém, este é o estado do homem natural, cujo coração está oco, sem a presença do Espírito Santo. Devemos recordar que Deus prometeu que substituiria nosso coração de pedra, por um novo coração. Logo, novos sentimentos começam a brotar. É por causa deste novo coração que podemos ter “o mesmo sentimento que houve em Cristo”. Entretanto, devemos ser guiados pela Fé, e não por sentimentos, por mais nobres que sejam.

Comparemos a vida humana a um automóvel. Os quatro vidros laterais e o traseiro representam nossos sentidos, e os sentimentos decorrentes deles. O parabrisa dianterio representa a Fé. Não podemos dirigir olhando para os lados, nem constantemente para trás. Temos que dirigir olhando para frente, vivendo pela Fé. Ainda que os demais vidros do carro tenham sua importância, dando-nos uma visão panorâmica da realidade que nos circunda, o vidro dianteiro é que nos oferece uma visão que nos permite seguir em nosso caminho. Portanto, nem os sentidos, nem os sentimentos são dispensáveis, pois cumprem um papel importante. Mas devem estar submetidos à primazia da Fé.



Vi no http://www.hermesfernandes.com/2006/09/f-e-sentimentos-por-hermes-c.html
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SEXO: A verdade nua e crua





Com exclusividade, CRISTIANISMO HOJE revela resultados polêmicos de pesquisa sobre sexualidade do crente.

Por Da Redação

 
Durante muito tempo, era praticamente proibido falar nele nas igrejas. Assunto restrito às quatro paredes dos gabinetes pastorais e considerado tabu pelos crentes, o sexo tem sido visto como uma espécie de fruto proibido ao longo de séculos. A imagem, aliás, é das mais apropriadas – acostumou-se a associar o pecado original de Adão e Eva à prática do sexo, e não à desobediência explícita ao Criador. Vítima de preconceito, legalismo e uma pseudomoralidade que visava muito mais ao controle social do que à santidade, a sexualidade atravessou as eras como algo sujo, um prazer proibido, algo que afastava as pessoas de Deus. Visão bem diferente do propósito do Senhor, que dotou o ser humano da capacidade de amar e ser amado, ao ponto de a própria Palavra de Deus aconselhar o homem a gozar a vida com sua mulher.

Novos tempos, novos valores. Ultimamente, os crentes em Jesus têm aprendido não só a valorizar o sexo – quando praticado dentro dos limites do casamento, bem entendido – como a, vejam só, falar sobre ele. O resultado disso é que trabalhos inimagináveis há algumas décadas têm sido realizados entre a comunidade evangélica, levando os crentes a mostrar a cara e a falar claramente sobre suas preferências, dificuldades e práticas de alcova. O mais recente deles é a pesquisa de opinião O crente e o sexo, cujos resultados CRISTIANISMO HOJE traz em primeira mão. O estudo constitui um amplo panorama sobre o assunto, em que quase 12 mil crentes – sendo 5,1 mil casados – responderam a perguntas enviadas pelo Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã (Bepec), que está sendo lançado junto com a pesquisa.

Através de uma parceria com a empresa Akna Software, especializada em marketing digital, e o portal e revista cristã Genizah, o Bepec teve acesso a mais de 1,5 milhão de endereços eletrônicos de evangélicos, sendo que o instrumento de coleta foi mandado para cerca de 71,5 mil destinatários. Por questão de metodologia, apenas o grupo-alvo dos evangélicos casados foi totalizado neste primeiro momento. Um universo amplo, representando diferentes regiões do país e classes sociais, bem como oito grandes grupos de confissões, incluindo igrejas tradicionais, pentecostais e neopentecostais e denominações de grande porte, como Batista e Assembleia de Deus. “A pesquisa foi feita com rigor científico”, destaca o profissional de marketing digital e blogueiro Danilo Silvestre Fernandes, idealizador do Bepec. Evangélico, ele conta que suas principais motivações foram o interesse que o assunto desperta e a carência de material do gênero. “Não há quase nada disponível sobre a sexualidade dos evangélicos”, atesta. “Sexo é tabu entre os crentes e as matérias sobre isso são as mais lidas e comentadas. Quisemos produzir conteúdo inédito – incluindo dados primários, como é o caso da pesquisa O crente e o sexo.”

Não se pode negar mesmo que o assunto seja apimentado. E que, a partir da divulgação dos resultados da pesquisa, deve render mais pano para a manga nas igrejas. Como explicar, por exemplo, o espantoso percentual de 25% dos homens crentes casados que já traíram a mulher? Ou que 56% dos pesquisados do sexo masculino tenham praticado sexo com o futuro cônjuge antes do casamento? E isso, mesmo levando em conta que quase a metade dos respondentes têm mais de dez anos de conversão à fé evangélica e que o espectro etário é amplo, compreendendo dos 16 aos 55 anos. Ademais, a metade dos pesquisados informou ter mais de oito anos de casamento – ou seja, é gente que já passou pela famosa “crise dos sete anos”, o que é indicativo de estabilidade na relação. A conclusão, óbvia, é de que o abismo entre o discurso dos púlpitos e a prática dos crentes, que sempre se suspeitou existir, é um fato.

“Chamou-me a atenção o índice de casais crentes que tiveram relações sexuais antes do casamento”, aponta o pastor Gilson Bifano, diretor do Oikos, ministério cristão de apoio à família. Sediado no Rio de Janeiro, a entidade promove aconselhamento, estudos e eventos voltados para casais crentes. Ele diz que muito do que a pesquisa mostrou já é do conhecimento de quem trabalha nesta área. “Creio que os tempos modernos têm influenciado o comportamento dos casais crentes. Sexo é assunto que ficou, por muitos anos, sem ser tratado no âmbito evangélico. Há muito dogmatismo e falta diálogo.”

“SEM SURPRESA”

A pesquisa desce a minúcias como práticas sexuais dos casais crentes, envolvimento com homossexualismo e uso de pornografia – quesito no qual 44,5% dos consultados responderam “sim”. No entender de Danilo, o que chama a atenção é a proximidade relativa dos dados de Os crentes e o sexo e outra pesquisa, esta realizada pelo Ministério da Saúde em 2009 com a população em geral. Ali, o objetivo era bem diferente: balizar políticas públicas de combate à Aids. Mesmo assim, alguns dados são inquietantes – como o índice de traição ao parceiro fixo, que ficou na casa dos 16 por cento em um ano na mostra do governo. “Isso não quer dizer, evidentemente, que o evangélico traia mais”, ressalva. “Apenas que os crentes, em diversos aspectos, não diferem tanto assim das pessoas que a Igreja convencionou chamar como ‘do mundo’.”

“De modo geral, não me surpreendo”, comenta o pastor Geremias do Couto, da Assembleia de Deus. Fiéis de sua denominação, conhecida historicamente pelo rigor nos costumes, constituem um quinto do total de pessoas casadas que entraram na pesquisa. Mesmo assim, ele concorda que a influência de uma prática de vida liberal tem cobrado seu preço da Igreja, sobretudo nesta área: “O percentual naqueles pontos que, de fato, consideramos anomalias, ou mesmo pecado, estaria, a meu ver, dentro de um corte que corresponde ao modo como a prática da fé cristã é vivida, hoje, sem muito comprometimento”.

Geremias, que é vinculado ao projeto My hope (“Minha esperança”), da Associação Evangelística Billy Graham, e dedica parte de seu ministério à orientação cristã para casais, teve acesso aos dados da pesquisa antes de sua divulgação. O ponto que mais chamou sua atenção foi mesmo o da traição entre cônjuges crentes. Exatos 24,68% dos homens admitiram a pulada de cerca, enquanto que 12% das casadas evangélicas caíram em adultério. O detalhe é que, entre os neopentecostais, o índice supera em cerca de 5 pontos o de adeptos de outras denominações – como os anglicanos e presbiterianos, classificados na pesquisa como “reformados”. “Seriam, hipoteticamente, dois a três casos de infidelidade em cada dez casais crentes”, aponta o pastor.

ABERTURA

A pesquisa não deixou de abordar questões como frequência de atos sexuais no casamento e as diferentes modalidades de práticas sexuais. Engana-se quem pensa, por exemplo, que crentes se contentam com as mais convencionais. Quase 38% dos que responderam a pesquisa – lembrando que foram 56% de homens e 44% de mulheres – disseram que “vale tudo” no quarto conjugal, desde que ambos concordem. Aí entram a masturbação mútua, o sexo oral (com grande aceitação para mais de 80%) e até sexo anal, normalmente vetado por líderes e conselheiros por sua associação com práticas promíscuas homossexuais, a chamada sodomia. Mas 21,4% dos casais crentes confessaram praticá-lo.

Tratar de aspectos tão delicados da intimidade conjugal só foi possível, segundo Danilo, pela garantia do anonimato. “Pesquisas onde a coleta dos dados não é presencial, embora exijam mais cuidado na amostragem científica, ganham nos fatores envolvendo a privacidade do objeto do estudo. Isso incentiva a abertura para assuntos difíceis e a honestidade das respostas”, explica. “Tenho certeza de que muitos usaram a pesquisa como uma espécie de confessionário, prática abandonada pelo protestantismo”, opina o bispo Hermes Fernandes, um dos colaboradores de Genizah e líder da Rede Episcopal de Igrejas da Nação Apostólica (Reina). Ele acompanhou a elaboração da pesquisa e diz que o estudo confirma, com riqueza de detalhes e informações, o que todo mundo sabe: “O proibido é mais gostoso”. Para Hermes, a pressão exercida pela religiosidade acaba por acentuar as pulsões sexuais, tornando-as exacerbadas. “Muitos certamente ficaram aliviados por saber que não são os únicos a adotar certos comportamentos considerados tabus.”

“Religião não é cabresto”

O pastor Carlos Moreira, 45 anos, da Igreja Episcopal Carismática do Brasil, acredita que a pesquisa O crente e o sexo foi importante para desfazer mitos. Graduado em teologia e filosofia, ele conversou com CRISTIANISMO HOJE:

CRISTIANISMO HOJE – Como explicar a proximidade de alguns dados da pesquisa entre casais crentes e os levantados junto à população em geral?

CARLOS MOREIRA – Na verdade, a pesquisa desvela um universo que, talvez, ainda seja desconhecido do público em geral. Contudo, ela apenas comprova o que já escuto todos os dias no meu gabinete, durante as seções de aconselhamento. O que existe na verdade é que a sociedade imagina que a religião é um cabresto para determinados impulsos da natureza humana, como a sexualidade, por exemplo. Tratar os evangélicos como uma categoria diferenciada da população é alimentar um mito, é imaginar que esta “fatia” da sociedade possui hábitos e costumes diferentes das outras pessoas. Engano. Se isso algum dia foi verdade, hoje, já não é mais.

E por que o tema é tão espinhoso para os evangélicos?

Sexo, para os cristãos, sempre foi um problema, e isso desde o início da Igreja. Paulo já carregava notadamente certa dose de preconceito em suas epístolas, talvez por questões pessoais, talvez como forma de antagonizar a doutrina cristã frente à devassidão da sociedade romana, na qual ele vivia. Esta, por sua, vez, já tinha influências do helenismo grego, onde o sexo assumia diversos matizes contrários aos costumes hebreus. Dali para a frente, a questão só piorou. No século 4, com Santo Agostinho, o sexo tornou-se algo terrível, uma nódoa na consciência dos cristãos – feio, sujo, impuro, perverso e vicioso. Esta não é uma questão ligada a uma época ou a uma cultura, é algo atemporal, intrínseco ao ser humano, faz parte de nossa natureza, devia ser visto como coisa comum, natural, pois, tratar o tema de outra forma só faz proliferar o que temos aí, o sexo como algo insalubre, como perversão escondida, como neurose religiosa, e tudo o que é proibido explode da alma para a vida nas formas mais hediondas possíveis.
A revista chega às bancas em 3 dias, com informações inéditas.



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A saúde divina e a saúde humana

Por grande parte dos últimos 4.000 anos Deus tem estado criticamente enfermo. Os informes que temos a respeito de sua natureza e função indicam que seus padrões de relacionalidade, afeto e conceitualização tem estado fora do intervalo normal. Para ser específico, Deus tem aparentemente sofrido de esquizofrenia paranóide crônica, ou um severo transtorno de personalidade limítrofe, com episódios erráticos, isto é, não provocados, de psicose. A cadeia de informes dominante indica que ele opera sob a noção psicótica de que está envolvido numa batalha cósmica com outro deus que ameaça frustar, corromper e arruinar a sua obra. Esta é uma síndrome psicótica clássica a partir da qual, segundo os informes, ele forma uma ideação global que molda toda a sua visão de mundo, sendo que não existem dados empíricos, heurísticos ou fenomenológicos que indiquem que esse conflito cósmico ou realidade maligna de fato existam.


Sua noção de realidade não tem uma realidade que corresponda a ela. Além disso, esse modelo de ideação é especificamente paranóide, visto que indica que ele acredita que há forças exteriores trabalhando contra ele, quando não há evidência de que essas forças existam. Se os relatos a respeito de Deus são acurados, essas noções são produtos da sua própria imaginação doentia. Deus é um lunático. O Deus da antiga religião israelita, que produziu o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, é facilmente diagnosticável sob as rubricas do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicado periodicamente pela Associação Psiquiátrica Norte-Americana.


Deuses doentes geram gente doentia. Ou, para colocar de modo ligeiramente diverso, Deuses doentes fazem com que as pessoas fiquem doentes. Do mesmo modo que filhos e discípulos tomam como modelo seus pais e mentores, indivíduos e comunidades humanas criam a si mesmas na imagem de seus Deuses. Deuses doentes provem modelos doentios que produzem gente doentia e comunidades doentias. Para se garantir bem-estar pessoal e comunitário, é necessário que Deus esteja bem – ou pelo menos o inverso é verdadeiro. Quem tem um Deus doente não tem como alcançar o bem-estar, seja individual ou comunitário.


Talvez você sinta que estou sendo de algum modo severo demais em meu diagnóstico. Permita-me então elencar um arsenal mais palpável de sintomas que, de acordo com os informes dominantes, constituem a síndrome da desordem clínica divina. Relata-se que ele sofre de uma necessidade perfeccionista de ter o seu mundo, bem como todos que acontecem de vagar por ele, cuidadosamente conformado a uma série prescrita de comportamentos e formas de pensar. Isso soa um tanto obsessivo-compulsivo, para dizer o mínimo; particularmente quando se considera que o mundo criado por ele não é uma indústria ou um campo de trabalhos forçados, mas foi projetado por Deus para ser mais como uma estufa, na qual o modo e o objetivo primários são crescimento e desenvolvimento, que requerem por definição um processo constante de mudança e imprevisibilidade.


Talvez você não tenha levado os relatos da demanda dele por conformidade sério o bastante para ter sido sensivelmente afetado por esse sintoma patológico, mas que dizer dos relatos de que Deus tem tantos melindres com relação ao comportamento e à natureza dos homens, à exploração e à experimentação humanas, que simplesmente não consegue voltar a colocar a cabeça no lugar até que tenha literalmente matado alguém?


Tomemos por exemplo a comunidade de Noé; ou Onã e seu irmão; ou o exército egípcio no mar Vermelho. Ou pense no ameaçado genocídio dos israelitas no monte Sinai; no genocídio dos cananitas por ocasião da invasão israelita da sua terra; no extermínio do reino do Norte; no exílio do reino do Sul; na morte súbita do homem que tentou proteger a Arca da Aliança; na incineração de Sodoma e Gomorra. Agora se isso não lhe parece um padrão de consumado narcisismo, comportamento cronicamente inapropriado à situação, espírito vingativo sádico, impulsividade e transtorno obsessivo-compulsivo, ira depressiva e irracional, reações sem contato com a realidade e inteiramente desproporcionais aos verdadeiros eventos problemáticos em questão em cada caso – você não tem estado prestando atenção. Ou pelo menos não tem lido a Bíblia regularmente.


A síndrome comportamental que acabo de descrever é flagrante psicose. Além disso, que dizer do fato de que o ódio dele a você e a mim, inocentes como somos, ter sido tão intenso que ele concluiu que tinha ou de nos exterminar ou de massacrar seu único filho, Jesus de Nazaré? Se esses relatos são verdadeiros, Deus é um pervertido, e é perigoso. Ele resolve todos os seus impasses decisivos com decisiva violência. Você concorda que é doentio? Qualquer Deus incapaz de agir pelo menos como um ser humano mediano gostaria de agir é um monstro. Deuses monstro geram gente monstro.


Falei de nós como inocentes; você talvez discorde. Reconheço que o único mal que existe no nosso mundo é o mal que fazemos uns aos outros. Porém quando alego inocência quero chamar a atenção para o fato de que nós humanos não pedimos para nascer. Não pedimos para ser limitados. Não pedimos para ser falhos. Não pedimos para existirmos em modo de desenvolvimento e permanecermos portanto inerentemente e inevitavelmente incompletos, em fase de crescimento e de mudança, avançando por tentativa e erro, experimentando e alcançando por vezes becos sem saída morais, relacionais, psicológicos e espirituais. Não pedimos para sermos largados no oceano do espaço-tempo com uma base de dados inadequada, capacidade imatura de juízo e emoções que são com frequência movidas pela nossa ansiedade a respeito de tudo isso. Não pedimos para sermos incumbidos da tarefa divina de decifrar e encontrar significado neste mundo, ao mesmo tempo em que somos compelidos a operar com recursos meramente humanos.


O pior é que as metáforas religiosas que nos foram oferecidas no relato dominante a respeito da natureza e do comportamento de Deus produzem arquétipos inconscientes nos seres humanos, arquétipos que são inconscientemente traduzidos em comportamentos justificados por essas metáforas. Se Deus resolve todos os seus problemas decisivos pelo recurso rápido da violência decisiva, como se pode esperar que nós, seres humanos, ajamos de modo significativamente diferente? Deuses doentes geram gente doentia. Se Deus nos convence da sua noção psicótica de que está envolvido num conflito cósmico cujo o campo de batalha é a história humana e o coração humano, é naturalmente inevitável que iremos desejar, de modo inconsciente ou consciente, ajudá-lo nessa empreitada; estar do lado dele na guerra; empenharmo-nos na causa de Deus contra o infiel, enfrentar os bandidos e exterminar nossos inimigos, da mesma forma que aparentemente Deus faz com os dele.


Esta é a bandeira debaixo da qual foram pelejadas as batalhas do Israel antigo contra os cananitas, e quem sabe também as batalhas do Israel dos nossos dias. Esta é a bandeira debaixo da qual as campanhas cristãs das cruzadas foram pelejadas, e quem sabe também as cruzadas dos cristãos fundamentalistas nos nossos dias. Esta é a bandeira debaixo da qual o Islã conquistou o mundo mediterrâneo nos séculos VII e VIII, e não deve haver dúvida quanto às ambições do al Qaeda nos nossos dias. Um Deus doente gera gente doentia. Como chegaremos a alcançar o bem-estar se Deus está doente? Não chegaremos a alcançá-lo, quaisquer que sejam as circunstâncias.


Houve, naturalmente, outro informe a respeito da saúde mental de Deus, embora tenha sido grandemente desacreditado ao longo da história, com frequência ao ponto de uma desdenhosa incredulidade. Trata-se da alegação de que o relato dominante, que tem estado desde sempre em circulação em todo lugar, não tem na verdade nada a ver com Deus, sendo ao invés disso a doentia projeção de uma série de imaginações humanas muito desautorizadas, autoria de gente inteiramente aterrorizada diante daquilo que é desconhecido e imprevisível na vida: uma projeção de seus próprios terrores sobre a imagem mental idealizada do que achavam fosse Deus. Esse segundo informe sobre a saúde mental de Deus encontra grande dificuldade em competir com o relato dominante, muito embora toda a evidência permaneça, em todo lugar, confirmando a versão alternativa. Essa tem encontrado resistência porque parece humanamente inacreditável: porque alega que Deus é um Deus de graça incondicional para toda a humanidade.


Carl Rogers não considerava inerentemente inacreditável que os seres humanos fossem capazes de exercitar um incondicional apreço positivo uns para com os outros, mesmo se essa postura parece por vezes muito rara e de certa forma não-natural. Porém mesmo ele hesitava grandemente em crer que isso fosse verdadeiro com relação a Deus. Rogers afirmou que abandonou suas raízes evangélicas fundamentalistas porque, como ele via, o informe dominante de Deus como lunático era endêmica a qualquer pensamento religioso. Ele portanto sentia-se capaz de pregar graça humana incondicional, mas não conseguia conceber graça incondicional em Deus. Ele simplesmente não conseguia abraçar Gênesis 12 e 17 e a revolucionária percepção de Abraão daquilo que Deus estava tentando passar para a raça humana: “Estou anunciando que serei Deus para você e para os seus filhos depois de você, por todas as suas gerações como aliança eterna, sem restrições e sem custo embutido. Vocês serão o meu povo e eu serei o seu Deus, e é só isso”.


Carl Rogers não foi capaz de reprimir o clamor do informe dominante em seus ouvidos, a despeito do fato de que era um informe falso, de modo a tornar-se capaz de ouvir a melodia do refrão da graça tocando ao longo de todo o Antigo e do Novo Testamento, declarando como fez o profeta Miquéias (7:18-20): “Qual Deus é como nosso Deus? Ele perdoa a iniquidade. Esquece a transgressão. Não retém a sua ira para sempre. Tem prazer na constância do amor. Tem compaixão de nós. É fiel a nós quando somos infiéis a ele. Ele pisoteia as nossas iniquidades e atira nossos pecados no mar de seu eterno esquecimento. Não só isso, mas também garante que somos perdoados antes de nascermos e antes de sermos capazes de imaginar como nos tornarmos pecadores eficazes”.


Infelizmente, Carl Rogers tem a companhia de grande parte da raça humana ao longo da história, que é incapaz de conceber que Deus não seja insano. Que não consegue conceber que São Paulo sabia de algo essencial a respeito da natureza e do comportamento de Deus quando declarou doxologicamente, “Estou convicto de que nada em toda a criação de Deus pode nos separar do amor de Deus”(Romanos 8:28). Ora, honestamente, esse é um Deus saudável. Deus, o guerreiro, o juiz vingativo, o assassino impulsivo, o maníaco genocida, é um monstro e ninguém deveria honrá-lo. Esse Deus me repugna e deveria nos repugnar a todos. O Deus provedor de graça age de modo apropriado em cada situação, o que é um gradiente chave de uma boa saúde mental. Somos humanos: não pedimos para sermos humanos, não pedimos para nascer, para sermos limitados em nossa base de dados, para sermos criaturas de crescimento e mudança, para sermos pessoas em desenvolvimento que carecem inerentemente explorar e experimentar e imaginar por tentativa e erro. Não pedimos nossa tarefa transcendental e nossos recursos mundanos.


Qualquer Deus que não olha pra isso e responde com apreço positivo incondicional é um monstro profundamente doentio. É por isso que João afirma que o Deus verdadeiro é fiel e justo para nos perdoar os pecados (1 João 1:9). Você ouviu? É uma questão de justiça que para gente como nós, imersa em nossa limitada humanidade, a única atitude correta seja a misericórdia. “Como um pai se compadece dos filhos Deus se compadece dos que o temem” (Salmo 103:13). Esse é um Deus saudável.


Bem-estar: graça de Deus e saúde humana


Estamos reunidos aqui esta noite porque estamos todos interessados no bem-estar do ser humano; de fato, no bem-estar do universo como um todo. Tenho argumentado até agora que nosso bem-estar depende do bem-estar de Deus. Quer dizer, estamos abordando o problema da saúde de Deus e da saúde humana, que traduzi como a questão da graça de Deus e da saúde humana. O que podemos fazer para garantir que o informe sobre a natureza e o comportamento de Deus nos conte a história de uma saúde robusta e de sua inerente boa vontade com relação a nós – assegurando dessa forma que nossa base de operações e nossos pressupostos intensificarão o bem-estar humano, em vez da mentira de que ele é um monstro?


Para colocar essa questão de uma forma mais operacionalmente clínica e científica, de que modo podemos trazer boa teologia e psicologia responsável para gerarem aquela estirpe de interação autêntica em que ambas se iluminam mutuamente de modo a elucidar nossa interpretação da natureza humana, aquilo que Gerkin chamou de o Documento Humano Vivo, de modo a indicarem aquilo que poderá produzir genuíno bem-estar em nosso corpo, mente e alma – ou seja, em termos materiais e econômicos, acadêmicos e intelectuais, estéticos e espirituais? Estou inteiramente convicto de que psicologia e espiritualidade são dois nomes para o mesmo domínio. Cada um tem seu universo de discurso e, portanto, seu próprio modus operandi, mas os domínios da psicologia e o da espiritualidade são o mesmo: o complexo arsenal de aspectos críticos que moldam a irreprimível busca humana por significado mundano e transcendental.


Qualquer psicólogo que não leve a sério a luz que a espiritualidade humana pode trazer para a disciplina científica da psicologia simplesmente não está levando verdadeiramente a sério a sua profissão ou a sua psicologia. Qualquer teólogo que não leve a sério a luz que a psicologia pode trazer para a disciplina científica da teologia simplesmente não está levando verdadeiramente a sério a sua profissão e a sua espiritualidade.


As ciências da psicologia e da teologia, praticadas de modo próprio e responsável, interagem inevitavelmente em quatro níveis científicos: desenvolvimento teórico, modelos de pesquisa, gerenciamento de dados e aplicação clínica. Em cada um desses níveis está sendo formado e operando o modelo antropológico no qual psicologia e teologia interagem. Cada uma traz uma luz distintiva para uma verdadeira e abrangente elucidação do Documento Humano Vivo, que é o objeto da obra científica de ambas. Além disso, dentro do modelo antropológico no qual interatuam psicologia e espiritualidade (ou seu instrumento científico, a teologia), é a teoria da personalidade sendo formada e operada que é o foco central da iluminação mútua que as duas ciências oferecem.


Uma ilustração do que isso implica e do modo como funciona pode ser desenvolvida com base na antiga narrativa bíblica que em sua interpretação história parece indicar que Deus é doente, estabelecendo uma metáfora religiosa que tem produzidos arquétipos humanos e seres humanos verdadeiramente doentios ao longo de 3.000 anos. Trate-se da história, em Gênesis 3, da queda de Adão e Eva, de sua expulsão do idílico mundo do Éden e de sua maldição por Deus.


Há outro modo de se ler essa história. Como está, trata-se da recontagem em terminologia hebraica de um mito mesopotâmico de fertilidade muito mais antigo. Ali estão a árvore frutífera, a virgem que seduz e é seduzida, o símbolo fálico da cobra e a tripla sedução: a cobra e Eva seduzindo uma à outra e Eva que seduz Adão. Lida literalmente, em termos de longas tradições teológicas, trata-se de um relato relativamente superficial de que nossos primeiros antepassados desobedeceram uma ordem divina ao mesmo tempo específica e arbitrária, Deus ficou indignado, expulsou-os do Paraíso e os amaldiçoou. Esse é o Deus monstro.


Se alguém quiser saber porque os antigos hebreus gostaram dessa história e porque adotaram-na, a reposta deve ser óbvia: eles tinham um Deus monstro. Experimentavam o mundo como profundamente conflitante e em conflito, e tinham a opção de acusar Deus de tê-lo criado daquele modo (como fizeram na narrativa mais antiga de Gênesis 6) ou de tirar Deus da reta acusando a si mesmos.


A única verdade que conheciam nisso tudo era de qualquer um que lesse a história reconheceria imediatamente que ela descreve a nossa experiência de vida. A vida é cheia de conflitos, sentimo-nos inadequados e envergonhados diante disso, ansiamos por amor e por significado, sentimo-nos profundamente inquietos com relação a nossa sexualidade e nossa espiritualidade, sentimo-nos expulsos ou alienados de nosso verdadeiro destino e ansiamos por nosso pai mas somos incapazes de agarrar a sua mão. Eles intuíram que a história de algum modo produzia ressonância genuína com algumas de nossas piores perplexidades: somos almas perdidas e vivemos em perplexidade. O que eles não sabiam é que havia outro modo de se lê-la.


Eles tomavam como certa que a narrativa dominante de um Deus ameaçador representava o modelo da realidade. No entanto, se relacionamos o outro informe com esta narrativa e a iluminamos com uma perspectiva psicológica judiciosa, fica evidente de imediato que está é uma história sobre a inevitável adolescência da raça humana. É uma história sobre deixar o útero e o berçário, sobre explorar as possibilidades de nossa própria individualidade, descobrir o conhecimento de nosso potencial para o bem e para o mal e desvelar para nós mesmos o significado da sexualidade, da espiritualidade e da individuação.


Com a iluminação mútua de uma psicologia abalizada e de uma boa teologia, essa narrativa torna-se a poética sugestão de que Adão e Eva careciam afirmar a sua individualidade contra as restrições da autoridade parental, até mesmo divina, a fim de encontrarem seus verdadeiros eus. O enigma da narrativa de Gênesis 3 está na percepção de que a queda foi um ato necessário de crescimento, e levanta a questão de se o processo de adolescência em pessoas e comunidades é melhor realizado através de evolução ou de revolução.


Adão e Eva escolheram a revolução. A narrativa, quando propriamente iluminada por boa teologia e boa psicologia, não é a história de Deus amaldiçoando-os por causa disso. É uma narrativa sobre viver com as inevitáveis consequências das escolhas necessárias e inevitáveis que o crescimento requer; escolhas que devem ser feitas sem um conhecimento adequado do futuro, sem uma compreensão adequada de nossas opções e alternativas e sem conhecimento suficiente sobre a ambiguidade da responsabilidade adulta. As observações de Deus diante da fuga deles da infância não é uma maldição prescrita mas um destino prescrito: a saber, a vida adulta não é moleza.


Uma apropriada iluminação mútua de nossas metáforas psico-espirituais e dos arquétipos que ela produz pode nos proporcionar um Deus saudável que proporciona gente saudável. Digo isso não como uma litania litúrgica. Digo como fato clínico operacional. O bem-estar humano depende de boa teologia e de sólida psicologia para a produção de uma espiritualidade integral – e aqui falo de espiritualidade não como mero mito transcendental. Falo dela como função da pessoa interior em sua busca para que aquele Documento Humano Vivo seja inscrito por completo com as cadências de poesia e de música de significado que produzam genuína completude. Falo de uma estirpe de bem-estar que é aquela plenitude de individualidade e de comunidade, que deriva de um abrangente e gratificante senso de significado de vida, individualmente e relacionalmente.


Isso é possível para nós todos e para toda a humanidade; é possível para você e para mim, para o George Bush, para o al Qaeda, para os democratas – até para os franceses. É claro que os 15% da humanidade que sofrem de uma severa psicose limítrofe herdada não podem ser abraçados por essa perspectiva, exceto sob medicação adequada. O desenvolvimento de uma estratégia psico-espiritual, acompanhada de um programa psico-social concomitante que reflita uma profunda perspectiva graciosa de apreço positivo e incondicional mútuo, contra o pano de fundo da convicção de que essa postura de graça incondicional é a verdadeira história a respeito de Deus, tem chance de moldar nossos pressupostos sobre teoria da personalidade e antropologia de modo a formar um novo modelo global de relacionalidade construtiva. Isso é essencial para o bem-estar humano e sem ele prosseguiremos na trajetória descendente de processos que acentuem cada vez mais a cartada da violência. Isso deve estar fundamentado num modelo psico-espiritual saudável. Os fundamentalistas islâmicos fizeram-nos finalmente um grande favor, a saber, acenaram diante de nós com um sinal claro de que o que molda o significado humano é a questão de se Deus está doente ou saudável.


O modo honesto de se ler a história de Deus na perspectiva psico-espiritual reconhece que o problema da ausência de bem-estar na experiência humana, da disfunção humana, não é problema do pecado, na construção moderna e moralista do conceito, mas o problema da enfermidade, da inadequação e da incompletude humanas diante das responsabilidades da vida e dos desafios da devoção.


Um modelo operacional desse tipo de relacionalidade pessoal e global tem pelo menos as seguintes dez características práticas. Primeiro, a encarnação, dentro da individualidade de cada um que se importa com essa nova iniciativa, da aceitação incondicional do adversário e do outro diferente, onde quer que essa pessoa ou comunidade se encontre neste momento em seu estado de saúde ou de perversidade de espírito. Segundo, uma profunda empatia que coloque a pessoa que se importa dentro do sistema de referência da pessoa ou comunidade diferente ou alienada (leia-se o al Qaeda, por exemplo). Isso levará a pessoa interessada a discernir as fontes e a natureza das obstruções à relacionalidade cheia de graça enfrentadas pelo outro diferente, bem como a sugerir possibilidades para que se vença essa alienação. Essa graça incondicional proporciona à pessoa ou comunidade alienada o potencial para um novo senso de auto-estima, de significado salutar e de uma narrativa divina saudável. Terceiro, essa iniciativa provê tanto pessoas quanto comunidades com um senso de mutualidade na busca por bem-estar. Quatro, implica no reconhecimento de que o iniciador compassivo adentra a relação com suas próprias deficiências humanas.


Quinto: nesse contexto, existe a chance para que se torne evidente que a visão de mundo da pessoa ou da comunidade que demonstra compaixão expresse uma ambição abrangente pela integridade de todo o mundo de seres humanos e de coisas, e que o bem-estar do outro diferente está sendo buscado nesse cenário. Sexto, isso deveria tornar aparente que o crescimento mútuo de pessoas e comunidades é uma possibilidade real e esperada. Sétimo, ambos irão perceber operacionalmente a extensão em que o bem-estar humano depende da saúde do Deus concebido por cada um. O Islã teve longos séculos de uma visão de Alá que inspirou uma cultura e uma relacionalidade ricamente salutar com judeus e cristãos. A grandiosa sociedade islâmica espanhola é um exemplo. Oitavo, podemos antecipar que essa estratégia evocará aquele nível de segurança e confiança que coloca de lado modelos defensivos em ambos os lados e supera as obstruções à mutualidade, ao crescimento, à integridade e ao bem-estar. Nono, tanto pessoas quanto comunidades perceberão que estão sendo afirmadas e levadas a sério. Décimo, a efetividade dessa jornada de apreço positivo incondicional pode ser medida e criticada em uma perspectiva psico-espiritual a cada passo do caminho, à luz da expectativa de que a concretização última do bem-estar mútuo será efetivada como maturidade psico-espiritual, com todos os benefícios materiais e econômicos, acadêmicos e espirituais, estéticos e espirituais que representam a verdadeira plenitude.


O presente conflito mundial, que tem assumido a forma de violência internacional e de terrorismo, é atualmente a maior ameaça ao bem-estar humano. Esse perigo é acompanhado pelo aterrorizante avanço da AIDS e pelo desperdício de recursos que poderiam ser investidos em promover avanços nas áreas da medicina, da saúde mental, da educação e da criação de uma cultura de estética em nosso mundo. Todos esses terrores continuam a violar e a solapar o bem-estar humano, devido a nossos modelos e arquétipos psico-espirituais conscientes e inconscientes, todos formados ao longo dos eixos da vingatividade, das estratégias toma-lá-dá-cá para a resolução de conflitos, do estabelecimento de barreiras entre pessoas e comunidades através de uma disciplina forçada sobre elas, de enfrentar força com força, de fazermos aos outros o que não queremos que nos façam e de nos certificarmos, a partir da doutrina da defesa preventiva, de fazê-lo primeiro.


Esses arquétipos de lutar com fogo contra fogo são produtos de metáforas inconscientes de que o mundo opera inflexivelmente deste modo, de que o universo opera inflexivelmente deste modo, de que Deus opera inflexivelmente deste modo. Se você tem um grande problema, recorra a violência decisiva. Deus faz assim, porque não deveríamos? É como as coisas funcionam. Deus ficou tão indignado conosco que não conseguiria voltar a colocar a cabeça no lugar até ter matado alguém, ou nós ou seu único filho. Este é o modo familiar em que as coisas estão configuradas.


Anton Boisen, Seward Hiltner e Donald Capps propuseram uma trajetória de modificação da pessoa interior através da reformulação dos modelos de comportamento exterior. Eles esperavam que isso fosse eventualmente produzir uma mudança interior. John Carter, Bruce Narramore e H. Newton Malony preconizaram uma reforma de nossa função interior pela reestruturação do sistema de referência moral através da combinação de uma teologia bíblica de certa forma literal e de uma psicologia psicodinâmica. Eles acreditavam que os farás de a tradição do Deus monstro dariam conta da tarefa. Sigmund Freud, Carl Jung e Eugen Drewermann achavam que a psicologia psicanalítica seria capaz de recanalizar a função de nossos arquétipos interiores. O trabalho de todos esses tem suas utilidades, mas não chegam a alcançar os profundos desafios estruturais nos quais a verdadeira obra precisa ser realizada.


O al Qaeda continuará a encontrar modos de lutar por Alá enquanto persistir a crença de que Alá é um Deus do jihad e da fatwah, o extermínio de infiéis na Umma muçulmana. Esse não é um empreendimento diverso das cruzadas do século XII, e seu Deus guerreiro que ansiava que seus servos “libertassem a Terra Santa do Turco Infiel”. Não é preciso ponderar-se muito sobre a origem dos espíritos das cruzadas contemporâneas. Também não é diverso da convicção israelita de que deflagravam a limpeza étnica de Canaã no século XII a.C. porque esse era o mandamento de Deus. É alarmante entender que foram os israelitas contemporâneos a inventarem a noção perversa de defesa preventiva.


Não quero aqui propor qualquer trivialização ingênua do problema, tentando psicologizá-lo ou espiritualizá-lo com uma superficialidade de Escola Dominical. Também não quero subestimar o tamanho do desafio. Quero que minha proposta se alinhe mais com o racionalismo agressivo e prático de Ayn Rand do que com a sentimentalidade manipulativa do litigioso e débil liberalismo norte-americano.


Não atingiremos o bem-estar humano até que tenhamos criado uma cultura mundial de bem-estar. Não conseguiremos isso até que Deus esteja bem. Uma cultura mundial de bem-estar implica um mundo de metáforas psico-espirituais que produzam arquétipos inconscientes salutares. Para conseguirmos isso devemos destruir o doentio Deus monstro que reina inconscientemente no coração de todos nós. Os programas de reformulação psicológica e moral valem o trabalho que dão. Freud e Jung ofereceram-nos ajuda valiosa. Porém é o Deus monstro que deve ser exorcizado e morto, se quisermos avançar rumo ao mundo de bem-estar que somos capazes de imaginar, em vez do mundo letal que tendemos continuamente a criar.


J. Harold Ellens, PhD Universidade de Michingan


(Traduzido por Paulo Brabo)


Vi no http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=69&sg=0&id=2411