segunda-feira, 9 de maio de 2011

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As chaves de Deus

Todo pastor, mais cedo ou mais tarde, enfrenta as demandas contraditórias de ser um profissional e estar no ministério. Isso porque essas duas realidades podem entrar em conflito.

“Graça contrasta-se com merecimento, mas não com esforço.”




Por Dallas Willard




Todo pastor, mais cedo ou mais tarde, enfrenta as demandas contraditórias de ser um profissional e estar no ministério. Isso porque essas duas realidades podem entrar em conflito. Um profissional tem uma agenda a cumprir, credenciais para manter, uma escada profissional a percorrer. Detalhes inadiáveis se sobrepõem à solitude; o tempo necessário à relação com Deus pode ser subtraído por urgências administrativas. A rotina de serviço dá lugar a uma postura de gestor. Assim, uma vida de simplicidade e cuidado de almas é colocada de lado pela ambição e expectativa.



Assim como médicos, advogados e outros profissionais hoje em dia, pastores sentem que suas condições de trabalho estão em conflito com o seu chamado. O crescimento dessa frustração causa a perda da paz e da alegria. Mas, as coisas não precisam ser assim. O próprio Jesus, bem como tantos de seus seguidores ao longo dos tempos, encontraram sua força no servir. O único Deus a quem servimos colocou em nossas mãos as chaves para o Reino, conforme Mateus 16.19. Apesar dos séculos de controvérsias eclesiásticas sobre o significado desta passagem, precisamos entender simplesmente que a nossa confiança em Jesus como o único a quem “foi dada toda a autoridade nos céus e na terra” (Mateus 28.18) nos permite ter acesso às riquezas de seu Reino. Isto nos torna possível realizar nosso trabalho e viver nossas vidas na força, alegria e paz de Cristo.



Possuir as chaves significa primeiramente “aproveitar o acesso”. Imagine um homem que mantém cuidadosamente suas portas fechadas e suas chaves em mãos, mas que nunca entrou em sua casa! Ter acesso ao Reino e viver nele é o que importa. Numa tradução livre, outra célebre passagem do evangelho de Mateus pode ser entendida assim: “Busque mais do que tudo, agir conforme o Reino de Deus e possuir seu tipo de bondade, e todas as outras coisas que você necessitar lhe serão acrescentadas”. Paulo lembrou aos romanos: “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas?”.



Mas se a abundância está aqui, suficiente para derrotar as “portas do inferno”, porque não nos aproveitamos dela? Precisamos de uma chave para as chaves. A abundância de Deus não é recebida passivamente e não nos é outorgada por acaso. A abundância de Deus é reivindicada e colocada em ação por nossa busca inteligente e ação. Precisamos agir em conjunto ao mover da vida do Reino de Deus que vem através do nosso relacionamento com Jesus.



Não podemos fazer isso, é claro, simplesmente sozinhos. Mas precisamos agir. Graça contrasta-se com merecimento, mas não com esforço. Um esforço decisivo, sustentado e bem dirigido é o caminho de acesso às chaves do Reino e a uma vida de força e paz no ministério.



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Uma mente debaixo da graça

"O estudo da teologia adquire significado quando lança base sólida para a construção da experiência."

A crescente falta de interesse em teologia deve-se, em boa parte, aos líderes que enfatizam os sentimentos em detrimento da verdade.




Por Darren C. Marks




Jon é estudante do primeiro ano de um curso de teologia e pertence a uma vibrante igreja. Ele faz trabalhos no campus onde estuda, e em breve será líder de uma congregação. Como muitos outros estudantes da disciplina, ingressou no seminário com bastante desejo no coração, mas pouco conhecimento do assunto. No ambiente acadêmico, a tarefa de questionar o mundo é levada a sério. Manter sua fé acanhada não é, por isso, uma opção para Jon. Ele se encontra em um mundo secular, onde sua crença sofre constante ataque. Como muitos novos estudantes de teologia, o rapaz sente-se ameaçado quando ouve que há diferentes tipos de cristãos. No começo, algumas das ideias apresentadas em sala de aula o aborreceram claramente. No entanto, aos poucos, ele aprendeu a lidar com tais questões. Agora, sente-se motivado a não apenas concluir os estudos, obter um diploma e partir para o ministério, mas também a tornar-se um cristão melhor – não apenas em seu coração, mas no entendimento de seu chamado e do exercício dele em sua geração.



Aos colegas e professores, Jon comenta que as coisas agora começam a fazer mais sentido. Ele está crescendo na fé, e o estudo das doutrinas – uma mente debaixo da graça – o está ajudando nesse crescimento. Só que doutrina é uma palavra que provoca, na mente moderna, uma série de imagens negativas: desde a memória da Inquisição, que em nome dela mandou gente arder na fogueira, ao enfado de ver teólogos debatendo sobre o número de anjos por metro quadrado no céu. De fato, doutrinas parecem bastante assustadoras. Cristãos vibrantes parecem querer cada vez menos relação com isso, preferindo focar suas atenções nas disciplinas espirituais, trabalhos de misericórdia e vida cristã autêntica. Para muita gente, doutrina pertence ao passado, e era geralmente usada para dividir a Igreja. Afinal, quantos protestantes, inclusive os reformadores, perderam tempo e energia discutindo se era permitido ou não mastigar o pão da ceia?



Será que é possível viver uma vida como discípulo de Cristo sem se deparar com questões doutrinárias? Se doutrina é uma forma de articular a maneira pela qual Deus manifesta sua presença na Igreja e, através dela, no mundo, ela pode trazer muito benefício, como no caso de Jon. Vista sob esse ângulo, a doutrina não é um peso, mas algo que ajuda o cristão em sua caminhada. Sua função não é a de dar aos crentes destaque na sociedade, mas ajudá-los a serem fiéis em seu contexto. A crise nas igrejas no Ocidente não são crises decorrentes da falta de informação, mas decorrentes do tipo de informação que tem sido passada. O filósofo James K.A.Smith apresenta isso de forma perfeita: “A teologia não é uma opção intelectual que faz de nós crentes inteligentes; é o conhecimento da graça que faz de nós discípulos fiéis.”



Para estabelecer bem a diferença entre uma coisa e outra, vale dizer que doutrina é a teologia arrumada. E isso, a gente encontra em quaisquer credos e confissões de fé. Teologia, ou como se diz, “fazer teologia”, é o processo de se estudar e elaborar ideias que acabarão como doutrinas. Uma declaração doutrinária – como as declarações do credo Niceno, por exemplo – é sempre uma declaração teológica. Nem todas as declarações teológicas, no entanto, acabam se tornando premissas doutrinárias. Mesmo assim, os termos doutrina e teologia referem-se à abordagem intelectual da fé, que, como Smith afirma, transforma o cristão em discípulo fiel de Jesus. Doutrina existe para fazer com que vejamos nossa vida de forma mais profunda, considerando as implicações de viver em favor do próximo, fazendo o que é certo e beneficiando a todos. Em síntese, doutrina é a sabedoria que nos ajuda a entender qual é nossa missão. Mesmo assim, nós parecemos bastante desinteressados em doutrina nos dias atuais – dentro e fora da igreja.



Experiência X conhecimento – Friedrich Schleiermacher, pensador iluminista alemão do século 19, construiu seu pensamento teológico sobre a questão da experiência espiritual. Tal ideia encontra eco na Igreja de hoje, cujos integrantes parecem muito mais interessados numa religiosidade baseada nas sensações do que em conteúdos. Em muitos casos, nós encontramos essa influência na forma pragmática com nossas igrejas, seminários e faculdades teológicas são conduzidos, mesmo sem perceber isso. Não por acaso, livros de sucesso entre o público evangélico são aqueles de categorias editoriais como transformação pessoal, autoajuda e espiritualidade prática. Uma teologia fundada sobre experiência geralmente falha em questões como moralismo, humanismo, ou, como é o caso do cristianismo norte-americano, uma religião na qual Deus e a nação são facilmente confundidos.



Considerado o pai da teologia liberal, Schleiermacher pensou que a essência do cristianismo estivesse no impulso da experiência, e não na doutrina, o que parece ter causado bastante problema. Isso prejudicou grandemente a relação entre católicos e protestantes, e ameaçou até mesmo o avanço científico. Para ele, se as ideias pudessem ser filtradas até um denominador comum, então as diferenças seriam dissipadas, e a humanidade poderia caminhar adiante em harmonia. Tal essência era religiosa – uma conexão com Deus capaz de ser experimentada por todo e qualquer homem. Exatamente o que hoje conhecemos como espiritualidade. Schleiermacher começou com experiências pessoais com Deus, e transformou tais experiências em teologia. De acordo com ele, começando a partir de nós mesmos, de nossos desejos, é mais fácil desenvolvermos uma visão mais pura de Deus e sermos relevantes como Igreja. Entretanto, de que forma esse projeto funciona?



Ao longo dos últimos 200 anos de história da Igreja, as ramificações teológicas têm sido grandes. Até mesmo aquela que foi chamada de a única doutrina bíblia verificável empiricamente, a do pecado original, encetou as mais diversas abordagens. Para Schleiermacher, pecado não é apenas uma questão de burlar as leis de Deus; pecado é energia desperdiçada. No seu entender, se prestássemos mais atenção nas coisas e tivéssemos mais informações, desejaríamos ser mais espirituais. Logo, um pecador é alguém que está desinformado acerca de quem ele é. Um religioso, em contrapartida, está ciente de sua posição, uma vez que conhece as verdades espirituais.



Sob tal perspectiva, Jesus aparece como alguém que veio para nos mostrar nosso potencial e para despertar a sensibilidade religiosa que existe em nós. Algo como um avatar espiritual, que pode ser chamado de Filho de Deus, mas difere do homem apenas em uma questão de nível, e não de natureza. Ele certamente não é o único homem-deus. A Igreja, então, torna-se o lugar no qual nos encontramos para ouvir que estamos todos bem, seguindo o modelo de piedade de Jesus. Embora possa haver questões positivas em tudo isso, permanece a questão de ser Deus ou não, nessa perspectiva, o agente de mudança na vida das pessoas. No final das contas, as verdades essenciais cristãs, mesmo aquelas sobre Jesus, precisam ser tidas como autênticas; do contrário, elas são descartadas.



É possível ver, portanto, que a teologia de Schleiermacher precisa ser corrigida em alguns aspectos. Ele nos leva, com seu esquema teológico, a questionarmos conceitos teológicos, ao invés de nos deixarmos ser interrogados por eles. A experiência espiritual acaba por nos colocar, e não a Deus, no banco do motorista. Permanecendo filhos teológicos do filósofo alemão, de forma consciente ou não, corremos o risco de transformar o cristianismo em algo, ainda que aparentemente interessante, desprovido de vigor espiritual. O oposto da experiência é o dogmatismo; um escolasticismo religioso frio, que acaba por sugar e esvaziar nossa relação com Deus.



Diálogo – É preciso prosseguir na discussão reconhecendo uma verdade: toda a teologia cristã nos ajuda a entender a Bíblia. É através dela que podemos entender o sentido espiritual de textos escritos há milhares de anos, partindo de culturas que são completamente diferentes da nossa. Além disso, as Escrituras Sagradas apresentam situações que são claramente direcionadas a contextos específicos, como a questão da imoralidade da cidade de Corinto que o apóstolo Paulo conheceu. Assim, a Palavra de Deus apresenta conceitos que ora parecem fáceis, ora obscuros. Há ainda passagens que proporcionam as mais diversas formas de interpretação.



Os cristãos primitivos sabiam disso tudo muito bem. Os três primeiros séculos da nossa Era foram palco de um diálogo bastante intenso com a Bíblia. Em suas abordagens teológicas, os primeiros crentes em Jesus eram desafiados a ler as Escrituras sem as influências judaicas, gregas ou as tendências paulinas ou petrinas que poderiam prejudicar sua interpretação. Ler a Bíblia através de lentes específicas pode levar a falsas conclusões, resultando em distorções práticas na vida cristã. Aqueles que encontraram pouca evidência bíblica sobre o que estava sendo dito acerca da doutrina da Trindade, por exemplo, acabaram chegando a conclusões sobre um Cristo que nunca foi humano, no caso dos docetas, ou que jamais foi divino, como defendia o arianismo.



Longe de sugerir a desimportância da Bíblia, a investigação teológica tem por objetivo entender as Escrituras como documento histórico, mas, muito além disso, afirmá-la como Palavra de Deus capaz de transformar o homem. A teologia nunca se viu como apenas reflexões humanas sobre algumas verdades conjecturadas. O melhor solo sobre o qual a teologia é edificada são as próprias Escrituras Sagradas como verdade revelada de Deus, e não as experiências espirituais. A autoridade da Palavra não pode ser colocada ao lado das experiências de cristãos. Como disse Martinho Lutero, as Escrituras são autoridade porque vêm de Cristo e apontam para ele. São as Escrituras que nos interrogam. Porque pode ser uma tarefa difícil escutar a Cristo através das Escrituras, a Igreja tem escolhido perscrutá-lo através das investigações teológicas. Alguns escolhem ler a Palavra debaixo da orientação do Espírito, como os abolicionistas nos séculos 18 e 19 fizeram no que concerne à escravidão. A teologia testa estas leituras, ao fazer perguntas ao texto e à Igreja, dando clareza ao movimento do Espírito.



Esse método teológico se apresenta como uma contraposição à proposta de Friedrich Schleiermacher. Nós não devemos começar com uma espiritualidade particular para, só então, construir nossas convicções. O melhor caminho é o oposto – partir de convicções desenvolvidas a partir de uma viva relação com a Palavra de Deus, na presença do Espírito Santo, para moldar nossa espiritualidade, permitindo que a verdade revelada nos ensina e nos corrija.



Conhecimento da graça – Temos um bom exemplo desse processo no trabalho de outro alemão, Dietrich Bonhoeffer, que estudou em um período no qual o pensamento de Schleiermacher estava em alta, nos anos que antecederam a eclosão da Segunda Guerra Mundial. A maior parte dos professores de Bonhoeffer estava afinada com a mentalidade zeitgeist de seu país, o crescente orgulho alemão que se revelava no crescimento do nazismo e da generalização do antissemitismo. Eles liam as Escrituras, mas tomando suas experiências pessoais como prioritárias; como consequência, sua teologia apenas reforçava a mentalidade de poder que permeava a Alemanha de Hitler.



Ao começar a ler as Escrituras, Bonhoeffer percebeu que Jesus deveria ser o centro de toda a sua compreensão. As verdades acerca da expiação e encarnação tomaram cor e vida em sua trajetória pessoal. Suas compreensões acerca de Cristo o ajudaram a ver que o antissemitismo e o nazismo estavam tomando o lugar de Jesus na Igreja alemã, tornando-se, na verdade, num movimento anticristo. Por isso, e a alto preço, tornou-se porta-voz da resistência cristã ao zeitgeist. Bonhoeffer sabia, como Calvino, Agostinho e tantos outros da tradição cristã, que ideias que podem parecer irrelevantes – como a Trindade, expiação, escatologia, encarnação – são extremamente importantes para a formação espiritual do ser humano. A teologia nos ajuda a mapear as Escrituras, à medida que elas nos interrogam, debaixo do poder e da presença do Espírito Santo. Ela é uma espécie de memória que nos faz ouvir o que Deus tem falado, lançando luz sobre nossa experiência.



A crescente falta de interesse em teologia deve-se, em boa parte, aos líderes que enfatizam os sentimentos em detrimento da verdade. Deve-se, também, aos membros de igreja que acham que suas experiências com Deus são mais importantes e dignas de crédito do que as verdades ensinadas na Bíblia. Mas pessoas como Jon, com sua mente ávida por conhecimentos que possam consolidar ainda mais a sua fé, mostram a validade de se interpretar tudo – inclusive, as próprias experiências – à luz da Palavra de Deus. Ele e muitos mais cristãos já aprenderam que não é possível crescer espiritualmente sem conhecer doutrina, e que a teologia é o conhecimento da graça que faz de nós discípulos fiéis.



Darren C. Marks é professor assistente de teologia e estudos judaicos no Huron University College, na University of Western Ontário (Canadá)



Tradução: Daniel Leite Guanaes



Vi no http://www.cristianismohoje.com.br/interna.php?id_conteudo=673&subcanal=30
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Parece, mas não é

Igrejas e congregações independentes adotam indevidamente nomes de grandes denominações com as quais não mantêm qualquer vínculo.

Denominações como a Batista, a Assembleia de Deus e a Presbiteriana são as maiores vítimas da clonagem eclesiástica.




Por Sulamita Ricardo




Um fenômeno decorrente do crescimento do segmento evangélico está chamando a atenção de algumas das mais tradicionais denominações do país. É a clonagem de nomes de igrejas, utilização indevida de marcas tradicionais no meio protestante por instituições sem qualquer ligação com as grandes convenções, cujos nomes utilizam numa tentativa de atrair fiéis e de tirar uma casquinha na credibilidade alheia. Em meio a um crescimento com ares desordenados – só em São Paulo, a cada ano são criadas cerca de 220 novas igrejas evangélicas, algumas das quais não passam de salinhas alugadas nas periferias –, parece cada vez mais difícil normatizar o setor. E o pior é que, além de gente bem intencionada que quer apenas anunciar o Evangelho da salvação, aventureiros pegam carona na tradição de grandes organizações religiosas, prejudicando sua imagem perante o público. No meio das mais de 300 mil igrejas evangélicas que funcionam no Brasil, muitas parecem uma coisa e são outra.



Denominações como a Batista, a Assembleia de Deus e a Presbiteriana são as maiores vítimas da clonagem eclesiástica. Organizadas em convenções nacionais, essas três gigantes, que juntas reúnem milhões de fiéis, estão capilarizadas por todo o território nacional, com uma trajetória cuja origem remonta à segunda metade do século 19 e início dos anos 1900. Mas a placa na entrada não é garantia de legitimidade. Muitas comunidades autônomas, sem qualquer ligação administrativa ou doutrinária com as denominações cujos nomes utilizam, funcionam livremente. Na zona norte do Rio de Janeiro, por exemplo, é possível encontrar a Assembleia de Deus Ministério Renovo e a Igreja Batista Templo de Milagres, que apesar dos nomes não são subordinadas às entidades cujas nomenclaturas adotam.



A clonagem eclesiástica preocupa líderes evangélicos. “Nós estamos acompanhando isso com muita perplexidade, porque essas igrejas estão nos causando grande prejuízo”, diz o pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil (CGADB). Reeleito no mês de abril para mais um mandato à frente da maior denominação evangélica nacional, Wellington diz que a Assembleia de Deus é uma das mais afetadas pelo problema, pois acaba tendo seu nome respingado por qualquer atitude errada de religiosos free-lancers. “Muitas vezes, os pastores dessas igrejas não têm boa formação eclesiástica, espiritual, moral e até cultural para o exercício do ministério. Por isso, causam desordem doutrinária em seus púlpitos”, observa.



Um dos principais prejuízos acontece na área financeira. Segundo Wellington, eventuais desmandos ou calotes perpetrados por dirigentes de congregações clonadas sujam o nome da denominação. “Quando precisamos fazer alguma transação ou giro bancário, temos de provar por A mais B que não somos esse tipo de gente”, reclama. O presidente diz que está nos planos da denominação fortalecer seu Corpo Jurídico para acionar a Justiça em alguns casos. “Claro que primeiro tentaremos a via diplomática, solicitando a troca do nome”, adianta.



Fragilização – Para José Carlos da Silva, presidente da Convenção Batista Nacional (CBN) e pastor da Primeira Igreja Batista de Brasília, o que está em jogo é a soberania das denominações. “O uso indevido do nome ‘batista’ por igrejas desvinculadas das entidades que nos representam causa muitos problemas”, aponta. Os crentes batistas brasileiros estão ligados a dois grandes grupos: a CBN, reunindo as igrejas de orientação pentecostal, que surgiu na década de 1960, e a centenária Convenção Batista Brasileira (CBB), de linha tradicional, cada uma delas com mais de um milhão de fiéis. Há ainda entidades menores, como a Igreja Batista Regular e a Igreja Batista Independente. Em comum, explica Silva, todas essas organizações seguem estatutos denominacionais e administrativos, com representatividade através das assembleias gerais, que normatizam o processo de eleição dos líderes. “Ou seja, há prestação de contas.”



No entender do pastor, o processo de abertura indiscriminada de congregações reflete o processo de fragilização da Igreja Evangélica brasileira, “multifacetada e carente de orientação”. Basta uma passeada pelas maiores cidades brasileiras, e até mesmo no interior, para constatar que o mercado da expansão evangélica está a todo vapor. A cada dia, novas comunidades abrem suas portas – e os nomes, por vezes, são curiosos e até esdrúxulos, como Igreja Bailarinas da Valsa Divina ou Assembleia de Deus da Fonte Santa (ver abaixo). Para José Carlos da Silva, tanta originalidade, digamos assim, é uma característica cultural do povo brasileiro. “Normalmente, essas nomenclaturas são escolhidas a partir de experiências místicas, atribuídas a revelações ou sonhos. Expressam tanto ignorância como mau gosto, mas o amor tudo suporta”, resigna-se o presidente da CBN.



Roberto Brasileiro, pastor-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, também expressa preocupação com essa pulverização e pelo uso indevido do nome de sua denominação por grupos desconhecidos. “Esse fenômeno causa prejuízos para o Evangelho em geral, e traz descrédito e críticas para as igrejas. Mas nós não temos responsabilidade sobre isso”, comenta. O problema é que nomes como os usados pelas grandes denominações já são de domínio público – ou seja, quem os utiliza não comete nenhuma irregularidade do ponto de vista legal. É o que explica o advogado e mestre em direito Gilberto Garcia, especialista na legislação ligada ao funcionamento das instituições religiosas. Ele lançou o livro O Novo Código Civil e as Igrejas em 2003, época em que a mudança na lei causou alvoroço entre os pastores. Ele diz que um título como “metodista” pode ser utilizados por qualquer igreja, já que no Brasil é muito fácil abrir uma instituição religiosa. “Nomes como Assembleia de Deus, Igreja Batista ou Igreja Presbiteriana são exemplos de ‘nomes genéricos’, chamados assim por não terem sido registrados em órgãos oficiais na época oportuna.”



Segundo Garcia, depois de devidamente regulamentadas, as igrejas têm direito de personalidade sobre o seu nome, uma novidade implantada pelo novo Código Civil. “Tal direito antes só era reservado aos cidadãos”, acrescenta. “Daí ser praticamente inviável a adoção de providência legal para impedir que alguém adote essas nomenclaturas”. A proteção é assegurada, ressalva o advogado, apenas ao nome específico de uma igreja local, como Primeira Igreja Batista em São Paulo ou Igreja Presbiteriana Central de Brasília, por exemplo. “Cada igreja legalizada tem propriedade sobre seu nome específico, que é protegido contra plágios.”



“Mão torta” – Ainda segundo Gilberto Garcia, o Judiciário não pode fazer muito para frear esse processo. “No prisma legal, a denominação que uma igreja escolhe não traz qualquer embaraço, e o Cartório do Registro Civil das Pessoas Jurídicas não pode, a princípio, impedir o registro do Estatuto Associativo em função da nomenclatura”, explica. A Justiça só pode intervir, e assim mesmo se for provocada, quando o nome ferir o bom senso, os bons costumes e a percepção da sua atuação como instituição espiritual. Ou seja, a questão está sujeita a uma avaliação para lá de subjetiva.



“As igrejas aparecem, se multiplicam e ficam cheias porque oferecem uma mensagem simbólica que atende às demandas das pessoas”, opina o pastor e teólogo Lourenço Stélio Rega, diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Referência evangélica na área da ética cristã – é autor de Dando um jeito no jeitinho: Como ser ético sem deixar de ser brasileiro, lançado em 2000 pela Editora Mundo Cristão –, ele frisa que o crescimento de movimentos evangélicos não o incomoda. “A Bíblia diz que a porta do Reino dos Céus é estreita. A mensagem pura do Evangelho encontra-se na Palavra de Deus.” Para Rega, a maneira certa de diminuir o apelo de igrejas de fachada é o Corpo de Cristo cumprir sua missão com mais seriedade e dar mais ênfase no testemunho pessoal do crente. “Temos que pregar a mensagem pura e simples do Evangelho e ter, como Igreja do Senhor, influência positiva no ambiente em que estivermos implantados”, conclui o teólogo.



Na mesma linha vai o doutor em sociologia Ricardo Mariano. Autor de Neopentecostais – Sociologia do neopentecostalismo, ele é um dos maiores especialistas brasileiros no fenômeno evangélico e acredita que as igrejas-clone são muito pequenas para prejudicar seriamente denominações de grande porte. “Isso não vai atrapalhar um movimento religioso ascendente, que já envolve mais de 40 milhões de brasileiros”, acredita. José Wellington aposta na semeadura do Evangelho: “Ainda que muitas vezes pregada por pessoas despreparadas, os brasileiros estão sendo apresentados à Palavra de Deus. O agente pode ter mão torta, mas se a semente cair, ela vai brotar. Na hora de passar a peneira, Deus passa.”



Entre o público e o privado

O advogado Gilberto Garcia, especializado em direito civil e na legislação que rege as entidades religiosas, respondeu a algumas perguntas de CRISTIANISMO HOJE sobre o processo de abertura de igrejas:


CRISTIANISMO HOJE – O que é preciso para se abrir uma igreja no Brasil?

GILBERTO GARCIA – A organização religiosa é uma entidade associativa, uma pessoa jurídica de direito privado. Para funcionar, ela precisa averbar seu Estatuto Associativo no Cartório do Registro Civil de Pessoas Jurídicas. Em seguida, os responsáveis devem providenciar o registro na Receita Federal, obtendo assim o Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). É preciso, ainda, obter o certificado de vistoria do Corpo de Bombeiros para o templo, e em alguns casos, alvará, fornecido pela prefeitura local.


Existe algum tipo de controle ou exigência sobre quem será o titular da nova igreja?

Compete exclusivamente à igreja local, convenção, denominação ou grupo religioso estabelecer os critérios para que uma pessoa se torne um pastor – ou evangelista, presbítero, diácono, bispo, apóstolo... Não há qualquer controle público sobre isso, em função da liberdade religiosa consagrada pela Constituição Federal. Entretanto, se o dirigente vai assumir a presidência de uma organização religiosa – seja qual for sua confissão de fé – juntamente com a posição de líder religioso, ele precisa, de acordo com o Código Civil, ser civilmente capaz, e ainda, não ter qualquer pendência fiscal com a Receita. Também precisa comprovar que não foi condenada em processo criminal, através de certidões oficiais.


As entidades denominacionais não podem exercer um controle efetivo sobre a abertura de novas igrejas, sobretudo aquelas que utilizarão indevidamente nomenclaturas já consagradas?
 
As denominações históricas não têm qualquer controle sobre a abertura de igrejas com seus nomes, pois nomenclaturas como Assembleia de Deus, Batista ou Presbiteriana são consideradas de domínio público, não havendo qualquer ilegalidade em sua utilização de modo genérico. O que não se pode é utilizar o nome de uma igreja local que tenha sido registrada, por exemplo, como Assembléia de Deus em Goiás ou Igreja Batista em São Paulo. No caso das igrejas locais, seus membros podem adotar medidas legais cabíveis para impedir, inclusive judicialmente, a utilização do nome especifico, sob as penas da lei.


Para todos os gostos

O que um visitante desavisado diria ao ser convidado para assistir a um culto na Igreja Bailarinas da Valsa Divina? Ou que impacto pode ter sobre a vida de um crente carnal o ministério da Igreja Evangélica Pentecostal Jesus Vem, Se não Vigiar Você Fica Fora? Igrejas com nomes curiosos ou bizarros são cada vez mais comuns no Brasil. A jornalista Luciana Maz­zarelli, de São Paulo, está preparando um livro sobre o assunto. Ela se diz surpresa com a criatividade dos pastores. “Em alguns casos, eles conseguem unir no mesmo nome palavras antagônicas, como Igreja Evangélica Muçulmana Javé É Pai”, diverte-se. No entanto, o objetivo de sua pesquisa – feita na maioria das vezes in loco, palmilhando ruas de periferias e bairros populares – não é ridicularizar ninguém, e sim, mostrar a diversidade de interpretações bíblicas e liturgias: “O fenômeno tem um lado positivo, pois assim o propósito de levar o Evangelho a todos os lugares está sendo cumprido”, explica Luciana. “Hoje em dia ninguém deixa de ir à igreja por falta de opção. Temos igrejas para cada tribo: surfistas, motociclistas, artistas... enfim, é igreja para todos os gostos”. Conheça algumas dessas congregações cuja originalidade já começa pelo nome:


. Assembleia de Deus do Azeite Quente

. Igreja da Bênção Mundial Fogo de Poder

. Igreja Batista Templo de Milagres

. Igreja Chave do Éden

. Igreja do Amor Maior que Outra Força

. Cruzada Evangélica do Ministério de Jeová, Deus do Fogo

. Igreja Bailarinas da Valsa Divina

. Igreja das Sete Trombetas do Apocalipse

. Igreja de Deus da Profecia (no Brasil e América do Sul)

. Igreja Cenáculo de Oração Jesus Está Voltando

. Igreja Pentecostal Subimos com Jesus

. Igreja Evangélica Pentecostal Jesus Vem,

 . Se Não Vigiar Você Fica Fora (IEPJVSNVVFF)

. Igreja Evangélica Arca de Noé

. Rancho dos Profetas

. Igreja Asas de Águia – Visão Além do Alcance

. Igreja Evangélica Pentecostal Quero Te Ver na Glória

. Igreja do Cavaleiro do Cavalo Branco do Apocalipse 6.2

. Igreja da Ressurreição dos Mortos



Vi no http://cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=38&id_conteudo=643

sexta-feira, 6 de maio de 2011

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Pós-Calvinismo: 5. Pecado



Scot Mcknight



No final das contas, as questões nas Passagens de Advertências em Hebreus se resumem a (1) com que pecado o autor está tão preocupado e (2) quem é a audiência. Nesta mensagem, irei analisar o pecado que o preocupa.



Todos concordamos (geralmente) com as consequências expressas e a exortação à perseverança. Mas o pecado não é tão suscetível de acordo.


Quando dava aulas sobre estas passagens, eu descobria que a maioria dos estudantes concordava comigo sobre isto. Posso também dizer que a questão da natureza deste pecado me incomodava e incomoda muitos outros.


A lista das palavras que o autor usa para este pecado nas Passagens de Advertências é longa, e eu quero apresentar uma listagem bastante completa exatamente para sermos justos com o texto e dessa forma podermos ter uma melhor visão daquilo com que estamos tentando lidar.


2.1: desviemos
2.2: transgressão
2.2: desobediência
2.3: não atentarmos para uma tão grande salvação
3.8: endureçais os vossos corações
3.8: provocação
3.8-9: tentação
3.10: erram em seu coração
3.10: não conheceram os meus caminhos
3.12: coração mau e infiel
3.12: se apartar do Deus vivo
3.16: provocaram
3.17: pecaram
3.18: desobedientes
4.1: fica para trás
4.2: nada lhes aproveitou… não estava misturada com a fé
4.11: caia
5.11: negligentes
6.6: recaíram
6.6: de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério
10.25: não deixando a nossa congregação
10.26: pecarmos voluntariamente (cf. Nm 15.22-31)
10.27: adversários
10.28: Quebrantando
10.29: pisar o Filho de Deus
10.29: tiver por profano o sangue da aliança
10.29: fizer agravo ao Espírito da graça
10.35: rejeiteis a vossa confiança
10.39: se retiram
12.1: pecado que nos rodeia (isso faz parte? – não sei ao certo)
12.3: não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos
12.5: esquecestes da exortação
12.15: se prive da graça de Deus
12.15: raiz de amargura (?)
12.25: rejeiteis ao que fala
12.25: nos desviarmos


Uma lista imponente, sem dúvida alguma. Devemos observar que o autor escolheu evitar um único termo para este pecado. Alguns destes termos são mais metafóricos que outros, mas quando os estudamos corretamente, eu acredito que podemos dizer o seguinte:


O pecado que o autor está alertando é uma rejeição intencional do Deus trino – Pai, Filho e Espírito – e uma denúncia notória dos padrões morais deste Deus. Este pecado é deliberado. (Ele não surpreende a pessoa quando ela menos espera.) Em segundo lugar, ele é trinitário. Em terceiro lugar, é manifestamente moral.


(Para muitos, este pecado é o retorno ao Judaísmo. Há muito pouca evidência para isto, e muitos estão sabiamente dizendo hoje que o autor está preocupado com quem eles estão abandonando, e não para onde eles estão se dirigindo.)


O termo que eu prefiro para este pecado em Hebreus é apostasia. Este é um pecado cometido por aqueles que são cristãos – e amanhã irei escrever sobre o que isso pode significar. Este pecado é o abandono da fé cristã, de uma ativa confiança em Jesus Cristo, etc. Fico impressionado (exegeticamente, não moralmente) com 10.29: estas pessoas “zombam” (insolência é uma boa tradução aqui) de Cristo. Isto não diz respeito àqueles que “se perguntam” se cometeram este pecado; é algo que estas pessoas sabem que cometeram e estão orgulhosas disto.


Em resumo, novamente, uma síntese das Passagens de Advertências lança luz para entendermos a questão.


Isto irá nos ajudar a entender a audiência? Penso que sim. Foi esta questão e a resposta de meus estudantes a ela que mais me surpreendeu.


Fonte: http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/08/01/post-calvinism-sin/


Tradução: Paulo Cesar Antunes


Vi no http://www.arminianismo.com/



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Pós-Calvinismo: 4. Exortação



Scot Mcknight



As Passagens de Advertências de Hebreus, que vem inquietando tanto crentes comuns quanto estudiosos profissionais há séculos, têm quatro elementos: a audiência, o pecado, a exortação e as consequências. Examinaremos hoje a exortação. Em minha própria jornada, este tópico era mais crítico do que eu percebia, e ele é mais importante do que muitos parecem pensar. Trata-se de perseverança.




Aqui estão alguns termos que o autor usa pelo qual ele espera que sua audiência faça ao invés de apostatar-se:



2.1: atentarmos mais diligentemente
3.6, 14; 10.23: conservarmos firmes
3.13: exortai-vos uns aos outros
4.1: temamos
4.11: procuremos diligentemente
4.14: retenhamos firmemente
6.1: prossigamos até a perfeição
10.35: não lanceis fora a vossa confiança
10.36: necessitais de perseverança
12.1: corramos com perseverança
12.7: é para disciplina que sofreis
12.12: levantai as mãos cansadas, e os joelhos vacilantes
12.15: tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus
12.25: vede que não rejeiteis



Se fôssemos escolher um termo para colocar tudo isso em um, ele seria “perseverança” ou “fidelidade”. Ela é tanto mental quanto pessoal: tanto sabemos que Deus é fiel quanto ativamente nos entregamos à graça e capacitação de Deus.



Tanto os calvinistas quanto os arminianos concordam com este ponto: cada um precisa perseverar. Algo bem estranho tem acontecido no evangelicalismo americano: ele vem ensinando, se num tom alto ou não, a ideia do “uma vez salvo, sempre salvo” como se a perseverança não fosse necessária. Em outras palavras, ele vem ensinando que se uma pessoa começa, mas depois decide deixar de viver para Cristo, essa pessoa está eternamente segura. Isso é tolice. A perseverança é um indicador do que se trata a fé: uma relação duradoura, marcada por um amor invariável. Ninguém iguala o casamento a uma afirmação de propósito no dia da cerimônia, e ninguém deve igualar a fé a uma decisão.



O que significa perseverar? Significa que continuamos a crer, que vivemos dessa forma. Não significa impecabilidade; não significa que sejamos constantemente inclinados à santificação; não nega o tropeço ou a espiritualidade desordenada. Não nega a dúvida e os problemas. Simplesmente significa que a pessoa continua a caminhar com Jesus e não se distancia dele.



As duas próximas mensagens serão grandes: qual é o pecado e quem é a audiência?



Fonte: http://www.patheos.com/community/jesuscreed/2005/08/01/post-calvinism-exhortation/



Tradução: Paulo Cesar Antunes



Vi no http://www.arminianismo.com/
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A igreja em estado terminal





Hermes C. Fernandes




Todos sabemos que Paulo de Tarso, antes de ser convertido era um homem de pavio curto, de temperamento colérico, explosivo. Mas depois daquele fatídico dia no caminho de Damasco, o implacável perseguidor da seita do Caminho tornou-se no seu maior defensor, e teve seu perfil temperamental transformado pelo Espírito. Não era fácil tirá-lo do sério. Paulo buscou viver e encarnar o Evangelho às últimas conseqüências. Porém, houve um episódio em particular que nos faz cogitar se não sobrou qualquer resquício do velho homem que insistia em vir à tona de quando em vez. Não creio que ele fosse um homem rancoroso e a prova disso é que o mesmo Marcos que o abandonou no início de sua jornada, foi requisitado por ele na reta final de seu ministério.


Mas houve outros que parecem tê-lo tirado do sério, entre eles Himeneu, Alexandre e Fileto.


Em sua primeira carta a Timóteo, Paulo denuncia alguns que "vieram a naufragar na fé". "Entre esses", prossegue o apóstolo, "encontram-se Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás para que aprendam a não blasfemar" (1 Tm.1:20).


Será que Paulo teve uma recaída? Como alguém que pregava a Graça com tanto afinco poderia chegar ao ponto de entregar outros a Satanás? O que tais homens fizeram de tão sério para merecer um tratamento desses?


Vamos investigar um pouco mais.


Em sua segunda epístola a Timóteo, Paulo recomenda que seu pupilo evite "os falatórios inúteis, porque produzirão maior impiedade. E a palavra desses corrói como câncer; entre os quais estão Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição é já passada, e perverteram a fé que tinham alguns" (2 Tm.2:16-18).


Portanto, o naufragar na fé e o blasfemar apontados na primeira epístola são explicados aqui como falatórios inúteis, que produzem maior impiedade. Esses falatórios agiam como câncer, identificado aqui como desvio da verdade e perversão da fé.


A palavra grega traduzida aqui como "câncer" é γάγγραινα (gaggraina), de onde se origina o vocábulo gangrena. As traduções mais antigas trazem grangrena em vez de câncer. A diferença básica entre essas moléstias é que a gangrena ataca os membros do corpo, consumindo seu tecido, enquanto o câncer, geralmente, ataca os órgãos vitais. A gangrena é, por assim dizer, uma moléstia externa, enquanto que o câncer geralmente é interno. Porém ambos têm em comum o fato de devorarem parte do corpo de suas vítimas.


Em casos de gangrena, a solução é a amputação. Embora seja uma decisão difícil de se tomar, o médico sabe que é melhor poupar a vida do paciente do que preservar um membro necrosado.


Em casos de câncer, a situação é similar. Tem-se que eliminar as células cancerígenas antes que façam a mestástase e se espalhem por outras regiões do organismo, infectando novos órgãos. O câncer se dispersa quando células tumorais caem nas correntes sanguínea ou linfática e viajam até outro órgão, onde um segundo tumor se forma.


Uma proteína produzida pelo câncer cola em outras células, as da medula óssea progenitoras das células sanguíneas. Elas são promovidas a «soldados do câncer», migrando até uma região em particular. Lá, os emissários se instalam e começam a produzir uma proteína chamada fibronectina, que age como uma cola para atrair e prender mais células da medula, formando um ninho de proteção e fonte de alimento para as células tumorais - que seguem como generais para um campo de batalha já preparado para recebê-los. Esses ninhos têm ligação com as células cancerígenas para implantá-las. Com isso elas não apenas mudam como se proliferam. Depois disso, tem-se um local completamente formatado para um tumor secundário.


A metástase é o processo mais mortal envolvido no câncer. Não é raro pacientes com tumores sólidos serem operados e tratados inicialmente, para morrer algum tempo depois de um câncer secundário.


É claro que Paulo não tinha idéia de como funcionava o processo de mestástase. Mas inspirado pelo Espírito Santo, deixou-nos relatado esse episódio em que a melhor opção foi “amputar” um membro do corpo, para preservar os demais.


É o corpo que tem que ser preservado. Agora, imagine se um médico dissesse à sua paciente: – Há um nódulo em seu seio esquerdo. Vou remover o direito antes que seja infectado. Isso faria sentido? Nenhuma cirurgia é mais traumática a uma mulher do que a Mastectomia. Mas se não resta alternativa, que se remova o seio canceroso, e não o saudável. É a vida da mulher que deve ser preservada. Ela viveria sem um dos seios, mas um seio saudável não sobreviveria à parte do resto do corpo.


Há células cancerígenas na igreja cristã de nossos dias. Mas a saída não é remover os membros ou órgãos saudáveis para outro corpo. A saída é denunciar onde está a ‘doença’ e então atacá-la.


Não vou sair por aí dizendo que não sou mais cristão porque as coisas que se fazem em nome do Cristianismo são deploráveis. Prefiro denunciar os tais que usurparam o nome de “cristãos”, e desmascarar os impostores.


Não podemos simplesmente jogar fora dois mil anos de história. Seria insensatez de minha parte acreditar que somente agora no raiar do vigésimo primeiro século, alguns cristãos conscientes resolveram redescobrir o sentido original da mensagem de Jesus. Não! Sempre houve e sempre haverá um remanescente em cada geração. Jesus garantiu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Sua igreja. Duvido muito que Ele tenha Se enganado.


Assim como sempre houve remanescentes, também sempre houve e haverá células cancerígenas ou membros gangrenados. Constatamos isso nos escritos apostólicos ainda do primeiro século da era cristã. Mas como os apóstolos lidaram com isso?


Paulo os entregou a Satanás. Acredito que esta “entrega” seja o equivalente à amputação de um membro gangrenado. É claro que esta deve ser a última opção a ser considerada. Assim como o médico só decide remover o seio canceroso depois que a quimioterapia comprovou-se ineficaz. Mas quem disse que Paulo não lançou mão de outras?


No finalzinho de sua segunda epístola, Paulo diz a Timóteo:


"Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe pague segunda as suas obras. Tu também guarda-te dele; poque resistiu muito às nossas palavras" (2 Tim.4:14-15).


Se a palavra já não tem qualquer efeito sobre a pessoa, o que resta senão “considerá-la como um gentio”?


Gosto da maneira como Paulo “dava nome aos bois”. Muitos nos criticam quando fazemos o mesmo. Não basta falar por alto, deixar subentendido nas entrelinhas. É necessário que o espírito do erro seja nominado. Aqueles cujas palavras estão corroendo o corpo de Cristo têm que ser expostos para que não continuem a se alastrar.


De uma coisa estou certo: a igreja de Jesus jamais será um paciente terminal. Os membros de Cristo jamais terão que ser doados a outro corpo por causa da irreversibilidade de seu estado.


Se Cristo nunca desistiu de Sua igreja, por que desistiríamos nós? Não estou saindo em defesa da igreja enquanto “instituição”, e sim da igreja como organismo vivo. As denominações são para a igreja o que as roupas são para o corpo. Hoje são novas, amanhã envelhecem, hoje estão na moda, amanhã serão consideradas antiquadas. Como tais, devem estar sempre bem apresentáveis, lavadas, passadas, e cheirosas. Porém, não são insubstituíveis. Como bem sinaliza Jesus, o corpo é muito mais do que as vestes. Ainda que as vestes resplandeçam com a glória do Corpo, como aconteceu na Transfiguração, não deixarão de ser apenas roupas. Mas o Corpo tem glória permanente. É por isso que creio na igreja de Cristo, pois deixar de crer nela é o mesmo que desacretidar nas palavras de seu fundador.


Vi no http://www.hermesfernandes.com/


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Inquisidores modernos (ou nem tanto)





A proposta era revolucionária. Imagino as inquietações provocadas por aquele jovem de aparência comum, mãos marcadas pelo seu trabalho com madeira, mas com uma mensagem que tinha uma densidade incomum. Havia algo diferente naquele discurso, de tão profundo era impossível passar despercebido. Inspirador, fez homens largarem tudo e segui-lo rumo ao desconhecido, mas fiados na proposta de um outro mundo possível, de um outro reino, de uma outra vida.




Enquanto levava sua mensagem, quebrava tabus: não se incomodava de dar atenção a mulheres de má reputação, o que era uma abominação em sua época; jantava com cobradores de impostos, com fama de corruptos, e por isso também abomináveis; ao dar exemplo de alguém que herdaria a vida eterna, apontou um samaritano, que exerceu misericórdia para alguém caído à beira do caminho (os samaritanos eram alijados da religião dominante e considerados indignos simplesmente por terem nascido samaritanos).



Ele não quis fundar uma religião, mas estabelecer uma conexão com Deus e com a vida, com a realidade, com um mundo em que as coisas poderiam ser diferentes. Rejeitou a violência de qualquer espécie e fez uma proposta ousada: que nossa relação com o mundo, com a vida e com as pessoas fosse fundada no amor. Amar o próximo como a si mesmo, seja quem for esse próximo. Homem, mulher, negro, branco, pobre, rico, hétero, gay, muçulmano, cristão, ateu, evangélico ou católico. Amar é desejar o bem a quem se ama, promover-lhe os direitos, conferir-lhe dignidade, devotar respeito.



Não foi à toa que aqueles que tinham na religião uma fonte de lucro e um meio para o exercício do poder e da opressão trataram logo de planejar seu assassinato.



Se Jesus viesse hoje com a mesma proposta, ele seria muito xingado no twitter, esculhambado na blogosfera, banido dos círculos religiosos como uma grave ameaça à família, à moral e aos bons costumes. Seria chamado de humanista (como se isso fosse um xingamento), relativista, herege e blasfemo, tal qual em sua época. Talvez o prendessem, como fez o Grande Inquisidor de Dostoiévski. Ele não serviria para a religião dominante dos dias de hoje também.



Por que penso assim? Basta ver as cenas de jovens de uma nação cristã protestante comemorando o assassinato de um homem. Por pior que tenha sido tal homem, aquilo é a negação da proposta daquele jovem galileu, que rechaçou qualquer tipo de violência. Ou então, basta navegar pela internet e ver o que muitos religiosos, alguns com posição de liderança e influência, disseram a respeito das pessoas homossexuais ou daqueles que demonstraram um mínimo de simpatia pelo reconhecimento de seus direitos, por conta de um julgamento no STF sobre a questão.



Na primeira situação há a consagração da vingança e a tentativa de vencer o mal com o mal, o que só gera mais violência. Na segunda, na maioria das manifestações o que se vê é um desprezo por aquelas pessoas, que são tratadas como abominação, como indignas de terem seus direitos respeitados, tais como os samaritanos e leprosos eram tratados na época de Cristo. Mas na parábola contada por Ele, quem herda a vida eterna é um samaritano e não o sacerdote ou o levita. É bom pensar a respeito.



Márcio Rosa da Silva



Vi no http://marciorosa.wordpress.com/
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Respostas de Oração





O tema oração acaba se tornando recorrente em meus textos, talvez porque eu considere uma expressão do relacionamento com Deus?




Gostaria de pensar sobre a lógica religiosa evangélica da oração. Apenas isto.

Um crente ora e absolutamente nada acontece.

Quais as respostas encontradas no meio evangélico?



1- Deus sabe o melhor. Algumas pessoas, Deus não abençoa porque ela não sabe usar a benção, ou isto poderá ser para ela uma pedra de tropeço.



2- A pessoa não está preparada. Para ser abençoada a pessoa precisa ter condições de administrar a benção. Se ela for relapsa Deus não concederá a benção.



3- Vida torta. Uma pessoa com a vida toda bagunçada Deus não pode responder.



4- Falta de querer. A pessoa quer, mas quer de qualquer jeito, não como alguém que de fato deseja.



5- Falta de fé. A pessoa não crê de todo o coração, por isso não recebe, pois Deus não atende quem não tem fé e sem ela é impossível agradar a Deus.



6- Prova. Deus quer provar a pessoa e por isso não dá.



Mas por outro lado, existem algumas pessoas que pedem e acabam se dando mal.

Como então explicar?



1- Deus não queria dar, mas a pessoa teve fé, vida reta e insistiu, então, como uma espécie de atendimento à teimosia, Deus cedeu e assim, a pessoa deve arcar com as consequências.



2- Não foi Deus que deu, foi o diabo, porque ele é enganador e pegou a oração do crente e se apressou em responder para fazer um laço para a pessoa.



Mas e quanto àqueles que têm vida “torta”, pouca fé e é abençoado?



1- Estes servem ao diabo que lhe atende os desejos para mantê-lo preso no pecado. Como o diabo não pode fazer sozinho, Deus é quem permitiu porque assim pode pegar o indivíduo no seu pecado.



2- Tem vida torta, pouca fé, mas é dizimista e como Deus é fiel, tem que abençoa-lo.



Existem mais respostas, mas aqui estão as mais comuns. Nem quero sugerir que se pense em como seria Deus dentro desta lógica: manipulável, sem vontade, pouco bom para não dizer mal?

Pergunto-me se esta descarada contradição não é sustentada pela conveniência: Tudo para justificar uma posição de que vale a pena crer.

Para que Deus, de fato, assuma este papel, ele precisa ser infiel, incoerente e caprichoso.



Talvez alguém esteja pensando: Se as respostas são incoerentes e contraditórias, elas apesar de se colocarem como explicações, não servem como uma explicação. Então surge a pergunta: Porque às vezes dá certo e outras não. Para algumas sim e para outras não?



A resposta para a pergunta só é possível se houver uma mudança de concepção.

A relação de Deus conosco deve ser diferente daquilo que se entende. As orações devem pertencer a outra categoria, diferente da usual.



Uma resposta coerente, só é possível através do abandono da lógica aplicada na oração: “funcionar” ou dar certo no sentido de conseguir que Deus realize nossos desejos.



Vejamos algumas concepções que precisam de avaliação:



1- Oração que conserte o passado.

A oração não deve ser um instrumento para que Deus conserte o que se passou. Imagina que Deus de alguma maneira poderosa, intervenha arrumando os fatos que causaram dor. O passado é irretocável. Deus não vai de maneira alguma fazer com que um evento seja apagado, mudado ou destruído da história. Aconteceu; é fato.



2- Oração que conserte o futuro.

Da mesma forma, a oração não serve para Deus consertar o que ainda não aconteceu, ou ainda, ajeitar o futuro para que se tenha melhor sorte do que hoje. Como se fosse uma compensação ou remendo das coisas ruins que aconteceram. O futuro é inalcançável.



Dentro disto, resta-nos uma oração que contemple o presente.

Vale lembrar que o presente é vivenciado numa estreita relação com o passado. Quem esteja experimentando uma dor hoje, saboreia o fruto do passado. Se o passado não será consertado, resta então reconhecer que o único presente que existe é exatamente este: que experimenta a dor.



Dito isto, devemos reconhecer que a oração ajuda a participarmos da ação de Deus que agindo em todas as coisas, faz com que cada evento, situação e experiência sejam matéria-prima para a construção de outro futuro, que antes do sofrimento não se havia pensado.

Exemplo:

Uma mulher traída e abandonada pelo seu marido. Esta mácula não pode ser mudada.

Apesar do sofrimento, trata-se do fruto do acontecido. Ela havia planejado sua vida a dois, junto de seu marido, mas agora ele não mais está. A oração não consertará o ocorrido, mas poderá alinhar seus pensamentos ao projeto de Deus que agirá nisto transformando em matéria-prima, para que o futuro não esteja eternamente prejudicado, inválido e impossível de ser vivido. Agora, ela deverá aprender a como construir outro futuro, não imaginado nem querido: sem o seu marido. A oração ajuda a beber o cálice e alinhar-se com a vontade de Deus que é boa e agradável, neste caso, a vontade de Deus é que ela se restabeleça, crie outras formas de conduzir sua vida e faça de seu futuro uma bela história.



Mudando a compreensão sobre oração, as perguntas propostas anteriormente não cabem, pois a questão não se resume em saber por que alguns conseguiram e outros não e, aleatoriamente se deram bem ou mal.

Se sabemos que Deus não é o mecânico do mundo, mas sim, que Ele se concentra em outro fator que é o de agir no presente para nos transformar e assim vivermos, nos colocaremos à sua disposição e não exigiremos que Ele esteja à nossa disposição e nem procuraremos justificar os acontecimentos mundanos como fruto de orações.

Deus transforma, não conserta.



Eliel Batista



Vi no http://www.elielbatista.com/
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Por um outro mundo possível





No século XXI, o mundo balança numa imensa gangorra cósmica. Os acontecimento sobem e descem numa velocidade alucinante; mal dá para tomar fôlego. Bem e mal se atropelam nas acrobacias econômicas, nos avanços da indústria bélica, nos transtornos energéticos, no desprezo ambiental. Respira-se um ar de suspense. Como castelo de cartas, tudo pode vir abaixo de um dia para o outro e, nas arquibancadas, metade do planeta engole o pavor da impotência. Intuímos que algo está fora do lugar.



Algo está errado com a religião que prevaleceu no Ocidente e que colocou o sacerdote engravatado a gesticular como dono da senha da abundância divina. Ele repete ad nauseum que bastam algumas cédulas para que as “bênçãos retidas por Satanás” deslanchem. São profissionais da religião que promovem uma espiritualidade que dá de ombros às mulheres com tigela na mão diante de funcionários das Nações Unidas; mulheres que imploram por um punhado de arroz para servir de refeição para os filhos esquálidos.


Algo está errado com o poderio militar que o mundo considera a solução para tensões étnicas, religiosas e culturais. O progresso da tecnologia a serviço da morte se tornou perdulário: não pergunta quantos quilômetros o tanque de guerra faz com um litro de combustível, mas, quantos galões para percorrer um quilômetro. Milhões de dólares parecem migalhas quando se trata de mísseis, porta-aviões ou caças supersônicos. Pouca comparação é feita entre o poderio esmagador de um exército e a escassez de gaze, esparadrapo e penicilina numa clínica de periferia urbana. Enquanto bombas caem, orientadas por raios laser, a vacina que erradicaria a malária não sai de estágios experimentais.


Algo está errado com o entretenimento midiático que criou uma nova safra dos ricos e famosos sem habilidade, virtude ou competência. A mediocrização da mídia sagra ícones vazios em grande velocidade. O apresentador de televisão, que não sabe nomear a capital da Alemanha, exibe diamantes como troféus. Resta perguntar: por que não se considera isso um acinte? Principalmente quando se sabe que aquela joia poderia suprir um vilarejo de água potável.


Algo está errado com um sistema econômico que dispõe de fábulas de dinheiro para socorrer grandes bancos da falência. Sabedor de que existe alienação e insensibilidade, o banqueiro fica livre para festejar o novo alívio financeiro com uma impenitente recepção no iate da famíla. Enquanto perdura complacência poucos vão se lembrar que os impostos pagos por eles nunca chegarão ao transporte público; e o ônibus que pegam, continuará a arrastar-se, abarrotado, por avenidas engarrafadas.


Algo está errado com um mundo em que muitos, exaustos, não têm lágrimas para serem solidários com a mãe que acabou de enterrar o filho morto pelo tráfico. A robotização dos afetos se alastra e se vê cada vez menos compaixão; mais frios, homens e mulheres se desumanizam.


Algo está errado quando otimismo fatalista bate de frente com pessimismo niilista e não sobra nenhum realismo esperançoso.


Mesmo diante dessa gangorra, com tanta coisa em jogo, espero que surjam mulheres e homens dispostos a arregaçar as mangas, e que nasça um outro amanhã.


Soli Deo Gloria


 
Vi no http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&id=2404

segunda-feira, 2 de maio de 2011

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Disciplina, espiritualidade e vida

A superficialidade é a maldição do nosso tempo, e isso tem sido amplamente reconhecido por cristãos de toda parte, em todo o mundo.

O pastor Richard Foster insiste na necessidade da disciplina cristã na vida do crente: “Corpo e mente diante de Deus”.




Por Brandon O’Brien, editor assistente da revista Leadership


O Congresso de Pastores que acontece agora, no início de maio, em Águas de Lindoia (SP) terá uma presença ilustre. Promovido por Servindo Pastores e Líders (Sepal), o evento receberá o pastor Richard Foster, um dos líderes evangélicos mais destacados de nosso tempo. Foster, celebrado autor de livros voltados ao público cristão – dos quais o mais conhecido é o best-seller Celebração da disciplina, lançado em 1978 –, também é fundador de Renovare, organização que, como o nome já sugere, promove a renovação espiritual da liderança e da Igreja. Um movimento internacional, que estimula o discipulado e a formação cristã em países como Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Coreia do Sul e Brasil.


Foster baseia seu trabalho na defesa de práticas cristãs como santidade, disciplina e reflexão. Nada de novo – mas o que chama a atenção é a simplicidade e a clareza de suas ideias. “As disciplinas espirituais são para todos os cristãos. Não há como avançar como discípulo de Cristo sem uma formação espiritual adequada”, pontifica em seus livros, palestras e mensagens. Ele acaba de finalizar mais uma obra, Sanctuary of the soul (Santuário da alma), que pretende lançar durante sua visita ao Brasil e tem tudo para se tornar mais um clássico da espritualidade cristã. CRISTIANISMO HOJE ouviu Richard Foster em sua casa, em Denver, no Colorado (EUA), poucas semanas antes de sua viagem ao Brasil:


CRISTIANISMO HOJE – O que são disciplinas espirituais?

RICHARD FOSTER – As disciplinas espirituais são simplesmente uma parte da vida cristã normal. Através dessas disciplinas, aprendemos a colocar nosso corpo e nossa mente diante de Deus, a fim de que o Senhor promova sua obra em nossas vidas. É o que a Palavra de Deus chama de sacrifício vivo. Jamais poderíamos ter amor, alegria, paz, benignidade, bondade e longanimidade sem a graça do Senhor. E essas coisas promovem o crescimento da alma, levando-nos a assumir uma nova personalidade, um caráter cristão.


Sacrifícios e disciplinas parecem, à primeira vista, difíceis de atingir para o crente comum...

Não. A disciplina espiritual é para todos os cristãos. Ela nos move para a vida abundante que Jesus promete. Não há como avançar como discípulo de Cristo sem uma formação espiritual adequada. O detalhe é que não há valor nas disciplinas em si. Em nenhuma delas. Elas não nos rendem pontinhos extras com Deus. Estamos falando de coisas que os crentes precisam fazer para viver a simples vida cristã. Oração, meditação, estudo e jejum fazem parte da vida sob a graça. E nós não somos apenas salvos pela graça; nós vivemos pela graça!


Qual a diferença entre disciplinas cristãs e boas obras?
 
As disciplinas não são obras. As disciplinas não têm nada a ver com as obras, pois elas não produzem justificação alguma. Portanto, nunca devemos pensar nas disciplinas como meio para ganhar algo. Dito de outra forma, as disciplinas espirituais nos trazem a justiça do Reino de Deus de uma maneira indireta. Elas são esforço. Como disse Jesus, nós nos esforçamos para entrar pela porta estreita – ou, nas palavras do apóstolo Paulo, devemos nos empenhar na piedade. Nós simplesmente fazemos as coisas com nossas próprias mãos e o Senhor usa isso para operar maravilhas em outros seres humanos, pelo seu poder. Essas coisas levam ao crescimento da alma, e nós começamos a assumir uma nova personalidade, um caráter cristão.Aprendemos a amar nossos inimigos, e assim por diante. Isso é para todos os cristãos. É a herança comum do povo de Deus.


Disciplina espiritual não é um tema com tanto apelo entre os cristãos de hoje. Como o senhor explica, então, o enorme sucesso de seu livro Celebração da disciplina, que já vendeu mais de um milhão de cópias?

Só posso entender que foi a graça de Deus que fez tudo acontecer da forma como aconteceu. Senão, como umas poucas anotações em um pedaço de papel poderiam ter esse tipo de efeito? Celebração da disciplina foi escrito para todos aqueles que ficaram decepcionados com as superficialidades de todos os aspectos da cultura moderna, incluindo o religioso. Acho que o livro saiu justamente no momento em que havia um sentimento genuíno de que o que estávamos fazendo no ministério não funcionava mais. Além disso, líderes foram caindo como moscas devido a falhas morais, e as pessoas estavam ansiando por algo mais substancial. O livro veio trazer uma proposta de vida espiritual mais profunda e comprometida. Havia também desejo de se resgatar um verdadeiro diálogo sobre o crescimento da alma, que havia sido esquecido.


Que diálogo é esse?

Para a maioria dos crentes, houve algo muito espiritual e especial na Igreja primitiva – e, depois, isso praticamente desapareceu, talvez com um pequeno lampejo na Reforma. Então, eu tentei, com Celebração da disciplina, levar as pessoas a uma grande discussão sobre o crescimento da alma, uma discussão que tem ganhado espaço ultimamente. Muitos editores têm trabalhado para desenvolver uma literatura que realmente mova as pessoas para frente. Ninguém está mais interessado nesse tipo de religiosidade superficial, que aliás é bastante comum no nosso cenário americano.


Seu livro já foi traduzido para mais de 20 idiomas. Essa religiosidade superficial é um problema generalizado ou afeta principalmente a Igreja ocidental e urbana?

Penso que a superficialidade é a maldição do nosso tempo, e isso tem sido amplamente reconhecido por cristãos de toda parte, em todo o mundo. O grande desafio hoje, na cultura ocidental, é a distração. As pessoas estão totalmente distraídas e, portanto, não conseguem se focar. Com a internet e as infinitas opções de entretenimento de hoje, há várias maneiras diferentes de manter a mente das pessoas em constante movimento, a fim de que não tenham que refletir ou pensar – e, claro, as igrejas fazem coro com essa cultura. É por isso que a solidão e o silêncio estão entre as disciplinas espirituais mais importantes para o nosso tempo.


Em Rios de água viva, o senhor fala sobre seis tradições da espiritualidade cristã, dentre elas a santidade. Nestes tempos de relativismo, onde o pecado tem sido muito tolerado, a santidade foi deixada de lado?

Eu acho que a falta de santidade é mais evidente em nossos dias do que em épocas anteriores. Temos ensinado um evangelho que faz com que as pessoas não precisem viver uma vida de santidade e discipulado com Jesus. Temos pregado coisas do tipo: “Aceite certas verdades e você vai para o céu quando morrer”. Assim, o foco principal foi ficando no céu. Mas o Evangelho de Jesus enfatiza a santidade como condição imediata para a salvação – “Arrependei-vos, pois o Reino de Deus está próximo”. Então, precisamos ser lembrados de que a salvação é uma vida com Jesus, que começa agora, e continua até a morte, que é apenas uma pequena passagem desta vida para uma outra, eterna e melhor.


Grandes avivamentos da história, como o que ocorreu na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos no século 18, trouxeram mudanças positivas na sociedade, ao mesmo tempo em que abalaram a Igreja. Hoje, em nações forte de presença evangélica, como os EUA e o Brasil, movimentos espirituais parecem ficar circunscritos às paredes dos templos, quase sem nenhuma relevância social. Por que isso acontece?

Os primeiros seguidores de John Wesley falavam de uma santidade que promovia impacto social. William Penn disse: “A religião não nos leva para fora do mundo.Ela nos leva ao mundo eimpele todos os nossos esforços para consertar o mundo”. Recuperar esta ênfase é parte fundamental no processo de avivamento cristão. Nós nos esquecemos de que o envolvimento em uma guerra espiritual tem várias frentes ao mesmo tempo – ela acontece nos níveis pessoal, social e institucional, para citar apenas alguns. A proclamação do Evangelho inclui o que os reformadores chamavam de “mandato cultural”, ou seja, necessariamente deve ter impacto sobre a cultura em geral. Um avivamento certamento começa no indivíduo, mas também o leva para fora, a fim de interferir na vida dos outros. Basta pensar, por exemplo, no que aconteceria se os cristãos aprendessem a não mentir.Pense no tipo de mudança que isso poderia provocar em instituições empresariais, governamentais e em todas as instâncias. As implicações sociais da pregação do Evangelho têm que acontecer de alguma forma.Nós amamos a Deus e amamos ao nosso próximo; isso anda de mãos dadas. O III Congresso de Lausanne, que aconteceu ano passado na África do Sul, voltou a salientar que o evangelismo cristão deve sempre promover profundo impacto social.


Como promover um discipulado eficaz na sociedade de hoje?

O discipulado é uma característica da vida em comunidade. No caso do discipulado, ele é uma das expressões dessa vida comunitária. Falo de uma comunhão profunda, muito mais intensa do que as configurações normais das igrejas, onde as pessoas se encontram uma vez por semana, ou às vezes apenas uma vez por mês. Por isso, a essência do movimento Renovare é a criação de comunidades. Temos trabalhado para criar comunidades de pastores, líderes e leigos. Agora, desenvolver uma comunidade onde as pessoas amem e cuidem umas das outras leva um longo tempo.


O senhor fundou o movimento Renovare há quase 25 anos. Dos objetivos iniciais, quais foram realmente atingidos?

Tivemos três grandes objetivos no início. Em primeiro lugar, levantar um grande diálogo sobre a transformação da alma. Em segundo, criar um corpo de literatura que iria interagir com a grande tradição cristã de espiritualidade. Acho que fizemos isso muito bem. Nós produzimos uma série de textos e livros que foram publicados sobre o tema. É claro que outras pessoas que estão escrevendo nesta mesma área nos ajudaram muito. A terceira proposta era trabalhar duro para ancorar tudo isso com as Escrituras, porque os ensinamentos de formação espiritual, se feitos de qualquer maneira e sem os vínculos certos, podem levar a perigosas direções. Também tivemos três tipos diferentes de grupos em mente no nosso ministério. Um deles eram as pessoas na igreja que tinham fome e desejo pelas coisas espirituais. Um segundo grupo foi de pessoas que estavam decepcionadas com a igreja, mas eram cristãos e queriam viver para Deus. Acho que, com esses dois segmentos, fizemos muitas coisas boas. Em terceiro lugar, queríamos atingir pessoas que ansiavam por uma vida espiritual genuína, mas não eram cristãos. Com esse grupo, ainda não conseguimos fazer um bom trabalho.


Quais são as características comuns de Renovare em locais tão diversos como Brasil, Inglaterra e Coreia do Sul?

Logo no início, decidimos que as diversas expressões de cada país seriam independentes. Cada cultura apresenta suas definições fundamentais do que é discipulado e disciplina espiritual – mas há problemas comuns a todos os cristãos. Nós já mencionamos que a distração é um problema para a nossa cultura ocidental. Pois bem, no tempo em que vivi com os povos esquimós acima do Círculo Polar Ártico, percebi que mesmo lá isso também é verdade. Cada grupo, como os cristãos brasileiros, tem que decidir como sua formação espiritual vai trabalhar com a cultura secular em seu contexto, e o que será necessário expurgar. Não podemos aplicar fórmulas de uma cultura em outro contexto; todavia, podemos ir lá para aprender.


Não existe o risco de promover uma espécie de ecumenismo teológico, misturando grupos de tendências espirituais inconciliáveis?

Não. O Renovare é altamente cristocêntrico. Temos uma cristologia muito bem definida e sustentada teologicamente. Nossa declaração diz: “Na dependência total de Jesus Cristo como meu Salvador sempre vivo, Mestre, Senhor e amigo, vou procurar a renovação contínua através de exercícios espirituais, dons espirituais e atos de serviço”. Isso não é uma declaração genérica, e não tem o menor denominador comum com o ecumenismo. Somos assumida e declaradamemente centrados em Jesus, e essa postura, por si só, tem uma enorme força de união para aqueles que mantêm o foco bem claro em um Jesus vivo, que atua em nós de todas as formas. Queremos ser como Jesus, e todos os nossos textos e mensagens apontam para uma formação espiritual em Cristo.


Qual o ambiente mais propício para a formação espiritual na igreja local? A escola dominical, a pregação, a mentoria ou os pequenos grupos?

Todas essas opções. A pregação é um dos principais meios de formação espiritual do povo. Agora, nós perdemos esse entendimento quando o pastor não conhece seu rebanho. O pastor é um diretor espiritual para a congregação. Então, precisa caminhar entre o povo, saber o nome das pessoas, conhecer as situações com que está lidando. A mentoria também tem esse aspecto de envolvimento. Já os pequenos grupos nutrem uma forma mais forte de carinho, amor e cuidado, e isso é um importante meio de formação espiritual.


A Igreja Evangélica, tanto na América quanto no Brasil, é regularmente chacoalhada por novos movimentos que causam grande impacto, promovem mudanças estruturais e comportamentais, mas depois desaparecem com seus erros e acertos. O que se pode fazer para preservar os ganhos espirituais dessas ondas?

Nosso povo tende a ser levado por modismos muito facilmente. É importante olhar sempre para frente, a longo prazo. Em qualquer situação, devemos sempre prestar atenção ao tipo de vida que cada movimento está produzindo. Quem não conhece a história fica muito impressionado quando aparece um desses movimentos de fé, mas eles sempre têm surgido ao longo dos tempos e, muitas vezes, não trazem nada de novo – é só algo mais que pode colaborar, e pronto. Se houver algum tipo de bem que um novo movimento possa trazer, ótimo, vamos incorporar isso. Mas ainda assim, não vamos ficar muito animados e abrir a guarda totalmente para o novo. Quero ver como tudo vai se desenrolar dentro dos próximos 50, cem anos...


O senhor disse que, no início de seu ministério, foi encorajado a ser “ministro de Cristo”, e não um “ministro do povo”. Qual é a diferença?

Isso foi no tempo em que eu estava tentando entender a identidade pastoral. Foi meu amigo Dallas Willard que me disse: “Você precisa decidir se é um ministro do povo ou um ministro de Cristo”. Ele sabia que, naquele início de carreira, eu estava sendo puxado em todas as direções por causa de expectativas do povo acerca do que um pastor deveria fazer.Se sou um ministro do povo, então eu sou controlado pelo que as pessoas pensam, sentem e dizem. Mas, se sou ministro de Cristo, então é o Senhor quem dá as cartas, e depois disso eu vou servir ao povo. Há um pequeno livro de Watchman Nee chamado Ministry to the house or to the Lord [“Ministério para a casa ou para o Senhor”], que aborda a mesma idéia básica. Quando você aprender a ministrar a Deus, então o trabalho que você faz, seja em casa ou na igreja, irá encontrar o lugar certo. Eu encorajo os pastores a aprender que, primeiro, devem ser ministros de Cristo. Então, seu trabalho entre o povo vai achar seu próprio lugar de forma natural.


Os pastores costumam se queixar de solidão. Isso já aconteceu em seu ministério?

Eu sempre incentivo os pastores a encontrar uma pessoa a quem possam abrir o coração, compartilhar a vida. Certa vez, pedi a um pastor luterano que me ensinasse tudo o que sabia sobre oração. Esse foi o começo. Aquele homem tornou-se meu grande professor e mestre, e isso acabou desenvolvendo uma bela e duradoura amizade ao longo de quarenta anos. Mesmo quando nos separamos geograficamente, sempre mantivemos uma comunicação regular.
Isso não tem que ser feito com alguém extraordinário; basta ser uma pessoa simples e madura. Todo pastor deve pedir a Deus que lhe mostre alguém assim. Ajuda se for alguém de fora da congregação, porque aí pode-se compartilhar de forma mais aberta problemas pessoas e ministeriais. Mas, é claro – as pessoas de dentro da congregação também podem amar e cuidar do líder. O pastor que vê nas ovelhas não apenas pessoas a quem têm de disciplinar, mas amigos, pode desenvolver na igreja boas e profundas amizades cristãs.


O senhor se refere com carinho a suas experiências de contato com a natureza no Colorado. O que isso significa para sua formação espiritual?

Uma das razões pelas quais eu amo ir para as montanhas e os bosques é porque lá posso ver as obras do Pai na criação. A glória do Criador é revelada na criação, embora tudo tenha sido afetado pela queda do homem. Essa olhada na natureza, de vez em quando, faz com que nos desprendamos das coisas que temos de fazer e nos ensina que o mundo passa muito bem sem nós! Além disso, quando você trabalha com pessoas mal humoradas, ver mão do Pai na natureza mostra as coisas boas que ele faz para todos nós...


Dentre os autores cristãos contemporâneos, quais o senhor lê?

Lamento dizer que minha lista de autores contemporâneos é muito pequena. Grande parte das coisas que são escritas hoje só merece cinco ou 10 minutos. A maior parte da leitura que faço é de autores já falecidos. Eugene Peterson é um dos poucos autores atuais que eu acho que realmente vale a pena ler. Certamente, Dallas Willard é tremendamente útil. Mas, dentre os clássicos antigos, a Imitação de Cristo, por Thomas A. Kempis, não pode ser lido com rapidez – é preciso dedicar seis meses ou um ano para se aprofundar e captar a obra.Por isso, eu passo a maior parte do meu tempo com os escritores antigos, porque eles realmente alimentam a minha vida.


Em quais livros o senhor está trabalhando agora?

Acabei de completar Santuário da alma, que sai este ano. Agora, estou trabalhando em uma continuação dele. Também quero escrever alguns pequenos livros, e, quem sabe, algumas memórias.Vamos ver no que tudo isso vai dar. Eu sou muito lento como escritor porque trabalho muito no velho estilo. Passo a manhã toda tirando uma vírgula e, em seguida, perco a tarde colocando-a de volta!


Qual é o estilo de vida que agrada a Deus?

Precisamos aprender a ter um pouco de paz e alegria, e não tentar viver uma vida espiritual muito tensa. Eu gostaria de dizer às pessoas que tudo que fizermos deve nos alegrar em Deus e nos levar a desfrutar da comunhão e amizade um do outro. A vida que agrada a Deus não vem por ira ou estresse, mas por um profundo amor ao Senhor, com Jesus e as pessoas que estão ao nosso redor.



Vi no http://cristianismohoje.com.br/interna.php?subcanal=36
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O Jesus que nunca conheceremos

Os estudiosos do Cristo histórico não nos dizem as coisas mais importantes sobre ele.

Em um determinado ponto, métodos históricos encontram seus limites. Estudos acadêmicos sobre Jesus não podem nos levar a lugares nos quais o Espírito Santo nos leva.




Saber quem foi Jesus, o que ele fez e qual o significado de sua passagem pelo mundo sempre foi uma espécie de obsessão das pessoas. Além do que está escrito sobre aquele que os cristãos consideram como o Salvador nas páginas da Bíblia, muitos estudiosos têm-se debruçado sobre os registros acerca do homem que viveu na Palestina do século I – alguém tão importante que foi ele mesmo que estabeleceu, com seu advento, essa contagem do tempo. A partir dos anos 1980, o interesse acadêmico sobre o Jesus histórico deu um salto. Na América, pesquisadores como Ben F. Meyer, E. P. Sanders, John Dominic Crossan, Marcus Borg, Paula Fredriksen, e N. T.Wright começaram a traçar quadros os mais diversos do chamado Filho de Deus. Alguns destes estudos pareciam bizarros; outros aproximavam-se um pouco mais da ortodoxia e dos evangelhos canônicos.


Mas a quê a expressão 'Jesus histórico' de fato se refere? Para início de conversa, Jesus – o rabi galileu que viveu, respirou, comeu, conversou e chamou discípulos, sendo ao fim de 33 anos crucificado – é um personagem cuja existência gera hoje pouca controvérsia. Mesmo fora do registro bíblico, já há evidências suficientes de sua trajetória: um homem pobre, nascido na Judeia sob a dominação romana, que exerceu ofícios manuais ao lado da família até iniciar seu trabalho de pregador itinerante, por volta dos trinta anos. Através de diversos estudos históricos, esse Jesus tem sido inserido em seu contexto judaico. Podemos chamar esse Jesus de o “Jesus judeu”. Já os quatro evangelistas e outros autores do Novo Testamento, que levam em conta o que está desvendados nas Escrituras, interpretam Jesus com o uso de termos com "Messias", "Filho de Deus", e "Filho do Homem", entendendo-o como o agente da redenção de Deus. Podemos chara esse Jesus de o "Jesus canônico". Outro aspecto precisa ser observado: a Igreja ampliou seu entendimento de Jesus, uma vez que o interpreta à luz de conceitos teológicos. Esse seria o "Jesus ortodoxo", a segunda pessoa da Trindade.


Mas o Jesus histórico é alguém ou algo à parte. Ele é o Jesus que os estudiosos reconstruíram com base nos métodos históricos, tanto o Jesus canônico do Novo Testamento como o Jesus ortodoxo da teologia da Igreja. O Jesus histórico parece mais com o Jesus judeu do que com o ortodoxo ou o canônico. Fazer distinções entre estas visões é importante para entender o que acontece no cenário acadêmico. Em primeiro lugar, o Jesus histórico é o Jesus que os acadêmicos reconstruíram com base nos métodos. Visto que os estudiosos são diferentes uns dos outros, suas reconstruções também o são umas das outras. Os métodos também são distintos, o que diferencia ainda mais a reconstrução. A maior parte deles toma os evangelhos como pouco confiáveis – mesmo assim, não os abandonam, tentando ver o que eles dizem. Outros critérios foram desenvolvidos, criticados, rejeitados e modificados, mas todos têm isso em comum: estudiosos do Jesus histórico reconstruíram Jesus com base em seus métodos históricos para, então, determinar o que, nos evangelhos, deve ser crido.


O critério essencial usado, ainda que cheio de falhas, é chamado de dissimilaridade dupla. De acordo com ele, os únicos ensinos ou ações de Jesus que podem receber crédito são os que são dissimilares tanto para o judaísmo dos dias de Jesus quanto para seus primeiros seguidores. Um dos principais exemplos é sua forma característica de chamar Deus de Abba, expressão raramente encontrada no judaísmo ou cristianismo primitivo como referência a Deus e que significa “pai”, ou, ainda, “paizinho”. Em segundo lugar, a palavra reconstruir precisa receber mais atenção. A maioria dos estudiosos do Jesus histórico entende que os evangelhos excederam nas imagens que construíram de Jesus, e que a teologia trinitariana da Igreja maximiza tudo o que Jesus pensou acerca de si mesmo, e tudo no qual os evangelistas acreditavam. Estes estudiosos construíram um Jesus que é diferente daquele ensinado pela Igreja e pelos evangelhos.


Novo Jesus – Não há razão para fazer estudos sobre o Jesus histórico – provar quem ele realmente era – se os evangelhos estão corretos e se as crenças da Igreja são justificáveis. Há apenas duas razões para se engajar na busca do Jesus histórico: a primeira, ver se a Igreja o entendeu de forma correta; e a segunda, caso a igreja não o tenha feito, é a de achar um personagem que seja mais autêntico do que o que a Igreja apresenta. Isso leva à conclusão necessária de que os acadêmicos do Jesus histórico construíram, na verdade, um quinto evangelho. A reconstrução apresenta um Jesus que não é idêntico ao canônico nem ao ortodoxo. Ele é o Jesus reconstruído; isto é, um novo Jesus. E os acadêmicos realmente acreditam no Jesus por eles construído. Durante o que ficou conhecido como a "primeira busca" pelo Jesus histórico, no começo do século 20, Albert Schweitzer entendeu que Jesus era apocalíptico. Nas mais recentes busca, temos diversos perfis: o Jesus de Sander é um profeta escatológico; o de Crosan, um camponês mediterrâneo cínico e cheio de perspicácia; o de Borg é um gênio místico; já Wright o aponta como um profeta messiânico do fim do exílio, que acreditava ser Deus voltando a Sião.


O terceiro ponto, e que precisa ser reforçado nos dias de hoje, é de que os acadêmicos do Jesus histórico construíram um Jesus em contraste com as categorias que os evangelistas e a Igreja primitiva apresentam. Wright é o mais ortodoxo dos conhecidos estudiosos dessa área. Eles partem do princípio que os evangelhos exageraram, e que a Igreja absorveu o profeta galileu nas categorias da filosofia grega. A busca pelo Jesus histórico é uma tentativa de ir além da teologia e estabelecer a fé no Jesus que foi – é preciso dizer desta forma – muito mais do que o Jesus que gostaríamos que ele fosse.


Há quem pense se o que está por trás desse movimento de busca histórica não seja uma descrença, a priori, na ortodoxia, mais do que uma genuína busca histórica ou interesse pelo que aconteceu. As conclusões teológicas daqueles que buscam o Jesus histórico simplesmente correlacionam de forma muito forte com suas próprias predileções teológicas para sugerir o contrário. A pergunta que muitos de nós devemos fazer é a seguinte: podem a teologia, a cristologia ou, até mesmo, a fé, estar conectadas com as vicissitudes da busca histórica e de seus resultados? A academia espera que nós descubramos o Jesus verdadeiro. Um a um, quase todos fomos convencidos de que não importa o quanto tentemos: alcançar o Jesus não interpretado é praticamente impossível. Além disso, um Jesus descoberto é apenas a versão de um pesquisador. E o detalhe é que é incomum que pessoas, que não o próprio estudioso e alguns de seus seguidores, sejam realmente convencidas por suas descobertas.


O teólogo alemão Martin Kähler convenceu sua geração que fé em Jesus não poderia nem deveria estar baseada nas conclusões históricas sobre o que aconteceu ou não. Precisamos, então, nos perguntar: em qual Jesus devemos confiar? Será no dos evangelistas e apóstolos? Será no da Igreja – aquele dos credos? Ou no Jesus ortodoxo? Será na mais recente proposta de um historiador brilhante? Será em nosso próprio consenso baseado nas pesquisas modernas? Ou tudo deve ser somente balizado pela fé?


“Produzimos o que queremos” – Diante de tantos descaminhos, temos presenciado a morte dos últimos estudos sobre o Jesus histórico. Não completa, é verdade, porque alguns ainda estão ocupados tentando reconstruir Jesus para eles mesmos e para os que os ouvirem. Ainda assim, o entusiasmo se foi, e as propostas parecem-se cada vez mais com teses vagas do que com uma esperança de um verdadeiro encontro da história de Jesus. Dois estudiosos recentes leram o obituário dos estudos nessa área. James Dunn argumenta em suas obras que o mais longe que podemos chegar além dos evangelhos é compreender a figura de Jesus com base no que seus primeiros seguidores disseram. Isso é o máximo que podemos fazer. Esse é o Jesus que deu vida à fé cristã, e o Jesus que é digno de ser seguido. Na perspectiva de Dunn, o Jesus relembrado contém a perspectiva de seus discípulos – e além dela não podemos ir.


Dale Allison, um dos mais bem preparados acadêmico do Novo Testamento nos Estados Unidos, é menos sanguíneo e mais cínico que Dunn em seu recente livro. Depois de três décadas de trabalho nessa área, Allison esboça a variedade de percepções sobre o Jesus histórico e a suposta teoria moderna de que, se unirmos nossas mãos, chegaremos a conclusões firmes. Ele apresenta essa conclusão deprimente: "O progresso não abrangeu todos os assuntos, e seja qual for o consenso existente, ele permanecerá excessivamente chato”. Em uma única sentença, ele diz tudo: “Usamos nossos critérios para produzir o que queremos". E ele admite isso em relação a um de seus próprios livros sobre Jesus: “Abri meus olhos para o óbvio: criei um Jesus à minha própria imagem. Talvez tenhamos transformado a sua biografia em nossa próprio autobiografia”, conclui.


Quando dois estudiosos desse porte, ambos altamente dedicados à busca do Jesus histórico por ângulos distintos, chegam a conclusão similar – a de que não chegaremos ao Jesus original por esses caminhos –, uma mensagem é transmitida. Podemos provar que Jesus morreu e que ele pensou em sua morte como uma expiação. Podemos estabelecer que a tumba estava vazia e que a ressurreição é a melhor explicação para tal fato. Contudo, algo que nossos métodos históricos não podem provar é que Jesus morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação.


Em um determinado ponto, métodos históricos encontram seus limites. Estudos acadêmicos sobre Jesus não podem nos levar a lugares nos quais o Espírito Santo nos leva. O homem curado por Jesus da cegueira sintetizou tudo magistralmente a dizer que não sabia quem era o homem que o curou; disse apenas: “Sei que outrora estava cego, e que agora posso ver”. De maneira análoga, os métodos históricos, a despeito de seu valor, não são capazes de nos fazer enxergar com clareza o Filho de Deus. A fé não pode ser completamente baseada no que a história é capaz de provar. A busca pelo verdadeiro Jesus, árdua e longa, tem provado exatamente isso.


Scot McKnighté professor de religião na Universidade North Park, em Chicago (EUA) e autor de diversos livros


Tradução: Daniel Leite Guanaes



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